Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

artigos

Cuiabá 307 anos — A alma que canta a sua fé

Publicados

em

Por Kaene Almeida

Nasci na cidade verde, lá no bairro do Porto, onde as manhãs nascem ao som dos sabiás e os ipês, apressados em florescer, tingem de cor as tardes quentes entre julho e setembro.

Cuiabá nunca foi apenas um lugar… é uma sensação que se aprende cedo caminhando por calçadas cobertas de pétalas, como quem pisa, sem perceber, em memórias vivas.

Ainda menina, eu olhava aquelas árvores exuberantes e me perguntava como algo tão belo podia durar tão pouco. Hoje entendo: talvez ali a vida já me ensinasse, em silêncio, que a beleza mora no instante. E Cuiabá é feita disso de instantes que não passam, apenas se guardam.

Cresci pertencendo a essa terra quente. Quente não só de sol, mas de alma. Uma terra que acolhe, que envolve, que ensina sem pressa. Na nossa culinária, encontrei identidade sabores que não apenas alimentam, mas contam histórias. O Maria Izabel, firme e marcante; o quibebe de mamão verde; a feijoada cuiabana com osso de corredor; o arroz sem sal, equilibrando tudo como quem entende, com sabedoria antiga, o lugar de cada coisa.

E o rio Cuiabá… ah, o rio. Não é apenas água que corre é memória que permanece. Dele vêm o pintado, o pacu, o dourado, transformados em pratos que aquecem mais que o corpo. A mojica de pintado, por exemplo, não é só comida é encontro, é família reunida, é afeto servido à mesa. Sabores que nascem das águas e carregam o gosto verdadeiro da nossa terra.

E os doces… doces que são quase lembranças materializadas. O furrundú, o pé de moleque, o leite cuiabano, a jacuba simples, nutritiva, ancestral. E havia também os pequenos tesouros da infância: o quebra-queixo e o pixé, vendidos na porta da escola Carmelita Couto, adoçando não só a boca, mas os dias inteiros de uma infância leve e feliz.

E havia ainda um ritual silencioso, quase sagrado, que acontecia nas tardes cuiabanas.
Na casa da minha avó, o tempo desacelerava. Todos os dias, sem exceção, a mesa se tornava altar de afeto. O francisquito, a broinha macia, e o chá de capim-cidreira, exalando um perfume que parecia abraçar a casa inteira.

Leia mais:  Dia Nacional da Conservação do Solo

Era simples mas era tudo.

Era cuidado, era presença, era amor nos gestos mais pequenos. E até hoje, quando o aroma do capim-cidreira me encontra no ar, não é apenas um cheiro… é um chamado. Volto inteira para aquele tempo. Para aquela casa. Para aquela felicidade mansa, que não fazia barulho mas preenchia tudo.

Nas janelas das casas, a moreninha cuiabana se refresca com seu guaraná ralado. Seus cabelos negros, tratados com óleo de mamona, brilham ao vento quente da tarde como uma cena suspensa no tempo, viva na memória de quem sente essa terra.

E há um lugar que pulsa diferente dentro de mim: o bairro do Porto. Ali, cada caminho era descoberta. Eu via o rio de perto, encantada com sua grandeza, enquanto meus pais percorriam a feira, entre cores, cheiros e vozes que formavam a verdadeira sinfonia cuiabana.

Foi ali que conheci o pequi.

Dourado, perfumado, quase como o ouro que deu origem à cidade. Curiosa, mordi aquele fruto cheio de espinhos. Era para doer, para não gostar… mas foi amor. Um amor imediato, teimoso, cuiabano. E até hoje, basta o cheiro do pequi para que tudo volte a menina, os dias simples, a alegria sem medida.

E então chega junho.

E com ele, não vem apenas o mês vem a fé.

As festas de santo se anunciam no levantar do mastro, nas procissões, nos cantos que atravessam o ar e encontram morada no coração.

Porque em Cuiabá, a fé não é apenas rezada… ela é cantada.

As rezas têm melodia. Têm corpo. Têm presença.
E como não se emocionar ao lembrar da festa de São João do Sucuri… onde lavar o santo, ao som do seu hino, não é apenas tradição é continuidade. É um elo vivo entre gerações.

Ah… se São João soubesse. Desceria do céu, só para ver a alegria do seu povo.

Leia mais:  Jornalismo, a voz que ilumina a democracia

E foi ali, naquele chão simples e sagrado, que um dos momentos mais profundos da minha vida aconteceu.

Nas festas de santo, antigamente, a missa reunia toda a comunidade. Famílias levavam seus filhos pequenos para serem batizados. E eu fui uma dessas crianças.

Fui batizada pelas mãos do Frei Quirino, em meio às rezas cantadas, cercada pela fé do meu povo.

Não foi apenas um batismo.

Foi pertencimento.

Foi raiz.

Foi o início consciente de algo que eu já carregava na alma: ser cuiabana.

E nas festas… havia também os sabores da tradição.

A cerveja era rara. O que reinava eram os licores doces, aromáticos, preparados pelas mãos das mães cuiabanas. Cada gole carregava cuidado, história, carinho.

E a comida… farta, forte, verdadeira. Carne com banana verde, cabeça de boi assada, revirado cuiabano pratos que não apenas alimentavam, mas uniam. Reuniam. Fortaleciam.

A fé também dançava.

Na festa de São Benedito, no Senhor Divino, em São Gonçalo onde os passos marcados contam histórias antigas e a devoção ganha movimento. Em Cuiabá, até a fé tem ritmo.

Do bairro Popular, guardo a liberdade da infância: risos soltos, bicicletas correndo, dias que pareciam não ter fim.

Porque falar de Cuiabá é falar de gente. De raiz. De permanência.

O ouro que um dia trouxe tantos até aqui ainda existe não mais no chão, mas no coração de quem carrega esse orgulho.

Ser cuiabano é isso.

É saber de onde veio.

É preservar o sabor.

É honrar o passado sem deixar de caminhar.

Agora, aos 307 anos, Cuiabá cresce, se transforma, se reinventa.

Mas que nunca perca o essencial.

Que nunca perca sua alma.

Essa mistura única de calor humano, tradição, memória e fé cantada.

E eu, com o coração cheio e a alma profundamente enraizada nessa terra, só posso dizer do jeito mais verdadeiro que existe:

Tchá por Deus… eu gosto demais de ser cuiabana.

Kaene Almeida é cuiabana, gastróloga, nascida e criada no berço cultural da gastronomia cuiabana

Comentários Facebook
Propaganda

artigos

Cerveja independente: tradição, identidade e o futuro do mercado brasileiro

Publicados

em

Por Gregório Balarotti

Produzir cerveja independente nunca foi apenas sobre fazer uma boa bebida. Sempre foi sobre construir algo maior: uma marca com identidade, propósito e liberdade para inovar.

Quando fundamos a Cervejaria Louvada, em Cuiabá, essa visão já estava muito clara para nós. Queríamos criar mais do que uma cervejaria; queríamos construir uma marca que respeitasse a tradição cervejeira, autêntica, inovadora e que se conectasse com os valores do consumidor se adaptando às mudanças do mercado.

Nos últimos anos, o mercado brasileiro passou por uma transformação significativa. O consumidor amadureceu. Hoje, ele não busca apenas preço ou conveniência. Busca origem, transparência e experiência. Quer entender o que está consumindo, quem está por trás da marca e quais valores ela representa.

Foi nesse contexto que a cerveja independente ganhou relevância. Diferentemente d?a?s grandes marcas, as cervejarias independentes têm a liberdade de experimentar, contar histórias autênticas e se conectar diretamente com ?o seu público. Essa autonomia é um dos principais motores de inovação no setor, e um dos grandes diferenciais das cervejarias independentes em relação às do mercado tradicional é justamente a diversidade de sabores? e experiências que ela possui.

Na Louvada, sempre acreditamos que uma marca forte também se constrói por meio de originalidade. Nascemos em Cuiabá e escolhemos construir uma identidade que honra a história e a tradição cervejeira?, daí o nome Louvada e a presença de elementos como o cavaleiro e o escudo. Esses símbolos representam uma homenagem e um gesto de respeito a uma tradição que atravessa séculos.

Leia mais:  Fidelizando clientes e construindo relações duradouras

A cerveja acompanha a humanidade desde as civilizações antigas. Na Mesopotâmia, por exemplo, era considerada uma bebida sagrada e chegou a ser utilizada como forma de pagamento. Trazer essa identidade para a Louvada foi uma decisão com propósito: conectar passado e presente e reforçar o respeito que temos pela cultura cervejeira.

Ao mesmo tempo, nossa história está profundamente enraizada em Cuiabá. Existe um sentimento de pertencimento muito forte entre a cidade e a marca. Cuiabá preserva uma proximidade e um senso de comunidade que fazem parte do nosso DNA. Ver uma empresa que nasceu aqui ganhar projeção nacional é motivo de orgulho e também um compromisso de continuar crescendo com responsabilidade.

Essa liberdade criativa se expressa também nos nossos rótulos. A Louvada Blond Caju, por exemplo, é uma cerveja leve, refrescante e frutada, com adição de suco de caju e rótulo desenvolvido em parceria com o artista plástico Nathan Henrique. E temos também a Benedita, feita com o doce típico regional, o furrundu.

Mas construir uma marca relevante também exige olhar constantemente para o futuro. O comportamento de consumo está mudando no mundo inteiro. Cada vez mais pessoas buscam opções com menor teor alcoólico, menos calorias ou até mesmo sem álcool, sem abrir mão de qualidade e sabor.

Leia mais:  A Geração Z não é o problema. O trabalho é que não acompanhou o mundo

Foi com esse olhar que desenvolvemos a Louvada Low, uma American Light Lager com apenas 3,7% de álcool, 29 kcal por 100 ml e sem glúten, pensada para quem busca leveza no dia a dia. Na mesma linha, criamos a Hop Zero, versão sem álcool e sem glúten da nossa tradicional Hop Lager, ampliando as possibilidades de consumo e tornando a cerveja mais acessível para diferentes momentos.

Ser independente também significa ter liberdade para construir comunidade. Investimos em eventos, experiências e parcerias que aproximam as pessoas da marca e entre si. A cerveja sempre foi um elemento de encontro e acreditamos que essa vocação se fortalece ainda mais quando existe uma história verdadeira por trás de cada rótulo.

No Brasil, ressignificar a cerveja independente é reafirmar que tradição e inovação não são opostos. Pelo contrário: quando caminham juntas, criam as bases para um setor mais criativo, diverso e competitivo.

Na Louvada, seguimos guiados por essa convicção. Cada rótulo que criamos carrega uma história. E a nossa continua sendo escrita com independência, respeito à tradição cervejeira e coragem para abrir novos caminhos.

Porque, no fim das contas, mais do que produzir cerveja, o verdadeiro papel de uma marca independente é ajudar a moldar o futuro da cultura cervejeira no Brasil.

Gregório Balarotti é um dos fundadores da Louvada e atualmente é sócio-diretor da cervejaria.

Comentários Facebook
Continue lendo

Polícia

MATO GROSSO

Política Nacional

AGRO & NEGÓCIOS

ESPORTES

VARIEDADES

CIDADES

Mais Lidas da Semana