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Araguaia: uma região de enorme potencial que precisa ser ouvida

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Por Natasha Slhessarenko

Durante muitos anos, a região do Araguaia foi conhecida como o “Vale dos Esquecidos”. A expressão, forte e dolorosa, traduz o sentimento de uma população que, apesar de viver em uma das regiões mais belas e promissoras de Mato Grosso, ainda convive com desafios históricos relacionados à infraestrutura, à saúde, à geração de oportunidades e à presença efetiva do poder público.

Recentemente, percorri 18 municípios da região em uma jornada intensa de escuta e diálogo. Foram dias de estrada, reuniões e conversas com moradores, lideranças comunitárias, representantes do setor produtivo, profissionais de saúde, educadores, povos indígenas e gestores locais. Mais do que uma viagem, foi uma oportunidade de olhar nos olhos das pessoas e compreender, de forma direta, as necessidades e os sonhos de quem constrói diariamente essa importante parte do nosso estado.

O Araguaia reúne vocações extraordinárias. A força do agronegócio, o potencial para a industrialização, a riqueza cultural e as belezas naturais, especialmente ao longo do Rio Araguaia, revelam uma região com enorme capacidade de crescimento. No entanto, esse potencial ainda esbarra em limitações estruturais que impedem que o desenvolvimento aconteça em toda a sua plenitude.

Uma das demandas mais recorrentes foi a necessidade de acelerar o processo de industrialização. Produzir é fundamental, mas agregar valor à produção local é o caminho para gerar empregos, ampliar a renda e criar novas perspectivas para os jovens e para as famílias da região. Ao mesmo tempo, ficou evidente a importância de investir na qualificação profissional, preparando a mão de obra para aproveitar as oportunidades que podem surgir com a expansão econômica.

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O turismo também desponta como uma grande possibilidade. Poucos lugares em Mato Grosso possuem uma combinação tão singular de natureza exuberante, cultura e hospitalidade. O Rio Araguaia é um patrimônio de valor incalculável. Com planejamento, infraestrutura e incentivo adequado, a região pode se consolidar como um dos principais destinos turísticos do estado e do país.

Na área da infraestrutura, embora avanços importantes tenham sido realizados, como o asfaltamento de trechos da BR-158, ainda há muito a ser feito. Estradas em melhores condições representam segurança, integração regional, redução de custos logísticos e maior acesso a serviços essenciais.

Na saúde, o que ouvi reforçou uma realidade conhecida por quem atua há anos nessa área: a interiorização da assistência especializada é uma necessidade urgente. A ampliação da oferta de médicos especialistas, exames de maior complexidade e leitos de UTI pode reduzir a necessidade de longos e desgastantes deslocamentos até centros maiores, muitas vezes em situações delicadas e com risco para os pacientes.

Tive também a oportunidade de conversar com representantes do povo Povo Xavante, cuja presença é parte fundamental da identidade do Araguaia. Em alguns municípios da região, os povos indígenas representam cerca de 60% da população, o que evidencia a necessidade de políticas públicas que alcancem de forma efetiva essas comunidades, respeitando suas especificidades culturais e garantindo acesso à saúde, educação e demais serviços essenciais para assegurar qualidade de vida e dignidade aos povos originários.

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Ao final dessa experiência, retornei com a convicção de que o Araguaia não pode mais ser lembrado pelo abandono, mas reconhecido por sua força, por sua diversidade e por seu imenso potencial. Ouvir a população é o primeiro passo para compreender com profundidade os desafios e construir soluções que façam sentido para quem vive a realidade local.

Mato Grosso é um estado de dimensões continentais e de enorme riqueza. O desenvolvimento, no entanto, só será pleno quando alcançar cada município, independentemente do seu tamanho ou da distância da capital. Nenhuma comunidade deve ficar à margem do progresso.

O Araguaia tem pressa, tem vocação e tem futuro. E esse futuro começa quando transformamos a escuta em compromisso e o compromisso em ação.

Dra. Natasha Slhessarenko é médica, empresária e servidora pública em Mato Grosso.
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Conversão ecológica e educação ambiental

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Por Juacy da Silva

“Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas, antes de tudo, é a humanidade que precisa mudar. Falta a consciência de uma origem comum, de uma recíproca pertença e de um futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração”. Papa Francisco, Encíclica Laudato Si, Vaticano, 2015.

“Já se passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato Si, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa casa comum. Mas, com o passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe está-se esboroando e talvez se aproxime de um ponto de ruptura. Independentemente dessa possibilidade, não há dúvida de que o impacto da mudança climática prejudicará cada vez mais a vida de muitas pessoas e famílias. Sentiremos os seus efeitos em termos de saúde, emprego, acesso aos recursos, habitação, migrações forçadas e noutros âmbitos”. Papa Francisco, 04/10/2023, na Exortação Laudate Deum, mensagem endereçada aos participantes da COP 28.

Promover uma educação ambiental radical envolve ir além de ações superficiais de reciclagem ou de outras práticas de natureza mitigadora, mas sim adotar ações com o objetivo de uma transformação mais profunda, focando nos comportamentos, nas atitudes, na mentalidade, nos valores, nos estilos de vida e, também, ou principalmente, nas estruturas culturais, sociais, econômicas e políticas, para enfrentar a crise ecológica, cada dia mais grave, com consequências mais trágicas.

Por isso, também, o Papa Leão XIV tem insistido que é preciso mudar as estruturas que geram a pobreza e a degradação ecológica e tem condenado o que seu antecessor, o Papa Francisco, insistia em chamar de “economia que mata”.

Nesse sentido, a educação ambiental radical se aproxima, ou até mesmo passa a ser, instrumento de “conversão ecológica”, mencionada e enfatizada pelo Papa Francisco na Encíclica Laudato Si.

A conversão ecológica na Encíclica Laudato Si, prestes a completar onze anos de publicação no dia 24 deste mês de maio de 2026, é um chamado para uma transformação profunda nos corações, nas mentes, nas atitudes, nos comportamentos e, enfim, no estilo de vida e nos sistemas econômicos que não respeitam a natureza, reconhecendo nossa contribuição para a crise socioambiental.

Não é apenas uma mudança técnica ou tecnológica, o chamado paradigma tecnocrático, mas um compromisso cristão mais profundo, de amor e de cidadania ecológica para um melhor cuidado com a “casa comum”, superando o consumismo, o desperdício, a degradação do planeta e a nossa indiferença diante da crise socioambiental e climática que estamos presenciando e cujas consequências estamos sofrendo.

Isso implica uma abordagem pedagógica, social, cultural, econômica, política e ética que questione os modelos, os modos de produção e as relações de trabalho e de consumo/consumismo atuais.

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Nesse contexto, tanto os conceitos de conversão ecológica quanto os de educação ambiental/ecológica radical ou libertadora se aproximam de dois outros conceitos tão enfatizados pelo Papa Francisco: economia da morte e economia da vida (economia de Francisco e Clara).

Antes, porém, é fundamental identificarmos alguns aspectos importantes do conceito de conversão ecológica, entre os quais podemos mencionar a integração espiritual e ética, pois a conversão ecológica exige uma revisão profunda do estilo de vida, entendendo que o cuidado com o meio ambiente e com a natureza é inseparável da dignidade humana, da justiça social, da justiça climática, dos direitos humanos e do direito das futuras gerações (justiça intergeracional).

Da mesma forma, é importante e fundamental termos em mente a dimensão da interconexão ou interligação entre todas as dimensões do viver humano e das relações entre natureza e humanidade, daí a ênfase de que “tudo está interligado”: fatores físicos, químicos, biológicos, sociais, políticos, econômicos e culturais. A degradação ambiental reflete também a degradação humana e as estruturas do pecado ecológico.

Outro aspecto a ser considerado é que precisamos, de fato, de uma grande mudança de paradigmas e, nesse sentido, é imperioso rejeitar o paradigma tecnocrático e antropocêntrico, adotando uma “ecologia integral” que valoriza cada criatura e prioriza os mais frágeis, tendo sempre presente que “o gemido da terra” é também o gemido e o grito dos pobres, excluídos e injustiçados.

Além disso, as ações concretas decorrentes de uma conversão ecológica precisam reconhecer a “dívida ecológica” de gerações e países e adotar comportamentos e ações solidárias, reparadoras, de responsabilidades coletivas nacionais e internacionais.

Feito isso, estaremos em condições de promover uma educação ambiental ou ecológica radical e libertadora, tanto nas residências, nas escolas e nas igrejas quanto em outros espaços, como nas comunidades, nos locais de trabalho, nas organizações públicas, privadas e não governamentais.

Os países ricos não podem continuar poluindo e destruindo o planeta impunemente e, em todos os países, é preciso definir responsabilidades em relação aos crimes ambientais/pecados ecológicos.

É nesse contexto que emerge a educação ambiental crítica e libertadora, ampliando e aprofundando o diálogo em relação ao que está acontecendo com o planeta, a partir de cada território, concretamente definido.

Vejamos, por exemplo, algumas formas de promovermos uma educação ambiental/ecológica radical e libertadora em relação ao que está acontecendo com o planeta, a partir de cada território, concretamente definido.

A primeira delas é a ênfase na importância e na necessidade de uma transformação profunda e radical de estilos de vida responsáveis pela degradação ambiental e pela destruição da natureza e da biodiversidade, combatendo os sistemas econômicos que não respeitam os “limites do planeta” nem o “nosso futuro comum”, e que são orientados apenas por um imediatismo voltado ao lucro fácil, pouco se importando com a herança socioambiental a ser deixada para as futuras gerações, além das consequências já presentes na atualidade.

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Esta é uma ação que visa despertar a consciência ambiental/ecológica em diferentes públicos e motivar as pessoas a promoverem mobilizações em busca da definição de políticas públicas, tanto nas dimensões reparadoras quanto mitigadoras, e também para a conservação e proteção dos biomas e ecossistemas.

Paralelamente a esse despertar ecológico, por meio de um processo de mobilização coletiva, não podemos também ignorar a importância e o papel de ações de adaptação e mitigação, tanto individuais quanto coletivas.

Essas são ações e mobilizações para combater o consumismo, os plásticos, o desperdício, todas as formas de degradação ambiental, a geração de lixo/resíduos sólidos e, enfim, as diferentes formas de poluição do solo, das águas e do ar.

Despertar as pessoas, em todas as faixas etárias, para a necessidade de incentivarmos a economia circular, a reciclagem, a agroecologia, a arborização urbana, a importância das florestas, inclusive das florestas urbanas, a agricultura urbana, as hortas domésticas, escolares e comunitárias para a produção orgânica; o incentivo às práticas de economia solidária, o uso de fontes renováveis de energia, incluindo sistemas cooperativos, a importância da moradia digna e o combate ao uso de combustíveis fósseis, responsáveis por 80% das emissões de gases de efeito estufa e que contribuem para a crise climática e suas consequências.

A educação ambiental radical e libertadora, nesse sentido, é uma prática revolucionária, mas fundamentalmente de natureza pacífica, porque busca criar novas formas e estilos de vida baseados no respeito à natureza, em defesa da dignidade e dos direitos humanos, na valorização dos saberes tradicionais e ancestrais e na sustentabilidade plena, diferente dos atuais sistemas produtivos que ignoram a importância de uma mudança profunda dos paradigmas que os sustentam, distantes do bem comum e de uma espiritualidade ecológica que reconhece tudo como obra da criação.

Os conflitos que porventura surgem relacionados às questões socioambientais só existem devido à resistência de alguns setores políticos, econômicos e sociais que não reconhecem que só existe um planeta, que os chamados “recursos naturais” não são inesgotáveis e que todas as obras da criação, enfim, o planeta, é um bem comum, ou seja, de todos, e não pode estar apenas sujeito à lógica mercadológica e ao lucro a ser acumulado “nas mãos” ou nas contas bancárias de uma minoria privilegiada, em detrimento do direito de todos e de todas de usufruírem desses bens e serviços produzidos.

A educação ambiental radical e libertadora é o único caminho que nos leva a uma cidadania ecológica plena e transformadora. Por isso, vale a pena caminhar nessa direção.

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado, sociólogo, mestre em sociologia, ativista social, ambientalista, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: [email protected]. Instagram: @profjuacy. WhatsApp: 65 9 9272 0052

 

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