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As cores da estiagem pantaneira

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Por Miguel Moura Kehl

Quando as águas recuam e a estação seca se instala, o Pantanal muda de aparência: baías e corixos diminuem, áreas alagadas dão lugar ao solo exposto e a vegetação enfrenta a estiagem. É nesse momento, entre junho e outubro, que árvores emblemáticas da região florescem, exibindo nuances que vão do roxo e lilás ao amarelo, rosa e branco. Destacam-se o ipê-roxo, o ipê-amarelo, o ipê-branco e outra árvore, o cambará.

Os ipês perdem naturalmente as folhas antes da floração, o que ajuda a conservar água em períodos de baixa umidade do solo. Com a copa nua, as flores ficam mais expostas, favorecendo sua visitação pelos polinizadores.

Com frutos e brotos escassos nessa época, as flores dos ipês tornam-se uma importante fonte de alimento, do néctar às pétalas, atraindo mais de trinta espécies de aves, entre beija-flores, papagaios, sanhaços, aracuãs e araras.

Já o cambará é símbolo do pulso de inundação: tolera tanto cheias prolongadas quanto a travessia da seca. Suas flores amarelas atraem abelhas nativas, tornando-o uma planta apícola valiosa, e seus troncos e copas servem de suporte para ninhos de aves e abrigo para mamíferos.

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As floradas se espalham por todo o Pantanal, mas as estradas-parque são os melhores eixos para observá-las: percorrem paisagens naturais e aproximam o visitante da vegetação nativa e da fauna, tornando o próprio percurso uma forma de conhecer o bioma.

A leste de Poconé, a Estrada-Parque Porto Cercado (MT-370) atravessa uma vegetação que transita entre cerrado, matas de galeria e campos inundáveis. No entorno, o Hotel Sesc Porto Cercado e o Parque Sesc Baía das Pedras dão acesso a áreas onde podem ser observados ipês-roxos, ipês-amarelos e cambarás.

Na Transpantaneira (MT-060), entre Poconé e Porto Jofre, baías, corixos e campos inundáveis se sucedem diante dos nossos olhos, enquanto os ipês pontuam o horizonte com suas diferentes tonalidades, especialmente entre agosto e setembro.

Além da beleza, o ipê-amarelo, conhecido regionalmente como paratudo ou ipê-paratudo, carrega valor histórico e cultural: sua casca é usada na medicina popular contra inflamações, febres, feridas e problemas digestivos e contém compostos estudados pela ciência, como o lapachol e o especiosídeo. Esses usos tradicionais, porém, não substituem recomendações médicas.

A conservação dessas formações sustenta a vegetação nativa e os processos ecológicos da região. A floração depende do fotoperíodo, da temperatura e da disponibilidade de água, com respostas que variam entre espécies e regiões. As mudanças climáticas já alteram esse ritmo: secas mais severas podem antecipar a floração, e chuvas fora de época podem atrasá-la ou até interrompê-la. É um lembrete de que esse espetáculo depende de um equilíbrio que ainda pode ser conservado.

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E, ainda assim, o ciclo se repete: as águas baixam, as folhas caem, as flores aparecem, e o Pantanal veste suas cores mais vivas, mais uma vez.

Miguel Moura Kehl é geógrafo e educador ambiental no Polo Socioambiental Sesc Pantanal.

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Antes da faixa, tem uma professora que chegou cedo

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Por Charles da Educação

Toda escola tem aquela professora que abre a sala antes do sinal. Chega com a sacola de material comprado do próprio bolso, escreve a data no quadro, confere quem faltou e já sabe, pelo nome, qual criança não tomou café em casa. Não tem faixa, não tem microfone, não tem foto no jornal. É nessa manhã comum, que se repete em dezenas de bairros de Várzea Grande, que a educação básica acontece de fato, bem antes de o calendário reservar um dia para lembrar dela.

Hoje é o Dia Nacional da Educação Básica, e eu tenho uma relação meio torta com datas assim. Elas são boas para lembrar, mas também servem, às vezes, para aliviar a consciência de quem passa o resto do ano sem olhar para a escola. A gente posta, aplaude o professor por 24 horas e volta ao normal no dia 27. Como carrego o apelido “da Educação”, ninguém vai estranhar que eu puxe esse assunto. Mas o que me interessa não é a homenagem. É o que vem depois dela.

A palavra “básica” atrapalha um pouco. Dá a impressão de coisa simples, o começo antes do que importa de verdade. É o contrário. É na base que quase tudo se decide. Uma criança que não é alfabetizada na hora certa não fica só “um pouco atrás”. Ela vai empurrando essa defasagem para o quinto ano, para o nono, até o dia em que desiste e alguém, lá na frente, vira estatística de evasão sem que ninguém ligue os pontos. Quem trabalha com educação sabe: o problema do ensino médio quase sempre nasceu na alfabetização.

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Nesse ponto, Várzea Grande tem do que se orgulhar, e eu não vou fingir que não. A rede municipal conquistou o Selo Ouro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada por dois anos seguidos. Isso não é sorte nem discurso. É professora chegando cedo, é criança lendo na idade certa, é gente da rede fazendo o trabalho difícil e miúdo que ninguém vê. São quase 40 mil alunos na rede, e cada um deles depende de que a gente leve a base a sério.

E não é conversa para o futuro. Há três semanas, saiu o novo Ideb, o boletim da escola pública, e o de Várzea Grande subiu. A rede municipal chegou a 5,7, o melhor resultado dos últimos anos, com escolas que deram saltos de verdade. A EMEB Maria Barbosa Martins, por exemplo, foi de 5,4 para 7,1. Esse número tem nome e sobrenome, e é o de quem chega cedo: a professora, a coordenação, a merendeira, a criança que aprendeu a ler na hora certa. Merece ser comemorado hoje. Só que comemorar não é a mesma coisa que relaxar. Ideb que sobe é convite para investir mais, nunca desculpa para tirar o pé. A criança que avançou neste ano precisa encontrar a mesma escola de pé no ano que vem.

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Como vereador, o meu lugar nessa história é claro, e eu não me confundo sobre ele. Não sou eu que dou aula e não vou tomar para mim um crédito que é de quem está na sala. O meu trabalho é olhar o orçamento e perguntar quanto dele chega à ponta, é visitar a escola que ninguém visita, é brigar para que a professora que chega cedo tenha material, estrutura e respeito no contracheque. Homenagem de um dia ela já tem de sobra. O que falta é condição nos outros 364.

Então, fica registrado o meu Dia Nacional da Educação Básica. Sem faixa. Com o compromisso de continuar chato no assunto, do jeito que essas crianças merecem que a gente seja.

Charles da Educação é vereador de Várzea Grande (União)

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