Várzea Grande
Tribunal de Contas apura indícios de sobrepreço em contrato de R$ 14,3 milhões da Prefeitura de Várzea Grande
O Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) apura possíveis irregularidades em contrato emergencial de R$ 14,3 milhões firmado sem licitação pela Prefeitura de Várzea Grande para serviços de limpeza urbana. Por meio de representação de natureza externa proposta pela Câmara Municipal, serão analisados indícios de sobrepreço de 66% e uma série de falhas na contratação da empresa RAMAC Empreendimentos Ltda.
O presidente do TCE-MT, conselheiro Sérgio Ricardo, destacou o papel do órgão no controle dos gastos públicos. “Quando há indícios de falhas como estas, o Tribunal precisa agir com firmeza. Nosso compromisso é garantir que o dinheiro público seja bem aplicado e que de fato chegue onde precisa chegar, que é na população. Onde houver R$ 1 real de dinheiro público, o Tribunal deve estar lá para fiscalizar.”
Sob relatoria do conselheiro Antonio Joaquim, o processo revela que a dispensa de Licitação nº 093/2025 prevê pagamento mensal de R$ 2,38 milhões, mais que o dobro do maior valor registrado em contrato firmado anteriormente para a prestação do mesmo serviço, de R$ 1,08 milhão. Mesmo com cerca de 30 trabalhadores a menos, o custo subiu aproximadamente R$ 950 mil por mês, um aumento de 66,25%.

O documento também mostra elevações em itens específicos, como equipes de limpeza, poda de árvores e administração local, com reajustes que chegam a 147%. “Os documentos e informações apresentados evidenciam, de forma suficiente nesta fase inicial, a plausibilidade das alegações, legitimando o regular prosseguimento da matéria no âmbito desta Corte de Contas”, afirmou o conselheiro ao admitir a representação.
Outro ponto destacado diz respeito a falhas na condução do processo, uma vez que a execução dos serviços teria começado a ser preparada antes da formalização do contrato. O valor do acordo, conforme a representação, chegou a ser divulgado na imprensa cerca de 35 dias antes da apresentação das propostas.
No relatório técnico, é apontado ainda que a empresa RAMAC Empreendimentos Ltda. possui histórico de sanções decorrentes de condutas antijurídicas em prejuízo da administração pública, inclusive com condenação proferida pela Justiça do Estado de Sergipe, nos autos de ação civil pública por ato de improbidade administrativa.
Restrição à concorrência e situação emergencial
Foi apontada ainda possível restrição à concorrência. A empresa Penta Serviços de Máquinas Ltda., que havia participado do trâmite anterior e manifestado interesse em assumir os serviços, não foi convidada a apresentar proposta. Em contrapartida, a prefeitura chamou empresas de outros estados e incluiu apenas um empreendimento local, sem histórico recente na execução de serviços de limpeza urbana.
Além disso, o relatório questiona a caracterização da situação emergencial que fundamentou a dispensa de licitação. Embora a gestão tenha alegado risco de descontinuidade do serviço após a rescisão do contrato anterior, não foram apresentados elementos suficientes que comprovem essa condição, nem há registro da abertura de novo processo licitatório para contratação regular.
Sendo assim, o conselheiro determinou a citação da prefeita Flávia Moretti e do secretário Gerson Ronei Scarton Junior para apresentação de defesa. Em seguida, o processo retorna à análise técnica e segue para deliberação em Plenário.
Várzea Grande
TJMT autoriza investigação contra prefeita por suspeita de irregularidades no DAE
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso decidiu instaurar um inquérito policial para investigar a prefeita de Várzea Grande, Flávia Petersen Moretti, por possíveis crimes praticados no Departamento de Água e Esgoto do município (DAE/VG). A determinação é do desembargador Orlando de Almeida Perri e segue pedido encaminhado pelo Ministério Público Estadual, por meio do Núcleo de Ações de Competência Originária (Naco Criminal).
As investigações miram suspeitas de peculato, fraude administrativa e manipulação irregular dos sistemas internos da autarquia. As acusações vieram à tona após um perito forense contratado pelo próprio DAE identificar falhas graves durante uma auditoria nos sistemas de informação.
Auditoria detectou inconsistências e possíveis manipulações
Conforme o relatório elaborado pelo perito, foram detectadas divergências em arquivos de backup, fragilidades estruturais no sistema e dados de faturamento que não correspondiam ao fluxo operacional da autarquia. Um dos pontos mais preocupantes diz respeito ao volume anormal de registros de cortes e religações de água — apontados como incompatíveis com a rotina do serviço.
A suspeita é de que servidores possam ter criado “religações fantasmas” para elevar artificialmente índices de produtividade e, com isso, receber valores extras indevidos, causando prejuízo financeiro ao município.
Denúncias internas teriam sido interrompidas
O profissional responsável pela auditoria apontou ainda que, após mudanças internas na direção do DAE, a apuração preliminar teria sido interrompida. Servidores envolvidos na investigação foram exonerados, enquanto um dos funcionários mencionados entre os possíveis participantes do esquema acabou sendo promovido.
Além disso, houve dificuldades para formalizar denúncias junto à Controladoria Interna da prefeitura, bem como relatos de intimidação e obstáculos para dar continuidade ao trabalho pericial — inclusive com falhas na manutenção dos sistemas auditados, comprometendo o rastreamento de evidências digitais.
Indícios alcançam a alta gestão
Relatórios elaborados pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção apontam indícios de envolvimento de servidores ocupando funções estratégicas na autarquia e de pessoas ligadas diretamente à gestão do DAE. Os documentos também indicam elementos que podem sugerir conhecimento prévio — ou até participação — da prefeita Flávia Moretti nos fatos investigados, razão pela qual o caso passou à competência do Tribunal de Justiça.
Próximas etapas da investigação
Com a instauração oficial do inquérito, caberá ao Naco aprofundar a apuração. Estão previstas diligências como perícia técnica em arquivos digitais, análise detalhada de logs dos sistemas usados pelo DAE, depoimentos de servidores e coleta de documentos que possam esclarecer a extensão das possíveis irregularidades.
O Tribunal e o Ministério Público ainda não divulgaram prazo para conclusão dos trabalhos, mas a investigação deverá avançar nos próximos meses.
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