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Redação perfeita, ideias frágeis

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Por Paula Tavares

Não há como negar que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma ferramenta cada vez mais presente no cotidiano. Seja na elaboração de trabalhos acadêmicos, relatórios, petições, e-mails, legendas de fotos ou simples mensagens, os textos passaram a ser produzidos com correção gramatical quase impecável e em uma velocidade que impressiona.

À primeira vista, esse avanço parece apenas positivo. Afinal, escrever melhor, com menos erros, sempre foi um objetivo desejável. No entanto, por trás dessa aparente evolução, surge um fenômeno mais sutil e preocupante: a progressiva terceirização do pensamento.

A facilidade proporcionada pelas ferramentas de inteligência artificial tem incentivado uma postura cada vez mais passiva diante da escrita. Em vez de organizar ideias, refletir sobre argumentos e construir um raciocínio próprio, observa-se uma crescente tendência de delegação dessa tarefa à tecnologia. O resultado são textos formalmente corretos, mas frequentemente genéricos, pouco críticos e, por vezes, desconectados da realidade concreta de quem os utiliza.

Esse cenário traz implicações relevantes, inclusive no campo jurídico. A prática do Direito exige não apenas domínio da norma, mas capacidade analítica, senso crítico e responsabilidade na construção de argumentos. A utilização indiscriminada de inteligência artificial pode comprometer justamente essas competências, ao substituir o esforço intelectual por respostas prontas, ainda que bem redigidas.

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Não se trata de rejeitar a tecnologia. Pelo contrário, a inteligência artificial pode, e deve, ser utilizada como ferramenta de apoio, capaz de otimizar tempo e ampliar o acesso à informação. O problema reside no uso acrítico e excessivo, que transforma um instrumento em substituto da própria atividade intelectual.

Com o tempo, essa dependência tende a tornar o raciocínio mais lento e menos autônomo. Basta observar o que ocorreu com os aplicativos de navegação. Se antes as pessoas memorizavam trajetos, nomes de ruas e pontos de referência, hoje não é raro que se percam em percursos simples sem o auxílio da tecnologia. Da mesma forma, se antes eram capazes de decorar dezenas de números de telefone, hoje se tornam reféns de agendas digitais. Como diz o ditado: “quem não exercita, atrofia”, e com o pensamento não é diferente.

Há, ainda, um risco menos evidente, mas igualmente relevante: a padronização do discurso. À medida que mais pessoas recorrem às mesmas ferramentas, os textos tendem a seguir estruturas e estilos semelhantes, empobrecendo o debate público e reduzindo a diversidade de perspectivas. Em um ambiente democrático, a pluralidade de ideias é um valor essencial e não pode ser sacrificada em nome da mera conveniência.

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Diante desse contexto, o desafio que se impõe não é tecnológico, mas humano. É preciso resgatar o papel ativo do indivíduo na produção do conhecimento, utilizando a inteligência artificial como aliada, e não como substituta. Escrever bem não deve significar apenas evitar erros gramaticais, mas expressar pensamento próprio, crítico e consciente.

Em tempos de respostas instantâneas, talvez o verdadeiro diferencial esteja justamente naquilo que nenhuma máquina pode oferecer plenamente: a autenticidade do pensamento.

Paula Tavares é advogada, mestre em Administração Pública e assessora jurídica do Tribunal de Contas de Mato Grosso.

 

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Leão XIV: O Papa da paz, da justiça e dos direitos humanos

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Por Juacy da Silva

Bem antes do início da “Era cristã”, em torno de 700 anos antes do nascimento de Cristo, o Profeta Isaías (32:17) exortava que a verdadeira paz é fruto da justiça, fraternidade, tranquilidade e segurança duradouras, destacando a relação direta entre o agir com justiça e colher a paz, tanto em nível pessoal quanto comunitário, nacional e internacional, e também fruto de ações de governos justos (e democráticos).

Em sua mensagem por ocasião do Dia Mundial da Paz, em 1º de janeiro deste ano de 2026, o Papa Leão XIV foi bem claro, como se diz, “direto ao ponto”, ao dizer (“urbi et orbi”, ou seja, à cidade de Roma e ao mundo inteiro): “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”. Desde então, as críticas às guerras e todas as formas de violência, principalmente nas relações internacionais, têm sido constantes e bem assertivas por parte do Líder da Igreja Católica, o que não tem agradado diversos chefes de governos e Estados, como nos EUA e outros países, bem como a todos os setores conservadores das Igrejas e da política.

A escolha/eleição de um novo Papa, líder máximo de mais de 1,4 bilhão de cristãos católicos espalhados por todos os continentes e países, sempre gera muitas reflexões e até mesmo algumas “apostas”, em relação à sua “linha”, dimensão teológica, pastoral ou, enfim, seu magistério.

A Igreja Católica, como sabemos, acomoda ou inclui diferentes tendências, desde conservadores extremados, identificados política e ideologicamente com a extrema direita mundial – aqueles que “defendem a vida, lutam contra o aborto”, mas defendem a pena de morte e amam fazer as guerras que tanta destruição, sofrimento e mortes têm causado ao longo da história humana –, e também alguns setores mais “liberais” ou até mesmo adeptos da Teologia da Libertação, considerada uma heresia pelos conservadores.

O importante é termos presente que, desde o Concílio Vaticano II (1962–1965), a Igreja abriu-se para uma maior participação de leigos e leigas e reforçou sua “opção preferencial pelos pobres”, e isso não tem agradado os setores conservadores da Igreja em diversos países, incluindo o Brasil, os EUA e outros mais.

Ao longo dos pouco mais de 12 anos do Magistério do Papa Francisco (2013–2025), “Aquele” que “veio do fim do mundo”, o primeiro Papa da América Latina, adepto da “Teologia dos pobres”, dos “padres das favelas”, a Igreja aprofundou alguns aspectos das conclusões do Concílio Vaticano II, incluindo a dimensão da ecologia integral com a publicação da Encíclica Laudato Si’ e das Exortações Apostólicas “Querida Amazônia”, após o encerramento do Sínodo dos Bispos da Pan-Amazônia, e também da Exortação Apostólica Laudate Deum, endereçada aos participantes da COP 28, em 2023, sobre a gravidade da crise climática, indicou à Igreja Católica, aos cristãos em geral e aos fiéis de outras religiões a importância de bem cuidarmos de nosso Planeta, denominado por Francisco como a Nossa Casa Comum.

Além disso, o Papa Francisco reforçou a importância da Igreja Católica ser uma Igreja em saída, voltada para os pobres e ao lado dos pobres, ao criar, por exemplo, o Dia Mundial dos Pobres, criado em 2016 e a ser celebrado anualmente no 33º Domingo do Tempo Comum (2026 será em 9 de novembro), ou quando enfatizou os seus três “Ts”: Terra, Teto e Trabalho, considerando, inclusive, que “o gemido da terra é também o gemido, o grito dos pobres, excluídos e injustiçados”.

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Além de ser uma Igreja em saída, em direção às periferias físicas e existenciais, a mesma deve ser sinodal, abrindo-se mais à participação de leigos e leigas e, claro, profética, denunciando as injustiças, a opressão, a violência, a exclusão social, política e econômica, psicológica, principalmente em decorrência das guerras e conflitos armados que tanta destruição material, migrações, sofrimento e mortes têm acarretado e continuam acarretando a dezenas e dezenas de milhões de vítimas inocentes.

Neste contexto, a ênfase na defesa dos direitos humanos fundamentais, como, por exemplo, um tratamento digno aos migrantes, trabalhadores, enfim, um combate intransigente a todas as formas de violência, ficou mais clara na caminhada da Igreja sob o magistério de Leão XIV.

A escolha/eleição do Papa Leão XIV ocorreu neste contexto de uma grande transformação provocada na Igreja pelo Magistério do Papa Francisco, um intransigente crítico de todas as formas perniciosas e nada éticas de ação no seio da Igreja, incluindo o clericalismo, denominado por ele como uma chaga, enfim, uma forma de mundanismo que danifica a Igreja, incluindo também a corrupção no Banco Vaticano e os diversos escândalos de pedofilia e abusos sexuais, que tantos males e vergonha estavam causando à imagem da Igreja.

Foi neste contexto que os conservadores imaginaram ou sonharam com a eleição de um novo Papa mais alinhado às suas posturas teológicas e pastorais, e em um primeiro momento, recaindo a escolha sobre o Cardeal Robert Francis Prevost, norte-americano naturalizado peruano, com passagem como missionário e depois bispo da Diocese de Chiclayo, no Peru, poderia representar uma mudança de rumo em relação ao magistério do considerado “esquerdista” Papa Francisco.

Todavia, desde seus primeiros pronunciamentos e exortações apostólicas, tanto no Vaticano quanto em suas viagens apostólicas, Leão XIV tem enfatizado alguns temas considerados de extrema importância para a vida da Igreja Católica, para os cristãos e para o mundo, reafirmando a necessidade de a Igreja Católica ser “o sal da terra e a luz do mundo”, testemunha viva do Cristo Ressuscitado.

O primeiro deles tem sido uma condenação dura, explícita, frequente e bem corajosa às guerras e conflitos armados, principalmente aqueles promovidos por potências e superpotências dominadoras, cujas consequências têm sido devastadoras principalmente para milhões de vítimas inocentes, como nas guerras da Ucrânia, contra os palestinos e, ultimamente, contra o Irã, Líbano, e também algumas guerras civis na África e em outras partes do mundo.

Em lugar das guerras, que representam uma grande estupidez humana, Leão XIV propõe mais diálogos, mais diplomacia e a importância de criarmos uma verdadeira “cultura da paz”, embasada na justiça, justiça social, na solidariedade e no respeito pleno aos direitos fundamentais das pessoas (direitos humanos).

Em relação à justiça social e aos direitos humanos, Leão XIV disse claramente que a própria escolha de seu nome papal é a demonstração de que pretende, ao longo de seu magistério, que esperamos seja longo, dar continuidade aos princípios estabelecidos na Encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, de 1891, representando a estruturação inicial das preocupações da Igreja com as questões sociais relacionadas à vida dos trabalhadores, em meio ao confronto entre duas concepções distintas: de um lado, o capitalismo selvagem, escravizador; de outro lado, o movimento comunista.

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Foi neste contexto que surgiu a Doutrina Social da Igreja e a ênfase na economia solidária, que Leão XIV compromete-se a seguir e aprofundar, como já fez ao publicar a Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), uma exortação iniciada pelo Papa Francisco, complementada e atualizada diante da gravidade da pobreza, da miséria e outras formas de exclusão que tanto afetam os pobres, uma grande maioria da população, principalmente trabalhadores e trabalhadoras ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

E, por último, mas não sem a devida importância, Leão XIV também tem dado continuidade às preocupações e luta por uma ecologia integral, com o destino do planeta Terra, Nossa Casa Comum, tendo em vista os desafios da crise climática, da degradação dos biomas, ecossistemas, da perda/destruição da biodiversidade, do desmatamento, com todas as formas de poluição (do ar, das águas e dos solos) que afetam profundamente o planeta e, principalmente, a saúde humana, a qualidade de vida, tanto das atuais quanto, e principalmente, das futuras gerações.

Essas preocupações estão presentes, por exemplo, quando Leão XIV define a justiça ambiental como “uma necessidade urgente que ultrapassa a mera proteção imediata do ambiente”, defendendo que ela deve ser parte de uma “conversão ecológica” que transforma estilos de vida pessoais e comunitários. Ele enfatiza que o cuidado da casa comum é indissociável da justiça social, de uma justa distribuição dos frutos do crescimento econômico e do desenvolvimento integral e do cuidado com os pobres, e tudo isso interliga-se umbilicalmente com a luta por uma paz desarmada e desarmante.

Diante do momento atual em que o mundo assiste, passivamente, aos horrores de tantas guerras, cabe aos cristãos em geral e aos católicos em particular, da mesma forma que fiéis de outras religiões, verdadeiros amantes da paz, não apenas defenderem o Papa Leão XIV em sua luta e caminhada em defesa da paz desarmada e desarmante, construída sobre os princípios e fundamentos de uma cultura da paz, bem como em sua defesa da Justiça Social, Justiça socioambiental e dos Direitos Humanos, mas também transformar nossas vozes e nossas ações em instrumentos dessas bandeiras empunhadas por ele.

Este é o lado que deve ser escolhido pelos verdadeiros cristãos neste momento tão crítico e delicado das relações interpessoais, nacionais e também internacionais.

Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: [email protected] Instagram: @profjuacy WhatsApp: (65) 9 9272-0052.

 

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