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Queda de cabelo pode ser sinal de alterações hormonais e até de emagrecimento acelerado
Encontrar mais fios no travesseiro, no banho ou na escova costuma gerar preocupação imediata. A queda de cabelo é frequentemente associada a questões dermatológicas ou estéticas, mas nem sempre sua origem está apenas no couro cabeludo. Alterações hormonais, deficiências nutricionais, doenças metabólicas e até uma perda de peso muito rápida podem estar por trás do problema.
O cabelo também responde ao que acontece dentro do organismo. Por isso, quando a queda se torna intensa, persistente ou diferente do padrão habitual, é importante investigar a causa em vez de simplesmente recorrer a vitaminas, suplementos ou tratamentos por conta própria.
Na endocrinologia, uma das primeiras condições que merecem atenção são as alterações da tireoide. Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem interferir no ciclo de crescimento dos fios. Dependendo do quadro, a pessoa também pode apresentar mudanças de peso, cansaço, alterações no sono, palpitações, intolerância ao frio ou ao calor e modificações no funcionamento intestinal.
Mas a tireoide não explica todos os casos.
Deficiências de nutrientes importantes para o organismo também podem repercutir na saúde dos cabelos. Ferro, proteínas, zinco e algumas vitaminas participam de processos relacionados ao crescimento e à manutenção dos fios. Isso não significa, entretanto, que toda pessoa com queda de cabelo precise tomar suplementos.
A suplementação sem diagnóstico merece cuidado. O excesso de determinados nutrientes não necessariamente melhora a queda e pode inclusive trazer prejuízos à saúde. O correto é investigar se existe uma deficiência e, quando ela estiver presente, definir a reposição adequada.
Outro fenômeno que ganhou relevância nos últimos anos é a queda de cabelo associada ao emagrecimento rápido. Quando ocorre uma redução expressiva de peso em pouco tempo, especialmente quando acompanhada de ingestão insuficiente de calorias ou nutrientes, o organismo pode interpretar essa situação como um período de estresse.
Uma das possíveis manifestações é o chamado eflúvio telógeno, condição em que uma quantidade maior de fios entra simultaneamente na fase de queda. Um detalhe importante é que isso nem sempre acontece imediatamente. A pessoa pode perceber o aumento da queda alguns meses depois do fator que a desencadeou.
Essa discussão tornou-se ainda mais importante com o avanço dos tratamentos contra a obesidade. Medicamentos modernos trouxeram benefícios relevantes para pacientes que têm indicação, mas o acompanhamento precisa ir além do número mostrado pela balança.
Em alguns casos, a diminuição importante do apetite e a rápida perda de peso podem levar o paciente a consumir menos proteínas e nutrientes do que necessita. Portanto, quando ocorre queda de cabelo durante um processo de emagrecimento, não devemos concluir automaticamente que o medicamento é o responsável direto. É preciso avaliar a velocidade da perda de peso, a alimentação, possíveis deficiências nutricionais, doenças associadas e outros fatores.
O objetivo do tratamento da obesidade não deve ser simplesmente perder o máximo de peso possível no menor tempo. Precisamos buscar redução de peso com preservação da saúde, da massa muscular e de um estado nutricional adequado.
Além da tireoide e do emagrecimento acelerado, alterações hormonais relacionadas à síndrome dos ovários policísticos, períodos de grande estresse físico ou emocional, pós-parto, anemia, doenças crônicas e determinados medicamentos também podem estar envolvidos na queda capilar.
É justamente pela quantidade de causas possíveis que o diagnóstico faz diferença. Um sintoma aparentemente estético pode ser uma das primeiras manifestações de uma alteração que merece atenção.
Quando a queda é persistente ou intensa, principalmente se vier acompanhada de outros sintomas, é importante procurar avaliação médica. Dependendo das características do quadro, a investigação pode envolver diferentes especialidades, entre elas a dermatologia e a endocrinologia.
Antes de buscar a vitamina da moda ou tentar interromper a queda apenas tratando o fio, precisamos fazer uma pergunta mais importante: o que o organismo pode estar tentando sinalizar?
O cabelo também pode refletir a saúde metabólica, hormonal e nutricional. E encontrar a causa é sempre mais importante do que simplesmente tratar o sintoma.
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O custo real do câncer e a sustentabilidade dos hospitais especializados
Por Rafael Sodré
Boa parte do tratamento oncológico no Brasil é realizada por hospitais filantrópicos habilitados pelo Ministério da Saúde. Dos 338 estabelecimentos credenciados no país, 205 são filantrópicos. Em 2025, eles responderam por 66% das 4,7 milhões de sessões de quimioterapia e por 73% dos quase 190 mil procedimentos de radioterapia realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essas instituições atuam como Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) ou Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon). Discutir o enfrentamento do câncer, portanto, exige discutir a sustentabilidade financeira desses hospitais.
A assistência ainda é remunerada principalmente por produção, com base em uma tabela cuja defasagem acumulada é estimada pelo setor filantrópico em cerca de 60%. O hospital presta o atendimento, recebe o valor tabelado e precisa cobrir a diferença com doações, complementações estaduais, emendas parlamentares ou endividamento.
O Hospital de Câncer de Mato Grosso (HCanMT) retrata essa realidade. Entre setembro de 2024 e setembro de 2025, foram realizados 246.891 atendimentos, incluindo 37.562 sessões de quimioterapia, 32.782 de radioterapia, 6.946 internações e 5.632 cirurgias.
No período, o HCanMT registrou receita mensal de R$ 6,8 milhões, sendo R$ 5,3 milhões provenientes do contrato com o SUS, R$ 765 mil do Fundo Estadual e cerca de R$ 800 mil em doações. As despesas chegaram a R$ 10,1 milhões, o que resultou em um déficit estrutural de R$ 3,3 milhões por mês. Somente materiais e medicamentos consumiram R$ 3,3 milhões mensais.
Essa diferença aparece de forma ainda mais clara no atendimento ao paciente. Uma internação oncológica pode gerar um repasse de R$ 1.438 e custar até R$ 8.050. Uma distância dessa dimensão não pode ser compensada apenas por ganhos de eficiência. Sem recursos complementares, o hospital fica diante de duas alternativas: reduzir a oferta ou comprometer sua capacidade financeira.
O cenário se agrava com a incorporação de novas tecnologias e medicamentos, que eleva os custos em ritmo superior ao da atualização da tabela. Soma-se a isso o diagnóstico tardio: muitos pacientes chegam em estágio avançado, quando o tratamento é mais longo, caro e menos eficaz. O sistema paga duas vezes por esse atraso, com desfechos piores e despesas maiores.
Quando o financiamento regular não cobre a operação, a continuidade do serviço passa a depender de emendas, aportes extraordinários e negociações pontuais. Em Mato Grosso, a reestruturação do contrato estadual avançou em junho de 2026, por meio de um termo de compromisso articulado pelo Tribunal de Contas do Estado. O acordo preserva o atendimento, mas evidencia que um serviço essencial não pode depender de mediações, ciclos eleitorais ou decisões ocasionais.
A criação do Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia, em outubro de 2025, representou um avanço ao reorganizar o financiamento e a dispensação de medicamentos. A medida, contudo, não resolve o custeio de pessoal, cirurgias, leitos, terapia intensiva e radioterapia, ainda remunerados por valores defasados.
É necessário revisar periodicamente os valores dos procedimentos, adotar modelos que combinem pagamento por produção e custeio fixo, estabelecer regras de reequilíbrio econômico-financeiro e garantir financiamento plurianual entre União, estados e municípios. Também é indispensável investir em rastreamento e diagnóstico precoce, reduzindo a mortalidade e o custo do tratamento.
O financiamento da oncologia precisa ser tratado como política permanente, não como uma sucessão de emergências. Os hospitais especializados já demonstraram capacidade para entregar volume e qualidade dentro do SUS. Cabe agora ao sistema garantir recursos compatíveis com a assistência que contratou.
Dr. Rafael Sodré de Aragão Vasconcellos Pereira é cirurgião oncológico e diretor técnico do Hospital de Câncer de Mato Grosso.
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