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O dilema de Mato Grosso: obras inteligentes x obras intermináveis

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Por Rodrigo Senra

Mato Grosso se consolidou, nas últimas décadas, como uma das maiores potências econômicas do país. O estado lidera a produção nacional de commodities, possui cidades entre os maiores PIBs do agronegócio brasileiro, reúne três dos principais biomas do planeta e ocupa posição estratégica no cenário logístico nacional. Mas, em meio a esse protagonismo, surge um dilema cada vez mais evidente: como um estado que avança em ritmo acelerado ainda convive com obras públicas lentas, fragmentadas e intermináveis?

Enquanto países como China, Singapura e Chile utilizam inteligência artificial, modelagem digital e sistemas integrados para executar obras em poucos dias, Cuiabá convive há mais de uma década com intervenções urbanas que parecem não ter fim. O contraste revela não apenas uma diferença tecnológica, mas, principalmente, uma diferença de cultura de planejamento.

A construção civil mundial passa por uma transformação profunda. O setor deixou de trabalhar apenas com concreto, aço e máquinas pesadas para incorporar dados, sensores, automação, inteligência artificial e plataformas digitais capazes de prever falhas antes mesmo do início das obras. A engenharia do futuro já começou.

Em diversos países, tecnologias como BIM (Building Information Modeling), gêmeos digitais e canteiros inteligentes reduziram drasticamente desperdícios, retrabalho e atrasos. Hoje, já existem cidades que conseguem simular virtualmente toda a execução de uma obra antes da primeira escavação acontecer no ambiente físico.

Na China, prédios modulares são erguidos em poucos dias. No Chile, viadutos já foram instalados em menos de 72 horas, utilizando planejamento altamente integrado e estruturas pré-fabricadas. Em Singapura, sistemas baseados em inteligência artificial automatizam processos de análise e aprovação de projetos públicos, reduzindo burocracia e acelerando decisões.

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No Brasil, especialmente em grandes obras urbanas, ainda convivemos com uma lógica excessivamente reativa. Muitos projetos continuam sendo executados com baixo nível de integração entre planejamento, engenharia, mobilidade, impacto urbano e gestão operacional. O resultado aparece em atrasos, revisões constantes, retrabalho e aumento de custos, que pesam no bolso do cidadão.

O problema de uma obra lenta não é apenas financeiro. Quando uma intervenção urbana se arrasta durante anos, ela compromete a mobilidade, prejudica o comércio, reduz a produtividade da cidade, aumenta o desgaste da população e afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas. O prejuízo deixa de ser apenas técnico e passa a ser social e econômico.

Cuiabá conhece bem essa realidade. Há mais de dez anos, a capital convive com impasses relacionados às obras do VLT/BRT, incluindo mudanças de modal, paralisações, revisões contratuais e sucessivos atrasos em projetos de mobilidade urbana.

O debate sobre infraestrutura não pode mais se restringir apenas ao valor investido ou ao tamanho das obras. É preciso discutir inteligência de planejamento, integração tecnológica e capacidade de execução. O mundo inteiro já compreendeu que cidades inteligentes exigem engenharia inteligente.

Não faz sentido investir bilhões em infraestrutura sem utilizar ferramentas capazes de integrar dados, prever impactos e otimizar decisões em tempo real. Continuar construindo com métodos fragmentados significa ampliar custos, atrasos e impactos urbanos que poderiam ser evitados com planejamento digital adequado.

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É justamente nesse ponto que tecnologias como o BIM e os gêmeos digitais ganham relevância estratégica. Mais do que produzir modelos tridimensionais, essas ferramentas permitem criar uma espécie de “cérebro digital” da obra, reunindo informações estruturais, operacionais, financeiras e logísticas em uma única plataforma integrada.

Com isso, torna-se possível prever conflitos de engenharia antes da execução, reduzir desperdícios de materiais, acompanhar cronogramas em tempo real, monitorar o desempenho estrutural e até planejar manutenções futuras. Em outras palavras, a engenharia deixa de apenas reagir aos problemas e passa a antecipá-los.

Os chamados canteiros inteligentes também representam uma mudança importante nesse processo. Drones, sensores, laser scanning, RFID e sistemas automatizados de monitoramento já permitem acompanhar obras com muito mais precisão, segurança e eficiência. Muitas dessas tecnologias, inclusive, já estão acessíveis no mercado brasileiro.

O maior desafio, no entanto, talvez não seja tecnológico, mas cultural. A transformação digital da construção civil exige mudança de mentalidade, capacitação profissional e modernização da gestão pública. Ainda existe resistência à adoção de sistemas mais integrados, especialmente em estruturas acostumadas a modelos fragmentados e burocráticos.

Mato Grosso possui profissionais altamente qualificados, empresas capacitadas e acesso a tecnologias já consolidadas em diversas partes do mundo. O desafio, portanto, não é apenas técnico. A modernização da infraestrutura pública depende também de decisão política. Romper modelos ultrapassados de planejamento e gestão exige integração entre planejamento, engenharia e gestão urbana.

Rodrigo Senra é presidente do IEMT, engenheiro civil, empreendedor, palestrante e professor de MBA em soluções BIM e transformação digital.

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Quando tudo parece “marketing”, nada convence

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Por Dayane Nascimento

Existe uma frase que se tornou quase automática no mercado contemporâneo: “isso aí é só marketing”. Ela aparece em conversas de negócios, nas redes sociais e até nas decisões de compra mais simples do cotidiano. Em geral, vem carregada de desconfiança.

É uma forma rápida de dizer que existe exagero, aparência ou promessa demais para valor de menos. Mas essa frase também revela algo mais profundo do que uma crítica à publicidade. Ela revela uma crise crescente de confiança entre o que as marcas comunicam e o que as pessoas efetivamente vivenciam.

Em um contexto em que o Dia do Profissional de Marketing é celebrado em 8 de maio, a discussão também convida a refletir sobre o verdadeiro papel estratégico do marketing nas relações entre marcas e consumidores.

Ao longo de sua trajetória, Philip Kotler, um dos principais pensadores do marketing moderno, sempre reforçou um ponto essencial: marketing não é sinônimo de propaganda. Propaganda é apenas a face mais visível de um processo muito mais amplo, que envolve compreender necessidades, construir valor, alinhar promessa e entrega e cultivar relacionamento ao longo do tempo.

Quando alguém afirma que algo é “só marketing”, geralmente está reduzindo toda essa construção a uma única camada: a comunicação. E é justamente aí que nasce uma das principais distorções da lógica atual de consumo.

A frase não surge do nada. Ela é resultado de experiências acumuladas. Faz sentido quando existe discurso sofisticado sustentando produtos frágeis, excesso de promessa, foco exclusivo em convencimento ou estratégias voltadas apenas para o curto prazo. Nesses casos, o problema está justamente no marketing, que direciona a comunicação e cria uma distância entre o discurso e a vivência real do consumidor.

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Assim como muita gente acredita entender de futebol a ponto de se achar técnica, também há quem pense que trabalhar com marketing automaticamente faz de alguém um bom profissional da área. Nem sempre.

Além disso, o consumidor atual não é apenas mais informado. Ele é mais exposto, mais estimulado e também mais desconfiado. Em um ambiente digital em que tudo pode parecer excelente, as pessoas passaram a desenvolver filtros de credibilidade.

Um estudo divulgado pela Orbit Data Science, em julho de 2025, mostrou que 47% dos consumidores demonstram desconfiança em relação às marcas com as quais interagem, enquanto 23% afirmam deixar de consumir empresas nas quais não confiam. O dado ajuda a explicar por que as mensagens das marcas passaram a ser observadas com mais cautela.

Essa mudança se intensifica ainda mais com o avanço da inteligência artificial. Hoje, qualquer empresa consegue produzir conteúdos sofisticados, construir autoridade estética e ampliar sua presença digital com enorme velocidade. Se antes o desafio era chamar atenção, agora o verdadeiro desafio é gerar confiança e demonstrar autenticidade.

Uma das discussões mais importantes do marketing hoje é compreender que ele não cria valor sozinho. Ele organiza, potencializa e comunica um valor que precisa existir de forma concreta na experiência do cliente. A comunicação não pode estar na cabeça do dono da marca, mas precisa estar na realidade do cliente que consome.

Outro levantamento, divulgado pela GS1 Brasil em março deste ano, mostrou que mais de 70% dos consumidores afirmam que informações claras e confiáveis aumentam a confiança nas marcas. Transparência, coerência e qualidade da informação passaram a influenciar diretamente a percepção de credibilidade das empresas.

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Por isso, marcas associadas à previsibilidade e à boa relação com o consumidor permanecem entre as mais admiradas pelos brasileiros. Pesquisa da Ecglobal, divulgada em 2025, colocou Tramontina, iFood, Coca-Cola, Havaianas e Uber entre as marcas com maior conexão emocional com o público. Em comum, elas construíram relações marcadas por familiaridade, previsibilidade e por um elemento tão importante quanto os demais: a presença no cotidiano do consumidor.

Vale lembrar que marcas fortes não vivem apenas de discurso e entrega de valor: elas precisam de presença, mídia e relacionamento contínuo com o público. O consumidor não rejeita estratégia, posicionamento ou comunicação, mas o exagero, a promessa vazia e o discurso sem coerência com a experiência real.

Por isso, marcas que desejam construir relevância em longo prazo precisarão desenvolver algo mais valioso do que visibilidade: credibilidade. E marcas que desejam aparecer no mar de comunicação feita com IA precisam deixar a autenticidade aparecer.

Hoje, convencer parece suficiente para aumentar as vendas. Mas, no futuro próximo, isso não bastará. Será preciso construir uma boa narrativa baseada na experiência real do consumidor. Em um mercado saturado de discursos de autenticidade, o contato com a realidade é a condição para gerar credibilidade e diferenciação real.

Dayane Nascimento é consultora de marketing, com formação na UFMT, especialista em economia do comportamento pela ESPM/SP e empresária.

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