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Um “novo” projeto de zoneamento para Mato Grosso: a Universidade Federal de Viçosa de volta à cena
Por Alexandre Luís Cesar
Visando atender aos apelos dos setores políticos, sociais e econômicos descontentes com o projeto de zoneamento de 2018 — que solicitavam novos estudos e a elaboração de uma proposta atualizada para o ordenamento territorial de Mato Grosso — foi criada uma Comissão Especial na Assembleia Legislativa para debater o Zoneamento Socioeconômico-Ecológico (ZSEE). O Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (SEPLAG), responsável pela coordenação da Comissão Estadual do ZSEE, anunciou o início dos estudos para contratação de uma consultoria que faria os ajustes necessários na proposta em discussão.
Foi então contratada diretamente, por dispensa de licitação, a Universidade Federal de Viçosa (UFV), renomada instituição de ensino superior brasileira, já conhecida pelos atores envolvidos com o zoneamento em Mato Grosso em razão de sua atuação no processo que resultou na malfadada Lei nº 9.523/2011, à época contratada pela FAMATO para analisar a proposta original do ZSEE/MT.
O contrato teve como objeto a cooperação técnica e científica entre a UFV e o Estado de Mato Grosso para a revisão técnica, adequação e atualização da versão 2018 do Zoneamento, com duração inicial prevista de doze meses, a partir da data de sua assinatura, em 21 de dezembro de 2021.
Buscando assegurar maior participação de representantes dos diferentes setores da sociedade civil integrantes da Comissão na construção dessa nova proposta — com transparência quanto às metodologias adotadas e amplo acesso às informações produzidas — diversos segmentos solicitaram, e o Governo do Estado instituiu, um Grupo de Trabalho (GT) para acompanhar e avaliar todas as etapas do processo. A diretriz central foi a busca pela sustentabilidade ecológica, econômica e social, visando compatibilizar o crescimento econômico com a proteção dos recursos naturais de Mato Grosso.
Foram estabelecidas como competências do GT: acompanhar a revisão da proposta do Zoneamento Socioeconômico-Ecológico de Mato Grosso (2018) em todas as suas fases e entregas, emitindo manifestações técnicas, e avaliar a proposta revisada, produzindo um Relatório Técnico Final a ser apresentado à CEZSEE/MT para análise e deliberação pela plenária.
Os setores da Comissão foram inicialmente representados da seguinte forma: a SEPLAG representando o Governo Estadual; a Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (SEAF); as comunidades, pela Associação Fé e Vida e pela Federação dos Povos e Organizações Indígenas (FEPOIMT); as ONGs ambientalistas, pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Associação Xaraiés; o setor produtivo, pelas federações FAMATO e FIEMT; os municípios, pela Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM); e as instituições de ensino superior, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT).
Essa importante medida atende ao que estabelece a norma federal que disciplina o ZEE, determinando que “o processo de elaboração e implementação do ZEE contará com ampla participação democrática, compartilhando suas ações e responsabilidades entre os diferentes níveis da administração pública e da sociedade civil” (art. 4º, inciso II, do Decreto nº 4.297/2002).
Pode-se dizer que se trata de uma iniciativa historicamente inovadora entre as tentativas de elaboração do zoneamento mato-grossense, visto que as anteriores simplesmente ignoraram essa determinação ou promoveram consultas enviesadas pela desinformação e pelo sectarismo, produzindo graves distorções nos resultados finais, tanto do ponto de vista técnico quanto da legitimidade social.
Assim, o atual processo, independentemente de seu resultado, já nasce positivamente diferenciado: mais transparente, sustentado por elementos técnico-científicos consistentes e socialmente referenciado pela participação efetiva dos diversos setores interessados.
Alexandre Luís Cesar é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT), Procurador do Estado e Professor Associado da UFMT.
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A luta contra os crimes cibernéticos e as “Big Techs”
Por Juacy da Silva
“Todos os dias, ataques cibernéticos fraudam famílias, interrompem serviços essenciais, drenam economias e disseminam materiais horríveis de abuso infantil.
A Convenção das Nações Unidas sobre os Crimes Cibernéticos oferece aos países uma nova ferramenta poderosa para prevenir e combater o crime cibernético — ao mesmo tempo em que protege os direitos humanos online. Que nenhum país — independentemente do tamanho ou nível de desenvolvimento — fique indefeso contra o crime cibernético. Que a privacidade, a dignidade e a segurança sejam respeitadas tanto offline quanto online. E que o multilateralismo ainda possa oferecer soluções, mesmo para os desafios mais complexos.”
Parte do pronunciamento do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, em Hanói, por ocasião da assinatura da Convenção das Nações Unidas sobre o Crime Cibernético, em 25 de outubro de 2025.
As questões relacionadas com o mundo virtual, o mundo digital, o avanço da inteligência artificial e o poder das grandes corporações da área da tecnologia têm despertado a atenção tanto de governantes nacionais, universidades e centros de pesquisas quanto de autoridades civis, militares e eclesiásticas mundiais, além da opinião pública em geral.
O Papa Leão XIV, por exemplo, tem tornado a regulação das grandes empresas de tecnologia (big techs) e o impacto da inteligência artificial (IA) uma questão central do seu pontificado. Ele enxerga a tecnologia atual não apenas como ferramenta, mas como uma potência ética que pode ameaçar a dignidade humana se não for controlada.
Para o líder máximo da Igreja Católica, com mais de 1,422 bilhão de fiéis ao redor do mundo — sendo 182 milhões no Brasil — e que, corajosamente, não tem se furtado ao debate de vários temas importantes e sensíveis, como a estupidez das guerras, a fome, a degradação ecológica, as migrações e a violência, entre outros, a tecnologia deve ser moldada para promover a dignidade humana, a paz e a segurança, não para substituir o ser humano ou gerar exclusão.
A falta de controle e regulamentação do mundo digital e as ações do crime organizado em dimensão global — onde os Estados nacionais (países soberanos) estão limitados em seus territórios — tornam a cooperação e os tratados internacionais as únicas ferramentas tanto para combater a criminalidade cibernética, potencializada ainda mais com o advento da inteligência artificial, quanto para enfrentar o poder e a influência dessas gigantes da tecnologia.
Sabemos como agem as chamadas “Big Techs”, grandes empresas de tecnologia cujos patrimônios, lucros e poder são maiores do que o PIB (Produto Interno Bruto) de diversos países.
Conforme dados recentes (2026), o valor do patrimônio das big techs em 2025 era de US$ 21,1 trilhões (18,9% do PIB mundial), valor superior ao PIB da China — o segundo maior do mundo em 2025 (US$ 20,8 trilhões) — e várias vezes maior que o PIB de países de renda média ou baixa.
Só para termos ideia: o PIB do Brasil em 2025, classificado como a 11ª maior economia do mundo, foi de apenas US$ 2,7 trilhões; ou seja, representa somente 12,8% do patrimônio dessas grandes companhias de tecnologia, conforme dados oficiais do FMI em relatório recente.
O poder — e muitas vezes a prepotência — com que essas gigantes da tecnologia atuam, frequentemente também a serviço dos países onde estão sediadas, extrapola os limites meramente comerciais, colocando em risco não apenas os direitos dos consumidores no mundo, mas também a própria soberania nacional, principalmente em momentos críticos, de conflitos e guerras.
A vulnerabilidade tecnológica é um dos, ou talvez o maior, fatores de risco para a soberania e a defesa nacional em qualquer país, sobretudo os dependentes dessas tecnologias, representando, na verdade, uma nova face da dependência do colonialismo moderno e da hegemonia das grandes potências.
De pouco adianta o ufanismo que às vezes é demonstrado por determinados setores em nosso país — de que o Brasil é uma “potência alimentar”, o maior produtor de commodities do mundo, possui grandes reservas de minérios, imenso potencial de petróleo e gás natural, vasto território e a maior floresta tropical do planeta (vítima de décadas de desmatamento desenfreado) — quando, na prática, exportamos produtos in natura, matéria-prima barata que não agrega valor nem gera empregos, enquanto no “verso da moeda” somos grandes importadores de tecnologia. Pouco diferimos do período colonial.
Somos um dos maiores importadores e usuários de tecnologia e ocupamos a 52ª posição entre as 139 economias analisadas na edição 2025 do Índice Global de Inovação (IGI), lançado recentemente pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).
O Brasil, por exemplo, é extremamente dependente do suporte tecnológico e do uso dessas plataformas e corre grande risco de colapso nacional em caso de embates ou conflitos com países onde essas big techs estão sediadas — como Estados Unidos, Europa, China ou outras nações asiáticas — podendo entrar em colapso em vários setores, como telecomunicações, energia, trânsito e transportes, sistema econômico e gestão pública e privada.
Diariamente, as pessoas se deparam com notícias sobre embates e conflitos de interesses entre países soberanos e essas gigantes da tecnologia, como no caso ocorrido em 2024/2025 entre o governo brasileiro e Elon Musk, magnata proprietário de empresas de tecnologia.
O referido magnata é dono da SpaceX, que opera a Starlink — maior constelação de satélites do mundo — e atua também no ramo da inteligência artificial e em plataformas digitais, com destaque para a X (antigo Twitter).
Conforme matéria publicada pela Agenda Estado de Derecho em 13 de novembro de 2024,
“O embate recente entre Elon Musk e o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil evidencia a urgência de regulamentar redes sociais, ressaltando a tensão entre a soberania nacional e o poder das grandes empresas de tecnologia. Este artigo aborda a legislação brasileira sobre internet, seus pontos cegos e os impactos políticos envolvidos.”
A celeuma, um verdadeiro conflito de interesses que extrapola a esfera comercial e alcança a política externa e internacional, envolveu uma empresa transnacional — uma das gigantes big techs — que inicialmente se recusou a cumprir uma decisão da mais alta Corte do Brasil. O caso tornou-se público e durou meses.
A Agência Estado de Derecho sintetiza a disputa, conforme Caio Machado:
“A disputa teve início em resposta da empresa de Musk às ordens que o STF expediu em relação aos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. Sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, o STF intensificou investigações sobre a disseminação de desinformação e o possível financiamento de grupos extremistas nas redes sociais. No âmbito dos Inquéritos 4781 (fake news) e 4874 (atos antidemocráticos), Moraes determinou o bloqueio de perfis nas redes sociais, incluindo contas no Twitter, com base na Lei 12.965 (Marco Civil da Internet). A big tech recusou-se, inicialmente, a cumprir a decisão, criando um precedente perigoso para a soberania nacional.”
Diante dos constantes conflitos envolvendo usuários das plataformas e o poder regulatório dos países, surgem iniciativas privadas voltadas à defesa dos consumidores.
Este é o caso de uma ONG recém-criada no Brasil com o propósito de apoiar e defender consumidores diante dos abusos que surgem diariamente nesse setor. Seu lema é significativo: “Sua voz importa. Seus direitos também.”
Em matéria publicada no portal G1 (Rede Globo) nesta segunda-feira, 5 de maio — Dia das Comunicações e aniversário do Marechal Rondon, figura histórica e de enorme relevância para as Forças Armadas, Mato Grosso e a causa indígena —, uma ex-servidora de uma dessas big techs no Brasil lançou uma ONG para oferecer apoio gratuito a usuários que tenham seus direitos violados pelas plataformas dessas gigantes. As denúncias podem ser feitas de forma sigilosa e gratuita.
Segundo a fundadora, a razão de existir da ONG demonstra a importância dessa luta:
“A CTRL+Z é uma organização social brasileira que enfrenta o modelo de operação das big techs. Nossas estratégias incluem investigar e expor abusos, mover ações judiciais estratégicas e mobilizar pessoas — transformando indignação em ação organizada e efetiva pela responsabilização das gigantes de tecnologia e pela transformação do setor visando ao bem-estar coletivo.”
O site da ONG é: https://ctrlz.org.br/add/
Os serviços são totalmente gratuitos e contam com parcerias com escritórios de advocacia especializados.
Vale a pena conferir.
Esta também é uma forma de defendermos a democracia, o estado de direito, a soberania nacional e os direitos humanos em sua plenitude!
Juacy da Silva é professor fundador, titular aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso; sociólogo; mestre em sociologia; ativista social e ambientalista; articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste – E-mail: [email protected] – Instagram: @profjuacy – WhatsApp: 65 9 9272-0052
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