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Do ouro ao desenvolvimento: a riqueza que moldou Mato Grosso e suas cidades históricas

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Por Vitor Moura

O mês de maio carrega um significado especial para Mato Grosso e para municípios que ajudaram a construir sua história. Neste sábado (9), o Estado celebra 278 anos de criação; no dia 15, Várzea Grande comemora mais um aniversário; e, em 21 de maio, Nossa Senhora do Livramento reafirma sua trajetória quase tricentenária. Mais do que datas comemorativas, esses marcos revelam uma origem comum e poderosa: o ouro como elemento central na formação, ocupação e desenvolvimento da região.

A criação da Capitania de Mato Grosso, em 9 de maio de 1748, não foi um ato isolado da Coroa Portuguesa. A decisão foi motivada, sobretudo, pela descoberta de grandes depósitos de ouro no interior do território, especialmente na região de Cuiabá. As riquezas minerais despertaram interesse estratégico e econômico, impulsionando a ocupação definitiva da área e consolidando as fronteiras brasileiras diante das disputas coloniais. O ouro, portanto, não apenas fortaleceu a economia nascente, mas também ajudou a definir o próprio desenho geográfico do país.

Antes mesmo da criação oficial da capitania, a descoberta de jazidas auríferas já havia transformado a dinâmica local. A fundação de Cuiabá, em 1719, está diretamente ligada a esse movimento, marcado pela formação de arraiais que rapidamente se desenvolveram a partir da atividade garimpeira. Na sequência, localidades como Várzea Grande e Nossa Senhora do Livramento também surgiram sob essa influência, consolidando-se como pontos estratégicos de ocupação e circulação.

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Várzea Grande, hoje um dos principais municípios do Estado, teve suas raízes fincadas nesse contexto, mantendo forte interação econômica e cultural com Cuiabá desde os tempos da exploração mineral.
Já Nossa Senhora do Livramento preserva, até hoje, uma identidade profundamente ligada ao ouro, desde os primeiros registros de exploração no Ribeirão Cocais até as atividades contemporâneas que seguem movimentando a economia local.
Passados mais de dois séculos, a mineração continua sendo um dos pilares do desenvolvimento mato-grossense. Dados do Anuário Mineral Brasileiro 2025, com ano-base 2024, mostram que o Estado alcançou R$ 5,064 bilhões em produção de substâncias minerais metálicas, posicionando-se entre os seis maiores produtores do país. Desse total, o ouro se destaca como principal ativo econômico, com cerca de R$ 3,9 bilhões gerados por operações sob regime de concessão e permissão de lavra garimpeira.

Além dos números expressivos, a mineração em Mato Grosso tem avançado em tecnologia, regulação e responsabilidade socioambiental. A atividade, que no passado era marcada por métodos rudimentares, hoje evolui com práticas mais sustentáveis, maior controle e integração com outras cadeias produtivas. Esse movimento reforça o papel do setor não apenas como gerador de riqueza, mas também como agente estruturador do desenvolvimento regional.

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Ao observar o contexto histórico e os dados atuais, fica evidente que o ouro permanece como elo entre passado, presente e futuro. Foi ele que atraiu os primeiros exploradores, incentivou a criação de cidades, fortaleceu a ocupação territorial e, ainda hoje, continua contribuindo para a economia, a geração de empregos e a arrecadação pública.

Neste mês de celebrações, Mato Grosso, Várzea Grande e Nossa Senhora do Livramento não comemoram apenas suas datas de fundação. Celebram, sobretudo, uma trajetória construída sobre riqueza mineral, coragem e visão de futuro. O ouro que impulsionou sua formação continua sendo um ativo estratégico, capaz de projetar o Estado para novas oportunidades, agora alinhadas às demandas contemporâneas de sustentabilidade, inovação e crescimento responsável.

Vitor Moura é diretor de Mineração da Fomentas Mining Company

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Um ano de magistério do Papa Leão XlV

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Por Juacy da Silva

“Um dos motivos pelos quais escolhi o nome Leão XIV é a encíclica Rerum Novarum, escrita por Leão XIII durante a Revolução Industrial. O título Rerum Novarum significa ‘coisas novas’. Certamente há ‘coisas novas’ no mundo, mas, quando dizemos isso, geralmente adotamos uma ‘visão a partir do centro’ e nos referimos a coisas como inteligência artificial ou robótica. No entanto, hoje, gostaria de olhar para as ‘coisas novas’ com vocês, começando pela periferia. A terra, o teto e o trabalho são direitos sagrados pelos quais vale a pena lutar.”
Papa Leão XIV, no 5º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na Sala Paulo VI, no Vaticano, em 23/10/2025

Para entendermos o significado do magistério papal, é fundamental termos em mente que o Papa é a autoridade máxima da Igreja Católica no mundo, Igreja esta que está presente praticamente no mundo inteiro e conta com mais de 1,422 bilhão de fiéis que, se viverem o Evangelho em toda a sua plenitude e radicalidade, podem transformar a realidade, sendo o sal da terra e a luz do mundo, enquanto aguardamos o “novo céu e a nova terra”.

Nesse sentido, é fundamental que o Papa, qualquer que seja ele, promova orientações relacionadas com a doutrina católica, mantendo a unidade da fé; mas também se preocupe e se posicione sobre os grandes desafios que afetam tanto católicos quanto a população mundial como um todo. Temas econômicos, sociais, políticos, geopolíticos, religiosos e culturais não podem estar ausentes das preocupações e exortações papais, jamais!

Daí a importância de, como cristãos, católicos e cidadãos de todos os países, inclusive do Brasil, acompanharmos de perto as “pegadas”, a caminhada e as exortações do Papa Leão XIV, que, em 08 de maio de 2026, estará celebrando/comemorando seu primeiro ano na “Cátedra de São Pedro”.

No dia 21 de abril de 2025, falecia em Roma o Papa Francisco (Jorge Mário Bergoglio) e, 17 dias depois, em 08 de maio do mesmo ano (2025), o Colégio dos Cardeais elegia Robert Francis Prevost como o novo Papa, que escolheu o nome de Leão XIV pelas razões já expostas.

Enquanto São Francisco de Assis foi a fonte inspiradora do Papa Francisco, principalmente em relação ao cuidado com a ecologia integral e com os pobres, Leão XIV inspira-se na figura de Leão XIII, um Papa que, diante do embate entre comunistas/socialistas de um lado e capitalistas selvagens, exploradores dos trabalhadores de outro, em relação à situação do trabalho no final do século XIX, não titubeou e escreveu/publicou a encíclica Rerum Novarum, marco inicial da Doutrina Social da Igreja, ainda atual na Igreja e no mundo contemporâneo.

Para muita gente, tanto dentro quanto fora da Igreja, a escolha de Leão XIV, um norte-americano de nascimento e naturalizado peruano, com formação agostiniana, enquanto Francisco era jesuíta da Argentina/América Latina, foi uma surpresa.

Mas, no início de um “novo” papado, tudo é novidade e, ao mesmo tempo, especulação, principalmente em relação aos rumos que cada Papa imprime à vida da Igreja. Isso gera muita expectativa e, às vezes, certa angústia e tensões internas na Igreja, principalmente quando consideramos a existência de alguns grupos, uns que se dizem mais conservadores e outros que se dizem e agem como mais “progressistas”, resgatando inclusive as conclusões do Concílio Vaticano II e as reformas decorrentes das conclusões do mesmo, encerrado em 08 de dezembro de 1965, portanto há mais de seis décadas, mas ainda totalmente válidas.

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Ao longo deste seu primeiro ano de pontificado, o Papa Leão XIV demonstrou grande respeito e amizade em relação ao legado do Papa Francisco e deu prosseguimento a aspectos fundamentais que marcaram o magistério de Francisco, além de ter “avançado” ou aprofundado outros aos quais Francisco não teve tempo de se dedicar, como era seu desejo.

Neste primeiro ano de magistério, o Papa Leão XIV tem exortado tanto a Igreja — sua hierarquia eclesiástica, sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis — a continuarem no caminho da sinodalidade, uma Igreja em saída em direção às periferias materiais, espirituais e existenciais, fiel à opção preferencial pelos pobres, razão de ser da Igreja, tão enfatizada no Concílio Vaticano II, que tanto Francisco pretendeu quanto Leão XIV pretende resgatar, como tem sido bem claro em seus pronunciamentos e exortações.

Outro aspecto fundamental abraçado por Leão XIV é o cuidado e a defesa da Casa Comum, a ecologia integral, seu compromisso com a continuidade da caminhada iniciada com a publicação de Laudato Si’ e as exortações Querida Amazônia e Laudate Deum, e os três “Ts” de Francisco: terra, teto e trabalho.

Outro aspecto importante neste seu primeiro ano de caminhada tem sido o compromisso em defesa e acolhida dos pobres. Primeiro, de forma humilde, mencionada ao publicar a exortação Dilexi Te (Eu te amei), deu continuidade ao que o Papa Francisco estava escrevendo sobre os pobres, ampliando a abordagem e imprimindo a sua marca diante desse desafio mundial que são a pobreza, a exclusão e as injustiças.

Tanto é verdade que, ao definir sua intenção de oração do mês de maio deste ano (2026), escolheu como tema da exortação o combate ao desperdício de alimentos e enfatizando a importância de uma alimentação saudável à qual os pobres têm direito.

A proposta vai além das orações e visa também ao despertar da solidariedade, da fraternidade, transformando a lógica do consumo egoísta que gera exclusão, pobreza e fome.

Lamentando o desperdício de tantos alimentos em nossas mesas, o Papa Leão XIV rezou para que o Senhor “desperte em nós uma nova consciência: que aprendamos a dar graças por cada alimento, a consumir com simplicidade, a partilhar com alegria e a cuidar dos frutos da terra como um dom de Vós, destinado a todos, e não apenas a alguns”.

Outro tema que tem estado presente nas reflexões, nos pronunciamentos e nas atitudes e tentativas de mediação de Leão XIV são as guerras, os conflitos armados, a violência em geral e todas as suas formas particulares, incluindo a violência doméstica e de gênero.

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Em lugar da violência como forma de “resolução” de conflitos, o Papa Leão XIV tem apresentado a proposta do diálogo e, no contexto dos conflitos e guerras entre países, tem insistido que o caminho é a diplomacia.

Em decorrência disso, tem sofrido ataques por parte de alguns governantes que promovem guerra em lugar da paz, mas isso não o tem demovido de suas convicções e atitudes.

Ele tem também condenado as guerras de conquista de territórios, os genocídios e as migrações em massa, em consequência da destruição tanto material quanto de vidas humanas inocentes. Sendo que uma de suas propostas é o desenvolvimento de uma cultura da paz, na qual a Igreja, melhor dizendo, as Igrejas e religiões têm um papel preponderante.

Nesse mesmo contexto, o Papa Leão XIV tem insistido também no ecumenismo e no diálogo inter-religioso como caminhos em busca da paz e da construção de um mundo justo, sustentável, mais humano e mais tolerante.

Esse empenho fica bastante claro em seu primeiro pronunciamento a representantes de diversas religiões, em 19 de maio de 2025, no Vaticano, quando afirmou aos presentes que “a sinodalidade e o ecumenismo estão intimamente relacionados” e afirmou mais sua intenção de continuar o compromisso do Papa Francisco em promover “o caráter sinodal da Igreja Católica e em desenvolver formas novas e concretas para uma sinodalidade cada vez mais intensa na esfera ecumênica”.

Esses são alguns dos aspectos, além de diversos outros que não são abordados nesta oportunidade, que marcam este primeiro ano do magistério do Papa Leão XIV. Vida longa, para que sua jornada produza frutos que fortaleçam a Igreja ao redor do mundo, em sua caminhada evangelizadora, em defesa dos direitos humanos em sua plenitude, da justiça social, da justiça ambiental e da justiça intergeracional.

Mas, para tanto, o Papa Leão também tem insistido na necessidade de reformas mais profundas na Igreja, como podemos ver na Audiência Geral de hoje (06/05/2026), quando disse claramente: “Nenhuma instituição eclesial pode ser absolutizada; antes, já que vive na história e no tempo, é chamada à conversão contínua, à renovação das formas e à reforma das estruturas, à regeneração constante das relações, para que possa verdadeiramente corresponder à sua missão”.

Essas são as marcas deste primeiro ano de pontificado de Leão XIV, mas que apontam novos rumos para a Igreja, inserida na história e na realidade, diante do compromisso em busca do “Reino”.

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ativista social, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: [email protected] Instagram: @profjuacy WhatsApp: 65 9 9272 0052

 

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