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O varejo não quebrou, mas a cabeça do cliente mudou

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Por Júnior Macagnam

Voltei da Omni Varejo 2026, em João Pessoa, com a cabeça fervendo. Não foi por causa do calor nordestino, mas de uma palestra do publicitário Walter Longo, que me fez repensar quase tudo o que fazemos no comércio cuiabano.

O varejo não está em crise. O que está acontecendo é uma mudança brutal na cabeça do consumidor. Como disse Longo: “Agora, assistimos a uma migração sem precedentes, mas ela é cognitiva, não geográfica.” Seu cliente não mudou de bairro — mudou dentro da própria cabeça. Ele quer respostas rápidas, soluções imediatas. E quem não perceber isso vai ficar para trás.

Nicholas Carr, jornalista, explica que estamos migrando a atividade neural do hipocampo (pensamento profundo) para o córtex pré-frontal (piloto automático). A revista The Economist estima que as distrações digitais custam US$ 650 bilhões por ano aos Estados Unidos. Aqui no Brasil, a conta também é pesada.

A saída? Um modelo de negócio mais leve. Longo foi direto: “O segredo do futuro não está em ter mais, e sim em ser mais leve.” Menos estoque, menos peso, mais flexibilidade. O cliente quer agilidade, e estoque enorme virou âncora.

No marketing, a virada é igualmente radical: “O futuro não está em atingir pessoas em massa, mas em compreender pessoas em frações.” Pessoas não são — pessoas estão. Tratar o cliente como ficha cadastral é coisa do passado.

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E a cereja do bolo: “Gerir uma empresa daqui para frente significa entender como funcionam as pessoas, e não apenas o negócio.” A economista inglesa Dame Minouche Shafik resume bem: “No passado, empregos dependiam de músculos; agora, do cérebro; no futuro, vão depender do coração.”

Mas não dá para ignorar o presente: juros nas alturas, inadimplência que não dá trégua, custo de capital corroendo margens e um fenômeno que vem arrasando milhares de pessoas no país — as apostas esportivas e os jogos online passaram a disputar espaço no orçamento dos brasileiros. A realidade é dura, e fingir que ela não existe é receita para o fracasso.

E é justamente aí que mora a oportunidade. Estoque enxuto não é só modernidade: é menos dinheiro parado pagando juros altos. Atendimento personalizado não é só marketing: é fidelizar quem já compra, mesmo com crédito restrito. Gestão com coração não é só empatia: é time engajado, que vende mais e gera indicações — o melhor remédio contra a queda de consumo.

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E a inadimplência? A saída é usar tecnologia para analisar o perfil de crédito em tempo real, oferecer prazos que cabem no bolso e recuperar clientes com abordagem humana. Porque coração também se usa na hora de negociar.

Os lojistas que vão crescer não são os que ignoram os juros, são os que aprendem a dançar com eles. Margem apertada exige giro rápido. Capital caro exige criatividade. Cliente endividado exige oferta inteligente, não apenas desconto.

Como presidente da CDL Cuiabá, saio do evento convicto: nossos desafios são reais, mas nossas armas também. Temos tecnologia, conhecimento e, acima de tudo, um comércio que já provou que sabe renascer.

O varejo cuiabano vai ser mais leve, mais humano e mais esperto. Vai usar a crise como combustível para inovar.

Não tem mais volta: a cabeça do cliente já mudou. Os juros estão altos, a inadimplência existe, mas nossa capacidade de reinventar é maior. Agora é a nossa vez — e vamos sair dessa, maiores do que entramos.

Júnior Macagnam é empresário do setor da moda há mais de 20 anos e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Cuiabá (CDL Cuiabá).

 

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Tempo da criação e o calendário ecológico

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Por Juacy da Silva

Estamos em pleno período de 1º de setembro a 4 de outubro, quando as Igrejas Cristãs, Católica Romana, Ortodoxa e Evangélicas celebram o Tempo da Criação. Um tempo de reflexão e de orações, mas também um chamado às ações voltadas a um melhor cuidado com a natureza e com a população que sofre as consequências da degradação dos biomas e ecossistemas, principalmente os pobres e excluídos, sobre os quais esses impactos são mais devastadores.

Por isso, desde 2015, com a publicação da Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco já nos exortava dizendo que, neste planeta Terra, “tudo está interligado”: a destruição das florestas tropicais afeta o clima mundial; a poluição do ar é responsável por mais de sete milhões de mortes desnecessárias todos os anos; a degradação das águas, tanto de córregos, rios, mares e oceanos, principalmente desses últimos, afeta o clima e o regime das chuvas, provoca secas prolongadas que favorecem os incêndios florestais e a elevação do nível e da temperatura dos oceanos, e contribui para o derretimento das calotas polares e das geleiras, favorecendo desastres “naturais” como temos presenciado nesses últimos dias no Nepal e, com certeza, muitas outras consequências ainda virão nos próximos anos e décadas.

De forma semelhante, também o Papa Francisco, na mesma Encíclica Laudato Si, nos alertava quanto às consequências da destruição dos ecossistemas e biomas que recaem com muito mais impacto sobre as populações vulneráveis, ao afirmar textualmente que “o grito da terra é também o grito dos pobres e excluídos”.

E, para finalizar esta reflexão, não podemos deixar de mencionar que todo este processo de destruição da natureza, da biodiversidade e das águas, somado à poluição dos solos e do ar, é o responsável direto pelo aquecimento global e pelo aumento da temperatura da Terra, que já está impactando a saúde da população e a economia e poderá impossibilitar todos os tipos de vida no planeta, principalmente dos seres humanos.

Lamentavelmente, os responsáveis pelos sistemas políticos e pela economia não percebem que esta visão imediatista — a busca de lucro imediato sem considerar os limites da natureza — é a grande causa de todas as mazelas que estão se abatendo sobre a “mãe Terra”.

Ao longo desses 34 dias do Tempo da Criação, como podemos perceber, existem diversos momentos relacionados diretamente com aspectos importantes da Ecologia Integral. Este deveria ser um tempo de reflexão sobre cada um desses momentos e de busca por compreender melhor este processo de destruição socioambiental, para, de fato, encontrarmos as saídas.

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Essas saídas devem ter início com um processo de “conversão ecológica”, como também foi enfatizado na Encíclica Laudato Si, através do qual podemos transformar nossos hábitos consumistas e de desperdício, que tanto impactam o meio ambiente. Da mesma forma, precisamos lutar para que os sistemas econômicos predatórios, que estão exaurindo os recursos naturais e deixando um passivo ambiental impagável, possam ser transformados, tendo a sustentabilidade e o respeito aos consumidores e aos trabalhadores como seus novos paradigmas.

Cabe-nos ressaltar que o tema central do Tempo da Criação deste ano de 2026 é “Água Viva”, o que nos remete à gravidade da crise hídrica que atualmente afeta praticamente todos os países, inclusive o Brasil.

No nosso caso (Brasil), esses impactos já estão sendo sentidos há algumas décadas, mas a omissão de nossos governantes, do empresariado e também da própria população está nos conduzindo para uma verdadeira catástrofe.

Todos os biomas brasileiros têm sofrido os impactos negativos da crise hídrica, que decorre das alterações no clima ao intensificarem os eventos extremos em todo o país, aproximando ecossistemas vitais do chamado “ponto de não retorno”.

Por exemplo, a Amazônia tem sofrido com secas históricas jamais vistas e sentidas ao longo de décadas, com redução do volume de água de seus rios e dos chamados rios voadores, importantes para o clima das demais regiões do país, em decorrência do desmatamento ocorrido ao longo de várias décadas.

O Cerrado tem experimentado períodos de secas mais prolongados, destruição de suas nascentes, afetando diversas bacias hidrográficas, e a destruição de sua rica biodiversidade, em decorrência de um modelo agropastoril que não respeita o bioma.

O Pantanal, considerado um dos mais exuberantes patrimônios da humanidade pela UNESCO, ao longo das últimas quatro décadas já perdeu 30% de sua superfície de água e mais de 20 milhões de hectares pelo desmatamento e incêndios florestais, inclusive de natureza criminosa.

Os rios e bacias que “abastecem” o Pantanal, como os rios Cuiabá, Paraguai, São Lourenço e outros mais, estão morrendo pela destruição de suas nascentes, pela poluição urbana, pelo agrotóxico, pelo mercúrio de garimpos legais ou ilegais e também pela presença de inúmeras PCHs — Pequenas Centrais Hidrelétricas — que estão reduzindo a vazão desses cursos d’água.

Os demais biomas, como a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pampa, também enfrentam sérios problemas hídricos, afetando principalmente centros urbanos importantes, com milhões de habitantes, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

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Ao longo desses 34 dias do Tempo da Criação, teremos 20 dias especiais, vários dos quais diretamente ou indiretamente relacionados com a crise hídrica brasileira, e outros que nos remetem à necessidade de um cuidado especial tanto no sentido da preservação quanto da conservação, diante da importância desses momentos no equilíbrio socioambiental.

Tendo em vista a origem das celebrações do Tempo da Criação, julgamos importante que tanto a Igreja Católica quanto as igrejas evangélicas — enfim, o povo cristão — demonstrem na prática, e não apenas com orações, a necessidade de um melhor cuidado com as obras da criação, sendo coerentes com a fé cristã diante do Criador.

Segue a relação dos momentos especiais que devemos, como cristãos, observar e celebrar durante esses 34 dias do Tempo da Criação, de 1º de setembro a 4 de outubro.

SETEMBRO

1º de setembro a 4 de outubro: Tempo da Criação

01 Festa da Criação e momento de abertura do Tempo da Criação

01 Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

03 Dia do Biólogo

05 Dia da Amazônia

05 Dia Internacional da Sobrecarga de plásticos (Dia Internacional do excesso de plásticos)

07 Dia da Independência do Brasil

07 Dia Mundial do Ar Limpo (Combate à poluição do Ar)

11 Dia Nacional do Cerrado

16 Dia Internacional de luta para a preservação da Camada de Ozônio

19 Dia Mundial de luta pela Limpeza das Águas (ver também 22 de março)

21 Dia da Árvore (ver também 21 de março e 17 de julho)

22 Dia Nacional em defesa da Fauna

25 Dia da Bandeira dos ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável

29 Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos (Dia Internacional do Desperdício Zero). Ver também 30 de março

29 Dia Mundial dos Rios

OUTUBRO

01 Dia Internacional e Nacional das Pessoas Idosas

01 Dia do Vegetarianismo

03 Dia Nacional da Agroecologia

03 Dia Nacional das Abelhas (ver 20 de maio)

04 Dia de São Francisco de Assis e Encerramento do Tempo da Criação

04 Dia da Natureza

04 Dia dos Animais

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral. E-mail: [email protected]| Instagram: @profjuacy | WhatsApp: 65 9 9272 0052

 

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