BRASIL E MUNDO
Conflito em Gaza e Ataques ao Irã: Especialistas debatem a conexão e o futuro do Oriente Médio
Por Agência Brasil
O ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 inaugurou uma nova fase do conflito no Oriente Médio em torno dos territórios palestinos. Para alguns analistas, os ataques contra o Irã são também consequência da guerra na Faixa de Gaza e da colonização da Cisjordânia, ainda que indiretamente.
Os governos de Israel e dos Estados Unidos (EUA) estariam aproveitando as fragilidades econômicas do Irã, motivadas em parte pelas sanções ocidentais, e os rachas políticos internos, evidenciados em protestos violentos no início do ano, para cortar o apoio ao Eixo da Resistência, dado por Teerã.
Tal eixo é formado por grupos armados que resistem à política de Israel e dos EUA no Oriente Médio, como Hezbollah, Hamas ou os Huthis no Iêmen. A queda do governo de Bassar al-Assad na Síria, após 13 anos de guerra financiada por potências estrangeiras, também teria sido uma consequência da intensificação da guerra contra o Eixo da Resistência, uma vez que a Síria era uma aliada do Irã.
O professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo (SP) Bruno Huberman afirmou à Agência Brasil que as agressões contra o Irã são uma das consequências do 7 de Outubro, porque Teerã é a principal força de oposição a política de Washington e Tel-Aviv no Oriente Médio.
“A solidariedade com a causa palestina sempre esteve no centro do projeto político iraniano desde 1979 [Ano da Revolução Iraniana]. Isso é uma das razões pelas quais o Irã tem sido confrontado.”
Para o especialista, o Irã tem forte relevância para a questão palestina e para os grupos islâmicos de resistência armada que buscam revolução armada e libertação nacional radical na Palestina.
Huberman acrescenta que a queda do Irã permitirá que os EUA e Israel reorganizem o Oriente Médio “como bem entendem”. Para ele, o conflito facilita o avanço da anexação da Cisjordânia por Israel.
“Desde o cessar-fogo em Gaza, Israel tem avançado de forma significativa na colonização e na anexação de território na Cisjordânia. E, durante essa guerra no Irã, isso deve se fortalecer.”
No mês passado, Israel aprovou novas regras para compra de terras palestinas por israelenses na Cisjordânia, medida denunciada como tentativa de avançar sobre o território palestino. Em 2025, pelo menos 40 mil palestinos foram expulsos de suas residências na região.
Mudança de cenário
Por outro lado, o professor avalia que a queda de Teerã não inviabiliza a causa palestina, apesar de mudar o cenário. “O Irã se envolveu mais no apoio à luta armada, assim como o Catar, enquanto outros países apoiam projetos humanitários, de desenvolvimento, ou só de forma retórica.”
Os grupos xiitas Hezbollah, no Líbano, e os Huthis, do Iêmen, são exemplos de grupos armados do Eixo da Resistência, apoiados pelo Irã, que se lançaram em ataques contra Israel em apoio à Gaza.
Direito internacional
Para outros analistas, não é possível traçar uma relação direta entre o 7 de outubro e as agressões contra o Irã, ainda que os dois acontecimentos estejam de alguma forma conectados. É o que defende a professora Rashmi Singh, da pós-graduação em relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais.
Para ela, a ação israelense em Gaza e na Cisjordânia serviu para normalizar, pelos países ocidentais, a aplicação seletiva do direito internacional.
Rashmi cita, como exemplos, “o genocídio na Palestina, os bombardeios ilegais de hospitais, escolas, universidades, igrejas, mesquitas e outras infraestruturas civis” por parte de Israel, assim como “atos terroristas [de Israel] em outros países – como os ataques com pagers no Líbano –, que foram saudados pelo Ocidente não como terrorismo, mas como ‘estrategicamente brilhantes por parte de Israel’”.
A professora da PUC de Minas acrescenta que todas essas violações do direito internacional ocorreram com o silêncio ou cumplicidade dos países europeus e norte-americanos.
“Os ataques ilegais ao Irã, há oito meses, também foram elogiados. Portanto, a Palestina não está diretamente relacionada aos ataques ao Irã, mas estabeleceu o padrão do que é permitido nas relações internacionais. Estabeleceu o cenário para o que está acontecendo no Irã”.
Rashmi Singh acrescenta que, apesar do apoio que o Irã fornece aos grupos de resistência palestinos, a causa palestina não depende exclusivamente do Irã, “ou de qualquer outro ator externo”. “O apoio externo é um fator, mas não é o único”, destacou.
Ao mesmo tempo, a professora alerta que Israel tem usado a guerra para “expandir seu roubo territorial ilegal de terras palestinas”.
“Gaza foi completamente isolada novamente – contrariando o acordo de cessar-fogo – e os colonos, israelenses, na Cisjordânia estão ocupados aterrorizando os palestinos, matando e assediando, com o apoio total das Forças de Defesa de Israel.”
Influencia o contexto
Ao mesmo tempo, há analistas que atribuem uma influência do 7 de outubro ao contexto geral do Oriente Médio, sem que o ataque do Hamas possa explicar, sozinho, a decisão de Israel e dos EUA de atacarem o Irã.
Essa é a avaliação da professora de relações internacionais do Ibmec SP, Karina Stange Caladrin.
“Desde 2023, a guerra em Gaza ‘regionalizou’ a dinâmica de segurança: Israel passou a tratar o chamado eixo de resistência – Hamas, Hezbollah, Houthis e milícias aliadas – como um tabuleiro integrado, e o Irã como o principal patrocinador, financeira, militar e politicamente, dessa rede.”
Caladrin acrescenta que, nesse contexto, a guerra em Gaza e a escalada dos conflitos na Cisjordânia criaram incentivos para ampliar a pressão contra Teerã. Para ela, a guerra contra o Irã também tira a agenda palestina do noticiário e corta parte do respaldo que grupos palestinos recebem do Irã.
“Paradoxalmente, uma escalada maior pode radicalizar narrativas, aumentar polarização e ampliar a mobilização transnacional em torno da Palestina, mas isso não se traduz automaticamente em ganhos políticos concretos para Gaza e Cisjordânia”, acrescentou.
Por outro lado, Karina Caladrin pondera que, caso o regime do Irã sobreviva, o mais provável é que reafirme seu papel regional. “O que, de novo, não equivale a avanços políticos palestinos; pode significar apenas que a causa continua ‘útil’ como símbolo em uma competição geopolítica mais ampla.”
A causa palestina
Costuma-se fixar o início do conflito israel-palestino à criação do Estado de Israel, ainda em 1948. Naquele ano, ocorre a Nakba – catástrofe, em árabe – do povo palestino, quando mais de 700 mil palestinos são expulsos da suas terras, e cerca de 450 vilas são destruídas.
Esses acontecimentos dariam início à “causa palestina”, como a conhecemos hoje, que é a defesa do retorno dos refugiados à suas casas e o estabelecimento da independência e criação do Estado Palestino.
Em oposição, Israel rejeita qualquer medida que resulte na criação de um Estado Palestino em suas fronteiras, conforme exige o direito internacional e a maioria dos países do mundo.
BRASIL E MUNDO
Operação mira lavagem de dinheiro e infiltração de facção criminosa no setor de combustíveis
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e a Receita Federal deflagraram, nesta quinta-feira, uma ação conjunta para desarticular um esquema de fraudes fiscais, sonegação de impostos e lavagem de dinheiro comandado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado de combustíveis. A ofensiva ocorre simultaneamente nos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro, tendo como alvos principais distribuidoras, postos de combustíveis e instituições financeiras de fachada.
Batizada de Fluxo Oculto, a ação representa um novo desdobramento da investigação Carbono Oculto, que já havia apontado a expansão das atividades da facção criminosa para além do tráfico de drogas, alcançando o setor de combustíveis, fundos de investimentos e plataformas de pagamento. Desta vez, os investigadores concentram os trabalhos na análise de seis fintechs que funcionavam como bancos paralelos para viabilizar a movimentação de recursos ilícitos e na coleta de provas sobre a adulteração de combustíveis mediante a mistura ilegal de solventes, como a nafta.
As apurações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo revelaram que as seis empresas de tecnologia financeira formavam um consórcio financeiro oculto. Esse grupo realizava compensações monetárias internas e triangulações de valores entre distribuidoras de combustíveis, postos revendedores e fundos de investimento controlados diretamente pela organização criminosa. Além do controle financeiro, a facção atuava de forma operacional no desvio de nafta petroquímica para abastecer postos de combustíveis parceiros, estruturando uma rede de empresas fantasmas criadas exclusivamente para simular a compra e venda de solventes industriais.
Ao todo, os agentes públicos cumprem 55 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça. A operação conta com a cooperação direta dos Gaecos locais e dos ministérios públicos estaduais do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e do Paraná, que auxiliam no cumprimento das ordens judiciais e no recolhimento de documentos e dispositivos eletrônicos para subsidiar a continuidade das investigações.
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