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Corpo: meu único lar

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Por Soraya Medeiros

Vivemos em uma sociedade que nos ensina, desde cedo, a olhar para o corpo como um cartão de visitas. Aprendemos a medir seu valor pelo peso, pelas curvas, pela juventude ou pela proximidade de um padrão de beleza que muda conforme a moda, mas permanece quase sempre inalcançável. Nessa busca incessante, esquecemos uma verdade essencial: antes de ser aparência, o corpo é vida.

Durante muitos anos, enxerguei o meu como um projeto inacabado. Diante do espelho, encontrava apenas aquilo que precisava mudar. Cada marca parecia um defeito, cada transformação era interpretada como uma derrota. Passei tempo demais acreditando que só poderia gostar de mim quando alcançasse uma versão idealizada que, na prática, nunca existiu.

Enquanto eu travava essa batalha silenciosa, meu corpo fazia exatamente o oposto. Sem reclamar, sustentava meus dias mais difíceis. Respirou durante as noites em que a ansiedade parecia tirar o ar, suportou o peso das lágrimas, cicatrizou feridas, enfrentou doenças e encontrou forças quando a própria esperança parecia insuficiente.

Com o tempo, compreendi que ele nunca esteve contra mim. Ao contrário, sempre trabalhou para me manter viva.

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Vivemos desconectados da linguagem do corpo. Interpretamos o cansaço como fraqueza, a dor como inconveniente e os limites como obstáculos a serem vencidos. No entanto, esses sinais são formas de comunicação. O corpo fala antes mesmo que a mente consiga organizar aquilo que sentimos.

A psicóloga Kristin Neff, referência mundial nos estudos sobre autocompaixão, defende que tratar a si mesmo com a mesma gentileza dedicada às pessoas que amamos fortalece a saúde emocional e reduz a autocrítica. Em vez de alimentar uma relação baseada na culpa e na cobrança permanente, ela propõe um caminho sustentado pelo respeito, pela compreensão e pelo cuidado.

Talvez seja justamente isso que tenhamos desaprendido. Cuidar do corpo não significa puni-lo até que se encaixe em um padrão. Significa oferecer descanso quando ele está exausto, alimento de qualidade quando precisa de energia, movimento para fortalecer sua vitalidade e silêncio quando a alma pede abrigo.

A verdadeira transformação não acontece quando o reflexo do espelho muda. Ela começa quando muda o olhar de quem observa. Foi somente quando deixei de enxergar meu corpo como um inimigo que compreendi sua extraordinária capacidade de resistência. Cada cicatriz passou a contar uma história de sobrevivência. Cada limite tornou-se um convite ao autocuidado. Cada sinal de desgaste revelou apenas que havia vida sendo vivida.

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Talvez nunca exista um corpo perfeito. Mas existe um corpo que atravessou todas as nossas tempestades sem abandonar a missão de nos manter aqui.

Em um tempo em que somos incentivados a corrigir cada imperfeição, talvez o maior ato de coragem seja fazer as pazes com a própria imagem. Afinal, nenhuma casa permanece acolhedora quando é alvo constante de críticas. Hoje, eu escolho tratar meu corpo com a gentileza que ele sempre mereceu.

No fim, nosso corpo não é um obstáculo entre nós e a felicidade. Ele é o lugar onde ela pode acontecer. E, por mais que a vida nos ofereça inúmeros endereços ao longo do caminho, existe apenas um lar que permanecerá conosco até o último instante: o corpo que habitamos. Talvez esteja na hora de tratá-lo com a gratidão e o carinho que ele sempre mereceu.

Soraya Medeiros é jornalista.

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O impacto das telas na formação musculoesquelética de crianças e adolescentes

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Por Mara Gonçalves

Há poucas décadas, era comum ver crianças ocupando as ruas, praças e quintais. Elas corriam, pulavam, andavam de bicicleta, jogavam bola, subiam em árvores e transformavam qualquer espaço em um grande cenário para brincar. Hoje, a realidade é diferente e grande parte desse tempo foi substituída pelas telas, o movimento, tão importante para o crescimento, vem cedendo espaço ao sedentarismo digital.

Não se trata de demonizar a tecnologia. Celulares, tablets, computadores e videogames fazem parte da rotina das famílias e oferecem oportunidades de aprendizado, interação e entretenimento. O problema começa quando o tempo diante das telas passa a ocupar o lugar das experiências que estimulam o desenvolvimento físico e motor de crianças e adolescentes.

Na ortopedia, essa mudança de comportamento tem sido percebida de forma cada vez mais evidente. O corpo humano foi feito para se movimentar, especialmente durante as fases de crescimento. É justamente na infância e na adolescência que ossos, músculos, tendões e articulações passam por um intenso processo de formação, que depende não apenas da alimentação e da genética, mas também dos estímulos proporcionados pela atividade física.

Brincar é muito mais do que diversão. Correr, saltar, equilibrar-se, escalar e pedalar são movimentos que fortalecem a musculatura, favorecem a formação da massa óssea, desenvolvem a coordenação motora e ajudam o corpo a aprender como responder aos desafios do dia a dia. São experiências que nenhum ambiente virtual consegue reproduzir.

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Quando esses estímulos diminuem, os impactos aparecem. Crianças chegam aos consultórios com menor condicionamento físico, perda de força muscular, dificuldades de equilíbrio e alterações posturais que, até pouco tempo atrás, eram mais comuns em adultos. Também cresce o número de adolescentes que relatam dores na coluna, no pescoço, nos ombros e nos punhos, muitas vezes relacionadas ao uso prolongado de celulares e computadores em posições inadequadas.

Outro aspecto que merece atenção é a formação da saúde óssea. A infância representa a principal janela para o desenvolvimento da massa óssea, uma espécie de reserva que acompanhará o indivíduo ao longo da vida. Quanto melhor essa formação, menor será o risco de doenças como osteoporose e fraturas no futuro. Para que isso aconteça, os ossos precisam receber estímulos constantes por meio do movimento e de atividades que envolvam impacto moderado, como correr, brincar e praticar esportes.

Outro ponto que costuma passar despercebido é o desenvolvimento motor. Habilidades como coordenação, equilíbrio, agilidade e percepção corporal são construídas ao longo da infância por meio das brincadeiras e das atividades físicas. Crianças que passam a maior parte do tempo em atividades sedentárias podem apresentar dificuldades nessas competências, o que interfere não apenas na prática esportiva, mas também na confiança para explorar novos movimentos e participar de atividades coletivas.

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A solução é encontrar equilíbrio, pois as telas podem e devem fazer parte da vida moderna, desde que não substituam completamente as oportunidades de movimento. A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que crianças e adolescentes realizem, em média, pelo menos 60 minutos diários de atividade física de intensidade moderada a vigorosa. Esse tempo pode ser preenchido de diferentes maneiras: brincadeiras ao ar livre, esportes, passeios de bicicleta, caminhadas em família ou qualquer atividade que incentive o corpo a sair da inércia.

Nesse contexto, pais e responsáveis têm papel decisivo e, mais do que controlar o tempo de tela, é importante criar oportunidades para que o movimento faça parte da rotina familiar. Muitas vezes, a mudança começa com atitudes simples, como trocar algumas horas em frente ao celular por um passeio no parque, uma partida de futebol ou uma brincadeira no quintal.

Em um mundo cada vez mais conectado, promover uma infância mais ativa é investir na saúde do presente e também do futuro. Crianças que se movimentam mais tendem a desenvolver melhor sua musculatura, fortalecer os ossos, reduzir o risco de doenças crônicas, melhorar a postura e criar hábitos que permanecerão ao longo da vida adulta.

Dra. Mara Gonçalves é médica ortopedista, especialista em Ortopedia, Traumatologia e Cirurgia da Mão, atual Presidente da SBOT-MT

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