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Lipedema: quando a balança não conta toda a história

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Por Mariana Ramos

Junho é o mês de conscientização sobre o lipedema, uma condição que vem ganhando visibilidade nos últimos anos, mas que ainda é cercada por desinformação, preconceitos e diagnósticos equivocados.

Talvez uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres com lipedema seja ouvir, repetidamente, que o problema seria apenas excesso de peso. Muitas passam anos tentando diferentes dietas, intensificando a prática de exercícios físicos e enfrentando sentimentos de culpa por não conseguirem alcançar os resultados esperados. O que poucas sabem é que, em muitos casos, a explicação pode estar além da balança.

O lipedema é uma doença crônica que afeta principalmente mulheres e se caracteriza pelo acúmulo desproporcional de gordura, especialmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços. Diferentemente da obesidade, essa gordura apresenta características próprias: costuma ser dolorosa, sensível ao toque, associada a hematomas frequentes e costuma reduzir de forma menos proporcional que outras regiões do corpo durante a perda de peso. Além disso, geralmente poupa pés e mãos, criando uma desproporção corporal bastante característica.

Nos últimos anos, a endocrinologia passou a olhar para essa condição com ainda mais atenção. Isso porque o tecido adiposo deixou de ser entendido apenas como um depósito de gordura. Hoje sabemos que ele funciona como um órgão metabolicamente ativo, capaz de produzir substâncias inflamatórias, influenciar hormônios e impactar diversos sistemas do organismo.

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Nesse contexto, o lipedema mostra que nem toda gordura corporal se comporta da mesma forma. Alterações no tecido adiposo podem gerar repercussões que vão muito além da estética.

Estudos recentes apontam a participação de fatores hormonais, genéticos e alterações locais do tecido adiposo no desenvolvimento da doença, o que ajuda a explicar por que ela costuma surgir ou piorar em fases marcadas por grandes mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa.

É justamente aí que a endocrinologia exerce um papel fundamental. Embora não exista um exame laboratorial capaz de confirmar o diagnóstico, a avaliação endocrinológica contribui para identificar condições associadas, avaliar fatores metabólicos, investigar a presença de obesidade quando ela existe e construir estratégias individualizadas para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida.

Outro ponto importante é compreender que obesidade e lipedema não são sinônimos. As duas condições podem coexistir e frequentemente se potencializam, mas possuem mecanismos distintos. Quando essa diferença não é reconhecida, muitas pacientes acabam recebendo orientações inadequadas e carregando uma culpa que não deveria existir.

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Falar sobre lipedema é também falar sobre acolhimento. É reconhecer a dor física, mas também o impacto emocional de uma doença frequentemente invisível. É lembrar que muitas mulheres passaram anos sendo julgadas antes de serem diagnosticadas.

Neste mês de conscientização, o convite é para que olhemos para além da estética e compreendamos o lipedema como ele realmente é: uma condição médica que merece diagnóstico adequado, acompanhamento multiprofissional e, acima de tudo, respeito. O reconhecimento precoce da doença permite orientar medidas que podem ajudar no controle dos sintomas e na preservação da qualidade de vida.

Porque nem toda dificuldade para perder medidas está relacionada à falta de esforço. Às vezes, a resposta está em uma doença que precisa ser reconhecida.

Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.
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Crise silenciosa na nutrição animal

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Por Guilherme Tonhá

Nos últimos dias, o mercado de commodities e insumos acendeu uma luz amarela que o pecuarista não pode ignorar: a escalada global nos preços de insumos importantes para a suplementação mineral dos rebanhos. O principal deles é o ácido sulfúrico, que é uma matéria-prima importante para a cadeia de fósforo utilizada na nutrição animal. Com isso, outros insumos também são afetados, como o fosfato bicálcico, afetando o preço da arroba.

Para entender a gravidade do problema, é preciso olhar para fora da porteira. Grande parte da pressão atual decorre de incertezas geopolíticas no Oriente Médio e dos crescentes riscos logísticos envolvendo o Estreito de Ormuz, uma das rotas comerciais mais vitais do planeta. Sendo o ácido sulfúrico uma matéria-prima fundamental também para a indústria de fertilizantes, as restrições externas de oferta e o encarecimento do frete internacional geraram um efeito dominó. Países fornecedores passaram a priorizar seus mercados internos para garantir a própria segurança alimentar, expondo a extrema vulnerabilidade do modelo brasileiro, cuja produção nacional é insuficiente para atender à demanda interna e altamente dependente de importações.

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O reflexo desse desarranjo global chega de forma severa ao maior rebanho bovino do país. Essa escalada de custos operacionais asfixia o produtor em um momento de extrema fragilidade, caracterizado por margens severamente espremidas e pela desvalorização dos valores pagos pela indústria frigorífica. É a sobreposição de desafios testando a resiliência do pecuarista de corte.

Ignorar a suplementação mineral para cortar custos, contudo, é uma armadilha perigosa. Sem o aporte correto de fósforo e microelementos, os prejuízos são sistêmicos e de longo prazo: há perda imediata no ganho de peso diário, queda crônica na imunidade do rebanho, atraso no cio de vacas de cria (o que estica o intervalo entre partos) e redução na produção leiteira. Em suma, o boi de engorda alonga seu ciclo, empurrando o abate para frente e encarecendo ainda mais o custo de manutenção do animal no pasto ou no confinamento.

Diante desse cenário, o pecuarista moderno precisa entender de uma vez por todas que o sucesso da sua atividade não pode ser balizado apenas pelo preço de venda da arroba. Olhar exclusivamente para o faturamento final é uma visão incompleta de gestão. Na pecuária competitiva de hoje, o lucro real não é apenas vender bem; é, fundamentalmente, saber comprar bem e antecipar os movimentos do mercado.

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O atual momento exige que o produtor monitore os sinais com atenção cirúrgica. O mercado de insumos costuma antecipar movimentos econômicos que só mais tarde impactam o custo de produção. Quem acompanha essas mudanças estruturais consegue se planejar com antecedência, travar custos quando oportuno e proteger sua margem operacional.

Guilherme Tonhá é pecuarista e diretor comercial da Estância Bahia – EB Leilões, EB Fazendas e EB Agro.

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