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O sofrimento que ninguém vê

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Por Dara Luiza

Há sofrimentos que gritam. Outros aprenderam a sorrir.

Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes que o Setembro Amarelo nos convida a fazer. Nem toda pessoa que está sofrendo emocionalmente deixa de trabalhar, abandona seus compromissos ou demonstra, de maneira evidente, que precisa de ajuda. Algumas continuam produzindo, cuidando dos filhos, participando de reuniões, respondendo a mensagens e até fazendo piadas. Por fora, a vida parece seguir normalmente. Por dentro, porém, pode existir uma batalha que ninguém percebe.

O sofrimento psíquico não tem uma única aparência. Ele pode estar na pessoa que chora, mas também naquela que não consegue mais chorar. Pode surgir como tristeza, mas também como irritabilidade, isolamento, alterações no sono, perda de interesse, sensação persistente de vazio, desesperança ou exaustão. E pode existir até mesmo quando, para quem está de fora, “está tudo bem”.

É justamente aí que mora um dos grandes desafios: ainda temos o hábito de validar apenas aquilo que conseguimos enxergar.

Quando alguém quebra um braço, ninguém espera que simplesmente ignore a dor e continue sua rotina. Quando existe uma doença física, procurar atendimento é compreendido como uma atitude necessária. Mas, diante do sofrimento emocional, ainda ouvimos frases como “você precisa reagir”, “pense positivo”, “tem gente passando por coisa pior” ou “isso é falta do que fazer”.

Muitas vezes, essas frases são ditas na tentativa de ajudar. Mas, para quem está sofrendo, podem ter outro efeito: fazer com que a pessoa se sinta incompreendida e ainda mais sozinha.

Depressão não é sinônimo de tristeza passageira. Transtornos mentais não são falta de força de vontade. E uma crise suicida não pode ser reduzida a uma única causa ou explicação. O comportamento suicida é um fenômeno complexo, influenciado pela interação de diferentes fatores psicológicos, sociais, biológicos e ambientais.

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Também precisamos abandonar a ideia de que falar sobre suicídio incentiva alguém a praticá-lo. Quando essa conversa acontece de maneira responsável, acolhedora e sem julgamentos, perguntar diretamente a uma pessoa em sofrimento se ela está pensando em morrer pode abrir espaço para que aquilo que estava escondido finalmente seja dito.

E, muitas vezes, ser ouvido é o primeiro passo para aceitar ajuda.

Um dos grandes obstáculos à prevenção ainda é o silêncio. Há pessoas que não procuram ajuda porque têm vergonha. Outras acreditam que serão julgadas ou têm medo de preocupar a família. Há também quem tenha passado tanto tempo desempenhando o papel de “forte” que já não saiba como dizer: “eu não estou conseguindo”.

Precisamos aprender a ouvir essa frase.

Isso também significa prestar atenção às mudanças. Afastamento repentino, desesperança persistente, falas sobre inutilidade ou sobre ser um peso para os outros, despedidas incomuns, abandono de atividades antes importantes e mudanças significativas de comportamento merecem atenção. Nenhum sinal isolado permite prever o que acontecerá, mas sinais de sofrimento não deveriam ser tratados com indiferença.

E acolher não significa ter todas as respostas.

Às vezes, a atitude mais importante não é oferecer um conselho, tentar encontrar uma solução ou dizer que tudo vai ficar bem. É permanecer. Escutar sem interromper. Não minimizar. Não comparar dores. Não transformar sofrimento em julgamento. E, principalmente, ajudar aquela pessoa a chegar ao cuidado profissional quando isso for necessário.

Prevenção também é acesso. É ter serviços de saúde mental disponíveis. É reconhecer precocemente o sofrimento. É garantir acompanhamento depois de uma crise. É preparar profissionais, famílias, escolas e ambientes de trabalho para perceber sinais e saber como agir.

Mas prevenção também acontece nas relações do dia a dia. Está na forma como perguntamos ao outro se está bem e, principalmente, na disposição para realmente ouvir a resposta. Está em perceber quando alguém que sempre esteve presente começa a se afastar. Está em não esperar que o sofrimento se torne uma crise para então oferecer ajuda.

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O Setembro Amarelo é importante porque coloca luz sobre um assunto que durante muito tempo permaneceu escondido. É um momento de ampliar a conversa, combater preconceitos e lembrar que saúde mental também precisa de cuidado.

Mas não podemos falar sobre prevenção somente em setembro.

Quando o mês termina, as pessoas que estavam sofrendo continuam vivendo suas dores. As famílias continuam enfrentando seus desafios. E aqueles que precisam de ajuda continuam precisando dela.

Por isso, a prevenção precisa acontecer durante todo o ano. Em janeiro, fevereiro, março e em todos os outros meses. Não como uma campanha que começa e termina no calendário, mas como um compromisso contínuo com a vida e com o cuidado.

Precisamos construir uma sociedade na qual pedir ajuda não seja interpretado como fraqueza. Na qual fazer tratamento psicológico ou psiquiátrico não seja motivo de vergonha. Na qual possamos perguntar “como você está?” e estejamos verdadeiramente preparados para ouvir uma resposta diferente de “estou bem”.

Porque, muitas vezes, quem mais precisa ser ouvido não está pedindo socorro em voz alta.

Está apenas ficando mais quieto.

Está se afastando.

Está cansado de explicar.

Ou continua sorrindo para que ninguém perceba.

Por isso, neste Setembro Amarelo, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quantas pessoas estão sofrendo, mas quantas estão sofrendo ao nosso lado sem que ninguém perceba.

O sofrimento que ninguém vê continua sendo sofrimento.

E enxergá-lo, acolhê-lo e favorecer o acesso ao cuidado pode fazer toda a diferença. Não apenas em setembro, mas durante todo o ano.

Dara Luiza, psicóloga do Viver Bem da Unimed Cuiabá

 

 

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Tempo da criação e o calendário ecológico

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Por Juacy da Silva

Estamos em pleno período de 1º de setembro a 4 de outubro, quando as Igrejas Cristãs, Católica Romana, Ortodoxa e Evangélicas celebram o Tempo da Criação. Um tempo de reflexão e de orações, mas também um chamado às ações voltadas a um melhor cuidado com a natureza e com a população que sofre as consequências da degradação dos biomas e ecossistemas, principalmente os pobres e excluídos, sobre os quais esses impactos são mais devastadores.

Por isso, desde 2015, com a publicação da Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco já nos exortava dizendo que, neste planeta Terra, “tudo está interligado”: a destruição das florestas tropicais afeta o clima mundial; a poluição do ar é responsável por mais de sete milhões de mortes desnecessárias todos os anos; a degradação das águas, tanto de córregos, rios, mares e oceanos, principalmente desses últimos, afeta o clima e o regime das chuvas, provoca secas prolongadas que favorecem os incêndios florestais e a elevação do nível e da temperatura dos oceanos, e contribui para o derretimento das calotas polares e das geleiras, favorecendo desastres “naturais” como temos presenciado nesses últimos dias no Nepal e, com certeza, muitas outras consequências ainda virão nos próximos anos e décadas.

De forma semelhante, também o Papa Francisco, na mesma Encíclica Laudato Si, nos alertava quanto às consequências da destruição dos ecossistemas e biomas que recaem com muito mais impacto sobre as populações vulneráveis, ao afirmar textualmente que “o grito da terra é também o grito dos pobres e excluídos”.

E, para finalizar esta reflexão, não podemos deixar de mencionar que todo este processo de destruição da natureza, da biodiversidade e das águas, somado à poluição dos solos e do ar, é o responsável direto pelo aquecimento global e pelo aumento da temperatura da Terra, que já está impactando a saúde da população e a economia e poderá impossibilitar todos os tipos de vida no planeta, principalmente dos seres humanos.

Lamentavelmente, os responsáveis pelos sistemas políticos e pela economia não percebem que esta visão imediatista — a busca de lucro imediato sem considerar os limites da natureza — é a grande causa de todas as mazelas que estão se abatendo sobre a “mãe Terra”.

Ao longo desses 34 dias do Tempo da Criação, como podemos perceber, existem diversos momentos relacionados diretamente com aspectos importantes da Ecologia Integral. Este deveria ser um tempo de reflexão sobre cada um desses momentos e de busca por compreender melhor este processo de destruição socioambiental, para, de fato, encontrarmos as saídas.

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Essas saídas devem ter início com um processo de “conversão ecológica”, como também foi enfatizado na Encíclica Laudato Si, através do qual podemos transformar nossos hábitos consumistas e de desperdício, que tanto impactam o meio ambiente. Da mesma forma, precisamos lutar para que os sistemas econômicos predatórios, que estão exaurindo os recursos naturais e deixando um passivo ambiental impagável, possam ser transformados, tendo a sustentabilidade e o respeito aos consumidores e aos trabalhadores como seus novos paradigmas.

Cabe-nos ressaltar que o tema central do Tempo da Criação deste ano de 2026 é “Água Viva”, o que nos remete à gravidade da crise hídrica que atualmente afeta praticamente todos os países, inclusive o Brasil.

No nosso caso (Brasil), esses impactos já estão sendo sentidos há algumas décadas, mas a omissão de nossos governantes, do empresariado e também da própria população está nos conduzindo para uma verdadeira catástrofe.

Todos os biomas brasileiros têm sofrido os impactos negativos da crise hídrica, que decorre das alterações no clima ao intensificarem os eventos extremos em todo o país, aproximando ecossistemas vitais do chamado “ponto de não retorno”.

Por exemplo, a Amazônia tem sofrido com secas históricas jamais vistas e sentidas ao longo de décadas, com redução do volume de água de seus rios e dos chamados rios voadores, importantes para o clima das demais regiões do país, em decorrência do desmatamento ocorrido ao longo de várias décadas.

O Cerrado tem experimentado períodos de secas mais prolongados, destruição de suas nascentes, afetando diversas bacias hidrográficas, e a destruição de sua rica biodiversidade, em decorrência de um modelo agropastoril que não respeita o bioma.

O Pantanal, considerado um dos mais exuberantes patrimônios da humanidade pela UNESCO, ao longo das últimas quatro décadas já perdeu 30% de sua superfície de água e mais de 20 milhões de hectares pelo desmatamento e incêndios florestais, inclusive de natureza criminosa.

Os rios e bacias que “abastecem” o Pantanal, como os rios Cuiabá, Paraguai, São Lourenço e outros mais, estão morrendo pela destruição de suas nascentes, pela poluição urbana, pelo agrotóxico, pelo mercúrio de garimpos legais ou ilegais e também pela presença de inúmeras PCHs — Pequenas Centrais Hidrelétricas — que estão reduzindo a vazão desses cursos d’água.

Os demais biomas, como a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pampa, também enfrentam sérios problemas hídricos, afetando principalmente centros urbanos importantes, com milhões de habitantes, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

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Ao longo desses 34 dias do Tempo da Criação, teremos 20 dias especiais, vários dos quais diretamente ou indiretamente relacionados com a crise hídrica brasileira, e outros que nos remetem à necessidade de um cuidado especial tanto no sentido da preservação quanto da conservação, diante da importância desses momentos no equilíbrio socioambiental.

Tendo em vista a origem das celebrações do Tempo da Criação, julgamos importante que tanto a Igreja Católica quanto as igrejas evangélicas — enfim, o povo cristão — demonstrem na prática, e não apenas com orações, a necessidade de um melhor cuidado com as obras da criação, sendo coerentes com a fé cristã diante do Criador.

Segue a relação dos momentos especiais que devemos, como cristãos, observar e celebrar durante esses 34 dias do Tempo da Criação, de 1º de setembro a 4 de outubro.

SETEMBRO

1º de setembro a 4 de outubro: Tempo da Criação

01 Festa da Criação e momento de abertura do Tempo da Criação

01 Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

03 Dia do Biólogo

05 Dia da Amazônia

05 Dia Internacional da Sobrecarga de plásticos (Dia Internacional do excesso de plásticos)

07 Dia da Independência do Brasil

07 Dia Mundial do Ar Limpo (Combate à poluição do Ar)

11 Dia Nacional do Cerrado

16 Dia Internacional de luta para a preservação da Camada de Ozônio

19 Dia Mundial de luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de março)

21 Dia da Árvore (ver também 21 de março e 17 de julho)

22 Dia Nacional em defesa da Fauna

25 Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

29 Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Desperdício Zero). Ver também 30 de março

29 Dia Mundial dos Rios

OUTUBRO

01 Dia Internacional e Nacional das Pessoas Idosas

01 Dia do Vegetarianismo

03 Dia Nacional da Agroecologia

03 Dia Nacional das Abelhas (ver 20 de maio)

04 Dia de São Francisco de Assis e Encerramento do Tempo da Criação

04 Dia da Natureza

04 Dia dos Animais

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail: [email protected]| Instagram: @profjuacy | WhatsApp: 65 9 9272 0052

 

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