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Agosto Dourado: Amamentar é Construir Saúde, Sustentabilidade e Futuro

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Por Gisele do Couto Oliveira

O mês de agosto, simbolizado pela cor dourada, celebra aquilo que a ciência reconhece como o padrão ouro da alimentação infantil: o leite materno. A Semana Mundial do Aleitamento Materno e o Agosto Dourado representam mais do que uma campanha de conscientização. São um chamado à sociedade para reconhecer a amamentação como uma das mais poderosas intervenções de promoção da saúde, prevenção de doenças e redução das desigualdades ao longo da vida.

As evidências científicas mais robustas, provenientes da Organização Mundial da Saúde (OMS), UNICEF, Academia Americana de Pediatria (AAP), Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da consagrada série sobre aleitamento materno publicada pela revista The Lancet, demonstram que poucas medidas em saúde pública possuem impacto comparável ao aleitamento materno. Trata-se de uma intervenção natural, segura, sustentável e altamente eficaz, capaz de beneficiar simultaneamente a criança, a mãe, a família, os sistemas de saúde e o meio ambiente.

O leite materno é muito mais do que alimento. É um tecido vivo, biologicamente ativo e dinâmico, cuja composição se adapta às necessidades do lactente. Contém anticorpos, fatores anti-infecciosos, células imunológicas, hormônios, enzimas, prebióticos e inúmeros componentes bioativos que nenhuma fórmula industrial consegue reproduzir integralmente.

Para o bebê, os benefícios são amplamente conhecidos. A amamentação reduz significativamente a incidência de infecções respiratórias, gastrointestinais e otites, além de diminuir o risco de hospitalizações e mortalidade infantil. Entretanto, os ganhos não se limitam aos primeiros meses de vida. Estudos de alta qualidade demonstram associação consistente entre aleitamento materno e menor risco de obesidade, diabetes mellitus, hipertensão arterial, dislipidemias e outras doenças crônicas não transmissíveis da vida adulta.

Hoje sabemos que a saúde do adulto começa a ser construída muito antes do nascimento. O conceito das Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença (DOHaD) mostrou que os estímulos recebidos nos primeiros anos de vida influenciam profundamente o metabolismo, o sistema imunológico, o desenvolvimento cerebral e a susceptibilidade a doenças futuras. Embora os primeiros 1.000 dias — da concepção aos dois anos de idade — continuem sendo considerados uma janela crítica de oportunidades, cresce o reconhecimento da importância de um período ampliado de cuidado, abrangendo aproximadamente os primeiros 2.000 dias de vida.

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Nesse contexto, a amamentação ocupa posição central. Ela representa a primeira grande intervenção nutricional capaz de modular favoravelmente a programação metabólica da criança, contribuindo para a prevenção das doenças que hoje mais adoecem e matam adultos em todo o mundo. Investir em aleitamento materno é investir na prevenção de enfermidades cardiovasculares, metabólicas e inflamatórias décadas antes de seu aparecimento.

Os benefícios também alcançam a mulher. A literatura científica demonstra redução do risco de câncer de mama, câncer de ovário, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e síndrome metabólica entre mulheres que amamentam. Além disso, a amamentação favorece a recuperação pós-parto, fortalece o vínculo mãe-bebê e contribui para a saúde mental materna.

Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada: a sustentabilidade.

Em uma época marcada pelas mudanças climáticas e pela necessidade urgente de práticas ambientalmente responsáveis, o leite materno destaca-se como o alimento mais sustentável disponível para a espécie humana. Não requer processos industriais complexos, transporte, armazenamento, embalagens plásticas ou consumo significativo de energia. Não produz resíduos, não gera emissões de carbono relevantes e está disponível de forma imediata, segura e renovável.

Amamentar é, portanto, um ato que protege simultaneamente a saúde humana e a saúde do planeta.

Entretanto, ao mesmo tempo em que celebramos os avanços da ciência, precisamos refletir sobre um fenômeno crescente: a transformação das dificuldades naturais da amamentação em oportunidades comerciais.

A gestação e o puerpério são períodos permeados por dúvidas, inseguranças e expectativas. É natural que a mulher busque conhecimento e apoio para enfrentar os desafios inerentes à maternidade. Contudo, observa-se cada vez mais a oferta de cursos, mentorias, consultorias e programas comercializados como essenciais para o sucesso da amamentação, frequentemente baseados na exploração dos medos maternos e, em algumas situações, conduzidos por pessoas sem formação adequada, sem experiência clínica suficiente ou sem respaldo científico compatível com a complexidade do tema.

Dificuldades comuns e frequentemente transitórias, como a pega inadequada, o ingurgitamento mamário, as fissuras, os períodos de crescimento acelerado do bebê ou as dúvidas sobre a produção de leite, muitas vezes são apresentadas como problemas complexos que exigiriam soluções especializadas pagas. O resultado pode ser o aumento da ansiedade materna, da sensação de incapacidade e da dependência de intervenções nem sempre necessárias.

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É importante destacar que essa reflexão não constitui uma crítica à atuação ética e qualificada dos profissionais que trabalham em apoio ao aleitamento materno. Ao contrário, trata-se da defesa de um princípio fundamental: as orientações essenciais para uma amamentação bem-sucedida devem fazer parte da assistência de rotina oferecida à gestante e à puérpera.

A educação sobre aleitamento materno não deveria ser tratada como um produto. Ela é um direito.

As informações básicas sobre preparo para amamentação, manejo das dificuldades iniciais, ordenha, armazenamento do leite, prevenção de intercorrências e manutenção da lactação devem ser fornecidas gratuitamente durante o pré-natal, na maternidade, no acompanhamento puerperal e nas consultas de puericultura. Quando o conhecimento científico deixa de ser um instrumento de cuidado para se transformar em mercadoria acessível apenas a quem pode pagar, corre-se o risco de ampliar desigualdades e enfraquecer uma das mais importantes estratégias de promoção da saúde infantil.

Nesse cenário, emerge de forma inequívoca o protagonismo do pediatra.

Nenhum profissional acompanha tão de perto o crescimento e o desenvolvimento da criança quanto o pediatra. Nenhum profissional possui oportunidade tão privilegiada para identificar dificuldades precocemente, acolher as angústias familiares, corrigir informações equivocadas e fortalecer a confiança da mulher em sua capacidade de amamentar.

O pediatra não é apenas um observador do processo de amamentação. Ele é um agente ativo de proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno. Seu papel vai muito além do diagnóstico e tratamento das doenças da infância. Ao defender a amamentação, o pediatra atua diretamente na prevenção de infecções, na redução das doenças crônicas da vida adulta, na promoção do neurodesenvolvimento, na sustentabilidade ambiental e na construção de uma sociedade mais saudável e equitativa.

Neste Agosto Dourado, a Sociedade Mato-grossense de Pediatria (SOMAPE) vem reafirmar uma verdade sustentada pelas melhores evidências científicas disponíveis: o aleitamento materno continua sendo uma das intervenções mais eficazes para transformar o presente e o futuro de uma população.

Amamentar é um ato biológico. Apoiar a amamentação é um dever ético, científico e social.

E liderar esse compromisso é uma das mais nobres missões da Pediatria.

Dra. Gisele do Couto Oliveira é pediatra, neonatologista e membro da Diretoria da SOMAPE

 

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O aplauso não paga o cachê

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Por Daniel Teixeira

Tramita na Câmara Municipal um projeto que torna o couvert artístico opcional mesmo para quem assiste à apresentação musical, mesmo avisado, mesmo permanecendo no local. Na prática, o couvert artístico não é uma taxa de entrada. É a forma pela qual o artista é remunerado pela apresentação ao vivo. Torná-lo facultativo significa retirar a previsibilidade da renda de quem vive da música e colocar em risco a própria existência das apresentações em bares e restaurantes.

Basta observar o comportamento do consumidor diante de cobranças facultativas. Não se trata de má-fé. É simplesmente a forma como as pessoas reagem ao que é opcional. Quando o pagamento deixa de ser obrigatório, a arrecadação cai drasticamente. E quem sente primeiro esse impacto é o músico, que continua tocando enquanto sua remuneração desaparece.

O prejuízo não é apenas financeiro. A música ao vivo dá identidade aos estabelecimentos, aproxima pessoas e transforma uma refeição comum em uma experiência. Há muito estudo, ensaio, investimento, deslocamento e dedicação por trás de cada apresentação. O aplauso recompensa a alma; o couvert remunera o trabalho.

Muitos sugerem uma solução aparentemente simples: embutir esse custo no preço da comida ou da bebida. Mas não funciona assim. Isso faria o cliente do almoço pagar por uma apresentação que só acontece à noite e obrigaria o restaurante a criar preços diferentes para o mesmo produto conforme o dia ou o horário, algo comercialmente pouco racional e que gera confusão para o consumidor. O modelo atual é mais transparente: só paga quem está presente durante a apresentação.

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Há ainda um problema jurídico. O projeto avança sobre uma matéria tradicionalmente disciplinada pelo Direito Civil e pelo Direito do Consumidor, campos cuja disciplina legislativa é atribuída, em regra, à União. É um debate que merece reflexão técnica antes de qualquer mudança.

Mas a discussão vai além do couvert artístico.

O problema não é fazer leis. É fazê-las sem ouvir quem sofrerá seus efeitos. O Parlamento existe para representar a sociedade, e representação pressupõe escuta. A audiência pública não deve ser uma formalidade; deve ser o momento em que a experiência de quem vive o problema encontra a responsabilidade de quem vai legislar.

Infelizmente, o Brasil acostumou-se a produzir leis em quantidade, quando deveria concentrar esforços em produzir leis melhores. Muitas normas nascem sem diálogo suficiente com os setores diretamente afetados. Depois de aprovadas, descobre-se que a realidade era mais complexa do que parecia.

Quando uma lei se afasta da realidade que pretende disciplinar, ela perde eficácia. Em vez de resolver conflitos, cria novos. Em vez de gerar segurança, produz resistência, descrédito e insegurança jurídica. Não basta que uma lei seja bem-intencionada; ela precisa ser exequível, razoável e compatível com a vida real.

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Se a proposta pretende proteger o consumidor, esse objetivo é legítimo. Mas a proteção deve alcançar também quem vive da música, quem empreende e quem gera cultura e emprego. Antes de alterar uma regra que afeta milhares de profissionais, seria prudente ouvir músicos, bares, restaurantes, produtores culturais e consumidores.

A boa intenção nunca basta para fazer uma boa lei. Quando o legislador deixa de ouvir quem vive a realidade que pretende regular, corre o risco de proteger um interesse e destruir outro. Antes de votar qualquer mudança, vale uma pergunta simples: quem ouviu os músicos? Quem ouviu os bares? Quem ouviu os restaurantes? Porque as melhores leis não são apenas aprovadas pelo Parlamento; elas também são construídas com a sociedade.

Daniel Teixeira é advogado, empresário e atual presidente da Abrasel-MT

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