HISTÓRIA
Júlio Domingos de Campos: O “Seo Fiote”, e a politica como destino de um Mato Grosso uno
Por João Carlos Vicente Ferreira
Houve um tempo em que Mato Grosso era um só. Um tempo em que a vastidão do território não se media em estradas asfaltadas, mas em laços familiares, em comitivas que cruzavam as planícies do Pantanal até os cerrados de Chapada, em bilhetes políticos trocados por correios ou cavalos, em encontros de homens públicos nas varandas das fazendas e nas tribunas improvisadas das câmaras municipais. Um tempo em que nomes como Corumbá, Coxim, Campo Grande, Ponta Porã e Bela Vista conviviam sob o mesmo brasão com Cuiabá, Cáceres, Rosário Oeste, Nossa Senhora do Livramento, Poconé e Várzea Grande.
Era um Mato Grosso uno, embora imenso, onde as fronteiras reais não se desenhavam no mapa, mas nos afetos e nas trajetórias compartilhadas.
Pois, era ali que florescia, entre o rio Cuiabá e as cercanias de Livramento, a história de Júlio Domingos de Campos, o “Seo Fiote”, apelido de infância herdado por ser o caçula de três irmãos. Homem da política, da palavra empenhada e da alma dividida entre dois municípios e dois estados.
Primeiros tempos
“Seo Fiote” nasceu em 9 de janeiro de 1917, na Fazenda Caninana, ficou órfão de pai, sr Benedito Paulo de Campos, quando tinha apenas 1 ano de idade. Criado pela mãe, dona Porfiria Paula de Campos, cresceu com Maria Agostinha e Gonçalo Domingos. A Caninana era uma propriedade que, como ele, dividia-se entre Várzea Grande e Nossa Senhora do Livramento. Talvez esse detalhe geográfico tenha moldado desde cedo seu olhar para o múltiplo, para a conciliação, para o diálogo entre regiões e pessoas. Nascer na divisa não é nascer em cima do muro; é nascer com os pés em duas realidades, duas culturas, dois modos de ser e de ver o mundo. Várzea Grande, mais urbana, ligada ao comércio, à política de gabinete. Livramento, rural, de tradição oral, celeiro de famílias que, ao longo do século XX, espalharam-se pelos confins de Mato Grosso e adentraram as águas pantaneiras rumo a Corumbá, como fez a família de Manoel de Barros, o poeta, que ainda menino partiu para a fazenda Santa Cruz. O sangue dos livramentenses fertilizou o solo do Sul do estado, e foi nesse fluxo invisível que “Seo Fiote” cresceu, ouvindo os ecos de um Mato Grosso maior do que o que os mapas ousavam desenhar.
Ainda moço, seguiu com o tio Luiz Coelho de Campos, o Coronel Luizinho, para garimpar diamantes em Poxoréu. Lá não encontrou apenas o brilho das pedras, mas a centelha da política, acesa ao ver o tio atuar como Intendente e deputado estadual. Foi ali que nasceu o gosto pela vida pública. Sua estada em Poxoréu também serviu para que desenvolvesse a aptidão ao comércio e empreendedorismo, de grande valia em seu futuro.
Articulador político
‘Fiote’ não era homem de pretensões acadêmicas ou elaborações ideológicas: era um homem prático, de fala direta, de presença constante. E talvez por isso tenha sabido como poucos transitar entre os mundos diversos que compunham o velho estado. Em Cuiabá e Várzea Grande, onde construiu sua base política, era respeitado como comerciante, como prefeito, como articulador. No interior, especialmente na região sul, mantinha laços sólidos com políticos e famílias tradicionais que compartilhavam sua origem e seus valores.
Era amigo pessoal de figuras como Filinto Müller, senador e ex-chefe de polícia de Getúlio Vargas, nascido em Cuiabá, mas dono de enorme influência no Sul do estado, ede João Ponce de Arruda, deputado e governador de inteligência estratégica e verbo vibrante. Tinha respeito e trânsito com o senador Vicente Vuolo, homem de fé, político de fé, tribuno de fé; e com Arnaldo Estevão de Figueiredo, referência de um tempo em que política se fazia de paletó surrado e calo nas mãos. Com todos esses homens, “Seo Fiote” compartilhava a visão de que Mato Grosso, apesar de suas distâncias, era uma só família política. E, como bom patriarca, sabia que o que une é mais forte do que o que separa.
Por isso, mesmo depois da divisão oficial do estado em 1977, “Seo Fiote” nunca se resignou à ideia de ruptura. Ele era, por vocação, por nascimento e por convicção, um homem de união. Sabia que as famílias que povoaram o Norte e o Sul vinham das mesmas raízes. Sabia que a banana de Livramento era saboreada em Corumbá, que o boi de Cáceres marchava até Campo Grande, que o voto de Várzea Grande ecoava no coração da política sul-mato-grossense. Sabia, enfim, que o Mato Grosso real é feito de memória, não de decreto.
Postura firme e diplomática
“Seo Fiote” carregava esse espírito uno em cada gesto político, em cada reunião de câmara, em cada comício nas ruas empoeiradas ou nas rodas de tereré embaixo da mangueira. Quando atuava por Várzea Grande, pensava também em Jangada, em Cuiabá, em Coxim. Quando subia na tribuna, sua fala reverberava nos rincões do Pantanal. Quando educava seus filhos, que viriam a ocupar cargos de governador, senador, prefeito e secretário de Estado, fazia questão de ensiná-los que a política não é feita apenas de votos, mas de raízes. Raízes fundas, plantadas em terra firme, que atravessam gerações e resistem aos ventos da divisão.
Quando lhe perguntavam de onde era, respondia com a serenidade e a diplomacia de quem nasceu político: “Na Fazenda Caninana, no limite de Várzea Grande e Nossa Senhora do Livramento”. Evitava o embate municipal, agradava a todos e se estabelecia na fronteira da convivência harmoniosa. Assim era Júlio Domingos de Campos, o “Seo Fiote”, homem de fala mansa, firmeza nas decisões e uma rara combinação de simplicidade e vocação política, que partiu em 20 de setembro de 2007, aos 90 anos, deixando um legado de palavras honradas, gestos concretos e descendentes que levaram adiante o bastão da vida pública.
Velado com honras na Câmara Municipal de Várzea Grande, o corpo de “Seo Fiote” foi sepultado no Cemitério São Francisco de Assis, no jazigo da família Campos. Ao seu redor, estavam filhos, netos, bisnetos, autoridades e o povo comum, todos ali não apenas para despedir-se, mas para afirmar: ele fez história.
O patriarca e o clã
Não é possível compreender a política mato-grossense sem passar por “Seo Fiote” e seu clã. Filho de Porfiria de Oliveira Campos e Veríssimo de Oliveira Campos, ambos livramentenses de raiz, cresceu em meio à rusticidade da zona rural e à rede de parentesco que conecta quase todas as famílias tradicionais de Várzea Grande. Os Campos, os Botelho, os Leite, os Monteiro, os Barros, todos entrelaçados em laços consanguíneos ou de compadrio. Em Várzea Grande, dizia-se que, se não fossem parentes, eram afilhados ou ex-alunos da mesma escola.
Várzea Grande emancipada
Na década de 1940, Várzea Grande ainda era distrito de Cuiabá, mas ansiava pela autonomia. “Seo Fiote” foi um dos articuladores dessa emancipação e, uma vez conquistada, lançou-se à política. Em 1949, foi eleito o vereador mais votado na primeira legislatura da cidade. Dois anos depois, em 1951, assumiu a prefeitura pela primeira vez. Voltou ao cargo em 1957, reeleito com ampla maioria.
Seu estilo era direto, prático, popular. Não havia luxo no gabinete, mas havia presença nas ruas, diálogo com os comerciantes e apoio aos trabalhadores. Sob sua gestão, a cidade deu passos importantes rumo à urbanização, com obras de infraestrutura e incentivo à atividade comercial.
Em 1964, durante o início do regime civil-militar, afastou-se das urnas, mas não da política. Filiou-se à Arena, depois ao PDS, ao PFL e finalmente ao Democratas. Negou convites importantes: recusou ser conselheiro do Tribunal de Contas a convite do então governador Pedro Pedrossian, e também disse “não” ao convite de Filinto Müller para ser suplente ao Senado. “Não tenho estudo suficiente para isso”, dizia com a humildade de quem conhecia suas virtudes e limitações.
O Casamento com Amália
Antes mesmo da política, “Seo Fiote” já havia deixado marcas no comércio. Em 1941, fundou em Várzea Grande a loja A Futurista, que se transformou em um atacarejo de referência. Posteriormente, transferiu-se para o centro de Cuiabá, de onde passou a abastecer diversas cidades do interior. Além disso, manteve uma fazenda em Jangada, onde produzia farinha de mandioca e criava gado. Seu espírito empreendedor corria paralelo à sua vida pública.
No dia 28 de novembro de 1944, uniu-se em matrimônio com Amália Curvo de Campos, mulher de fibra, inteligência política refinada e profunda vocação para a solidariedade. Dona Amália não foi apenas companheira; foi conselheira, voz firme na retaguarda e presença determinante nas decisões da família. O casal teve dez filhos: Doralice, Júlio José, Circe Bernadete, Juracy Maria, Jayme Veríssimo, João Francisco, Ivete Maria, Benedito Paulo, Marilene Auxiliadora e Márcia Auxiliadora.
Quatro desses filhos herdaram a veia política do pai. Júlio José de Campos foi deputado federal por dois mandatos, prefeito de Várzea Grande, governador e senador. Jayme Veríssimo foi prefeito, governador e senador. Benedito Paulo, arquiteto, foi secretário de Estado e prefeito de Jangada. Márcia, bioquímica, exerceu mandato como vereadora em Cuiabá. O sangue de “Seo Fiote” correu pelas urnas de Mato Grosso com coerência e fidelidade.
A posteridade como testemunha
Fiote virou nome de ginásio: o “FIOTÃO”. Virou nome de avenida em Cuiabá e de escola em Várzea Grande. Tornou-se título de biografia: ”Seo Fiote” – Um Homem de Palavra, escrita por João Carlos Vicente Ferreira, historiador e membro da Academia Mato-Grossense de Letras. A obra, lançada em 2017, com emoção e solenidade, contou com a presença dos filhos, netos e bisnetos do patriarca. O autor, entusiasmado, confessou que escrever sobre Fiote foi “registrar a história de uma pessoa muito especial, que construiu um império financeiro e político com honestidade e trabalho”.
Durante a cerimônia de lançamento do livro, o senador Jayme Campos destacou: “Além de uma herança familiar e de caráter, meu pai deixou uma herança política de credibilidade construída com honestidade”. Júlio Campos, também presente, lembrou que o pai foi um dos maiores atacadistas do estado e exemplo de fidelidade partidária, mesmo com pouco estudo. A neta Laura Campos, que escreveu o prefácio da biografia, disse que o livro busca aproximar a família Campos da sociedade, compartilhando a história de um homem de valores raros.
Um homem de palavra
Palavra. Eis o fio que costura a trajetória de “Seo Fiote”. Palavra dita, palavra cumprida. Foi assim com a política, com a família, com os negócios e com a vida. Não acumulou títulos acadêmicos, mas teve sabedoria. Não frequentou os palácios do poder por vaidade, mas por vocação. Não se deixou seduzir pelos cargos mais altos, mas construiu alicerces para que seus filhos os ocupassem com mérito.
Júlio Domingos de Campos, o “Seo Fiote”, é desses nomes que continuam vivos, mesmo depois de sepultados. Caminha nas ruas que ajudou a abrir, ecoa nos discursos dos filhos e netos, reverbera nos votos de confiança que ainda hoje a população deposita nos que levam seu sobrenome. Mais que um homem político, foi um homem comunitário. Mais que um líder, foi um patriarca. Mais que um empresário, foi um construtor de caminhos.

*João Carlos Vicente Ferreira é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Brasileira de Belas Artes, dentre outras instituições.
HISTÓRIA
O voo que partiu um Estado ao meio
Por João Carlos Vicente Ferreira
Uma história suspensa entre Campo Grande e Aquidauana, narrada pelo último olhar que a testemunhou.
Há acontecimentos que não cabem nos livros de história porque não foram feitos de decretos, e sim de silêncios. Não nasceram de discursos públicos, mas de frases murmuradas num corredor, num gabinete ou, como neste caso, dentro de um avião bimotor, subindo lentamente sobre os telhados de Campo Grande, no início luminoso de 1977. Há fatos que mudam o mapa do país como se mudam móveis de lugar, empurra-se aqui, desloca-se ali, e de repente o espaço nunca mais é o mesmo. A divisão de Mato Grosso é um desses fatos.
Parece história encerrada, tema antigo, assunto esgotado. Mas quem vive no coração do Brasil sabe que esse é um daqueles episódios que não se deitam no passado, pois eles continuam vivos, respirando debaixo da terra, surgindo em conversas de bar, reuniões políticas, salas de aula e lembranças familiares.
Quantas vezes, ainda hoje, alguém pergunta, às vezes em tom de provocação, às vezes de pura saudade:
“E se não tivesse dividido? Você imagina o tamanho que seríamos?”
Foi pensando nesse “e se” que, há algumas semanas, sentei-me diante de Edmundo da Silva Taques, engenheiro agrônomo, 89 anos, olhos vivos de quem sabe que carrega na memória um fragmento da história que só ele pode contar. E Edmundo abriu a porta do tempo, deixando que o vento de 1977 entrasse pela sala, carregando com ele o ronco das hélices de um avião, as tensões de uma conversa, o peso de uma decisão.
Porque ele não ouviu dizer. Ele estava lá.
E é a partir desse olhar, desse corpo presente, que esta narrativa se alonga.
Para entender a força daquele voo de 1977, é preciso regressar um pouco mais, e olhar o Mato Grosso anterior: era Mato Grosso indiviso, monumental, quase mítico em sua extensão. Um território que desafiava governantes, logísticas e imaginações. Cuiabá, a capital, era um centro político cercado de rios, serras, chapadões e distâncias intransponíveis. Era governar o vazio, o remoto, o possível e o impossível ao mesmo tempo.
O sul do estado, onde hoje se ergue Mato Grosso do Sul, crescia com vida própria. Campo Grande tornava-se uma cidade dinâmica, cheia de militares, engenheiros, produtores, comerciantes, e cada qual com um sonho distinto para a região. A economia corria mais rápido ali. As estradas e os trilhos chegavam primeiro ali. Os investimentos federais preferiam ali.
Mas, apesar disso, havia um sentimento de pertencimento. Campo Grande, como Corumbá, Ponta Porã, Dourados, era Mato Grosso por inteiro, e Mato Grosso era tudo isso junto.
No entanto, essa dobradiça histórica tinha seus rangidos:
- A distância entre Campo Grande e Cuiabá era longa demais para que as decisões corressem com naturalidade.
- A expansão agropecuária transformava radicalmente o sul.
- O norte ainda crescia a passos irregulares.
- O Governo Federal enxergava, no grande Mato Grosso, tanto potencial quanto riscos geopolíticos.
Era um estado unido no sentimento — mas tensionado pela geografia.
Foi nesse cenário que o jovem secretário de Agricultura, Edmundo Taques, pessoa certa no lugar certo, ajudava a conduzir a transformação agrícola de Mato Grosso, que redundou no exitoso agronegócio da contemporaneidade.
Edmundo tinha uma vantagem que poucos possuíam: era amigo pessoal do ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, desde os tempos de Lavras. E Paulinelli, por sua vez, era um dos grandes visionários da agricultura tropical no Brasil, talvez o maior de todos.
A década de 1970 marcava o início da epopeia que transformaria Cerrados, até então considerados improdutivos, em uma das regiões agrícolas mais importantes do mundo. Embrapa, Cerrado, pesquisa científica, adaptação de sementes, tudo fervilhava num país que aprendia a crescer para dentro.
E Mato Grosso, com sua vastidão, era o palco ideal.
As safras de arroz de sequeiro, colhidas nas regiões de Diamantino e Araguaia, surpreendiam até os mais otimistas. A produtividade superava expectativas e, pela primeira vez, Mato Grosso ultrapassava o Rio Grande do Sul, então referência absoluta em arroz.
Esse feito não era apenas estatístico. Era um sinal. Era o aviso de que algo enorme estava prestes a acontecer. Garcia via isso com clareza. Para ele, dividir o estado naquele momento seria como cortar uma árvore no instante em que ela começa a crescer.
A visita presidencial
E então aconteceu: o presidente Ernesto Geisel decidiu visitar Campo Grande. O Planalto avisou o governador Garcia Neto, que organizou tudo com precisão e respeito. Não era apenas uma visita, era uma oportunidade de conversar, de influenciar, de tentar, ainda que tardiamente, impedir o que muitos já cochichavam em Brasília.
Garcia chamou seu secretário Edmundo e juntos partiram de Cuiabá num bimotor simples, de oito lugares, desses que se equilibram mais nos cálculos do piloto do que na tecnologia embarcada.
A recepção em Campo Grande foi calorosa. Autoridades, militares, estudantes, políticos, todo o aparato protocolar. Assinaturas de convênios, apertos de mão, discursos que começam e terminam do mesmo jeito.
E então veio o inesperado, esse tipo de movimento do destino que não se explica.
Geisel queria visitar Aquidauana, rever o ex-governador José Fragelli, amigo de décadas. Seu próprio avião não pousaria lá. Mas o do governador, por consulta do presidente, sim.
E Garcia, sem hesitar, ofereceu a aeronave.
A cena parece simples, mas naquele instante começou a se tecer uma das conversas mais importantes da história sul-mato-grossense.
Assim subiram:
- o piloto
- o copiloto
- o ajudante-de-ordens
- o presidente
- o governador
- e o secretário Edmundo
Seis homens dentro de um avião estreito, rumando para uma cidade pacata do interior, mas carregando na cabine o peso de uma decisão que mudaria o país.
O avião decolou, rasgou os últimos telhados de Campo Grande, passou sobre bairros que ainda hoje guardam aquele mesmo desenho irregular de ruas, e começou a ganhar altitude.
Foi então, naquele instante suspenso entre o chão e o céu, que o governador Garcia se moveu no assento, respirou fundo, e chamou o presidente para perto.
O diálogo que se seguiu é um documento histórico que só Edmundo pode nos entregar.
A voz de Garcia não era agressiva. Era firme, carregada de esperança e de receio ao mesmo tempo.
— Presidente, o senhor precisa atender ao clamor do povo de Mato Grosso e não dividir o nosso Estado.
Geisel olhou. Esperou.
— O senhor sabia que ultrapassamos o Rio Grande do Sul na produção de arroz? Veja o Araguaia, veja Diamantino…
“Se continuarmos assim, seremos um dos estados mais importantes do país.”
E então veio a pergunta que não era só pergunta, era súplica, era alerta, era sonho:
— Então por que o senhor quer dividir o estado?
Edmundo, sentado atrás, segurou o ar. Ele sabia que estava diante de um instante que não se repetiria jamais.
A resposta veio como um golpe rápido:
— Por isso mesmo.
Três palavras que partiram o estado ao meio.
Geisel, percebendo a gravidade do silêncio que se instalou, completou:
— O governo federal possui estudos científicos. Mato Grosso está entre as regiões de maior potencial de crescimento do Brasil. Não posso ter um estado tão grande e tão forte ao ponto de, futuramente, querer se emancipar.
Não era uma acusação. Era a lógica política dos militares: prevenir possíveis separatismos, evitar concentrações de poder, manter o país coeso.
Geisel citou São Paulo, citou Rio Grande do Sul, lembrou movimentos históricos de tensão entre estados e União. E concluiu:
— A divisão é uma medida estratégica.
Não houve mais debate. Não houve negociação.
O destino já estava decidido.
O avião pousou suavemente em Aquidauana. A cidade nem imaginava que, horas antes, um diálogo secreto selara a divisão de um dos maiores estados do Brasil.
Geisel reencontrou José Fragelli, reviveram memórias de quando o futuro ainda parecia uma estrada aberta, conversaram como velhos amigos que a política separa e o respeito junta.
A tarde correu tranquila, quase banal. E, no entanto, era histórica.
Ao retornarem, nada mais foi dito sobre o tema.
Mas o silêncio confirmava o inevitável.
Poucos meses depois, a Lei Complementar nº 31 criou oficialmente o Estado de Mato Grosso do Sul.
A implantação se daria em 1º de janeiro de 1979.
Um novo estado surgia.
Outro permanecia.
E nada voltaria a ser como antes.
O que se perdeu, o que se ganhou
A divisão trouxe:
- orgulho para uns
- mágoa para outros
- e surpresa para quase todos
Os sulistas finalmente teriam uma capital próxima, dinâmica, voltada para seus interesses.
Os nortistas perderiam parte importante de sua extensão, mas manteriam sua identidade histórica e cultural.
E ambos seguiriam crescendo, talvez até mais do que se unidos estivessem.
Hoje, quando observamos os dois estados, vemos:
- dois colossos agrícolas
- duas economias pujantes
- duas identidades fortes
- dois orgulhos legítimos
- duas histórias que são uma só
E ainda assim, permanece no ar, como um eco daquele voo, a eterna pergunta:
E se não tivesse dividido?
Dos seis homens daquele voo, pelo menos a metade já partiu.
Geisel morreu. Garcia morreu. O ajudante-de-ordem tornou-se general e depois também se foi. Os pilotos, não se sabe deles; possivelmente, já não estão mais entre nós.
Resta Edmundo, guardião da memória, último farol daquele instante de 1977.
Quando ele narra, não o faz com vaidade. Narra como quem devolve ao povo uma história que o povo nunca soube. Narra com a humildade de quem carregou por décadas um segredo que não era seu, mas que foi depositado em seus ouvidos porque a vida o colocou no assento certo, no voo certo, na hora exata.
Hoje, quase cinquenta anos depois daquele diálogo, os dois Mato Grosso se olham com respeito, e até com carinho. Há rivalidades esportivas, disputas econômicas, comparações inevitáveis. Mas há também uma fraternidade silenciosa, herdada de séculos de história comum.
Geisel estava certo?
Garcia estava certo?
Essa é a pergunta que ninguém responderá por completo.
Porque a história não é tribunal, é rio.
E rios seguem cursos que nem sempre escolhem.
Assim também foi o Estado de Mato Grosso.
Assim também nasceu Mato Grosso do Sul.
Apenas uma certeza permanece: aquele voo de pouco menos de 90 quilômetros modificou para sempre o mapa do Brasil.
E quem contou essa história pela primeira vez, quem a guardou por tanto tempo, foi Edmundo da Silva Taques, o homem que, sem querer, se tornou guardião de um dos diálogos mais decisivos que o Cerrado já ouviu.
Um estado pode não caber inteiro na terra.
Mas um destino inteiro pode caber dentro de um avião.

*João Carlos Vicente Ferreira é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Brasileira de Belas Artes, dentre outras instituições.
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