HISTÓRIA
Fernando Corrêa da Costa: O médico de homens e de Estado
Por João Carlos Vicente Ferreira
A história tem seus fios. Alguns longos, outros curtos. Alguns dourados, outros encardidos de tanta manipulação. Mas há aqueles que, mesmo discretos, costuram gerações inteiras com o vigor das raízes. É o caso dos Corrêa da Costa, essa família nascida do barro chapadense e moldada pelas mãos da política, da terra e da medicina. O primeiro desses fios se estendeu ainda no século XIX, quando um senhor de engenho, tenente-coronel nascido em Chapada dos Guimarães, decidiu assumir o governo de Mato Grosso no já distante 21 de julho de 1831. Era Antônio Corrêa da Costa, o patriarca do ciclo, o que abriu caminho para uma linhagem que se embrenharia nas trilhas políticas do Centro-Oeste por mais de um século.
Entre seus descendentes, como se o destino tivesse deixado avisado nas estrelas, surgiria Fernando Corrêa da Costa, neto de Pedro Celestino, também ele governador e senador, nascido em Cuiabá no dia 29 de agosto de 1903. E a criança que veio ao mundo sob o mormaço cuiabano do início do século, entre bugios, igrejas e a lama doce dos córregos, carregaria nos ombros não apenas o nome da família, mas a expectativa silenciosa de que faria por merecê-lo.
O menino estudou no Liceu Cuiabano, como mandava a tradição dos filhos ilustres. Depois, cruzou o país até a então capital federal, o Rio de Janeiro, onde se formaria em medicina em 1926, na Faculdade da Praia Vermelha. Era a ciência da vida, do sangue, da precisão, uma escolha que dizia mais sobre sua alma do que qualquer proclamação pública. Porque, para além de político, Fernando foi antes de tudo um médico, desses de alma inteira, desses que andam pelas ruas e são parados por gente comum com dores antigas e olhos gratos.
Em 1927, recém-formado, escolheu como destino a distante e quente Campo Grande, então ainda parte do grande e indivisível Mato Grosso. Lá chegou pilotando um Ford Bigode, desses que pareciam cuspir fumaça de saudade, e fez dele seu ambulatório itinerante. Atendia dia e noite, ricos e pobres, pretos e brancos, com a mesma dedicação com que se faz uma cirurgia urgente, com seriedade, com pressa, mas sem alarde.
Casou-se com a Sra. Maria Elisa Bocayúva Corrêa da Costa, esta neta de Quintino Bocayúva, o 1º Ministro das Relações Exteriores 1889/91, sendo seus filhos: Fernando Augusto e Teresa Luíza.
O que talvez ele não soubesse ainda é que aquela prática obstinada e silenciosa de cuidar do outro estava, pouco a pouco, costurando sua entrada definitiva no outro consultório: o da política. Porque foi da boca do povo, e do prestígio granjeado como cirurgião, que nasceu o convite para ingressar na vida pública. E em 1946, com a redemocratização do Brasil, a União Democrática Nacional (UDN) bate à sua porta. Um grupo de políticos liderados por Wilson Barbosa Martins e José Fragelli o chamam. Ele aceita. E, em 1947,vence as eleições para a prefeitura de Campo Grande.
A gestão de prefeito foi o primeiro estágio do que viria a ser uma longa e robusta trajetória. Mas o salto maior veio em 1950, quando se elege governador de Mato Grosso, com mandato de 1951 a 1956. Governaria novamente entre 1961 e 1966, um raro privilégio reservado a poucos. No intervalo e depois, seria também senador, primeiro entre 1959 e 1961, depois entre 1967 e 1975.
Sua administração promoveu seguimento à política de colonização iniciada por seu antecessor criando núcleos rurais, instalou a Secretaria de Educação, Cultura e Saúde ainda a Faculdade de Direito de Mato Grosso. Determinou a criação do Banco do Estado de Mato Grosso, em julho de 1951, mais tarde efetivada. Em outubro de 1953 instituiu o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso. O contrato de exploração das jazidas de manganês e ferro de Urucum – Corumbá, celebrado em dezembro de 1953, na Capital, foi revisto e assumiu a Sociedade Brasileira de Mineração, previa a extração mínima anual de 50 mil toneladas. Incrementou abertura de novas estradas. Erigiu as sedes dos colégios estaduais de Campo Grande e Corumbá, ainda mais escolas em diversos municípios. Estabeleceu a assistência dentária escolar, criou postos de saúde em vários locais, ambulatórios de saúde mental nas Cidades Morena e Branca. Instalou uma fábrica de pasteurização de leite e seus derivados, ainda a usina hidrelétrica Casca II, esta possuindo a quádrupla capacidade da anterior, indo prover definitivamente Cuiabá, inaugurada em dezembro de 1954, além d’outras realizações.
Um médico, um prefeito, um governador, um senador. Mas, sobretudo, um servidor. Porque Fernando não falava muito, mas fazia. E quando fazia, era com o esmero de quem entende que o tempo é cirúrgico, e que decisões políticas, como decisões médicas, podem salvar ou matar.
Quando foi eleito para um Segundo mandato de governador, entre 1961 e 1966, projetos progressistas imergiram. Foi criada a Associação de Crédito e Assistência Rural de Mato Grosso – ACARMAT, a Companhia Agrícola de Mato Grosso – CAMAT e a Companhia de Armazéns e Silos – CASEMAT, a efetivação do Banco do Estado – BEMAT, e a construção da usina central açucareira de Jaciara. No setor cultural, criou a Fundação do Ensino Primário – FUNDEPRIM, na fusão do Centro do Magistério Primário com o Centro de Pesquisas e Pedagogia; ainda gerou o Instituto de Previdência de Mato Grosso – IPEMAT.
A energia elétrica uma atenção constante, durante sua gestão foram iniciadas as obras da Usina de Urubupungá, em Três Lagoas, através consórcio entre vários Estados da Bacia do Rio Paraná, surgindo uma empresa de economia mista Centrais Elétricas do Urubupungá S/A – CELUSA. Fez uma indicação pessoal de Demósthenes Martins para Secretário de Estado, depois Martins foi alçado à alto posto de diretoria na CELUSA.
Durante seus governos, preocupou-se especialmente com dois temas: energia elétrica e transporte. O que hoje parece banal era, à época, absolutamente revolucionário. Mato Grosso, então um gigante ainda não dividido, era um Estado em pedaços, ligado mais por promessas do que por estradas. A energia chegava onde dava. E era preciso vontade política, firmeza técnica e uma certa dose de loucura visionária para acreditar que seria possível transformar aquilo em algo funcional.
Fernando acreditou. E como um cirurgião que traça o corte com calma antes de fazer a incisão, iniciou um processo de reestruturação que pavimentaria os caminhos futuros, ainda que ele mesmo já não estivesse neles quando o asfalto chegasse.
Entre seus feitos, está também sua contribuição à formação universitária da região. Foi professor da Faculdade Mato-grossense de Odontologia e Farmácia, em Campo Grande, semente que, anos depois, germinaria na UFMS, uma das mais importantes universidades do Estado de Mato Grosso do Sul.
Mas Fernando não escrevia sua história em alarde. Escrevia em relatórios. Em conferências. Em textos como “O Ensino no Estado de Mato Grosso” (1963), ou a palestra sobre as realizações de Getúlio Vargas na Agricultura, em 1940, ou ainda o relatório administrativo sobre São Paulo, em 1944. Havia nele um senso de dever que ultrapassava o brilho pessoal. Ele era, acima de tudo, uma engrenagem da máquina pública, das que funcionam, silenciosas, mas indispensáveis.
Recebeu a Medalha de Tamandaré da Marinha do Brasil, distinção que, mesmo simbólica, reconhece seu valor como servidor da República. Não por campanhas espetaculares, mas pela constância do ofício, que é, talvez, o mais raro dos talentos na política brasileira.
Aos que o conheceram de perto, o que mais impressionava não era o cargo, nem os títulos. Era sua presença. O modo com que ouvia. A forma com que, mesmo sentado à cabeceira da mesa, parecia sempre disponível a aprender. E essa humildade, que não se ensina nos bancos da universidade nem nos manuais de gestão, era o que o tornava, de fato, grande.
Faleceu em Campo Grande, no dia 2 de dezembro de 1987. Partiu como viveu: com discrição, mas deixando atrás de si um Estado melhor do que o que havia encontrado. Sua vida, vista de longe, parece um gráfico: ascendente, estável, decente. Como uma curva de recuperação de um paciente difícil.
A memória de Fernando Corrêa da Costa, no entanto, ainda parece tímida nas avenidas e nos livros escolares. Talvez porque não tenha cometido a extravagância de querer virar mito. Preferiu ser homem. Homem de decisões, de jaleco e de caneta. Homem de palavra curta e legado longo.
Hoje, o nome Corrêa da Costa atravessa séculos. Desde o tenente-coronel Antônio, o senhor de engenho da Chapada, passando por Pedro Celestino, até chegar a Fernando, a saga familiar confunde-se com a própria formação de Mato Grosso. E não seria exagero dizer que, por pelo menos quatro gerações, os Corrêa da Costa ajudaram a governar o tempo e a moldar a geografia política da região.
Se a história fosse justa, haveria uma disciplina nas escolas chamada “Política em Silêncio, o legado de Fernando Corrêa da Costa”. Nela, se ensinaria que o verdadeiro poder não se mostra, se exerce. Que as melhores obras são aquelas que continuam funcionando depois que os holofotes se apagam. E que, entre governar e operar, há uma semelhança profunda: em ambos os casos, é preciso precisão, calma, e uma fé inabalável de que vale a pena lutar pela vida

*João Carlos Vicente Ferreira é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Brasileira de Belas Artes, dentre outras instituições.
HISTÓRIA
O voo que partiu um Estado ao meio
Por João Carlos Vicente Ferreira
Uma história suspensa entre Campo Grande e Aquidauana, narrada pelo último olhar que a testemunhou.
Há acontecimentos que não cabem nos livros de história porque não foram feitos de decretos, e sim de silêncios. Não nasceram de discursos públicos, mas de frases murmuradas num corredor, num gabinete ou, como neste caso, dentro de um avião bimotor, subindo lentamente sobre os telhados de Campo Grande, no início luminoso de 1977. Há fatos que mudam o mapa do país como se mudam móveis de lugar, empurra-se aqui, desloca-se ali, e de repente o espaço nunca mais é o mesmo. A divisão de Mato Grosso é um desses fatos.
Parece história encerrada, tema antigo, assunto esgotado. Mas quem vive no coração do Brasil sabe que esse é um daqueles episódios que não se deitam no passado, pois eles continuam vivos, respirando debaixo da terra, surgindo em conversas de bar, reuniões políticas, salas de aula e lembranças familiares.
Quantas vezes, ainda hoje, alguém pergunta, às vezes em tom de provocação, às vezes de pura saudade:
“E se não tivesse dividido? Você imagina o tamanho que seríamos?”
Foi pensando nesse “e se” que, há algumas semanas, sentei-me diante de Edmundo da Silva Taques, engenheiro agrônomo, 89 anos, olhos vivos de quem sabe que carrega na memória um fragmento da história que só ele pode contar. E Edmundo abriu a porta do tempo, deixando que o vento de 1977 entrasse pela sala, carregando com ele o ronco das hélices de um avião, as tensões de uma conversa, o peso de uma decisão.
Porque ele não ouviu dizer. Ele estava lá.
E é a partir desse olhar, desse corpo presente, que esta narrativa se alonga.
Para entender a força daquele voo de 1977, é preciso regressar um pouco mais, e olhar o Mato Grosso anterior: era Mato Grosso indiviso, monumental, quase mítico em sua extensão. Um território que desafiava governantes, logísticas e imaginações. Cuiabá, a capital, era um centro político cercado de rios, serras, chapadões e distâncias intransponíveis. Era governar o vazio, o remoto, o possível e o impossível ao mesmo tempo.
O sul do estado, onde hoje se ergue Mato Grosso do Sul, crescia com vida própria. Campo Grande tornava-se uma cidade dinâmica, cheia de militares, engenheiros, produtores, comerciantes, e cada qual com um sonho distinto para a região. A economia corria mais rápido ali. As estradas e os trilhos chegavam primeiro ali. Os investimentos federais preferiam ali.
Mas, apesar disso, havia um sentimento de pertencimento. Campo Grande, como Corumbá, Ponta Porã, Dourados, era Mato Grosso por inteiro, e Mato Grosso era tudo isso junto.
No entanto, essa dobradiça histórica tinha seus rangidos:
- A distância entre Campo Grande e Cuiabá era longa demais para que as decisões corressem com naturalidade.
- A expansão agropecuária transformava radicalmente o sul.
- O norte ainda crescia a passos irregulares.
- O Governo Federal enxergava, no grande Mato Grosso, tanto potencial quanto riscos geopolíticos.
Era um estado unido no sentimento — mas tensionado pela geografia.
Foi nesse cenário que o jovem secretário de Agricultura, Edmundo Taques, pessoa certa no lugar certo, ajudava a conduzir a transformação agrícola de Mato Grosso, que redundou no exitoso agronegócio da contemporaneidade.
Edmundo tinha uma vantagem que poucos possuíam: era amigo pessoal do ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, desde os tempos de Lavras. E Paulinelli, por sua vez, era um dos grandes visionários da agricultura tropical no Brasil, talvez o maior de todos.
A década de 1970 marcava o início da epopeia que transformaria Cerrados, até então considerados improdutivos, em uma das regiões agrícolas mais importantes do mundo. Embrapa, Cerrado, pesquisa científica, adaptação de sementes, tudo fervilhava num país que aprendia a crescer para dentro.
E Mato Grosso, com sua vastidão, era o palco ideal.
As safras de arroz de sequeiro, colhidas nas regiões de Diamantino e Araguaia, surpreendiam até os mais otimistas. A produtividade superava expectativas e, pela primeira vez, Mato Grosso ultrapassava o Rio Grande do Sul, então referência absoluta em arroz.
Esse feito não era apenas estatístico. Era um sinal. Era o aviso de que algo enorme estava prestes a acontecer. Garcia via isso com clareza. Para ele, dividir o estado naquele momento seria como cortar uma árvore no instante em que ela começa a crescer.
A visita presidencial
E então aconteceu: o presidente Ernesto Geisel decidiu visitar Campo Grande. O Planalto avisou o governador Garcia Neto, que organizou tudo com precisão e respeito. Não era apenas uma visita, era uma oportunidade de conversar, de influenciar, de tentar, ainda que tardiamente, impedir o que muitos já cochichavam em Brasília.
Garcia chamou seu secretário Edmundo e juntos partiram de Cuiabá num bimotor simples, de oito lugares, desses que se equilibram mais nos cálculos do piloto do que na tecnologia embarcada.
A recepção em Campo Grande foi calorosa. Autoridades, militares, estudantes, políticos, todo o aparato protocolar. Assinaturas de convênios, apertos de mão, discursos que começam e terminam do mesmo jeito.
E então veio o inesperado, esse tipo de movimento do destino que não se explica.
Geisel queria visitar Aquidauana, rever o ex-governador José Fragelli, amigo de décadas. Seu próprio avião não pousaria lá. Mas o do governador, por consulta do presidente, sim.
E Garcia, sem hesitar, ofereceu a aeronave.
A cena parece simples, mas naquele instante começou a se tecer uma das conversas mais importantes da história sul-mato-grossense.
Assim subiram:
- o piloto
- o copiloto
- o ajudante-de-ordens
- o presidente
- o governador
- e o secretário Edmundo
Seis homens dentro de um avião estreito, rumando para uma cidade pacata do interior, mas carregando na cabine o peso de uma decisão que mudaria o país.
O avião decolou, rasgou os últimos telhados de Campo Grande, passou sobre bairros que ainda hoje guardam aquele mesmo desenho irregular de ruas, e começou a ganhar altitude.
Foi então, naquele instante suspenso entre o chão e o céu, que o governador Garcia se moveu no assento, respirou fundo, e chamou o presidente para perto.
O diálogo que se seguiu é um documento histórico que só Edmundo pode nos entregar.
A voz de Garcia não era agressiva. Era firme, carregada de esperança e de receio ao mesmo tempo.
— Presidente, o senhor precisa atender ao clamor do povo de Mato Grosso e não dividir o nosso Estado.
Geisel olhou. Esperou.
— O senhor sabia que ultrapassamos o Rio Grande do Sul na produção de arroz? Veja o Araguaia, veja Diamantino…
“Se continuarmos assim, seremos um dos estados mais importantes do país.”
E então veio a pergunta que não era só pergunta, era súplica, era alerta, era sonho:
— Então por que o senhor quer dividir o estado?
Edmundo, sentado atrás, segurou o ar. Ele sabia que estava diante de um instante que não se repetiria jamais.
A resposta veio como um golpe rápido:
— Por isso mesmo.
Três palavras que partiram o estado ao meio.
Geisel, percebendo a gravidade do silêncio que se instalou, completou:
— O governo federal possui estudos científicos. Mato Grosso está entre as regiões de maior potencial de crescimento do Brasil. Não posso ter um estado tão grande e tão forte ao ponto de, futuramente, querer se emancipar.
Não era uma acusação. Era a lógica política dos militares: prevenir possíveis separatismos, evitar concentrações de poder, manter o país coeso.
Geisel citou São Paulo, citou Rio Grande do Sul, lembrou movimentos históricos de tensão entre estados e União. E concluiu:
— A divisão é uma medida estratégica.
Não houve mais debate. Não houve negociação.
O destino já estava decidido.
O avião pousou suavemente em Aquidauana. A cidade nem imaginava que, horas antes, um diálogo secreto selara a divisão de um dos maiores estados do Brasil.
Geisel reencontrou José Fragelli, reviveram memórias de quando o futuro ainda parecia uma estrada aberta, conversaram como velhos amigos que a política separa e o respeito junta.
A tarde correu tranquila, quase banal. E, no entanto, era histórica.
Ao retornarem, nada mais foi dito sobre o tema.
Mas o silêncio confirmava o inevitável.
Poucos meses depois, a Lei Complementar nº 31 criou oficialmente o Estado de Mato Grosso do Sul.
A implantação se daria em 1º de janeiro de 1979.
Um novo estado surgia.
Outro permanecia.
E nada voltaria a ser como antes.
O que se perdeu, o que se ganhou
A divisão trouxe:
- orgulho para uns
- mágoa para outros
- e surpresa para quase todos
Os sulistas finalmente teriam uma capital próxima, dinâmica, voltada para seus interesses.
Os nortistas perderiam parte importante de sua extensão, mas manteriam sua identidade histórica e cultural.
E ambos seguiriam crescendo, talvez até mais do que se unidos estivessem.
Hoje, quando observamos os dois estados, vemos:
- dois colossos agrícolas
- duas economias pujantes
- duas identidades fortes
- dois orgulhos legítimos
- duas histórias que são uma só
E ainda assim, permanece no ar, como um eco daquele voo, a eterna pergunta:
E se não tivesse dividido?
Dos seis homens daquele voo, pelo menos a metade já partiu.
Geisel morreu. Garcia morreu. O ajudante-de-ordem tornou-se general e depois também se foi. Os pilotos, não se sabe deles; possivelmente, já não estão mais entre nós.
Resta Edmundo, guardião da memória, último farol daquele instante de 1977.
Quando ele narra, não o faz com vaidade. Narra como quem devolve ao povo uma história que o povo nunca soube. Narra com a humildade de quem carregou por décadas um segredo que não era seu, mas que foi depositado em seus ouvidos porque a vida o colocou no assento certo, no voo certo, na hora exata.
Hoje, quase cinquenta anos depois daquele diálogo, os dois Mato Grosso se olham com respeito, e até com carinho. Há rivalidades esportivas, disputas econômicas, comparações inevitáveis. Mas há também uma fraternidade silenciosa, herdada de séculos de história comum.
Geisel estava certo?
Garcia estava certo?
Essa é a pergunta que ninguém responderá por completo.
Porque a história não é tribunal, é rio.
E rios seguem cursos que nem sempre escolhem.
Assim também foi o Estado de Mato Grosso.
Assim também nasceu Mato Grosso do Sul.
Apenas uma certeza permanece: aquele voo de pouco menos de 90 quilômetros modificou para sempre o mapa do Brasil.
E quem contou essa história pela primeira vez, quem a guardou por tanto tempo, foi Edmundo da Silva Taques, o homem que, sem querer, se tornou guardião de um dos diálogos mais decisivos que o Cerrado já ouviu.
Um estado pode não caber inteiro na terra.
Mas um destino inteiro pode caber dentro de um avião.

*João Carlos Vicente Ferreira é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Brasileira de Belas Artes, dentre outras instituições.
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