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Anabolizantes, insulina e o perigo invisível por trás da alta performance

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Por Mariana Ramos

Casos recentes envolvendo a morte de atletas no Brasil reacenderam um debate importante, e necessário, sobre os limites da busca por performance física e estética. O uso indiscriminado de anabolizantes, hormônios e até insulina por pessoas sem indicação médica deixou de ser um assunto restrito ao fisiculturismo profissional e passou a fazer parte de uma cultura cada vez mais normalizada nas redes sociais, academias e ambientes voltados à alta performance.

O problema é que o corpo humano não interpreta essas substâncias como ferramentas estéticas. Ele responde biologicamente a elas. E, muitas vezes, essa resposta pode ser extremamente perigosa.

Durante muito tempo, os riscos dos anabolizantes estiveram associados principalmente a alterações hepáticas, infertilidade e disfunções hormonais. Hoje sabemos que os impactos podem ser muito mais amplos e silenciosos, especialmente quando existe uso combinado de diferentes substâncias sem acompanhamento médico adequado.

O coração costuma ser um dos órgãos mais afetados nesse processo.

O uso excessivo de anabolizantes pode provocar aumento da pressão arterial, alterações importantes do colesterol, espessamento do músculo cardíaco, maior risco de arritmias e sobrecarga cardiovascular. Em alguns casos, o organismo entra em um estado constante de estresse metabólico, mesmo em pessoas jovens e aparentemente saudáveis.

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Existe uma falsa percepção de que aparência física representa**, obrigatoriamente,** saúde. Mas nem todo corpo forte é metabolicamente saudável.

Além dos anabolizantes, outro ponto que merece atenção é o uso indevido da insulina, um hormônio fundamental para pacientes com diabetes, mas que vem sendo utilizado de forma perigosa como estratégia para ganho de massa muscular e melhora estética.

Muitas pessoas não compreendem os riscos envolvidos no uso de insulina sem necessidade e sem prescrição médica.

Quando utilizada inadequadamente, ela pode causar episódios graves de hipoglicemia, levando à confusão mental, perda de consciência, convulsões, arritmias cardíacas e até morte. E o mais preocupante é que esses eventos podem acontecer rapidamente, muitas vezes sem tempo hábil para reversão.

Existe atualmente uma banalização hormonal preocupante. Medicamentos que deveriam ser utilizados com critérios médicos passaram a ser tratados como atalhos para resultados rápidos. O corpo virou projeto estético, e não organismo biológico.

Mas o metabolismo cobra.

Nenhuma transformação física acontece sem impacto fisiológico. E quanto mais agressiva for a tentativa de acelerar resultados, maior tende a ser o custo metabólico e cardiovascular ao longo do tempo.

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Outro ponto importante é que muitas dessas substâncias são utilizadas em associação, potencializando riscos. Anabolizantes, estimulantes, hormônios tireoidianos, insulina, diuréticos e outras drogas acabam sendo combinados sem qualquer controle clínico adequado. O organismo, porém, não separa estética de sobrevivência. Ele apenas reage às agressões bioquímicas que recebe.

A medicina não deve olhar apenas para performance, mas principalmente para segurança.

Isso não significa condenar atividade física, hipertrofia ou busca por qualidade de vida. Pelo contrário. Exercício físico continua sendo uma das estratégias mais importantes para saúde cardiovascular, metabólica e hormonal. O problema começa quando saúde deixa de ser prioridade e o corpo passa a ser submetido a excessos incompatíveis com seu funcionamento fisiológico.

Talvez o maior alerta trazido por casos recentes seja justamente esse: nem sempre o perigo é visível.

Muitas vezes, o colapso cardiovascular ou metabólico acontece silenciosamente, enquanto exames são negligenciados, sintomas são ignorados e substâncias são utilizadas sem acompanhamento especializado.

O corpo humano possui limites biológicos. E ultrapassá-los pode ter consequências irreversíveis.

Dra. Mariana Ramos é médica endocrinologista na FetalCare em Cuiabá – MT.

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O legado da ingratidão

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Por Kamila Garcia

Caminhar pelo mundo tem se tornado, cada vez mais, uma experiência estranhamente árida de gentileza. O que antes era regra — o bom senso, a educação, a cordialidade — hoje parece ter sido relegado a um passado distante, como um hábito antigo que já não encontra espaço na pressa dos dias atuais. Fica a sensação de que valores essenciais deixaram de ser transmitidos de geração em geração, substituídos por um vazio crônico de reconhecimento e reciprocidade.

Expressões simples como “bom dia”, “como você tem passado?” e “obrigado” perderam sua naturalidade. Tornaram-se raras, quase protocolares. A empatia, por sua vez, deixou de ser uma prática cotidiana e passou a ser celebrada como exceção, quando deveria ser o mínimo nas relações humanas. Essa desconexão pavimenta o caminho para que o esquecimento do outro se torne a norma.

Vivemos tempos de aparências. Sorrisos são distribuídos com facilidade em encontros sociais, mas nem sempre carregam verdade. Dentro das famílias, multiplicam-se os silêncios incômodos, as ironias veladas, os julgamentos não ditos — ou, pior, ditos apenas na ausência de quem deveria ouvi-los. Falta coragem para o diálogo honesto, mas também falta sensibilidade para dizer a verdade sem ferir.

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Falar exige responsabilidade. Há quem se expresse por impulso, sem medir consequências, e há quem se cale por medo do desconforto. No entanto, entre o excesso e a omissão, existe um ponto de equilíbrio: o da consciência emocional. Como afirmou o psicólogo Carl Rogers, “o curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então posso mudar”. Antes de apontar o outro, é preciso olhar para si e compreender o que nossas palavras revelam sobre nós.

A palavra tem força. Ela pode acolher ou ferir, construir ou destruir, aproximar ou afastar. Por isso, é inevitável a reflexão: até onde vai a sua fala? Que marcas você deixa nas pessoas com aquilo que diz — ou com aquilo que escolhe não dizer?

Há quem se comunique por cansaço, quem o faça por carência, quem transborde por amor e quem ecoe pela ausência dele. Existem os que cultivam a gratidão como prática diária — e estes não precisam de discurso, pois sua atitude já comunica tudo. Mas há também aqueles que carregam na língua o peso da ingratidão.

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A ingratidão é corrosiva. Ela desvaloriza gestos, rompe vínculos e esvazia relações. Diferente dos conflitos — que, quando bem conduzidos, podem fortalecer laços —, a ingratidão destrói de forma silenciosa e contínua.

Afastar-se de quem age assim não é fraqueza, é autocuidado. Porque não há solidão em quem escolhe a paz em vez de permanecer onde há desrespeito. Ingratidão não é cultura, tampouco traço inevitável de personalidade. É uma escolha. E o bom senso, ao contrário do que muitos pensam, não deveria ser negociável.

No fim, o verdadeiro legado que deixamos não está apenas nas palavras que pronunciamos, mas nas marcas emocionais que construímos ao longo da vida. E essas, inevitavelmente, permanecem.

Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.*

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