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Assédio moral e riscos psicossociais: o perigo de dirigir organizações sem freios
Por Valdiney de Arruda
Nas últimas semanas e meses, muitas pessoas viram vídeos, postagens, comentários e opiniões sobre riscos psicossociais nas organizações. O tema ganhou espaço no mundo corporativo e institucional diante da necessidade de tratar fatores capazes de contribuir para adoecimentos relacionados ao trabalho dentro da lógica do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e do Programa de Gerenciamento de Riscos.
Como ocorre com todo tema novo, surgiram dúvidas legítimas, mas também interpretações apressadas. Alguns passaram a dizer que agora “tudo será assédio”. Outros afirmaram que a norma é inaplicável. Há quem trate o assunto como mera burocracia. Há quem o veja apenas como ameaça. Há também quem diga que ninguém mais poderá cobrar metas, exigir desempenho ou exercer liderança.
Mas talvez o primeiro cuidado que precisamos ter seja este: não decidir sobre um tema complexo a partir de uma leitura simples demais.
Daniel Kahneman, ao lado de Amos Tversky, demonstrou que grande parte das nossas decisões não nasce de uma análise profunda, lenta e cuidadosa. Muitas vezes, decidimos por atalhos. Usamos aquilo que já conhecemos. Repetimos interpretações familiares. Procuramos respostas rápidas porque pensar com profundidade exige energia.
Diante de um tema novo, o cérebro humano tende a perguntar: “com o que isso se parece?”. E, a partir daí, tenta encaixar o novo dentro de uma gaveta antiga.
O problema é que nem todo fenômeno novo cabe bem em gavetas antigas.
Durante muito tempo, aprendemos a olhar para o adoecimento mental no trabalho quase sempre como problema individual. A conclusão rápida era: “a pessoa não aguentou a pressão”. Em outras situações, olhamos apenas pela lente do conflito pessoal: “isso é problema entre chefe e subordinado”. Pela lente jurídica, reduzimos tudo a reparação individual e responsabilização do agressor. Pela lente administrativa, surgem respostas como: “isso é exagero”, “isso não se aplica aqui”, “é mais uma obrigação” ou “agora ninguém pode cobrar nada”.
Todas essas leituras podem enxergar uma parte do problema. Mas nenhuma delas, sozinha, enxerga o fenômeno inteiro.
Os riscos psicossociais relacionados ao trabalho exigem uma mudança de pergunta. Não se trata de negar a responsabilidade individual, nem de transformar toda cobrança em assédio moral. Trata-se de compreender que a forma como o trabalho é organizado, liderado, comunicado, cobrado e controlado pode aumentar ou reduzir riscos de sofrimento, conflito, adoecimento, afastamento e perda de desempenho.
A evolução da proteção no trabalho sempre exigiu essa mudança de olhar. Durante muito tempo, quando acontecia um acidente, a pergunta mais comum era: “o trabalhador errou?”. Depois, aprendemos a fazer perguntas melhores: o equipamento era seguro? Havia treinamento? Havia manutenção? A meta era compatível com o tempo disponível? A equipe era suficiente? A liderança pressionou de modo inadequado? O ambiente permitia uma decisão segura?
Com os riscos psicossociais acontece algo semelhante.
Pensemos nos carros.
Hoje, um motorista pode ser excelente. Pode ter experiência, atenção, responsabilidade e domínio da direção. Mesmo assim, ninguém diria que, por ele ser bom motorista, o carro não precisa de freios eficientes, cinto de segurança, airbag, controle de estabilidade, pneus adequados, revisão periódica e sinalização no painel.
A indústria automobilística evoluiu porque entendeu uma coisa essencial: segurança não pode depender apenas da habilidade do motorista. O sistema precisa ser desenhado para reduzir danos, prevenir falhas e proteger vidas, inclusive quando o ser humano está cansado, pressionado, distraído ou diante de uma situação inesperada.
A organização do trabalho se parece muito com esse carro.
O trabalhador pode ser competente. O servidor pode ser comprometido. O gestor pode ser experiente. O RH pode ser responsável. A equipe pode ter vocação pública, senso de entrega e compromisso com resultados. Mas, se o sistema organizacional opera com metas incompatíveis com os recursos disponíveis, comunicação hostil, liderança baseada no medo, ausência de escuta, jornadas excessivas, conflitos ignorados, assédio moral normalizado, insegurança sobre papéis, falta de apoio ou retorno ao trabalho mal conduzido, a organização está circulando sem dispositivos adequados de proteção.
Quando algo acontece, não basta perguntar apenas: “por que esse trabalhador adoeceu?”.
A pergunta mais estratégica é outra: o que no modo de organizar, liderar, cobrar, comunicar e responder aos sinais de sofrimento está aumentando o risco de adoecimento?
Uma organização madura não espera o acidente para revisar o carro. Não espera o afastamento para olhar a carga de trabalho. Não espera a denúncia para discutir assédio moral. Não espera a perícia para perceber que a cultura está adoecendo pessoas. Não espera a ruptura para construir canais de escuta.
E talvez esta seja a pergunta que deve acompanhar gestores, lideranças, RH, órgãos de controle, sindicatos, instituições públicas e empresas privadas nos próximos anos: que tipo de sistema de trabalho estamos colocando as pessoas para dirigir todos os dias?
A. de Arruda é administrador, especialista em Políticas Públicas e Questão Ambiental, MBA em ESG. Atua com Direito do Trabalho, Saúde e Segurança Ocupacional, e desenvolve estudos em Neurociência, Desenvolvimento Humano e Comunicação Não Violenta
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O impacto das telas na formação musculoesquelética de crianças e adolescentes
Por Mara Gonçalves
Há poucas décadas, era comum ver crianças ocupando as ruas, praças e quintais. Elas corriam, pulavam, andavam de bicicleta, jogavam bola, subiam em árvores e transformavam qualquer espaço em um grande cenário para brincar. Hoje, a realidade é diferente e grande parte desse tempo foi substituída pelas telas, o movimento, tão importante para o crescimento, vem cedendo espaço ao sedentarismo digital.
Não se trata de demonizar a tecnologia. Celulares, tablets, computadores e videogames fazem parte da rotina das famílias e oferecem oportunidades de aprendizado, interação e entretenimento. O problema começa quando o tempo diante das telas passa a ocupar o lugar das experiências que estimulam o desenvolvimento físico e motor de crianças e adolescentes.
Na ortopedia, essa mudança de comportamento tem sido percebida de forma cada vez mais evidente. O corpo humano foi feito para se movimentar, especialmente durante as fases de crescimento. É justamente na infância e na adolescência que ossos, músculos, tendões e articulações passam por um intenso processo de formação, que depende não apenas da alimentação e da genética, mas também dos estímulos proporcionados pela atividade física.
Brincar é muito mais do que diversão. Correr, saltar, equilibrar-se, escalar e pedalar são movimentos que fortalecem a musculatura, favorecem a formação da massa óssea, desenvolvem a coordenação motora e ajudam o corpo a aprender como responder aos desafios do dia a dia. São experiências que nenhum ambiente virtual consegue reproduzir.
Quando esses estímulos diminuem, os impactos aparecem. Crianças chegam aos consultórios com menor condicionamento físico, perda de força muscular, dificuldades de equilíbrio e alterações posturais que, até pouco tempo atrás, eram mais comuns em adultos. Também cresce o número de adolescentes que relatam dores na coluna, no pescoço, nos ombros e nos punhos, muitas vezes relacionadas ao uso prolongado de celulares e computadores em posições inadequadas.
Outro aspecto que merece atenção é a formação da saúde óssea. A infância representa a principal janela para o desenvolvimento da massa óssea, uma espécie de reserva que acompanhará o indivíduo ao longo da vida. Quanto melhor essa formação, menor será o risco de doenças como osteoporose e fraturas no futuro. Para que isso aconteça, os ossos precisam receber estímulos constantes por meio do movimento e de atividades que envolvam impacto moderado, como correr, brincar e praticar esportes.
Outro ponto que costuma passar despercebido é o desenvolvimento motor. Habilidades como coordenação, equilíbrio, agilidade e percepção corporal são construídas ao longo da infância por meio das brincadeiras e das atividades físicas. Crianças que passam a maior parte do tempo em atividades sedentárias podem apresentar dificuldades nessas competências, o que interfere não apenas na prática esportiva, mas também na confiança para explorar novos movimentos e participar de atividades coletivas.
A solução é encontrar equilíbrio, pois as telas podem e devem fazer parte da vida moderna, desde que não substituam completamente as oportunidades de movimento. A recomendação da Organização Mundial da Saúde é que crianças e adolescentes realizem, em média, pelo menos 60 minutos diários de atividade física de intensidade moderada a vigorosa. Esse tempo pode ser preenchido de diferentes maneiras: brincadeiras ao ar livre, esportes, passeios de bicicleta, caminhadas em família ou qualquer atividade que incentive o corpo a sair da inércia.
Nesse contexto, pais e responsáveis têm papel decisivo e, mais do que controlar o tempo de tela, é importante criar oportunidades para que o movimento faça parte da rotina familiar. Muitas vezes, a mudança começa com atitudes simples, como trocar algumas horas em frente ao celular por um passeio no parque, uma partida de futebol ou uma brincadeira no quintal.
Em um mundo cada vez mais conectado, promover uma infância mais ativa é investir na saúde do presente e também do futuro. Crianças que se movimentam mais tendem a desenvolver melhor sua musculatura, fortalecer os ossos, reduzir o risco de doenças crônicas, melhorar a postura e criar hábitos que permanecerão ao longo da vida adulta.
Dra. Mara Gonçalves é médica ortopedista, especialista em Ortopedia, Traumatologia e Cirurgia da Mão, atual Presidente da SBOT-MT
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