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Parece que foi ontem
Por Antonio Joaquim
Parece que foi ontem. Dia 7 de abril de 2000. A lembrança da minha nomeação ao Tribunal de Contas de Mato Grosso ainda me vem com nitidez, como se o tempo não tivesse passado com a velocidade que, hoje percebo, ele realmente passou. São 26 anos de uma jornada que começou com expectativas, desafios e um profundo senso de responsabilidade pública. Ao revisitar essa trajetória, o sentimento que emerge é uma mistura de saudosismo e gratidão. Saudosismo pelas etapas vividas, pelas pessoas que caminharam ao meu lado e pelos momentos que ajudaram a construir quem sou hoje. E gratidão pela oportunidade de servir ao Estado de Mato Grosso e o Brasil em diferentes frentes ao longo da vida pública.
Antes mesmo de chegar ao Tribunal de Contas, tive a honra de atuar no Parlamento. Primeiro como um aguerrido deputado estadual, na trincheira da oposição, inclusive durante a Constituinte Estadual. Fui o “brizolinha pantaneiro”, em referência ao guerreiro Leonel Brizola, nosso líder no PDT. Tinha como marcas de atuação a determinação e a lealdade. Aprendi desde cedo que você pode ser firme, convicto, mas precisa sempre respeitar aliados e adversários. Depois, na Câmara dos Deputados, vivi momentos especiais como deputado federal, um dos mais votados de Mato Grosso. Foram experiências que moldaram minha compreensão sobre a importância das instituições e do compromisso com o bem comum.
No Governo Dante de Oliveira, pude contribuir com políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do nosso Estado, em um período de grandes transformações estruturais em um Estado que estava quebrado, falido se o poder público pudesse falir. Fui secretário de Infraestrutura e Secretário de Estado de Educação, com letras maiúsculas. Disparado, a maior e mais inesquecível experiência, pelas marcas deixadas em minha trajetória pública. Vem desse período minha verdadeira paixão pela causa da educação pública. Eu acredito no poder transformador da educação. Transforma a si, transforma o próximo. Transforma e melhora a sociedade. Aproveito para homenagear todos aqueles que dedicam a vida ao ensino, a começar pela minha esposa Tânia, professora de carreira, minha educadora.
Mas foi no Tribunal de Contas que encontrei um espaço permanente de construção. Aqui, ao longo desses anos, fortaleceu-se em mim a convicção de que o controle externo vai muito além da fiscalização da gestão dos recursos públicos: ele é instrumento de cidadania. Por isso, sempre defendi o fortalecimento do controle social, como forma de aproximar a sociedade da gestão pública e, com a participação cidadã, retroalimentar o controle externo. O cidadão está sempre onipresente. Quando participa, fala, denuncia, cobra, transforma a vida social e impulsiona as instituições. Acredito que cidadãos bem-informados participam melhor, cobram melhor e ajudam a construir governos mais responsáveis. Impossível não lembrar de iniciativas como o projeto Consciência Cidadã, que nasceram dessa crença. Não fui pai desse projeto, mas fui padrinho, padrasto.
Em nível nacional, tive a honra de contribuir para o desenvolvimento do sistema Tribunais de Contas. Na presidência da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil, trabalhei para mudar o foco da entidade, direcionando esforços para a melhoria concreta das nossas instituições de controle externo. A Atricon, quando assumi, era uma instituição corporativa, voltada praticamente para o interesse do associado. Como os Tribunais de Contas até hoje carecem de um conselho nacional que os organiza e fiscaliza, a exemplo do CNJ para o Poder Judiciário, e o CNMP, para o Ministério Público (órgãos de controle criados pela Emenda Constitucional 40), entendi que a Atricon tinha que organizar o sistema e lutar pela melhoria dos Tribunais de Contas brasileiros.
Parece um passado longínquo, mas em 2012, existiam tribunais de ponta e muitos abaixo da linha do aceitável. Minha gestão foi um marco transformador. Falo isso pelo sem-número de homenagens que recebo constantemente por ter sido esse líder naquele momento histórico. Foi um período de intensa dedicação, do qual resultaram iniciativas estruturantes, como o Marco de Medição de Desempenho dos Tribunais de Contas, o MMD-TC, iniciado com outro nome o QATC, programa que avaliava a qualidade e agilidade dos tribunais. Atualmente, todos os 33 Tribunais de Contas se submetem a essa avaliação. Com certeza, a evolução de todos passou por esse programa.
Para essa época da minha vida, homenageio a memória do saudoso conselheiro Salomão Ribas (TCE-SC). Ele que inventou minha candidatura, em um congresso da Atricon em Belém (PA), uma ideia que teve a adesão de outros dois ícones, Thiers Montebello (TCM/RJ) e Chico Neto (TCM-BA). Disse-me Salomão, secretamente: “eu não posso, mas você, novo e pouco desconhecido, pode nos provocar um terremoto necessário”. Como desafio pouco é bobagem, aceitei fui lançado aos leões. Não custa lembrar que, diferente do CNJ e CNMP, era e ainda é a mensalidade dos associados que banca o trabalho da Atricon de melhorar instituições públicas. Por isso, fui amado, odiado, mas felizmente hoje exaltado.
Ver, anos depois, o avanço dessas e outras ações na Atricon e em todo o Sistema Tribunais de Contas, como o Programa Nacional de Transparência Pública – minha última contribuição nacional mesmo apenas como membro da entidade, proposta de 2021 – reforça a certeza de que cada esforço valeu e continua valendo a pena.
Logicamente, são conquistas que não pertencem a uma pessoa, mas a todos que acreditam na força das instituições.
No Tribunal de Contas de Mato Grosso, para além da atividade obrigatória voltada à fiscalização e o julgamento de contas públicas, uma das causas que mais têm mobilizado minha atuação é a educação pública, agora presidindo a Comissão Permanente de Educação e Cultura. Em especial, a atenção à primeira infância e a defesa da construção de creches como política essencial para o futuro, com ajuda do Gabinete de Articulação para a Efetividade da Política de Educação (GAEPE), uma iniciativa de governança colaborativa.
Cuidar das nossas crianças é, sem dúvida, o maior investimento que podemos fazer enquanto sociedade. Essa causa tem-me nutrido diariamente, em conjunto com a atuação como conselheiro ouvidor do TCE-MT. Nessa área, basta lembrar que em menos de cinco anos, como trabalho de mobilização, orientação, treinamento, conseguimos influenciar e fazer com que praticamente todos os órgãos públicos tenham criado sua Ouvidoria Pública.
Ao olhar para trás, é impossível não sentir saudade. Mas é uma saudade serena, acompanhada do orgulho pelas sementes plantadas e pelos resultados alcançados. O tempo passou — rápido, talvez até mais do que eu gostaria —, mas deixou marcas positivas, aprendizados e realizações. Se hoje parece que foi ontem, é porque cada momento vivido foi significativo. E é com esse mesmo espírito que sigo adiante, renovando o compromisso com o serviço público, com a ética e com a construção de um Estado cada vez melhor.
Antonio Joaquim é conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso
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Pelo fim dos combustíveis fósseis
Por Juacy da Silva
“A era dos combustíveis fósseis está chegando ao fim. O Sol está nascendo para uma nova era de energias limpas. O fim da era dos combustíveis fósseis está chegando. É imparável. Os países que se agarram aos combustíveis fósseis não estão a proteger suas economias, estão a sabotá-las, aumentando os custos e enfraquecendo a energia renovável, que já é mais rentável. A era do aquecimento global acabou; a era da ebulição global chegou. Basta de queimar nosso futuro.” António Guterres, Secretário-Geral da ONU, em diversos momentos de 2024-2025.
A transição energética mundial é um desafio urgente, que não pode ser postergado, tendo em vista o agravamento da crise climática decorrente do aumento da produção e uso de combustíveis fósseis, responsáveis por mais de 80% das emissões de gases de efeito estufa, a principal causa da crise climática.
Sem abandonar o uso dos combustíveis fósseis, todas as demais providências ou ações para reduzir o aquecimento global, que provoca a crise climática e suas consequências, tornam-se praticamente ineficazes, pois estaríamos agindo apenas sobre os 20% das demais origens e causas, deixando de lado o que de fato está destruindo o planeta.
Embora o tema dos combustíveis fósseis fosse abordado timidamente em COPs anteriores, a primeira vez que uma proposta clara e robusta para o fim do uso de todos os combustíveis fósseis (phase-out) foi colocada em pauta — e rejeitada no documento final, gerando grande controvérsia — foi na COP27, em Sharm el-Sheikh, Egito (2022).
Na COP30, em novembro de 2025, em Belém, novamente esse assunto foi rejeitado, principalmente pelos países que mais poluem o planeta, que mais emitem gases de efeito estufa decorrentes do uso de combustíveis fósseis, inclusive o Brasil.
A posição do Brasil tem sido extremamente contraditória. De um lado, mantém o discurso oficial de sustentabilidade; de outro, tenta fortalecer a Petrobras, cujo objetivo estratégico é tornar-se a quarta maior empresa produtora de petróleo e gás natural do planeta.
Para tentar minimizar essa postura contraditória, o país busca equilibrar o discurso de sustentabilidade em relação à Amazônia e sua matriz energética baseada em fontes renováveis, enquanto segue explorando petróleo no pré-sal e na região setentrional da foz do Amazonas.
A chamada derrota em Belém na COP30 ocorreu quando, ao final da conferência, o documento aprovado em 22 de novembro de 2025 omitiu qualquer menção explícita à eliminação gradual (phase-out) ou ao fim dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural).
Essa resistência demonstra claramente que os países que mais poluem e destroem o planeta, principalmente os integrantes do G20 — com destaque para China, Estados Unidos, Índia, Rússia e União Europeia — são também os que mais resistem e boicotam uma transição energética justa e livre de combustíveis fósseis.
Os relatórios mais recentes de monitoramento de emissões mostram que China, Estados Unidos, Índia, Rússia e União Europeia continuam sendo os maiores emissores mundiais, representando coletivamente mais de 60% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Com base em dados preliminares de 2025, os países do G20 continuam sendo os maiores emissores globais de gases de efeito estufa e, portanto, os principais responsáveis por cerca de 75% a 80% das emissões globais.
Entre 2000 e 2025, as emissões globais aumentaram mais de 50%, passando de 25,5 bilhões para 38,6 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente. Em 1972, na 1ª Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, o volume era de 16,2 bilhões de toneladas. Em 1992, na ECO-92, subiu para 22,7 bilhões. Em 2015, ano do Acordo de Paris, chegou a 35,2 bilhões.
A dominância dos combustíveis fósseis nos últimos 75 anos pode ser constatada na matriz energética: de cerca de 85% a 90% nos anos 1970 para 81% em 2025. Em 75 anos, a redução foi mínima. Mantido esse ritmo, precisaremos de mais de um século para concluir a transição — tempo suficiente para elevar a temperatura média da Terra em 3°C ou 4°C, inviabilizando a vida no planeta.
As energias renováveis representavam apenas 19% da matriz em 2025, ilustrando que ainda não conseguiram substituir de forma efetiva os combustíveis fósseis.
Grandes interesses econômicos e poderosos lobbies sustentam o uso dos combustíveis fósseis, influenciando políticas públicas e garantindo subsídios bilionários.
Os subsídios aos combustíveis fósseis superaram US$ 7 trilhões em 2024, podendo alcançar US$ 7,6 trilhões em 2026.
O Brasil segue essa tendência: foram R$ 80 bilhões em subsídios em 2023; R$ 47 bilhões em 2024; R$ 49,2 bilhões em 2025. Em 2026, com a instabilidade causada pelas guerras da Ucrânia e do Oriente Médio, impostos foram reduzidos, ampliando os subsídios indiretos.
Mesmo com sucessivos fracassos em definir uma data para abandonar os fósseis, esse objetivo permanece fundamental para mobilizar a opinião pública mundial.
Entre 24 e 29 de abril de 2026, ocorreu em Santa Marta, na Colômbia, a 1ª Conferência da Transição pelo Fim dos Combustíveis Fósseis, com apoio dos governos da Colômbia e da Holanda, além de diversas organizações internacionais.
Apesar do fracasso da COP30, esse encontro histórico reuniu os principais defensores da transição energética livre de combustíveis fósseis, reconhecendo a urgência de mudanças significativas.
A transição energética — com abandono total dos combustíveis fósseis, de forma justa, ordenada e planejada — é o único caminho para um desenvolvimento sustentável, baseado em carbono zero, justiça climática e soberania energética.
Não existe sustentabilidade ecológica enquanto o mundo seguir dependente de combustíveis fósseis, que alimentam o que o Papa Francisco chama de “economia da morte”.
Seguindo essa linha, o Papa Leão XIV tem exortado cristãos e demais fiéis a refletirem sobre os males causados pelos combustíveis fósseis. Segundo ele: “Os combustíveis fósseis pertencem ao passado. O futuro deve ser alimentado por energia limpa e renovável. A criação está clamando em inundações, secas, tempestades e calor insuportável. Somos guardiões da criação, não rivais pelos seus despojos.”
Se a dependência continuar, submetendo o mundo a interesses econômicos que ignoram os clamores da Terra, dos pobres e das futuras gerações, a humanidade corre o risco real de não ter futuro sustentável.
Este é o sentido e a esperança da luta pelo fim dos combustíveis fósseis. Cabe a nós enfrentá-la, aqui e agora, a partir de cada território e cada iniciativa.
Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social e articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste – E-mail: [email protected] – Instagram: @profjuacy – WhatsApp: 65 9 9272 0052
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