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O impacto das telas na formação musculoesquelética de crianças e adolescentes
Por Mara Gonçalves
Há poucas décadas, era comum ver crianças ocupando as ruas, praças e quintais. Elas corriam, pulavam, andavam de bicicleta, jogavam bola, subiam em árvores e transformavam qualquer espaço em um grande cenário para brincar. Hoje, a realidade é diferente e grande parte desse tempo foi substituída pelas telas, o movimento, tão importante para o crescimento, vem cedendo espaço ao sedentarismo digital.
Não se trata de demonizar a tecnologia. Celulares, tablets, computadores e videogames fazem parte da rotina das famílias e oferecem oportunidades de aprendizado, interação e entretenimento. O problema começa quando o tempo diante das telas passa a ocupar o lugar das experiências que estimulam o desenvolvimento físico e motor de crianças e adolescentes.
Na ortopedia, essa mudança de comportamento tem sido percebida de forma cada vez mais evidente. O corpo humano foi feito para se movimentar, especialmente durante as fases de crescimento. É justamente na infância e na adolescência que ossos, músculos, tendões e articulações passam por um intenso processo de formação, que depende não apenas da alimentação e da genética, mas também dos estímulos proporcionados pela atividade física.
Brincar é muito mais do que diversão. Correr, saltar, equilibrar-se, escalar e pedalar são movimentos que fortalecem a musculatura, favorecem a formação da massa óssea, desenvolvem a coordenação motora e ajudam o corpo a aprender como responder aos desafios do dia a dia. São experiências que nenhum ambiente virtual consegue reproduzir.
Quando esses estímulos diminuem, os impactos aparecem. Crianças chegam aos consultórios com menor condicionamento físico, perda de força muscular, dificuldades de equilíbrio e alterações posturais que, até pouco tempo atrás, eram mais comuns em adultos. Também cresce o número de adolescentes que relatam dores na coluna, no pescoço, nos ombros e nos punhos, muitas vezes relacionadas ao uso prolongado de celulares e computadores em posições inadequadas.
Outro aspecto que merece atenção é a formação da saúde óssea. A infância representa a principal janela para o desenvolvimento da massa óssea, uma espécie de reserva que acompanhará o indivíduo ao longo da vida. Quanto melhor essa formação, menor será o risco de doenças como osteoporose e fraturas no futuro. Para que isso aconteça, os ossos precisam receber estímulos constantes por meio do movimento e de atividades que envolvam impacto moderado, como correr, brincar e praticar esportes.
Outro ponto que costuma passar despercebido é o desenvolvimento motor. Habilidades como coordenação, equilíbrio, agilidade e percepção corporal são construídas ao longo da infância por meio das brincadeiras e das atividades físicas. Crianças que passam a maior parte do tempo em atividades sedentárias podem apresentar dificuldades nessas competências, o que interfere não apenas na prática esportiva, mas também na confiança para explorar novos movimentos e participar de atividades coletivas.
A solução é encontrar equilíbrio, pois as telas podem e devem fazer parte da vida moderna, desde que não substituam completamente as oportunidades de movimento. A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que crianças e adolescentes realizem, em média, pelo menos 60 minutos diários de atividade física de intensidade moderada a vigorosa. Esse tempo pode ser preenchido de diferentes maneiras: brincadeiras ao ar livre, esportes, passeios de bicicleta, caminhadas em família ou qualquer atividade que incentive o corpo a sair da inércia.
Nesse contexto, pais e responsáveis têm papel decisivo e, mais do que controlar o tempo de tela, é importante criar oportunidades para que o movimento faça parte da rotina familiar. Muitas vezes, a mudança começa com atitudes simples, como trocar algumas horas em frente ao celular por um passeio no parque, uma partida de futebol ou uma brincadeira no quintal.
Em um mundo cada vez mais conectado, promover uma infância mais ativa é investir na saúde do presente e também do futuro. Crianças que se movimentam mais tendem a desenvolver melhor sua musculatura, fortalecer os ossos, reduzir o risco de doenças crônicas, melhorar a postura e criar hábitos que permanecerão ao longo da vida adulta.
Dra. Mara Gonçalves é médica ortopedista, especialista em Ortopedia, Traumatologia e Cirurgia da Mão, atual Presidente da SBOT-MT
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O custo real do câncer e a sustentabilidade dos hospitais especializados
Por Rafael Sodré
Boa parte do tratamento oncológico no Brasil é realizada por hospitais filantrópicos habilitados pelo Ministério da Saúde. Dos 338 estabelecimentos credenciados no país, 205 são filantrópicos. Em 2025, eles responderam por 66% das 4,7 milhões de sessões de quimioterapia e por 73% dos quase 190 mil procedimentos de radioterapia realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essas instituições atuam como Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) ou Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon). Discutir o enfrentamento do câncer, portanto, exige discutir a sustentabilidade financeira desses hospitais.
A assistência ainda é remunerada principalmente por produção, com base em uma tabela cuja defasagem acumulada é estimada pelo setor filantrópico em cerca de 60%. O hospital presta o atendimento, recebe o valor tabelado e precisa cobrir a diferença com doações, complementações estaduais, emendas parlamentares ou endividamento.
O Hospital de Câncer de Mato Grosso (HCanMT) retrata essa realidade. Entre setembro de 2024 e setembro de 2025, foram realizados 246.891 atendimentos, incluindo 37.562 sessões de quimioterapia, 32.782 de radioterapia, 6.946 internações e 5.632 cirurgias.
No período, o HCanMT registrou receita mensal de R$ 6,8 milhões, sendo R$ 5,3 milhões provenientes do contrato com o SUS, R$ 765 mil do Fundo Estadual e cerca de R$ 800 mil em doações. As despesas chegaram a R$ 10,1 milhões, o que resultou em um déficit estrutural de R$ 3,3 milhões por mês. Somente materiais e medicamentos consumiram R$ 3,3 milhões mensais.
Essa diferença aparece de forma ainda mais clara no atendimento ao paciente. Uma internação oncológica pode gerar um repasse de R$ 1.438 e custar até R$ 8.050. Uma distância dessa dimensão não pode ser compensada apenas por ganhos de eficiência. Sem recursos complementares, o hospital fica diante de duas alternativas: reduzir a oferta ou comprometer sua capacidade financeira.
O cenário se agrava com a incorporação de novas tecnologias e medicamentos, que eleva os custos em ritmo superior ao da atualização da tabela. Soma-se a isso o diagnóstico tardio: muitos pacientes chegam em estágio avançado, quando o tratamento é mais longo, caro e menos eficaz. O sistema paga duas vezes por esse atraso, com desfechos piores e despesas maiores.
Quando o financiamento regular não cobre a operação, a continuidade do serviço passa a depender de emendas, aportes extraordinários e negociações pontuais. Em Mato Grosso, a reestruturação do contrato estadual avançou em junho de 2026, por meio de um termo de compromisso articulado pelo Tribunal de Contas do Estado. O acordo preserva o atendimento, mas evidencia que um serviço essencial não pode depender de mediações, ciclos eleitorais ou decisões ocasionais.
A criação do Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia, em outubro de 2025, representou um avanço ao reorganizar o financiamento e a dispensação de medicamentos. A medida, contudo, não resolve o custeio de pessoal, cirurgias, leitos, terapia intensiva e radioterapia, ainda remunerados por valores defasados.
É necessário revisar periodicamente os valores dos procedimentos, adotar modelos que combinem pagamento por produção e custeio fixo, estabelecer regras de reequilíbrio econômico-financeiro e garantir financiamento plurianual entre União, estados e municípios. Também é indispensável investir em rastreamento e diagnóstico precoce, reduzindo a mortalidade e o custo do tratamento.
O financiamento da oncologia precisa ser tratado como política permanente, não como uma sucessão de emergências. Os hospitais especializados já demonstraram capacidade para entregar volume e qualidade dentro do SUS. Cabe agora ao sistema garantir recursos compatíveis com a assistência que contratou.
Dr. Rafael Sodré de Aragão Vasconcellos Pereira é cirurgião oncológico e diretor técnico do Hospital de Câncer de Mato Grosso.
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