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Oportunidade global, exigência real: o que o acordo Mercosul-UE revela ao agro brasileiro

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Por Wanessa Zagner

O acordo entre Mercosul e União Europeia representa, sem dúvida, um dos movimentos mais relevantes das últimas décadas no comércio internacional. Não apenas pelo simbolismo político de uma negociação que levou mais de 20 anos para ser concluída, mas, principalmente, pela dimensão econômica envolvida. Trata-se da integração de dois dos maiores blocos do mundo, formando uma das maiores áreas de livre comércio global.

Estamos falando de um mercado europeu com mais de 450 milhões de consumidores, PIB próximo de US$ 20 trilhões e responsável por uma parcela significativa do comércio agrícola mundial. Para o Brasil, especialmente para o agronegócio e a indústria frigorífica, o potencial é evidente.

Hoje, o país já figura entre os maiores exportadores agrícolas do mundo, com US$ 144,8 bilhões exportados e mais de US$ 21,8 bilhões direcionados à União Europeia, o que representa cerca de 44% da pauta exportadora brasileira para o bloco. Além disso, o acordo prevê uma abertura comercial expressiva, com redução ou eliminação de tarifas para a maior parte dos produtos, chegando a mais de 90% das mercadorias comercializadas entre os blocos ao longo do tempo.

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Mas é exatamente nesse ponto que surge o principal equívoco estratégico que tenho observado na prática: acesso ao mercado não significa competitividade automática. O discurso da oportunidade precisa vir acompanhado de uma leitura mais técnica e menos superficial, porque, paralelamente à redução de tarifas, o acordo também reforça compromissos rigorosos relacionados à sustentabilidade, rastreabilidade, exigências sanitárias e conformidade regulatória. E isso muda completamente o jogo.

Na minha atuação com empresas do agro e frigoríficos, é comum perceber que muitos negócios ainda enxergam a exportação como um movimento essencialmente comercial, quando, na verdade, trata-se de uma decisão estrutural. Exportar não começa no embarque, começa na organização jurídica, tributária e regulatória. Afinal, o mercado europeu não opera apenas com base em preço ou volume, ele opera com base em conformidade.

E aqui está o ponto central: empresas que não conseguem comprovar origem, atender requisitos ambientais, estruturar contratos internacionais adequados e manter consistência documental não encontram oportunidades, encontram barreiras, e nenhuma tarifa reduzida resolve isso.

Outro dado relevante reforça essa realidade. O acordo não trata apenas de comércio, mas também de segurança jurídica, previsibilidade e alinhamento regulatório, criando um ambiente mais exigente, porém mais estruturado para investidores e exportadores. Ou seja, a régua subiu, e subiu para todos… e para o setor frigorífico isso é ainda mais sensível.

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Estamos falando de cadeias produtivas que envolvem sanidade animal, bem-estar, rastreabilidade e padrões ambientais cada vez mais rigorosos. Qualquer falha pode significar não apenas a perda de uma negociação, mas a exclusão de mercados inteiros. Nesse cenário, o direito tributário assume um papel estratégico, não apenas na redução de carga fiscal, mas na estruturação da operação internacional como um todo, incluindo a definição de modelos de exportação, análise de regimes fiscais, organização societária e mitigação de riscos em contratos transnacionais.

No final, o que diferencia empresas que exportam com consistência daquelas que apenas tentam exportar não é o produto, é a estrutura. O acordo Mercosul-União Europeia abre portas, sem dúvidas, mas não é ele que decide quem entra. Quem decide é a capacidade da empresa de operar com inteligência, conformidade e segurança jurídica, e, no cenário global atual, isso deixou de ser diferencial, passou a ser requisito.

Wanessa Zagner é advogada tributarista especializada no agro e na indústria frigorífica da ZR Advogados

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SAÚDE, ODS E CONTROLE: o que precisa avançar em Mato Grosso

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Por Guilherme Antonio Maluf

A Agenda 2030 da ONU estabeleceu os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um plano global para erradicar a pobreza, promover educação de qualidade, proteger o planeta e fortalecer sociedades pacíficas e inclusivas até 2030. Na área da saúde, destaca-se o ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), além de outros diretamente relacionados, como o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), o ODS 6 (Água Potável e Saneamento) e o ODS 10 (Redução das Desigualdades).

No Brasil, apesar de avanços, persistem desafios relevantes, como a mortalidade infantil de 14,2 por mil nascidos vivos em 2024 e a cobertura vacinal abaixo da meta de 95% em diversas regiões. Em Mato Grosso, o principal desafio é alinhar as políticas públicas locais às metas globais, assegurando eficiência, transparência e acesso às informações sobre a saúde da população.

Os Conselhos de Saúde são instâncias essenciais de participação social e fiscalização. Cabe a eles monitorar a execução dos planos municipais, acompanhar a aplicação dos recursos e promover o diálogo entre gestores e sociedade. No entanto, enfrentam limitações, como baixa capacitação técnica e dificuldade de acesso a informações qualificadas.

Nesse contexto, o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) realizará, nos dias 23, 24 e 25 de junho, a capacitação “Fortalecimento do Controle na Saúde: Controle e Monitoramento dos Planos”. O evento reunirá pesquisadores, prefeitos, secretários de saúde e conselheiros, com o objetivo de fortalecer a atuação dos conselhos e alinhar práticas aos indicadores dos ODS.

O TCE-MT exerce o controle externo, fiscalizando a legalidade, legitimidade e economicidade dos gastos públicos. Sua atuação complementa a dos Conselhos de Saúde, ao fornecer análises técnicas e auditorias que qualificam a tomada de decisão. A capacitação proposta reforça essa integração, promovendo cooperação e aprendizado contínuo.

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A articulação entre ODS, secretarias de saúde, conselhos municipais e controle externo é decisiva para a melhoria da saúde pública. O ODS 2 relaciona-se ao combate à desnutrição infantil; o ODS 6, ao acesso ao saneamento básico; e o ODS 10, à redução das desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Quando esses atores alinham suas ações, promovem políticas públicas mais efetivas e sustentáveis.

A melhoria dos resultados em saúde depende da integração entre planejamento estratégico, participação social e controle institucional. As secretarias de saúde desempenham papel central na execução das políticas, transformando diretrizes em ações concretas e articulando os diferentes níveis de atenção.

Para que essa integração seja efetiva, é fundamental investir na capacitação contínua de conselheiros e gestores, garantindo domínio de indicadores e ferramentas de monitoramento, como o Radar da Saúde do TCE-MT. A transparência deve ser ampliada, permitindo que sociedade e órgãos de controle acompanhem a execução dos planos e cobrem resultados.

A cooperação entre Conselhos, secretarias, o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Mato Grosso (Cosems-MT) e o TCE-MT fortalece a governança e aprimora os mecanismos de controle social. A capacitação promovida pelo Tribunal representa um avanço nesse processo, ao reunir atores estratégicos, ampliar a capacidade técnica e incentivar a cultura de accountability, entendida como a responsabilidade por decisões e resultados.

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Com isso, Mato Grosso avança na construção de uma gestão pública mais eficiente, transparente e orientada a resultados, com impactos concretos, como aumento da cobertura vacinal, redução da mortalidade infantil e ampliação do acesso ao saneamento. Alinhar planejamento, execução e fiscalização é essencial para cumprir as metas da Agenda 2030 e garantir qualidade de vida à população.

Guilherme Antonio Maluf é é graduado em Medicina pela Universidade de Santo Amaro (1986). Fez residência médica em Cirurgia-geral pela Universidade de São Paulo (USP) (1988-1990). É especialista em Cirurgia-geral e Endoscopia Digestiva pela USP (1991). Pós-graduado em Gerente de Cidades pela FAAP-SP (2013). Mestre em Administração Pública pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa – IDP. Doutorando em Direito pela Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo – FADISP. Foi vereador por Cuiabá (2005-2006). Deputado Estadual por quatro mandatos (2007-2010/ 2011-2014/ 2015-2018/ 2019-2022). Secretário de Saúde de Cuiabá (2007-2008). Presidente da Assembleia Legislativa (2015-2017). Primeiro Secretário da Assembleia Legislativa (2017-2019). Governador Interino de Mato Grosso (abril 2016 – cinco dias). Tomou posse como Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso – TCE-MT em 1/3/2019. Atualmente, exerce o cargo de corregedor-geral do TCE-MT e de presidente da Comissão Permanente de Saúde, Previdência e Assistência Social do TCE-MT.

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