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A Lei Maria da Penha e o que vem depois: a lei protege, mas o que liberta?

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Por Heloísa Borges

Em agosto de 2006, o Brasil aprovou a Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, um marco histórico na proteção de mulheres vítimas de violência doméstica. A lei nasceu do sofrimento real de Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica cearense que sobreviveu a duas tentativas de homicídio e esperou quase duas décadas por justiça. Vinte anos depois, o país tem motivos para celebrar: a lei foi aperfeiçoada, ampliada e hoje é reconhecida internacionalmente como uma das legislações mais avançadas do mundo nesse campo.

Mas existe uma pergunta que ecoa quando as luzes lilases das comemorações se apagam: o que acontece com a mulher depois que ela consegue sair da situação de violência? A proteção legal pode afastar o agressor, mas não apaga, por si só, a dor emocional, o luto, a vergonha, o medo e as cicatrizes invisíveis que permanecem. É aqui que entra a saúde mental e é aqui que a psicologia se torna tão indispensável quanto a própria lei.

A Lei Maria da Penha criou mecanismos essenciais: medidas protetivas de urgência, delegacias especializadas, juizados de violência doméstica, ampliação do conceito de violência para além da agressão física, reconhecendo e incluindo as violências psicológica, sexual, patrimonial e moral, além de penas mais rigorosas para os agressores.

Esses avanços são inegáveis. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as medidas protetivas cresceram exponencialmente na última década, e a visibilidade do tema aumentou a procura por ajuda. No entanto, a proteção jurídica não elimina o sofrimento psíquico. Uma mulher que sai de uma relação violenta pode continuar carregando culpa por ter permanecido tanto tempo na relação; medo de retaliação; sensação de fracasso ou de ter “destruído” a família; isolamento social; depressão, ansiedade e sintomas compatíveis com o transtorno de estresse pós-traumático; dificuldade de confiar em novas pessoas; baixa autoestima e sensação de não ser suficiente.

Isso acontece porque a violência doméstica não é apenas um ato isolado. Ela é um processo, uma narrativa que se constrói silenciosamente muito antes da agressão física. E essa narrativa é internalizada pela mulher ao longo do tempo.

Um dos conceitos mais importantes para entender a dinâmica da violência doméstica é o ciclo da violência, descrito pela psicóloga norte-americana Lenore Walker nos anos 1970. Walker entrevistou centenas de mulheres e identificou um padrão repetitivo, composto por três fases:

  1. Fase de tensão crescente

Nesta etapa, o agressor demonstra irritação, ciúme, críticas constantes, humilhações e ameaças veladas. A mulher tenta acalmar o parceiro, evitar conflitos, agradar e silenciar-se. Ela começa a sentir ansiedade, medo e culpa. Muitas vezes, acredita que a culpa é dela, que basta ser mais paciente ou mais compreensiva para que a paz volte.

  1. Fase de explosão

A tensão acumulada explode em agressão física, sexual, verbal ou psicológica. É o momento mais visível do ciclo. A mulher pode sentir pânico, desamparo e desespero. É aqui que, frequentemente, ela busca ajuda externa da família, dos amigos, da delegacia ou da Justiça.

  1. Fase de lua de mel ou reconciliação

Após a explosão, o agressor costuma se mostrar arrependido, promete mudar, faz declarações de amor, presenteia e pede desculpas. A mulher, esgotada e desejosa de estabilidade, acredita que ele mudou. O ciclo se acalma até que a tensão volte a crescer e tudo recomece.

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O problema é que esse ciclo não é linear nem previsível. Ele pode se repetir de forma acelerada, com fases de tensão e explosão cada vez mais curtas e agressões cada vez mais graves. Por isso, muitas mulheres tentam sair e retornam à relação diversas vezes antes de conseguir romper definitivamente.

A violência psicológica é uma das formas mais devastadoras e duradouras de agressão. Ela não deixa hematomas visíveis, mas provoca feridas emocionais profundas. É o que Walker descreve como o núcleo do ciclo: a manipulação emocional, a desqualificação e a destruição da autoconfiança.

No consultório, o que se observa é que muitas mulheres chegam com queixas aparentemente desconectadas da violência: insônia, ansiedade, dificuldade de concentração, crises de choro, sensação de vazio, irritabilidade e exaustão. Só aos poucos emerge a narrativa que conecta tudo: a convivência com um agressor que, por anos, disse a ela que era louca, exagerada, incapaz, ingrata, feia, burra ou que ninguém mais a amaria.

Essa narrativa não desaparece com a separação. Ela continua ecoando internamente. Por isso, mesmo depois de protegida fisicamente, a mulher precisa de um espaço para:

  • nomear o que viveu;
  • validar o próprio sofrimento;
  • entender que não foi culpa dela;
  • reconstruir a autoestima;
  • aprender a identificar sinais de relacionamentos abusivos;
  • desenvolver autonomia emocional;
  • ressignificar o que aprendeu como “amor”.

A psicologia deve caminhar com a Lei. Enquanto a Justiça protege o corpo e o patrimônio, a terapia cuida da mente, das emoções e da identidade.

Estudos em saúde mental mostram que mulheres em situação de violência doméstica apresentam taxas significativamente mais altas de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e ideação suicida. Uma revisão sistemática publicada no Journal of Interpersonal Violence aponta que intervenções psicológicas baseadas em TCC, a terapia cognitivo-comportamental, e em terapias focadas no trauma são eficazes para reduzir sintomas de TEPT e depressão em mulheres que vivenciaram violência íntima.

Na prática clínica, o trabalho terapêutico pode incluir psicoeducação sobre o ciclo da violência, para que a mulher entenda que não está sozinha nem é a única a passar por isso; validação emocional, para que ela possa sentir sem se julgar; reestruturação cognitiva, para desmontar crenças como “eu sou culpada” ou “não mereço ser feliz”; técnicas de regulação emocional, como respiração, mindfulness e ancoragem sensorial; construção de um plano de segurança, que inclua contatos de emergência, locais seguros e estratégias para momentos de crise; fortalecimento da rede de apoio, identificando pessoas, serviços e recursos disponíveis; e desenvolvimento de autonomia, tanto emocional quanto prática, para que ela possa tomar decisões com mais segurança.

É importante ressaltar que o cuidado não pode ser reduzido a uma fórmula motivacional. Não basta dizer “você é forte” ou “você vai superar”. É preciso oferecer técnica, escuta sem pressa e continência emocional.

Minha experiência de 25 anos em escolas mostrou que a violência doméstica não é um problema que começa na vida adulta. Ela é aprendida, observada e naturalizada desde a infância. Vi crianças que não conseguiam aprender porque o que acontecia em casa ocupava todo o espaço mental delas. Vi adolescentes que repetiam, nos próprios relacionamentos, os modelos que aprenderam a chamar de amor.

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Muitas vezes, a própria família pede que o filho “não se envolva nos problemas dos adultos”, sem perceber que a criança ou o adolescente já está envolvido pelo medo, pelo silêncio e pela sensação de impotência. Professores e educadores, por sua vez, frequentemente não sabem como identificar ou acolher essas situações, porque não foram preparados para enxergar o que está por trás do comportamento.

Por isso, a prevenção precisa começar cedo. É necessário ensinar nas escolas sobre violência de gênero, consentimento, limites e formas saudáveis de amar. É preciso capacitar profissionais da educação, da saúde e da assistência social para identificar sinais de violência e encaminhar adequadamente.

Apesar dos avanços da Lei Maria da Penha, ainda há um abismo entre a proteção jurídica e o acesso efetivo à saúde mental. Muitas mulheres não conseguem atendimento psicológico público, enfrentam filas longas ou dependem de serviços sobrecarregados. A pandemia de COVID-19 agravou esse cenário, aumentando tanto os casos de violência quanto a dificuldade de acesso aos serviços.

Especialistas como a psicóloga Lilia Blima Schraiber, referência em violência de gênero no Brasil, defendem que a saúde mental precisa ser tratada como parte integrante da resposta à violência doméstica, e não como um luxo ou um cuidado secundário. O SUS prevê a atenção psicossocial, mas a implementação ainda é desigual.

A Lei Maria da Penha é uma conquista inegociável. Ela protege corpos, salva vidas e dá voz a quem foi silenciada por séculos. Mas a lei, por mais potente que seja, não desfaz sozinha a dor emocional, o medo, a culpa e a sensação de não pertencimento.

A verdadeira libertação acontece quando a mulher, além de protegida fisicamente, encontra um espaço seguro para nomear o que viveu, ser ouvida sem julgamento e reconstruir sua autonomia emocional. A psicologia oferece esse espaço. Ela ajuda a transformar a narrativa de vítima em narrativa de sobrevivente e, mais do que isso, em narrativa de uma pessoa que pode escolher o próprio futuro.

Proteger é o começo. Cuidar da saúde mental é o caminho para que a mulher não apenas sobreviva, mas viva com clareza sobre o que viveu. E, um dia, possa olhar para trás e dizer: “Aquilo não me define mais”.

Heloísa Borges é psicóloga (CRP 18/06301), pedagoga e criadora do Método CLAREZA. Com mais de 25 anos de atuação na educação, trabalha, principalmente, com adultos e famílias em processos de autoconhecimento, reconstrução emocional e desenvolvimento humano.

Referências:

  • Walker, L. E. (1979). The Battered Woman. Nova York: Harper & Row.
  • Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública (edições recentes).
  • Journal of Interpersonal Violence. Revisões sistemáticas sobre intervenções psicológicas em violência íntima.
  • Schraiber, L. B. (2012). Violência contra a mulher: a produção do cuidado em saúde. Cadernos de Saúde Pública, 28(1), 19–28.
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Quando a dor da mulher ainda é tratada como exagero

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Por Giovana Fortunato

“É normal sentir dor.” “Toda mulher passa por isso.” “Depois que você tiver filhos, melhora.” “Você precisa aprender a conviver.”

Frases como essas ainda fazem parte da história de muitas mulheres que chegam ao consultório depois de anos convivendo com uma dor que nunca deveria ter sido normalizada. Algumas passaram a adolescência acreditando que desmaiar durante a menstruação fazia parte do ciclo. Outras aprenderam a organizar a vida em torno da dor: faltam ao trabalho, deixam de estudar, evitam relações sexuais, cancelam compromissos e, pouco a pouco, adaptam a rotina a um sofrimento que ninguém conseguiu explicar.

O mais preocupante é que, muitas vezes, antes de receberem um diagnóstico, essas mulheres ouviram que eram “sensíveis demais”, que tinham baixa tolerância à dor ou que o problema poderia ser emocional.

A medicina avançou muito. Mas ainda precisamos avançar na forma como ouvimos as mulheres.

A dor é subjetiva, não aparece em um exame de sangue como um número que possa ser facilmente medido e varia de uma pessoa para outra. Isso, no entanto, não a torna menos real. Quando uma mulher relata uma dor recorrente, intensa e capaz de interferir em sua rotina, esse relato precisa ser investigado.

A endometriose é talvez um dos exemplos mais evidentes das consequências dessa normalização. A doença afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo e pode provocar cólicas menstruais intensas, dor pélvica crônica, dor durante as relações sexuais, alterações intestinais e urinárias e dificuldades para engravidar. Ainda assim, o caminho até o diagnóstico pode levar anos.

Existe uma diferença importante entre o desconforto que pode acompanhar a menstruação e uma dor incapacitante. Menstruar não deveria significar perder dias de vida.

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Se todos os meses uma adolescente precisa faltar à escola porque não consegue sair da cama, isso merece atenção. Se uma mulher depende repetidamente de medicamentos para conseguir trabalhar durante o período menstrual, precisamos investigar. Se há dor durante a relação sexual, ao evacuar ou urinar, especialmente quando esses sintomas se relacionam ao ciclo menstrual, não deveríamos simplesmente dizer que é normal.

Normalizar a dor tem consequências.

Quando o diagnóstico demora, não é apenas uma doença que permanece sem o acompanhamento adequado. Há uma mulher tentando continuar sua vida enquanto convive com sintomas que podem comprometer seu bem-estar, seus relacionamentos, sua sexualidade, sua produtividade e, em alguns casos, seus planos de maternidade.

No caso da endometriose, esse último aspecto merece atenção especial. A doença pode estar associada à infertilidade e, dependendo de sua localização e extensão, pode comprometer estruturas importantes para a reprodução. Isso não significa que toda mulher com endometriose terá dificuldade para engravidar. Significa que o diagnóstico e o acompanhamento adequados permitem avaliar cada caso individualmente e discutir, no momento oportuno, inclusive questões relacionadas à preservação da fertilidade.

Também precisamos abandonar a ideia de que uma mulher só precisa investigar a endometriose quando decide ser mãe. A saúde feminina não pode ser medida exclusivamente pela capacidade reprodutiva. Uma adolescente com cólicas incapacitantes merece atenção independentemente de pensar ou não em maternidade. Uma mulher com dor durante as relações sexuais merece tratamento mesmo que não queira engravidar. Qualidade de vida também é desfecho de saúde.

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Há outro ponto fundamental nessa discussão: ouvir uma paciente não significa concluir antecipadamente que toda dor pélvica é endometriose. Existem diferentes condições ginecológicas e não ginecológicas que podem provocar sintomas semelhantes. Escutar significa reconhecer que existe uma queixa legítima, fazer uma boa história clínica, examinar quando indicado e investigar as possíveis causas.

É justamente aí que precisamos substituir a banalização pela atenção.

Nos últimos anos, ampliamos muito nosso conhecimento sobre endometriose, aprimoramos os exames de imagem e avançamos na possibilidade de diagnóstico sem que toda paciente precise necessariamente passar por cirurgia. Mas nenhum avanço tecnológico será suficiente se a primeira barreira continuar sendo convencer alguém de que a dor existe.

Precisamos ensinar meninas desde cedo que conhecer o próprio ciclo menstrual também é uma forma de cuidar da saúde. Precisamos orientar mães e famílias para que não reproduzam automaticamente a ideia de que sofrer faz parte de ser mulher. E nós, profissionais de saúde, precisamos estar preparados para reconhecer sinais de alerta e, sobretudo, ouvir sem preconceitos.

Durante muito tempo, suportar a dor em silêncio foi quase tratado como uma característica feminina. Não deveria ser.

A mulher que procura atendimento não precisa provar que está sofrendo o suficiente para merecer investigação. Ela precisa ser ouvida.

E talvez uma das mudanças mais importantes na saúde da mulher comece justamente aí: parar de perguntar se ela está exagerando e começar a perguntar por que está doendo.*

Dra. Giovana Fortunato é ginecologista, especialista em endometriose e infertilidade, e professora da UFMT.

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