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Quando o socorro é tratado como descartável: o desmonte do SAMU em MT
Em um estado com dimensões continentais como Mato Grosso, onde as distâncias são longas, as desigualdades territoriais são evidentes e o acesso aos serviços de saúde nem sempre ocorre em tempo oportuno, não temos dúvidas de que o sucateamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) impacta diretamente a vida de milhares de pessoas.
O SAMU não é um serviço acessório. Ele é parte estruturante da rede de urgência e emergência do Sistema Único de Saúde. É o elo entre o acontecimento crítico e a chance de sobrevivência. É o que garante atendimento imediato a vítimas de acidentes, infartos, AVCs, traumas e inúmeras outras situações em que minutos fazem a diferença entre a vida e a morte.
Desconsiderar sua importância é ignorar décadas de construção de uma política pública baseada em evidências, planejamento e compromisso com a vida. Ao longo dos últimos anos, temos assistido a um processo progressivo de fragilização do SAMU em Mato Grosso.
Não se trata apenas de dificuldades operacionais pontuais, mas de um cenário que aponta para o sucateamento do serviço: redução de investimentos, precarização das condições de trabalho, dificuldades na manutenção de frota, escassez de profissionais e ausência de planejamento estratégico.
E o sucateamento veio à tona com a demissão de 56 servidores contratados do SAMU que trabalhavam dentro das ambulâncias salvando vidas, alguns por mais de 10 anos. Como demitir servidores se o SAMU, em todo o Estado, atendia a população com pouco mais de 200 profissionais dos quais mais da metade não eram efetivos.
Observando que a fala recente de gestor da saúde de que esses 56 servidores contratados do SAMU seriam dispensáveis revela uma visão preocupante sobre o papel do Estado e sobre a própria concepção de saúde pública. É uma visão que desconsidera a realidade dos territórios, ignora evidências técnicas e desvaloriza o esforço de profissionais que sustentam diariamente o atendimento à população.
O Governo defende que o Corpo de Bombeiros assuma o serviço. Sem sombra de dúvidas o Corpo de Bombeiros e seus servidores são extraordinários e devemos todas as honras a esses bravos guerreiros e à corporação. Mas, a questão é sobre quão grande e essencial também é o SAMU.
É preciso dizer com clareza: quando se enfraquece o SAMU, não se está apenas economizando recursos, está-se transferindo o custo para a população, que passa a enfrentar maiores riscos, tempos de resposta mais longos e menor acesso ao atendimento qualificado em situações críticas.
Como médica, com mais de duas décadas de atuação no Sistema Único de Saúde, sei que não existe sistema de saúde eficiente sem uma rede de urgência estruturada. E não existe rede de urgência sem o SAMU. Os trabalhadores do SAMU, médicos, enfermeiros, técnicos, condutores, atuam em condições extremas. Lidam diariamente com situações de alta complexidade, risco, pressão emocional e responsabilidade imediata sobre a vida das pessoas.
Ainda assim, seguem cumprindo sua missão com compromisso e dedicação, mesmo diante de estruturas muitas vezes inadequadas. Desvalorizar o SAMU é também desrespeitar esses profissionais. Portanto, o debate que se impõe não é se o SAMU é necessário. Isso já está superado.
O que se deve discutir é como fortalecer o serviço, ampliar sua cobertura, garantir financiamento adequado e integrar suas ações de forma eficiente à rede de saúde. Mato Grosso precisa de mais Estado presente na saúde, e não menos. Precisa de planejamento, investimento e responsabilidade pública.
Precisa reconhecer que políticas de urgência não podem ser tratadas como custo, mas como investimento essencial à proteção da vida.
Defender o SAMU é defender vidas. E, acima de tudo, é reafirmar que nenhuma política pública pode abrir mão daquilo que garante o atendimento imediato quando a vida está em risco.
Dra. Natasha Slhessarenko é médica, servidora pública e empresária
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Anabolizantes, insulina e o perigo invisível por trás da alta performance
Casos recentes envolvendo a morte de atletas no Brasil reacenderam um debate importante, e necessário, sobre os limites da busca por performance física e estética. O uso indiscriminado de anabolizantes, hormônios e até insulina por pessoas sem indicação médica deixou de ser um assunto restrito ao fisiculturismo profissional e passou a fazer parte de uma cultura cada vez mais normalizada nas redes sociais, academias e ambientes voltados à alta performance.
O problema é que o corpo humano não interpreta essas substâncias como ferramentas estéticas. Ele responde biologicamente a elas. E, muitas vezes, essa resposta pode ser extremamente perigosa.
Durante muito tempo, os riscos dos anabolizantes estiveram associados principalmente a alterações hepáticas, infertilidade e disfunções hormonais. Hoje sabemos que os impactos podem ser muito mais amplos e silenciosos, especialmente quando existe uso combinado de diferentes substâncias sem acompanhamento médico adequado.
O coração costuma ser um dos órgãos mais afetados nesse processo.
O uso excessivo de anabolizantes pode provocar aumento da pressão arterial, alterações importantes do colesterol, espessamento do músculo cardíaco, maior risco de arritmias e sobrecarga cardiovascular. Em alguns casos, o organismo entra em um estado constante de estresse metabólico, mesmo em pessoas jovens e aparentemente saudáveis.
Existe uma falsa percepção de que aparência física representa**, obrigatoriamente,** saúde. Mas nem todo corpo forte é metabolicamente saudável.
Além dos anabolizantes, outro ponto que merece atenção é o uso indevido da insulina, um hormônio fundamental para pacientes com diabetes, mas que vem sendo utilizado de forma perigosa como estratégia para ganho de massa muscular e melhora estética.
Muitas pessoas não compreendem os riscos envolvidos no uso de insulina sem necessidade e sem prescrição médica.
Quando utilizada inadequadamente, ela pode causar episódios graves de hipoglicemia, levando à confusão mental, perda de consciência, convulsões, arritmias cardíacas e até morte. E o mais preocupante é que esses eventos podem acontecer rapidamente, muitas vezes sem tempo hábil para reversão.
Existe atualmente uma banalização hormonal preocupante. Medicamentos que deveriam ser utilizados com critérios médicos passaram a ser tratados como atalhos para resultados rápidos. O corpo virou projeto estético, e não organismo biológico.
Mas o metabolismo cobra.
Nenhuma transformação física acontece sem impacto fisiológico. E quanto mais agressiva for a tentativa de acelerar resultados, maior tende a ser o custo metabólico e cardiovascular ao longo do tempo.
Outro ponto importante é que muitas dessas substâncias são utilizadas em associação, potencializando riscos. Anabolizantes, estimulantes, hormônios tireoidianos, insulina, diuréticos e outras drogas acabam sendo combinados sem qualquer controle clínico adequado. O organismo, porém, não separa estética de sobrevivência. Ele apenas reage às agressões bioquímicas que recebe.
A medicina não deve olhar apenas para performance, mas principalmente para segurança.
Isso não significa condenar atividade física, hipertrofia ou busca por qualidade de vida. Pelo contrário. Exercício físico continua sendo uma das estratégias mais importantes para saúde cardiovascular, metabólica e hormonal. O problema começa quando saúde deixa de ser prioridade e o corpo passa a ser submetido a excessos incompatíveis com seu funcionamento fisiológico.
Talvez o maior alerta trazido por casos recentes seja justamente esse: nem sempre o perigo é visível.
Muitas vezes, o colapso cardiovascular ou metabólico acontece silenciosamente, enquanto exames são negligenciados, sintomas são ignorados e substâncias são utilizadas sem acompanhamento especializado.
O corpo humano possui limites biológicos. E ultrapassá-los pode ter consequências irreversíveis.
Dra. Mariana Ramos é médica endocrinologista na FetalCare em Cuiabá – MT.
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