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Eleições e os desafios ambientais de Mato Grosso
Por Juacy da Silva
“Os desafios ambientais e climáticos não são apenas problemas ecológicos, mas ameaças diretas à estabilidade social, política, econômica, demográfica e financeira das nações. Esses desafios devem ser integrados ao planejamento nacional e regional dos países e à tomada de decisões estratégicas do desenvolvimento integral.” António Guterres, secretário-geral da ONU.
O artigo 225 da Constituição Federal de 1988 é claro: o meio ambiente equilibrado é direito de todos, inclusive das próximas gerações, e é dever do Poder Público zelar para que isso seja uma realidade concreta.
Em Mato Grosso, esse dispositivo praticamente nunca foi tão desrespeitado como atualmente estamos presenciando. Somos campeões em crescimento econômico e também em degradação ambiental e bolsões de pobreza em meio a muita opulência econômica e financeira.
Somos o único estado que tem três biomas em seu território: Pantanal, Cerrado e Amazônia. Justamente por isso, temos uma responsabilidade maior diante da crise climática, que já sentimos no calor extremo, que a cada dia se torna mais insuportável, na fumaça, na poluição do ar e na falta de água, entre tantas outras mazelas socioambientais.
A poucos dias do primeiro turno das eleições gerais de 2026, é alarmante o silêncio dos candidatos sobre tais desafios, representado pela ausência da pauta ambiental nos planos de governo e nas propostas de ação política, caso sejam eleitos.
Essa omissão dos candidatos transformar-se-á em omissão de políticas públicas e de recursos orçamentários para os próximos quatro anos, agravando ainda mais os problemas ambientais e suas consequências, que enfrentamos.
Sem incluir a ecologia integral no PPA, na LDO e na LOA de 2027 a 2030, continuaremos destruindo a base material da vida, da economia e do bem-estar da população. É urgente, por exemplo, criar o Observatório do Clima de Mato Grosso, como instrumento técnico e participativo de monitoramento das mudanças climáticas.
Como nos ensinam o Papa Francisco, nas encíclicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti, e agora o Papa Leão XIV, ao afirmar que “a ecologia integral exige uma conversão ecológica profunda, individual e comunitária”, não há como separar o grito da terra do grito dos pobres.
As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026-2032 — Documento 114 da CNBB) nos convocam a sermos uma Igreja sinodal, samaritana e profética. Apresentamos aqui uma síntese dos desafios socioambientais de Mato Grosso, mantendo a estrutura territorial proposta pelos biomas.
O CORAÇÃO DA CRISE
Pantanal — patrimônio em colapso
O MapBiomas mostra que o Pantanal perdeu 75% de sua área permanentemente alagada em 40 anos e opera com 56% menos água. Com aquecimento de 1,9 °C, o maior entre os biomas, aproxima-se do ponto de não retorno, também porque os rios voadores da Amazônia foram reduzidos.
Integra-se aqui o desafio do fogo: mais de 95% dos incêndios têm origem antrópica, dizimando fauna e flora.
A segunda dimensão é externa: o Planalto da Bacia do Alto Paraguai, onde nascem os rios pantaneiros, foi convertido em áreas de cultivo de soja e milho, gerando erosão e assoreamento.
A terceira é a infraestrutura predatória, representada pelas PCHs, que retêm o pulso de inundação, e pelos projetos de hidrovias no rio Paraguai.
Cerrado — berço das águas ameaçado
Enquanto o país reduziu o desmatamento, o desmatamento no Cerrado mato-grossense cresceu 5,5% em 2025 (ICV) e concentrou 69% da área queimada no Brasil. Essa destruição compromete sua função de caixa-d’água do Brasil, extinguindo nascentes e assoreando rios.
O terceiro desafio integra as dimensões humana e legal: a pressão sobre territórios indígenas, como Sararé e Wedezé, e a tentativa da ALMT de reclassificar biomas para reduzir a Reserva Legal, fragilizando a legislação federal.
Amazônia mato-grossense — contramão perigosa
Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal com aumento de 25% no desmatamento em 2025 — 1.572 km², segundo o INPE. A essa resiliência do ilegal soma-se a degradação provocada pelo fogo e pelo garimpo de ouro em unidades de conservação e terras indígenas.
O segundo desafio é de saúde pública: a poluição provocada pelas queimadas responde por 70% das internações respiratórias durante a seca, com custo milionário para o SUS.
O terceiro é a violência: a grilagem e os conflitos por terra e água colocam nosso estado entre os líderes em registros da Comissão Pastoral da Terra e de outros estudos.
Um problema sério, presente nos três biomas e que precisa ser considerado com atenção, é o uso abusivo e, às vezes, criminoso de agrotóxicos. Muitos desses produtos já foram proibidos em diversos países e afetam tanto o meio ambiente quanto a saúde pública e a qualidade de vida das pessoas, poluindo as águas, os solos e o ar em nosso estado.
CENTROS URBANOS: O PROGRESSO QUE NÃO CHEGA A TODOS
O tão decantado PIB do agronegócio não tem se convertido em cidades sustentáveis e com justa distribuição de renda, riqueza e oportunidades. Mais da metade da população urbana de Mato Grosso vive na pobreza ou pouco acima desse limite.
Quanto ao saneamento básico, apesar de avanços pontuais em algumas cidades, a maioria dos centros urbanos tem baixa cobertura de esgoto, poluindo córregos e mananciais, como os rios Cuiabá e Coxipó, que, aos poucos, estão se transformando no maior esgoto a céu aberto do Centro-Oeste. As redes antigas e as imensas perdas de água deixam de fora do abastecimento dezenas de milhares de famílias.
O crescimento demográfico acelerado de algumas cidades, como Sinop, Sorriso, Rondonópolis, Primavera do Leste, Várzea Grande e Cuiabá, entre outras, gera déficit habitacional e ocupações irregulares, enquanto a falta de arborização cria ilhas de calor e agrava a fumaça das queimadas em terrenos baldios.
A vulnerabilidade social, com o aumento de 12% da população em situação de rua, principalmente em Cuiabá e Várzea Grande, tanto nas áreas centrais quanto nas periferias urbanas, e a pressão do crime organizado e do tráfico de drogas representam sérios desafios que não podem ser ignorados.
O Aglomerado Urbano Cuiabá/Várzea Grande e a Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá sofrem com uma verdadeira calamidade socioambiental, bem conhecida, tornando-se um dos territórios mais críticos do estado e um dos maiores bolsões de pobreza e exclusão socioeconômica.
Primeiro, um tema importante: a questão da água. O rio Cuiabá e seus córregos já se transformaram em esgotos a céu aberto por falta de tratamento. Várzea Grande convive há décadas com a falta de água e apresenta um dos piores índices nacionais.
Segundo, o uso do solo: a expansão desordenada sobre áreas verdes e de proteção ambiental, várzeas e nascentes destrói a vegetação e amplia o risco de alagamentos e erosão.
Terceiro, a qualidade de vida tem se tornado extremamente precária em decorrência do descarte incorreto e, às vezes, criminoso de resíduos sólidos e lixo urbano às margens de rios, córregos, estradas e terrenos baldios, somando-se à redução drástica da arborização, o que gera ondas de calor intenso.
Diante dessa realidade de degradação socioambiental, chegamos à triste conclusão: não há desenvolvimento integral sem ecologia integral. O crescimento econômico que gera concentração de renda em poucas mãos não é desenvolvimento humano e integral.
A opção preferencial pelos pobres, a justiça social e a plenitude dos direitos humanos exigem a defesa de nossos biomas e centros urbanos. A Carta Aberta, que será entregue aos candidatos e partidos políticos em evento a ser realizado proximamente em Cuiabá, não é uma denúncia vazia, mas uma proposta para incluir os desafios ambientais de Mato Grosso na definição de políticas públicas, com metas ambientais e, principalmente, climáticas no PPA, na LDO e na LOA do estado de Mato Grosso, da União e dos municípios, além de implantar o Observatório do Clima em Mato Grosso.
Juacy da Silva é sociólogo, mestre em Sociologia, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, ambientalista e articulador da Pastoral da Ecologia Integral da Região Centro-Oeste. E-mail: [email protected] – WhatsApp: (65) 9 9272-0052 – Instagram: @profjuacy
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Devagar é resistência
Por Claiton Cavalcante
Estive recentemente em São Paulo para o lançamento do meu livro na Bienal Internacional do Livro. Foram dias importantes, mas também leves. Aproveitei para passear com a família, visitar museus, conhecer alguns lugares e andar pela cidade sem transformar cada momento em uma obrigação.
Uma das lembranças mais simples foi uma caminhada pela Avenida Paulista debaixo de chuva. Para os adultos, poderia ser apenas um incômodo. Para as crianças, não. Elas se divertiram, riram, correram e fizeram da chuva parte do passeio. Não havia preocupação com horário, roupa molhada ou qualquer outra coisa. Elas estavam apenas vivendo aquele momento.
Também visitamos o Aquário de São Paulo. Ali, diante do mero, do peixe-boi, do bicho-preguiça e de tantos outros animais, fiquei pensando na maneira como cada espécie parece obedecer ao próprio tempo. Foi quando passamos pelo aquário dos tubarões e me deparei com uma placa informativa sobre o tubarão-da-Groenlândia.
Esse animal pode viver até 500 anos. Vive em águas geladas e profundas, possui metabolismo lento e nada devagar. Tudo nele parece acontecer sem pressa. Talvez seja justamente por isso que consiga atravessar tantos anos, sendo considerado o vertebrado mais longevo do planeta.
Enquanto um tubarão desses segue lentamente pelas águas frias, o mundo acima dele muda sem parar. Governos mudam, cidades crescem, impérios desaparecem, guerras acontecem, tecnologias aparecem, pandemias surgem e novas urgências se impõem. E ele continua no mesmo ritmo. Talvez seja impossível olhar para isso sem pensar na forma como nós vivemos.
Hoje, tudo exige velocidade. Precisamos produzir mais, responder mais rápido, alcançar resultados, cumprir metas e dar conta de tudo. Até o descanso, em muitos casos, virou uma espécie de intervalo entre uma tarefa e outra. Fins de semana e feriados são para poucos.
E existe uma ironia nisso. Corremos para ganhar tempo, mas frequentemente não sabemos o que fazer com o tempo que conseguimos economizar. A tecnologia acelerou processos, encurtou distâncias e facilitou tarefas. Ainda assim, muita gente sente que nunca teve tão pouco tempo. E eu ouço “aberrações” do tipo: “Meu dia deveria ter mais de 24 horas”.
Eu também tenho meus objetivos. Trabalho, escrevo, estudo e gosto de realizar coisas. Não vejo problema nisso. O problema começa quando a busca pelo próximo resultado ocupa o espaço daquilo que já está acontecendo diante de nós. Isso não tem nada a ver com procrastinação. Talvez por isso aquela caminhada na Avenida Paulista tenha ficado na memória.
Não aconteceu nada extraordinário. Não houve planejamento especial. Foi apenas uma família caminhando debaixo de chuva, com crianças se divertindo. Mas há momentos assim que permanecem justamente porque não foram produzidos para gerar resultado algum. Nossa vida não precisa ser uma sequência de conquistas para ter valor.
Podemos crescer profissionalmente, melhorar de vida, alcançar reconhecimento e buscar novos objetivos. Tudo isso faz parte. Mas também precisamos perceber o que esse caminho está fazendo conosco por dentro.
O tubarão-da-Groenlândia vive séculos em seu próprio ritmo. Nós não temos esse tempo. Talvez, por isso, devêssemos cuidar melhor do pouco que temos.
No fim, a pergunta não é se devemos deixar de correr atrás dos nossos objetivos. A pergunta é outra: vale a pena correr tanto, cobrar tanto de nós mesmos e transformar a vida inteira em busca de resultados apenas para satisfazer desejos que, depois de alcançados, serão substituídos por outros?
Talvez crescer também seja aprender a reconhecer quando vale a pena seguir em frente e quando basta caminhar devagar, mesmo debaixo de chuva.
Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis, do Instituto dos Contadores do Brasil e integrante da Rede InovaGov da Escola Nacional de Administração Pública.
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