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A abolição não acabou com o racismo

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Por Julianne Caju

“No dia 14 de maio, eu saí por aí”, canta Lazzo Matumbi, em uma das mais fortes interpretações sobre o dia seguinte à abolição da escravidão no Brasil. A canção ajuda a traduzir uma pergunta que ainda atravessa o país: o que aconteceu com a população negra depois da assinatura da Lei Áurea?

O 13 de maio de 1888 marcou o fim legal desse período no território brasileiro. Mas o 14 de maio revelou uma liberdade sem reparação. Não houve política pública de moradia, trabalho, renda, educação ou saúde para integrar milhões de pessoas que haviam sido escravizadas por quase 400 anos. O Brasil rompeu formalmente com o regime escravocrata, mas não rompeu, na mesma medida, com as estruturas que sustentavam a desigualdade racial.

Não se trata de culpar pessoas vivas hoje pela escravidão praticada no passado. Trata-se de compreender que uma sociedade organizada durante quase quatro séculos pela exploração de corpos negros não se torna igualitária apenas por decreto. Estamos há apenas 138 anos oficialmente sem o regime escravocrata legalizado, embora ainda convivamos com suas ressonâncias e com formas contemporâneas de exploração, exclusão e desumanização.

Os dados ajudam a tirar essa conversa do campo da opinião e colocá-la no lugar dos fatos. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população negra, formada por pessoas pretas e pardas, representa 55,5% da população brasileira. Em Mato Grosso, essa realidade é ainda mais expressiva: 65,86% da população se autodeclara preta ou parda. Portanto, falar de racismo em Mato Grosso não é falar de uma pauta lateral. É falar da vida concreta de quase dois terços da população mato-grossense. Ainda assim, a população negra segue enfrentando os piores indicadores sociais.

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O IBGE mostra que, em 2022, a taxa de analfabetismo entre pessoas brancas de 15 anos ou mais era de 4,3%, entre as pessoas negras, cerca de 20%. No ensino superior, a desigualdade também permanece: entre pessoas com 25 anos ou mais, 25,8% das brancas tinham diploma universitário, percentual duas vezes maior que o registrado entre pessoas pretas e pardas.

Na segurança pública, a ferida é ainda mais profunda. O Atlas da Violência 2025, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que, em 2023, o Brasil registrou 35.213 homicídios de pessoas negras. O estudo também mostra que uma pessoa negra tinha 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra.

Esses números não aparecem por acaso. Eles são ressonâncias de uma abolição incompleta. Quando uma população sai de quase quatro séculos de escravização sem escola, sem terra, sem indenização, sem cidadania plena e, depois, ainda passa a ser criminalizada em suas formas de existir, trabalhar, morar, cultuar e resistir, a desigualdade não é acidente, mas sim continuidade histórica.

Por isso, a pergunta não é se o racismo ainda existe. Os dados respondem. A pergunta é: o que as instituições públicas, privadas, educacionais, jurídicas, políticas e comunicacionais estão dispostas a fazer para enfrentá-lo?

É nesse sentido que leis e políticas públicas são fundamentais. A Lei nº 10.639/2003 tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas. A Lei nº 11.645/2008 ampliou essa obrigação para incluir também a História e a Cultura Indígena. Essas normas não são adereços curriculares: são instrumentos para corrigir o apagamento histórico e formar gerações capazes de compreender o Brasil para além da versão que romantizou a escravidão e silenciou a resistência negra e indígena.

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As ações afirmativas também fazem parte desse processo. As cotas não resolvem tudo, mas abrem portas que foram historicamente fechadas. Para que a sociedade mude de fato, é preciso transformar também o currículo, a formação docente, a comunicação institucional, os materiais didáticos, os ambientes escolares e a forma como o Brasil conta sua própria história.

Esse diálogo também passa pela comunicação. Jornais, rádios, TVs, portais, mídias sociais e assessorias de imprensa precisam tratar a pauta racial não como tema episódico, mas como dimensão central da democracia. Em um estado majoritariamente negro como Mato Grosso, não há como falar de educação, segurança, saúde, trabalho, cultura, ciência, tecnologia, política e desenvolvimento sem discutir raça.

O caminho, portanto, não está em negar o racismo, mas em enfrentá-lo com educação, dados, políticas públicas, escuta, compromisso institucional e coragem democrática. O 14 de maio continua entre nós porque a liberdade assinada em 1888 ainda não se transformou plenamente em igualdade vivida. Mas também pode ser um ponto de virada: para trocar a negação pela responsabilidade, o silêncio pela educação, a indiferença por ações concretas e a naturalização do racismo em práticas antirracistas.

Afinal, quando o compositor Lazzo Matumbi canta o 14 de maio, ele não canta apenas o passado. Ele nos convoca a olhar para o presente e a decidir que tipo de futuro estamos dispostos a construir. Não há democracia verdadeira enquanto a maioria da população segue carregando, no corpo e nos indicadores sociais, as marcas de uma liberdade que chegou sem reparação.

Julianne Caju é cuiabana, jornalista, professora e pesquisadora.

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Nova droga aprovada pela Anvisa controla fogachos e outros sintomas associados à menopausa

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Por Giovana Fortunato
Ainda sem data de lançamento no mercado, o medicamento fezoniletanto apresentou resultados satisfatórios em estudos clínicos realizados com mais de 3 mil mulheres
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou uma nova medicação não hormonal para controlar ondas de calor e suores noturnos, sintomas associados à menopausa que afetam cerca de 80% das mulheres entre 40 e 65 anos.

O  medicamento é uma alternativa para quem não pode se beneficiar ou não responde efetivamente ao tratamento de reposição hormonal. Apesar do aval da Anvisa, ainda não há definição de preço nem data oficial de lançamento da nova droga no mercado brasileiro.

O medicamento fezoniletanto, que chega ao mercado com o nome de Veoza, foi desenvolvido pelo laboratório Astellas Farma. A nova droga atua no sistema nervoso, limitando manifestações vasomotoras, como fogachos, em mulheres que estão na transição para a menopausa e mesmo na pós-menopausa. No Brasil, mais de um terço delas apresenta ocorrências de moderadas a intensas, justamente o alvo do novo tratamento.

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Os principais incômodos do climatério, associados à paralisação na produção de hormônios femininos pelos ovários, são ondas de calor, suores frios, alterações de humor e também do sono. O declínio hormonal tem repercussão nos circuitos cerebrais que regulam a temperatura corporal, gerando os chamados sintomas vasomotores.

As ondas de calor e/ou suores noturnos associados à menopausa têm duração mediana de 7,4 anos. Em algumas mulheres podem persistir por uma década ou mais, comprometendo atividades diárias, qualidade do sono e de vida.

A aprovação da Anvisa considerou três estudos clínicos sobre o fezoniletanto que envolveram mais de 3 mil participantes. A medicação reduziu significativamente a frequência das ondas de calor e/ou suores noturnos.

A dosagem ministrada em 4 semanas levou à redução de 55% da frequência dos sintomas vasomotores. Em 12 semanas, o estudo revelou resultados ainda melhores: 64%. Como evidência, considerou-se que o medicamento diminuiu a intensidade média dos sintomas vasomotores para níveis leves a moderados.

Como benefícios adicionais, observados na quarta e na décima segunda semanas, mulheres que fizeram uso da nova droga apresentaram melhora na qualidade do sono, diminuição no comprometimento das atividades diárias e do trabalho e ganhos em qualidade de vida.

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O fezoniletanto desponta como alternativa para mulheres que não podem fazer reposição hormonal, devido a contraindicações como câncer de mama, infarto e histórico de trombose, e mesmo a pacientes que não obtiveram sucesso com terapia de hormônios.

Dra. Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, especialista em endometriose e infertilidade, e professora da UFMT.
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