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Vai pro Japão, mas passe antes no Pantanal
Por Daniel Teixeira
Uma torre de ferro em Paris recebe sete milhões de visitantes por ano. O Brasil inteiro, com Amazônia, Pantanal, Nordeste e cinco mil quilômetros de costa, não passa disso. Uma estrutura metálica de 330 metros empata com um continente. É o tipo de dado que deveria causar muito incômodo. Não causa.
Porque o brasileiro tem uma relação histórica com o que vem de fora: se custa em euro ou dólar, é melhor. Se é longe, é sofisticado.
Tenho duas filhas. Andaram de camelo antes de andar a cavalo. Conheceram a Disney antes do Pantanal. Não me orgulho disso. Conto porque sei que não sou o único pai nessa situação.
Ninguém contou que o espetáculo é aqui.
A Chapada fica a sessenta e oito quilômetros de Cuiabá. Tem o Véu de Noiva, o Alto do Céu, a Casa de Pedra, formações rochosas que só Deus explica e nenhum arquiteto reproduz. O turista europeu abre a boca e não fecha mais. Muito mato-grossense não conhece nenhum dos três.
Campo Novo tem cachoeiras que derrubam qualquer ranking internacional. O Salto Belo fica dentro de uma aldeia indígena da etnia Pareci. A cortina d’água cai sobre a cabeça com uma força que reorganiza o sistema nervoso. Rafting, rapel, trilhas e um silêncio que o mundo moderno não sabe mais produzir. Os gringos já descobriram. Nós ainda não.
Vila Bela foi a primeira capital de Mato Grosso. Fundada em 1734. Arquitetura colonial preservada, história quilombola densa. Pesquisadores europeus vêm estudar o que o mato-grossense nunca foi ver.
O Pantanal é o maior santuário de vida selvagem do planeta. A onça que o turista americano paga fortunas para ver em safáris africanos está a algumas horas de Cuiabá. A onça está lá. A gente passa reto, sem apreciar.
O Japão virou febre. Destino obrigatório de uma classe que descobriu o anime, as máquinas de venda automática de itens inexplicáveis e a arte de fazer fila. Bom para o Japão. Doído no bolso de quem foi. O iene não tem a menor piedade do real. A mesma pessoa que atravessa o Pacífico para fotografar cerejeiras nunca subiu ao Alto do Céu para ver o mais belo pôr do sol do mundo. Mas uma delas não exige iene.
O problema não é turístico. É de percepção. Turismo começa na escola, na ideia que se forma ainda criança sobre o que vale conhecer. Se essa ideia sugerir que o que é daqui é menor, o resultado é o de sempre: o brasileiro vai ao Epcot ver uma maquete da Europa e nunca foi ao Pantanal mesmo morando a uma hora de carro.
É nesse contexto que a FIT Pantanal 2026 importa de verdade. A feira acontece de 3 a 7 de junho no Centro de Eventos do Pantanal em Cuiabá, entrada gratuita, maior evento do setor no Centro-Oeste e no Norte do país. Gastronomia, artesanato, roteiros que o próprio cuiabano desconhece, rodadas de negócios e experiências imersivas. É a oportunidade de olhar para o que temos com a mesma seriedade com que olhamos para o outro lado do oceano Pacífico.
Não faz sentido um país desse tamanho perder pra uma torre de ferro e uma cerejeira que dura duas semanas.
Daniel Teixeira é presidente da Abrasel-MT – Associação Brasileira de Bares e Restaurantes
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O que muda após o perdão
Por Soraya Medeiros
Há cerca de seis anos, uma inquietação silenciosa começou a me atravessar. Eu me perguntava, repetidamente, por que estava me anulando, por que carregava culpas que pareciam não ter fim e por que certas dores insistiam em permanecer, mesmo quando tudo ao redor já havia mudado. Era como viver presa a um passado que já não existia, mas que ainda determinava meus sentimentos, minhas escolhas e, principalmente, a forma como eu me via.
Foi nesse momento de exaustão emocional que senti um chamado — não externo, mas profundamente interno. Um convite quase urgente para olhar para dentro da minha própria alma. E olhar para dentro nem sempre é confortável. Exige coragem para revisitar feridas, reconhecer fragilidades e encarar verdades que, por muito tempo, preferimos evitar.
Nesse processo, compreendi que havia um passo essencial que eu ainda não tinha dado: o perdão.
Perdoar aqueles que passaram pela minha vida parecia difícil, mas possível. O grande desafio, contudo, era outro — perdoar a mim mesma. Perdoar minhas escolhas, minhas falhas e a versão de mim que fez o melhor que podia com o que sabia naquele momento.
O psicólogo Fred Luskin afirma que “o perdão é uma ferramenta para a saúde, não um presente para quem nos feriu”. Essa ideia reforça que perdoar não é sobre o outro, mas sobre libertar a si mesmo do peso da dor.
A travessia é individual. Ninguém pode percorrer por nós os caminhos mais profundos da nossa existência. Por isso, o acolhimento precisa começar de dentro. No meu caso, esse mergulho se expandiu após uma consagração com Ayahuasca, que me permitiu acessar camadas internas que eu ainda não alcançava.
Muitas pessoas têm preconceito em relação à Ayahuasca — e eu também já tive. Julgava sem conhecer, tinha receios e dúvidas. Mas, ao estudar e me permitir viver a experiência com responsabilidade, encontrei um processo profundo e transformador, que me ajudou a acessar dores antigas e iniciar uma verdadeira cura.
Foi a partir desse realinhamento que consegui me enxergar com mais verdade. E então, em um ato simples, mas profundamente libertador, eu disse em voz alta: “Eu perdoo”. E depois: “Eu me perdoo”.
Foi ali que algo mudou.
O perdão não apaga o passado, mas muda a forma como o carregamos. Ele rompe correntes invisíveis, dissolve culpas e abre espaço para o novo. Após o perdão, a vida ganha leveza. A autocobrança dá lugar à autocompaixão.
Perdoar a si mesmo é um dos maiores atos de amor-próprio. É reconhecer que somos humanos, imperfeitos e em constante aprendizado. Hoje, percebo que aquela versão de mim só precisava de acolhimento. E fui eu mesma quem finalmente ofereceu isso.
O perdão não muda o que aconteceu, mas muda completamente quem nos tornamos depois disso. E, às vezes, é exatamente essa mudança que representa a verdadeira cura.
Soraya Medeiros é jornalista
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