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Dia Nacional da Conservação do Solo
Por Juacy da Silva
Em 15 de abril, desde 1990, celebramos no Brasil o Dia Nacional da Conservação do Solo, enquanto em 5 de dezembro é celebrado o Dia Mundial da Conservação do Solo, instituído oficialmente pela ONU, através da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), em 2013, ou seja, depois que o Brasil já havia criado seu Dia Nacional da Conservação do Solo, ambos com os mesmos objetivos praticamente.
Todavia, bem antes desses dias serem instituídos oficialmente, diversos estudos e pesquisas já tinham sido realizados por inúmeras instituições de pesquisa e universidades, tanto no Brasil quanto nos EUA e outros países, demonstrando a importância de melhorar os cuidados com a utilização dos solos, evitando que a degradação, o uso superintensivo, a falta de cuidados técnicos e tecnológicos — como o desmatamento, as queimadas, o uso exagerado de agrotóxicos, a falta de correção e a questão da erosão — possam esgotar a fertilidade dos solos, reduzindo drasticamente a produção e a produtividade dos mesmos.
A falta de cuidado com os solos afeta tanto a produção e a produtividade quanto contribui para o agravamento da fome, da miséria e da subalimentação, gerando crises econômicas, sociais e políticas em diversos países.
Por isso, o Dia Nacional da Conservação do Solo, a ser celebrado nesta semana, em 15 de abril de 2026 (quarta-feira), é uma data fundamental para destacar a importância do manejo sustentável, da prevenção da erosão e da preservação da fertilidade do solo, garantindo a segurança alimentar saudável e a saúde dos ecossistemas brasileiros.
O foco das celebrações neste Dia Nacional da Conservação do Solo, em 2026, continua sendo a saúde do solo, a agricultura regenerativa, o manejo sustentável e o aumento da produtividade com conservação, como condições para bem cumprir seu papel no sistema produtivo nacional.
O Dia Nacional da Conservação do Solo no Brasil foi instituído pela Lei nº 7.803, em 21 de junho de 1989, durante o Governo Sarney, por iniciativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e a data foi uma homenagem ao cientista (agrônomo) norte-americano Hugh Hammond Bennett (1881–1960), considerado o “pai” da luta pela conservação do solo e um dos grandes pesquisadores de renome nessa área, reconhecido internacionalmente por suas contribuições relevantes.
Ao longo de todos os anos, o calendário ecológico nos estimula a refletir sobre aspectos importantes relacionados à importância de melhor cuidarmos de nosso Planeta, que também costumamos denominar de “mãe terra”, Gaia e Casa Comum, onde, como sempre enfatizou o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’ e nas Exortações Laudate Deum e Querida Amazônia, e tantos outros pronunciamentos ao longo de seu magistério, tudo está interligado.
Considerando, pois, que “tudo, neste planeta Terra, está interligado” e que o “grito e gemido da terra também é o grito dos pobres, excluídos e injustiçados”, cuidar da ecologia integral, do meio ambiente, de todos os biomas e ecossistemas é um dever e um desafio para a humanidade, pois a degradação, a destruição da biodiversidade e as várias formas de poluição dos solos, das águas e do ar fatalmente colocam em risco a sobrevivência de todas as formas de vida no planeta, principalmente a vida humana.
Por isso é que, pelo menos ao longo de 78 dias e várias semanas, diversos momentos nos estimulam a pararmos um pouco e refletirmos sobre o que está acontecendo ao nosso redor e o que podemos fazer para evitar que este processo de destruição da natureza, em uma busca ávida por resultados imediatos — principalmente o lucro que produz a acumulação de capital, renda e riquezas em poucas mãos —, tenha consequências que recaem sobre a grande maioria da população.
Em mais uma de suas exortações em defesa da ecologia integral, o Papa Francisco falava sobre os paradigmas que sustentam a chamada “economia da morte”, em que os sistemas econômicos no mundo inteiro, principalmente o capitalismo perdulário e predador, têm contribuído para tantos problemas ecológicos, como o aquecimento global e a crise climática, com tantas consequências.
Em lugar da economia da morte, do capitalismo e outros sistemas econômicos, sociais e políticos que não respeitam a natureza, as obras da criação, nem os trabalhadores, muito menos os consumidores e as futuras gerações, precisamos substituir os paradigmas da economia da morte por outros paradigmas de uma economia da vida, baseada na agroecologia, na economia solidária (exemplo da Economia de Francisco e Clara) e em um maior respeito pela vida.
É nesse contexto que a defesa das águas, do solo e do clima tornam-se fundamentais para a sobrevivência da humanidade, através da produção de alimentos, de matérias-primas e das oportunidades de trabalho.
Cuidar dos solos, garantindo sua fertilidade e capacidade produtiva e reprodutiva, é um desafio que vem sendo colocado ao longo das últimas seis ou sete décadas, tendo em vista o crescimento populacional, a crescente urbanização e o aumento da renda per capita, ensejando um aumento exagerado, diga-se de passagem, das várias demandas e pelo consumismo exacerbado.
Quando falamos em conservação dos solos, precisamos contrapor essa ideia ou preocupação com a realidade dos solos no mundo e em cada país, inclusive no Brasil, principalmente com a questão do avanço da degradação de imensas áreas que estão perdendo ou já perderam totalmente toda a sua fertilidade.
Igualmente, precisamos considerar o avanço da desertificação em inúmeros países, principalmente na África, Oriente Médio, na Ásia e até mesmo na América Latina e do Norte, que afeta profundamente a capacidade de produção, a produtividade e a vida de diversos biomas e ecossistemas.
O tema da conservação do solo é de tamanha importância que a ONU declarou 2015 como o Ano Internacional da Conservação do Solo, tendo como objetivo principal estimular os países a se debruçarem com mais atenção, cuidado e investimentos nessa área.
De forma semelhante, a ONU, ao estabelecer/instituir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e suas metas, em 2015, reforçou a necessidade de melhor cuidar dos solos através de alguns ODS, como, por exemplo, o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), demonstrando a relação entre solos bem conservados e o aumento da produção e da produtividade, e que a adoção de práticas agrícolas sustentáveis (manejo conservacionista, plantio direto, rotação de culturas) que aumentam a produtividade ajudam a manter os ecossistemas e fortalecem a capacidade de adaptação às mudanças climáticas.
O ODS 15 (Vida Terrestre) e suas metas demonstram que o solo é o maior reservatório da biodiversidade do planeta; o seu uso correto e conservação evitam a desertificação, a degradação, a erosão e outras consequências danosas.
De forma semelhante, o ODS 13 (Ação contra a Mudança Global do Clima) e suas metas demonstram sobejamente que solos saudáveis, bem conservados, são ricos em matéria orgânica e atuam como verdadeiros sumidouros que sequestram carbono da atmosfera, reduzindo o impacto das mudanças climáticas, tendo em vista que a degradação dos solos — principalmente fruto de desmatamento e queimadas — aumenta as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera.
Conforme dados recentes da FAO e outras agências e instituições internacionais, em 2025, em torno de 40% da área agricultável do mundo, aproximadamente 1,6 bilhão de hectares, já estavam degradadas, afetando a vida e a subsistência de mais de três bilhões de pessoas.
Anualmente, mais de 100 milhões de hectares de solos férteis se transformam em áreas degradadas ao redor do mundo, afetando tanto a produção de alimentos quanto de outras matérias-primas, gerando um grande impacto econômico, social e político em diversos países.
A situação no Brasil também não é nada animadora, muito diferente da euforia de alguns setores que não se cansam de “exaltar” a capacidade brasileira como “potência agropastoril” e poder alimentar bilhões de pessoas ao redor do mundo.
A realidade da conservação de nossos solos é bem precária, tendo em vista que existem no Brasil, dados de 2025, em torno de 140 milhões de hectares de solos degradados, área esta maior do que a utilizada para a produção de grãos em 2025, em torno de 80 milhões de ha.
Em relação à área ocupada com pastagens em 2025, totalizavam 180 milhões de ha, dos quais 114 milhões de ha apresentam algum nível de degradação, ou seja, 63,3% do total.
Assim, não se justifica tanta euforia como pode ser vista em diversos setores do chamado agronegócio; os desafios ambientais, principalmente em relação à falta de cuidado com a conservação do solo, acabam impondo um ônus, um peso ao país como um todo, tendo em vista, por exemplo, o custo para recuperação de áreas/solos degradados, que são praticamente proibitivos, principalmente considerando a escassez de recursos e tantas outras necessidades de investimentos em todos os países.
Tendo por base diversos estudos e estimativas, estima-se que, para recuperar essas áreas no mundo, seriam necessários em torno de US$ 2,6 trilhões de dólares, ou um bilhão de dólares por dia entre os anos de 2025 até 2030, no contexto da Agenda 2030 da ONU.
Considerando a existência de mais de 140 milhões de hectares de solos/áreas degradadas no Brasil e as metas estabelecidas pelo Governo, até novembro de 2025, apenas 3,4 milhões de hectares haviam sido “recuperados”, a despeito de a meta estabelecida ter sido a recuperação de 12 milhões de hectares até 2030, apesar de que nas últimas quatro décadas mais de 111 milhões de hectares de solos férteis foram degradados, ou seja, o processo de degradação tem sido mais rápido em relação à capacidade de recuperação. Daí a importância de refletirmos mais profundamente quanto à importância deste Dia Nacional da Conservação do Solo no Brasil.
Estimativas recentes tanto do Governo quanto do setor privado, divulgadas pela Agência Brasil em 9 de agosto de 2025, enfatizavam a necessidade de R$ 31,4 bilhões de reais para a recuperação de 1,1 milhão de hectares de solos/áreas degradadas.
Considerando a existência de 168 milhões de hectares de solos/áreas degradadas até o final de 2025 no Brasil, o custo total para a recuperação deste “passivo” causado pela falta de conservação do solo agricultável em nosso país seria de R$ 4,8 trilhões de reais, algo praticamente impossível, diante da realidade orçamentária, fiscal e financeira atual do país.
É fundamental repensarmos este modelo agroexportador e predatório que tem contribuído também para o desmatamento em todos os biomas, principalmente na Amazônia, no Cerrado, na Caatinga e no Pantanal, com o uso superintensivo do solo (sem “descanso”), com uso absurdo/abusivo de agrotóxicos.
Precisamos substituir este modelo atual, destruidor e predatório, por práticas mais racionais, como uma agricultura de baixo carbono, uma agricultura regenerativa, baseada na agroecologia, na produção orgânica, na produção mais consciente através da integração lavoura-pecuária-floresta, garantindo um melhor cuidado e conservação dos solos e apoio mais efetivo à agricultura familiar.
O Brasil não pode se dar ao luxo de destruir suas florestas, suas águas e seus solos em nome de um projeto de acumulação de capital que beneficia apenas um grupo limitado de barões da economia em geral e do agronegócio em particular. Precisamos construir um modelo que respeite o meio ambiente e também os consumidores, os trabalhadores e as futuras gerações, cujos frutos/resultados sejam melhor distribuídos pela sociedade.
Este é um assunto a ser considerado e refletido não apenas pelo empresariado do agro e da pecuária, mas por toda a sociedade, afinal a conservação dos solos é também um assunto de políticas públicas de interesse tanto dos produtores rurais quanto dos consumidores e trabalhadores, enfim, de toda a sociedade brasileira.
Assim, tendo em vista que estamos em pleno período pré-eleitoral, quando iremos eleger toda a “cúpula” governamental do país e dos estados — ou seja, iremos eleger os “eternos donos do poder” —, essas reflexões sobre diversos temas ecológicos, como o Dia Nacional da Conservação do Solo, deveriam estar presentes nos debates, nas discussões políticas e partidárias e, também, nos famosos “planos” de governo e nas propostas, às vezes exdrúxulas e mirabolantes, de milhares de candidatos por este Brasil afora.
Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: [email protected]. Instagram: @profjuacy. WhatsApp: (65) 9 9272-0052.
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Redação perfeita, ideias frágeis
Por Paula Tavares
Não há como negar que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma ferramenta cada vez mais presente no cotidiano. Seja na elaboração de trabalhos acadêmicos, relatórios, petições, e-mails, legendas de fotos ou simples mensagens, os textos passaram a ser produzidos com correção gramatical quase impecável e em uma velocidade que impressiona.
À primeira vista, esse avanço parece apenas positivo. Afinal, escrever melhor, com menos erros, sempre foi um objetivo desejável. No entanto, por trás dessa aparente evolução, surge um fenômeno mais sutil e preocupante: a progressiva terceirização do pensamento.
A facilidade proporcionada pelas ferramentas de inteligência artificial tem incentivado uma postura cada vez mais passiva diante da escrita. Em vez de organizar ideias, refletir sobre argumentos e construir um raciocínio próprio, observa-se uma crescente tendência de delegação dessa tarefa à tecnologia. O resultado são textos formalmente corretos, mas frequentemente genéricos, pouco críticos e, por vezes, desconectados da realidade concreta de quem os utiliza.
Esse cenário traz implicações relevantes, inclusive no campo jurídico. A prática do Direito exige não apenas domínio da norma, mas capacidade analítica, senso crítico e responsabilidade na construção de argumentos. A utilização indiscriminada de inteligência artificial pode comprometer justamente essas competências, ao substituir o esforço intelectual por respostas prontas, ainda que bem redigidas.
Não se trata de rejeitar a tecnologia. Pelo contrário, a inteligência artificial pode, e deve, ser utilizada como ferramenta de apoio, capaz de otimizar tempo e ampliar o acesso à informação. O problema reside no uso acrítico e excessivo, que transforma um instrumento em substituto da própria atividade intelectual.
Com o tempo, essa dependência tende a tornar o raciocínio mais lento e menos autônomo. Basta observar o que ocorreu com os aplicativos de navegação. Se antes as pessoas memorizavam trajetos, nomes de ruas e pontos de referência, hoje não é raro que se percam em percursos simples sem o auxílio da tecnologia. Da mesma forma, se antes eram capazes de decorar dezenas de números de telefone, hoje se tornam reféns de agendas digitais. Como diz o ditado: “quem não exercita, atrofia”, e com o pensamento não é diferente.
Há, ainda, um risco menos evidente, mas igualmente relevante: a padronização do discurso. À medida que mais pessoas recorrem às mesmas ferramentas, os textos tendem a seguir estruturas e estilos semelhantes, empobrecendo o debate público e reduzindo a diversidade de perspectivas. Em um ambiente democrático, a pluralidade de ideias é um valor essencial e não pode ser sacrificada em nome da mera conveniência.
Diante desse contexto, o desafio que se impõe não é tecnológico, mas humano. É preciso resgatar o papel ativo do indivíduo na produção do conhecimento, utilizando a inteligência artificial como aliada, e não como substituta. Escrever bem não deve significar apenas evitar erros gramaticais, mas expressar pensamento próprio, crítico e consciente.
Em tempos de respostas instantâneas, talvez o verdadeiro diferencial esteja justamente naquilo que nenhuma máquina pode oferecer plenamente: a autenticidade do pensamento.
Paula Tavares é advogada, mestre em Administração Pública e assessora jurídica do Tribunal de Contas de Mato Grosso.
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