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Crianças são reflexo do ambiente
Por Mariana Vidotto
Durante anos, inúmeras famílias chegaram ao consultório em busca de respostas para comportamentos considerados “difíceis” nas crianças: crises emocionais, agressividade, ansiedade, dificuldades de aprendizagem, insegurança, irritabilidade, isolamento, explosões frequentes ou até sintomas físicos sem causa aparente.
Na maioria das vezes, o olhar inicial recaía exclusivamente sobre a criança, como se ela fosse o centro do problema. Mas a prática clínica revela algo muito mais profundo: a criança raramente adoece sozinha.
Ao longo da experiência construída no acompanhamento terapêutico infantil e familiar, tornou-se impossível ignorar um padrão recorrente. Muitas crianças estavam apenas expressando, através do comportamento, aquilo que o sistema familiar ainda não havia conseguido elaborar emocionalmente. O sintoma infantil, frequentemente, é a linguagem silenciosa de um ambiente emocionalmente sobrecarregado.
A criança absorve o ambiente antes mesmo de compreender plenamente as palavras. Ela percebe tensões, sente ausências afetivas, reage à instabilidade emocional dos adultos, internaliza conflitos, excessos de cobrança, desconexões emocionais e vínculos fragilizados. Aquilo que muitas vezes é interpretado apenas como “mau comportamento” pode ser, na verdade, uma manifestação legítima de sofrimento emocional.
A neurociência do desenvolvimento infantil já demonstra que o cérebro da criança é profundamente moldado pelas experiências emocionais vividas dentro do ambiente familiar. Relações marcadas por insegurança, instabilidade, rigidez excessiva, negligência emocional ou ausência de presença afetiva impactam diretamente a forma como essa criança aprende, se relaciona, regula emoções e constrói sua percepção sobre si mesma e sobre o mundo.
Foi justamente a partir dessa compreensão clínica que surgiu a necessidade de ampliar o cuidado para além da criança. Porque tratar apenas o comportamento infantil, sem olhar para a dinâmica emocional da família, é atuar apenas na consequência enquanto a origem permanece intacta.
Ao longo de mais de uma década acompanhando famílias em diferentes países, uma constatação passou a se repetir de forma contundente: muitas crianças carregam dores emocionais que não nasceram nelas. Elas apenas expressam aquilo que o sistema familiar silencia, reprime ou ainda não conseguiu transformar.
Existem crianças vivendo em estado constante de alerta emocional. Crianças rotuladas como agressivas quando, na verdade, estão emocionalmente desorganizadas. Crianças consideradas “difíceis” quando apenas aprenderam a sobreviver ao caos emocional ao redor delas.
O olhar sistêmico rompe com a ideia ultrapassada de individualizar o sofrimento infantil. Ele compreende que toda criança está inserida em uma dinâmica emocional coletiva e que, muitas vezes, ela se torna o reflexo mais visível de estruturas familiares fragilizadas.
Por isso, o trabalho terapêutico com famílias não busca culpados. Busca consciência. Busca interromper padrões emocionais destrutivos que atravessam gerações de forma silenciosa. Busca reconstruir vínculos, fortalecer a comunicação afetiva e devolver segurança emocional às relações.
Quando os adultos se reorganizam emocionalmente, a criança deixa de precisar manifestar através do comportamento aquilo que a família ainda não conseguia enxergar.
É nesse momento que o desenvolvimento infantil deixa de ser apenas uma tentativa de correção de sintomas e passa a se tornar um verdadeiro processo de transformação familiar.
Porque, na maioria das vezes, a criança não é o problema. Ela é apenas a primeira a revelar que algo dentro daquela estrutura precisa ser cuidado.
Mariana Vidotto é psicoterapeuta, mentora e palestrante, especialista em neurociência aplicada ao desenvolvimento humano e dinâmica familiar com acompanhamento terapêutico sistêmico. @marianavidotto
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A conta que ninguém quer fazer
Por Daniel Teixeira
Há uma distinção elementar que o debate sobre a redução da jornada de trabalho insiste em ignorar: a diferença entre aquilo que é justo e aquilo que é possível. As duas coisas podem, eventualmente, coincidir. No Brasil de 2026, elas não coincidem.
É difícil ser contra descanso. É difícil argumentar em praça pública que alguém merece trabalhar seis dias por semana. O problema é que políticas públicas precisam ser avaliadas por seus efeitos reais, não pela simpatia do enunciado — e os efeitos reais desta proposta são preocupantes.
O ponto cego do movimento é tratar a hora de trabalho como variável neutra, como se reorganizar os dias de folga automaticamente tornasse os negócios mais eficientes. Não torna. Quando a produtividade não é alta o suficiente para absorver o choque, o custo se redistribui, e quem paga é o consumidor — que, com frequência notável, é o próprio trabalhador. Em rankings internacionais baseados em dados da OIT, o Brasil aparece apenas na metade inferior da tabela de produtividade por hora trabalhada. Não é uma posição confortável para uma economia que pretende reduzir jornada por imposição legal antes de resolver seus gargalos de eficiência.
O problema não é a folga em si. É a escala uniforme imposta a um país de serviços contínuos. Restaurantes não fecham no sábado. Hospitais não param na segunda-feira. Hotéis funcionam nos 365 dias do ano. Shopping centers, condomínios e empresas de segurança e apoio operacional também dependem de funcionamento permanente, porque o usuário, o morador, o hóspede, o paciente e o consumidor não esperam, e o serviço não pode ser adiado. Obrigar esses setores a concentrar a prestação de trabalho em cinco dias não é conceder descanso: é forçar uma aritmética que só fecha com mais contratações, mais custo e mais preço ao consumidor final.
A Fecomercio-SP estima custo adicional de R$ 158 bilhões sobre a folha de pagamentos caso a jornada legal seja reduzida de 44 para 40 horas semanais. Em cenários mais agressivos, com limite de 36 horas, o impacto estimado chega a R$ 610 bilhões. Para cobrir os dias que deixarão de ser trabalhados, os setores de serviços terão de contratar mais — mas a mão de obra disponível já é escassa. Em Mato Grosso, levantamento da Fecomércio-MT apontou impacto de até R$ 1,4 bilhão por mês nos setores de comércio e serviços, num estado que registra uma das menores taxas de desemprego do país, o que limita severamente a capacidade de reposição rápida de mão de obra. A equação dificilmente fecha sem repasse de custos, perda de margem ou redução da capacidade de atendimento.
Nos países europeus usados como referência, jornadas menores convivem com produtividade muito superior à brasileira, renda mais alta e estruturas econômicas distintas. Não se trata de copiar um modelo: trata-se de reconhecer que ele foi construído sobre bases que o Brasil ainda não tem. Na Colômbia, citada por defensores da redução, análises econômicas apontaram queda de 3,1% na produtividade por trabalhador, o que indica que a simples divisão da jornada não garante ganho de eficiência. É esse o espelho que nos é apresentado como progresso.
Há ainda um agravante que os apoiadores da proposta evitam mencionar. O Brasil está no início de uma das maiores mudanças fiscais das últimas décadas. O setor de serviços — justamente o que mais opera sob a escala 6×1 — enfrentará aumento expressivo na carga tributária com a unificação dos tributos, além de ter de conviver com dois sistemas fiscais simultâneos durante anos de transição. A depender do texto aprovado, uma obrigação trabalhista dessa dimensão poderá produzir impacto relevante justamente no período em que as empresas já estarão absorvendo essa transição tributária. Uma generosidade feita com o dinheiro dos outros.
A tramitação ganhou velocidade em 2026: a CCJ da Câmara aprovou a admissibilidade das propostas, que seguem agora para comissão especial. O calendário político, em ano eleitoral, aumenta o risco de que uma mudança de grande impacto econômico seja debatida mais pela força do slogan do que pela análise de seus efeitos concretos. Reformas constitucionais feitas em ritmo de campanha costumam criar problemas em ritmo de legislatura.
O que o setor produtivo — restaurantes, hotéis, hospitais, shopping centers, condomínios e empresas de segurança e apoio operacional — pede não é a eternidade da escala 6×1. Pede gradualidade, pede negociação coletiva, pede que a regra reconheça que serviço contínuo não tem folga no calendário porque a natureza do negócio não permite. Pede, em suma, que a política trabalhista seja feita por quem vai arcar com as consequências depois da eleição, e não por quem vai estar comemorando votos quando os primeiros bares começarem a fechar.
A conta tem um preço. Ele só não aparece no discurso porque alguém decidiu que ela deve chegar depois de outubro.
Daniel Teixeira é advogado, empresário e presidente da Abrasel-MT
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