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O queijo e a história de um território

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Por Lélia Brun

Mato Grosso é um estado de muitas vocações. Em cada região, há uma força produtiva, uma tradição e uma forma própria de transformar trabalho em identidade. Em Curvelândia, município com cerca de cinco mil habitantes, localizado na região sudoeste do estado, essa vocação passa pelo leite, pela produção do queijo e por uma comunidade que aprendeu a fazer dessa história um símbolo de pertencimento.

Foi com esse olhar que participei da 16ª Festa do Queijo, neste mês de junho, uma celebração que vai muito além do evento em si. Acompanhei de perto o processo de fabricação, desde o preparo do leite até a montagem do queijo, e pude perceber que cada etapa carrega técnica, cuidado e, principalmente, propósito.

Ao visitar um laticínio e acompanhar o produtor Antônio Bornelli Filho, sócio-proprietário do Laticínios Rovigo e presidente do Sindilat, idealizador da festa, ficou ainda mais evidente o quanto essa tradição foi construída com dedicação. A trajetória do empresário, reconhecida também pela Guilde des Fromagers, representa a força de quem transforma um saber local em referência cultural e produtiva.

Estar em lugares e conhecer o poder das comunidades são o combustível para meus ideais, para meu trabalho. E digo que o que mais me marcou foi o envolvimento das pessoas. Havia cansaço em alguns semblantes, porém havia também brilho nos olhos. Pessoas que estavam ali não apenas pelo trabalho, mas pelo resultado maior. É uma entrega coletiva.

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Essa união aparece de forma muito bonita na chamada “romaria” do queijo, quando a carreata percorre a cidade levando um queijo de mais de três mil quilos. A população acompanha ao som de uma banda e o desfile acontece destacando a importância daquele momento. Há respeito, expectativa e orgulho. Ao final da festa, o queijo é compartilhado com a população. É tradição, mas também é impacto social.

É nesse ponto que a Festa do Queijo revela sua força estratégica. Quando uma comunidade se une em torno de uma vocação, ela fortalece sua identidade, movimenta a economia local, atrai pessoas de outras regiões e cria oportunidades para o território. O queijo se torna protagonista, mas também se torna ponte entre cultura, desenvolvimento e futuro.

Também vejo nessa experiência uma conexão importante com a agenda ESG. Muitas vezes, falamos desse tema a partir de grandes indicadores, mas ele também está presente quando existe responsabilidade com a comunidade, valorização da cultura local e uma entrega concreta para a sociedade.

O Sebrae MT tem atuado para fortalecer pequenos negócios, cadeias produtivas e vocações territoriais em todo o estado. Reconhecemos a importância de iniciativas como essa, que valorizam a cadeia do leite, estimulam a agregação de valor e mostram como a identidade de um território pode se transformar em desenvolvimento.

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Saí de Curvelândia com a certeza de que uma tradição se mantém viva quando existe gente comprometida em cuidar dela. A Festa do Queijo é uma homenagem ao trabalho, à cultura e ao senso de propósito de uma comunidade que fez do queijo um símbolo de orgulho para Mato Grosso.

E aproveito aqui para convidar a todos para o Festival do Queijo e Produtos Lácteos de Mato Grosso, dias 3 e 4 de julho, no Centro de Eventos do Pantanal. Temos orgulho em trabalhar neste setor há décadas, pela melhoria do leite, pela valorização da agroindústria e produção artesanal. Muitos prêmios estão sendo conquistados, provando que Mato Grosso está no circuito mundial da produção queijeira de qualidade.

Lélia Brun é Diretora-Superintendente do Sebrae MT

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Amorosidade vira artigo de luxo em tempos de julgamento

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Por Kamila Garcia

Cada pessoa carrega em si um universo próprio, formado por experiências, afetos, traumas e valores. É a partir desse repertório individual que enxergamos o mundo, tomamos decisões e interpretamos o comportamento alheio. Diante dessa diversidade, esperar comportamentos homogêneos é ignorar a própria natureza humana. Não somos iguais — e é justamente aí que nasce o maior desafio da convivência.

A forma como definimos o que é certo ou errado também passa por esse filtro pessoal. A moralidade, embora pareça universal, é atravessada por subjetividades. Ainda assim, existe uma espécie de bússola interna que orienta nossas escolhas, construída ao longo da história por leis, costumes e valores culturais.

Normas, porém, não garantem atitudes. Elas indicam caminhos, mas cabe a cada indivíduo decidir se irá segui-los. E é nesse ponto que surge um dos principais conflitos da atualidade: o excesso de julgamento.

Vivemos em uma era em que opinar se tornou automático — e, muitas vezes, condenar virou regra. As redes sociais potencializaram esse comportamento, transformando divergências em disputas e diferenças em ataques. Criamos uma cultura de tribunais informais, onde muitos julgam e poucos se dispõem a compreender.

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Nesse cenário, esquecemos uma verdade essencial: a única vida sob nosso real controle é a nossa. A única transformação possível começa dentro de cada um.

O psicólogo Carl Rogers, um dos principais nomes da abordagem humanista, já defendia que compreender o outro exige mais do que ouvir — exige empatia genuína e a suspensão de julgamentos. Para ele, só é possível haver crescimento verdadeiro quando existe um ambiente de aceitação.

Reconhecer isso não é indiferença, mas responsabilidade. A cada pessoa cabe olhar para si, rever atitudes e buscar evolução. Quando esse limite é respeitado, as relações deixam de ser espaços de imposição e passam a ser territórios de encontro.

É nesse contexto que a reciprocidade ganha força. Não como troca condicionada, mas como expressão de respeito. Relações saudáveis se sustentam na capacidade de reconhecer o outro como ele é, sem a necessidade de moldá-lo.

É por isso que a amorosidade está se tornando tão rara. Em meio à pressa, à polarização e aos julgamentos imediatos, o cuidado com o outro perdeu espaço — tornou-se, de fato, um artigo de luxo.

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Resgatar essa postura exige menos apontamento e mais consciência. Em um mundo que fala muito, mas escuta pouco, escolher compreender pode ser um ato silencioso — e profundamente transformador.

Kamila Garcia é bacharel em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, com pós-graduação em Psicanálise. Atualmente é estudante de Psicologia.

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