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Devagar é resistência

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Por Claiton Cavalcante

Estive recentemente em São Paulo para o lançamento do meu livro na Bienal Internacional do Livro. Foram dias importantes, mas também leves. Aproveitei para passear com a família, visitar museus, conhecer alguns lugares e andar pela cidade sem transformar cada momento em uma obrigação.

Uma das lembranças mais simples foi uma caminhada pela Avenida Paulista debaixo de chuva. Para os adultos, poderia ser apenas um incômodo. Para as crianças, não. Elas se divertiram, riram, correram e fizeram da chuva parte do passeio. Não havia preocupação com horário, roupa molhada ou qualquer outra coisa. Elas estavam apenas vivendo aquele momento.

Também visitamos o Aquário de São Paulo. Ali, diante do mero, do peixe-boi, do bicho-preguiça e de tantos outros animais, fiquei pensando na maneira como cada espécie parece obedecer ao próprio tempo. Foi quando passamos pelo aquário dos tubarões e me deparei com uma placa informativa sobre o tubarão-da-Groenlândia.

Esse animal pode viver até 500 anos. Vive em águas geladas e profundas, possui metabolismo lento e nada devagar. Tudo nele parece acontecer sem pressa. Talvez seja justamente por isso que consiga atravessar tantos anos, sendo considerado o vertebrado mais longevo do planeta.

Enquanto um tubarão desses segue lentamente pelas águas frias, o mundo acima dele muda sem parar. Governos mudam, cidades crescem, impérios desaparecem, guerras acontecem, tecnologias aparecem, pandemias surgem e novas urgências se impõem. E ele continua no mesmo ritmo. Talvez seja impossível olhar para isso sem pensar na forma como nós vivemos.

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Hoje, tudo exige velocidade. Precisamos produzir mais, responder mais rápido, alcançar resultados, cumprir metas e dar conta de tudo. Até o descanso, em muitos casos, virou uma espécie de intervalo entre uma tarefa e outra. Fins de semana e feriados são para poucos.

E existe uma ironia nisso. Corremos para ganhar tempo, mas frequentemente não sabemos o que fazer com o tempo que conseguimos economizar. A tecnologia acelerou processos, encurtou distâncias e facilitou tarefas. Ainda assim, muita gente sente que nunca teve tão pouco tempo. E eu ouço “aberrações” do tipo: “Meu dia deveria ter mais de 24 horas”.

Eu também tenho meus objetivos. Trabalho, escrevo, estudo e gosto de realizar coisas. Não vejo problema nisso. O problema começa quando a busca pelo próximo resultado ocupa o espaço daquilo que já está acontecendo diante de nós. Isso não tem nada a ver com procrastinação. Talvez por isso aquela caminhada na Avenida Paulista tenha ficado na memória.

Não aconteceu nada extraordinário. Não houve planejamento especial. Foi apenas uma família caminhando debaixo de chuva, com crianças se divertindo. Mas há momentos assim que permanecem justamente porque não foram produzidos para gerar resultado algum. Nossa vida não precisa ser uma sequência de conquistas para ter valor.

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Podemos crescer profissionalmente, melhorar de vida, alcançar reconhecimento e buscar novos objetivos. Tudo isso faz parte. Mas também precisamos perceber o que esse caminho está fazendo conosco por dentro.

O tubarão-da-Groenlândia vive séculos em seu próprio ritmo. Nós não temos esse tempo. Talvez, por isso, devêssemos cuidar melhor do pouco que temos.

No fim, a pergunta não é se devemos deixar de correr atrás dos nossos objetivos. A pergunta é outra: vale a pena correr tanto, cobrar tanto de nós mesmos e transformar a vida inteira em busca de resultados apenas para satisfazer desejos que, depois de alcançados, serão substituídos por outros?

Talvez crescer também seja aprender a reconhecer quando vale a pena seguir em frente e quando basta caminhar devagar, mesmo debaixo de chuva.

Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis, do Instituto dos Contadores do Brasil e integrante da Rede InovaGov da Escola Nacional de Administração Pública.

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Câncer de tireoide: o cuidado não termina com a cirurgia

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Por Mariana Ramos

Setembro é um período dedicado à conscientização sobre o câncer de tireoide e uma oportunidade para ampliar uma discussão que muitas vezes fica concentrada no diagnóstico e na cirurgia. Para muitos pacientes, a retirada da tireoide é uma etapa fundamental do tratamento, mas o cuidado com a saúde continua depois dela.

A tireoide é uma pequena glândula localizada na região anterior do pescoço, mas exerce uma função importante no equilíbrio do organismo. Os hormônios produzidos por ela participam da regulação do metabolismo e de diversas funções do organismo. Por isso, quando há retirada total da glândula, o organismo passa a depender da reposição do hormônio tireoidiano.

É nesse momento que o acompanhamento endocrinológico ganha especial importância. A reposição com levotiroxina não deve ser entendida apenas como a substituição de um hormônio que deixou de ser produzido. Em pacientes que tiveram câncer de tireoide, a definição da dose pode fazer parte da própria estratégia de acompanhamento da doença.

Um dos pontos centrais é o controle do TSH, hormônio produzido pela hipófise que estimula a tireoide. Dependendo das características do tumor, pode ser necessário manter o TSH mais baixo, de acordo com o risco de recorrência e com a resposta ao tratamento. Essa meta não é igual para todos e pode mudar ao longo dos anos. Por isso, não existe uma dose de reposição hormonal que sirva indistintamente para todos os pacientes.

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O seguimento pode envolver, conforme cada caso, exames laboratoriais, avaliação dos níveis hormonais, dosagem de tireoglobulina e anticorpos antitireoglobulina, além de exames de imagem e outras estratégias definidas pela equipe responsável. O objetivo é acompanhar a resposta ao tratamento, identificar precocemente eventuais sinais de persistência ou retorno da doença e, ao mesmo tempo, evitar tratamentos mais intensos do que o necessário.

Esse equilíbrio é particularmente importante. Manter o TSH excessivamente baixo por períodos prolongados, quando isso não é necessário do ponto de vista oncológico, pode trazer repercussões para a saúde cardiovascular e óssea. Por outro lado, uma reposição insuficiente pode levar ao hipotireoidismo e comprometer o bem-estar e a qualidade de vida. A decisão precisa considerar o câncer, mas precisa considerar a pessoa como um todo.

Outro aspecto importante é compreender que o acompanhamento não deve ser abandonado porque os primeiros exames após o tratamento foram satisfatórios. O câncer de tireoide, especialmente em suas formas diferenciadas, apresenta em geral altas taxas de controle e bom prognóstico na maioria dos casos, mas isso não significa ausência de necessidade de seguimento. Ao longo do tempo, a avaliação permite inclusive ajustar a intensidade desse acompanhamento de acordo com a evolução individual.

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Falar sobre câncer de tireoide, portanto, é falar não apenas sobre descobrir um nódulo ou realizar uma cirurgia. É falar sobre uma linha de cuidado que continua depois do tratamento inicial e que deve ser individualizada.

A conscientização sobre o câncer de tireoide precisa deixar uma mensagem clara: vencer uma etapa do tratamento não significa encerrar o cuidado. Para quem passou por um câncer de tireoide, acompanhamento adequado, controle hormonal e seguimento médico fazem parte do tratamento e ajudam a manter a saúde no longo prazo.

Dra. Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT
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