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Cerrado: um bioma que se transforma na seca
Por Luiza Paranhos da Silva
O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro e tem uma importância enorme quando o assunto é água. Não é por acaso que é conhecido como “berço das águas”. Muitas nascentes e importantes bacias hidrográficas estão relacionadas a esse bioma.
Durante o período chuvoso, uma parte da água penetra no solo e contribui para abastecer os aquíferos e as reservas subterrâneas. Parece algo distante, mas não é. O que acontece debaixo dos nossos pés pode influenciar a disponibilidade de água em regiões que estão muito além dos limites do próprio bioma.
Quem conhece o Cerrado durante a época das chuvas pode até estranhar quando chega a seca. O verde intenso dá lugar aos tons dourados das gramíneas, o ar fica mais seco e a paisagem transmite a impressão de que a natureza está em pausa. Mas é justamente nesse período que o bioma revela algumas de suas estratégias mais fascinantes de sobrevivência. Por trás dessa aparência árida, existe um ecossistema adaptado, que sustenta uma enorme diversidade de vida.
As plantas e os animais são adaptados a essas mudanças. Muitas plantas possuem raízes profundas, capazes de buscar água em camadas mais baixas do solo. Algumas possuem cascas grossas, troncos retorcidos, folhas menores e outras características que ajudam a diminuir a perda de água durante o período de seca. Algumas entram em uma espécie de “economia de energia”, reduzindo seu crescimento ou perdendo as folhas como estratégia para diminuir a transpiração e, consequentemente, a perda de água.
Os animais também se adaptam. Alguns mudam seus horários de atividade, ficando mais ativos no começo da manhã ou à noite, quando as temperaturas são mais amenas, e procuram abrigo em tocas, debaixo da vegetação ou em locais mais úmidos.
O Cerrado durante os períodos de seca também surpreende pelo contraste entre árvores sem folhas e a floração. Espécies como os ipês transformam a paisagem com cores vibrantes, que variam entre amarelo, branco, rosa e roxo. Em meio a uma paisagem de tons marrons, surgem árvores completamente tomadas por flores, criando um espetáculo que chama a atenção de quem percorre esse ambiente.
A capacidade de resistir e se adaptar do Cerrado aparece em muitos outros detalhes, como a presença de espécies com características que favorecem sua sobrevivência e regeneração diante dos desafios naturais, especialmente em ambientes marcados por períodos de estiagem e transformações sazonais.
Entretanto, apesar de ser um ambiente resiliente, a intensidade e a frequência das transformações no território podem influenciar a vegetação, o solo e a fauna, afetando a biodiversidade e a capacidade de recuperação do bioma.
Nesse contexto, a conservação de áreas naturais tem papel fundamental para manter esses processos ecológicos e proteger espécies da fauna e da flora. Com o Parque Sesc Serra Azul, o Polo Socioambiental Sesc Pantanal, iniciativa do Sistema CNC-Sesc-Senac, contribui para a conservação de ambientes de Cerrado e para a manutenção da biodiversidade, além de possibilitar pesquisas, ações de conservação, educação ambiental e experiências de contato com a natureza. O cuidado desses espaços ajuda a manter não apenas a paisagem, mas também os ambientes que servem de abrigo e alimento para diferentes espécies e que participam dos ciclos naturais essenciais à vida.
Conhecer essas características ajuda a perceber que o Cerrado não é apenas uma paisagem de árvores baixas e troncos retorcidos. É um bioma complexo, formado por campos, veredas, matas de galeria, chapadões e formações rochosas, onde cada elemento desempenha uma função para a vida.
Falar sobre o Cerrado é falar sobre água, biodiversidade, recursos naturais, pesquisa, contemplação, lazer e aventura. Ou seja, é falar sobre beleza, resiliência e coexistência. Sendo assim, talvez esse seja um dos maiores ensinamentos do Cerrado: aquilo que parece seco não significa ausência de vida, mas adaptação. A natureza silenciosa, na verdade, está trabalhando intensamente e nos lembrando que conservar o Cerrado é conservar as condições que tornam a nossa própria vida possível.
Em áreas protegidas, como o Parque Sesc Serra Azul, essa relação pode ser vivenciada de perto, em meio a uma área de Cerrado conservado que também proporciona experiências de turismo de aventura, lazer e contato com a natureza. Trilhas, cachoeiras e diferentes atividades permitem conhecer e vivenciar a riqueza desse bioma, aproximando as pessoas da natureza e despertando um olhar mais atento para a importância de sua conservação.
Luiza Paranhos da Silva é analista ambiental do Polo Socioambiental Sesc Pantanal
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Quando a vida é doce
Por Kamila Garcia
A vida não nasce amarga. Somos nós que, aos poucos, vamos desaprendendo a sua doçura. Entre cobranças, perdas, responsabilidades e frustrações, deixamos para trás a espontaneidade de quem um dia acreditou que uma tarde brincando na rua poderia ser um grande acontecimento. Crescemos, aprendemos a cumprir horários, pagar contas e esconder fragilidades. Mas ninguém nos avisou que amadurecer não precisava significar endurecer.
Talvez uma das maiores perdas da vida adulta seja esquecer a criança que fomos. Aquela que corria, jogava bola, inventava histórias e encontrava felicidade nas coisas mais simples. O mundo parecia imenso porque ainda havia espaço para o encantamento.
Toda criança deveria ter o direito de simplesmente ser criança. Brincar, imaginar, descobrir, errar e aprender no seu próprio tempo. Parece óbvio, mas nem sempre é. Muitas convivem cedo demais com preocupações e conflitos que deveriam pertencer ao universo adulto.
A psicanalista Melanie Klein, uma das principais referências da psicanálise infantil, encontrou justamente no brincar um caminho para compreender o mundo interno da criança. Em sua prática clínica, percebeu que a brincadeira poderia exercer, na análise infantil, função semelhante à associação livre utilizada com adultos.
Ao brincar, a criança comunica aquilo que ainda não consegue transformar em palavras. Medos, fantasias, desejos, amor, raiva, culpa e angústias aparecem simbolicamente nos brinquedos, personagens e histórias que cria. Para Klein, brincar não era apenas diversão. Era linguagem, expressão e possibilidade de elaboração emocional.
E talvez seja justamente essa capacidade que vamos perdendo quando crescemos.
Em algum momento, brincar passa a ser visto como perda de tempo. A produtividade ocupa quase todos os espaços e a seriedade vira obrigação. Tornamo-nos adultos capazes de cumprir agendas e resolver problemas, mas, muitas vezes, incapazes de descansar, pedir ajuda ou experimentar alegria sem culpa.
Melanie Klein também demonstrou a importância dos primeiros vínculos afetivos na formação do nosso mundo interno. Experiências de amor, cuidado, ausência, frustração e acolhimento deixam marcas e influenciam a maneira como construímos relações ao longo da vida.
Crianças precisam de atenção, proteção, afeto e colo. Adultos também.
O colo apenas muda de forma. Pode ser uma conversa sem julgamento, um abraço, uma escuta verdadeira ou a presença de alguém quando as palavras já não conseguem explicar a dor.
Talvez esteja faltando justamente isso em nossas relações: doçura.
Vivemos cercados por cobranças e julgamentos. Exigimos força e equilíbrio como se demonstrar fragilidade fosse fraqueza. Esquecemos que cada pessoa carrega uma história feita de afetos, perdas, medos e feridas que nem sempre conseguimos enxergar.
Depois de um Setembro Amarelo e com a proximidade do Dia das Crianças, essa reflexão ganha ainda mais sentido. Olhar para a infância não significa romantizá-la — para muitos, ela não foi feliz. Significa reconhecer aquilo que permanece dentro de nós e que, por vezes, ainda pede cuidado.
A vida adulta tem contas, horários, compromissos e responsabilidades. Mas não precisa ser permanentemente cinza. Pode guardar espaço para alegria, imaginação, delicadeza, afeto e até para um pouco de fantasia.
Melanie Klein nos ensinou que, por meio do brincar, a criança expressa e elabora seu mundo interior. Talvez nós, adultos, também precisemos recuperar algo dessa capacidade: brincar com a existência sem deixar de levá-la a sério.
Porque crescer é inevitável. Perder a doçura não deveria ser.
Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.
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