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Quem tem medo do Lobo Mau?

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Por Kamila Garcia

Houve um tempo em que o medo infantil tinha estética e enredo. Morava debaixo da cama, no fundo do armário ou atrás da porta mal fechada. Chamava-se Bicho-Papão, Cuca, Homem do Saco. Eram monstros organizados, com funções claras: assustavam, educavam e depois iam embora. O folclore prestava um serviço público.

Naquele tempo, os perigos eram imaginários, mas a liberdade era concreta. Pulava-se o muro, jogava-se bola descalço e comia-se goiaba direto do pé, com bicho, poeira e nenhuma preocupação sanitária. A amizade nascia no “ato criminoso” de tocar a campainha e fugir. A dieta era simples: feijão com arroz durante a semana e, aos domingos, o macarrão da avó — sem rótulo nutricional e sem culpa.

Hoje, a infância foi terceirizada. O quintal virou aplicativo, a imaginação entrou em modo avião e o brincar agora exige Wi-Fi. O Lobo Mau foi aposentado por falta de audiência. Seus contos não resistiram à concorrência das notificações e dos vídeos de quinze segundos.

A modernidade mudou o elenco:

  • Os Três Porquinhos agora são incorporadores imobiliários.
  • Chapeuzinho Vermelho fez um rebranding e trocou o capuz por grifes internacionais.
  •     O Lobisomem, desorientado entre prédios e poluição luminosa, mal encontra a lua cheia — e, quando a encontra, prefere não sair. Segurança em primeiro lugar.
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E então, quem tem medo do Lobo Mau? Talvez ninguém. O medo de hoje não rosna, não sopra casas e não avisa que chegou. Ele envia boletos, reajustes e “avisos importantes”. Veste terno, fala difícil e promete mundos e fundos em ano eleitoral. Não precisa de floresta — atua muito bem em salas refrigeradas.

Vivemos em casas trancadas, protegidos do mundo e reféns da rotina. A criança não sai para brincar; o adulto sai apenas para trabalhar. A Cuca não pega mais quem não quer dormir. Ela espera acordada, sentada na fatura do cartão de crédito.

O Lobo Mau era previsível. Batia à porta, soprava e pronto. O medo contemporâneo é educado, silencioso e persistente. Ele não uiva, não corre atrás. Apenas ocupa espaço, consome tempo e cobra juros.

O Lobo Mau virou personagem inofensivo de livro infantil. Já o lobo de hoje? Ele assina contratos, parcela em doze vezes e nos tira o sono sem precisar, sequer uma vez, mostrar os dentes.

Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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Valores de casa: o verdadeiro endereço da vida

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Por Soraya Medeiros

Há um endereço que permanece em nós muito depois da partida. Não é o CEP registrado em documentos, nem o bairro onde crescemos. É um endereço invisível — formado pelos valores que recebemos no lar. Quando sólidos, eles nos acompanham por toda a vida, orientando escolhas, moldando atitudes e sustentando quem nos tornamos.

Em tempos marcados pela pressa e pela busca de resultados imediatos, essa verdade parece esquecida: o verdadeiro endereço do ser humano não é geográfico, é ético. Mudamos de cidade, de país, de profissão e de relações. Vivemos o reconhecimento e também a rejeição. Ainda assim, nas diferentes fases da vida — nas conquistas ou nas dificuldades — são os valores aprendidos em casa que nos orientam. Honestidade, respeito, trabalho e empatia deixam de ser apenas palavras e se tornam referências internas.

Como destaca o psicólogo e educador Rossandro Klinjey, os valores não se herdam, mas se constroem pelo exemplo e pela convivência. O lar, portanto, é mais do que um espaço físico: é a primeira escola da alma. É ali que se formam as bases que, mais tarde, sustentarão decisões, relações e caminhos inteiros.

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Por isso, os conselhos daqueles que vieram antes merecem atenção. Pais, avós, tios e mestres carregam experiências que ainda nem sabemos nomear. Suas trajetórias são tecidas de erros, acertos, quedas e recomeços. E, muitas vezes, na simplicidade de suas palavras, está a profundidade de quem já enfrentou a vida em sua forma mais real.

Ainda assim, vivemos uma época em que o conselho é frequentemente ignorado. O excesso de informações faz com que muitos confundam opinião com sabedoria. A pressa leva outros a tratar a experiência como algo ultrapassado. Esquecemos que a maturidade não surge por acaso — ela é construída ao longo do tempo, também por meio das dificuldades. Por isso, é essencial saber ouvir: não apenas quem nos agrada, mas principalmente quem nos orienta com verdade. É no silêncio dessa escuta que a nossa consistência se consolida.

E é nesse ponto que surge uma reflexão sobre a felicidade. Não a felicidade passageira das conquistas materiais ou do reconhecimento público, mas aquela que resiste ao tempo. A felicidade de quem, ao final do dia, consegue olhar para si e reconhecer alguém que permaneceu fiel aos próprios princípios.

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Porque, no fim, o sucesso é instável. O fracasso é passageiro. Mas os valores que criam raízes na alma permanecem. São eles o único endereço que nunca deixamos.

Soraya Medeiros é jornalista.

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