AGRO & NEGÓCIO
Exportação recorde não impede queda do frango vivo no mercado interno
O Brasil caminha para estabelecer um novo recorde nas exportações de carne de frango em 2026, mas o avanço das vendas externas ainda não foi suficiente para absorver o aumento da oferta. Com mais animais prontos para o abate, os preços do frango vivo recuaram em algumas das principais regiões produtoras, enquanto as cotações dos cortes permaneceram praticamente estáveis no atacado.
A pressão ocorre em uma cadeia que produziu 15,3 milhões de toneladas de carne de frango em 2025 e faturou cerca de R$ 50 bilhões somente com exportações, considerando a receita de R$ 9,8 bilhões convertida pelo câmbio de R$ 5,10. O Brasil ocupa a terceira posição entre os maiores produtores mundiais e lidera o comércio internacional da proteína.
No ano passado, o país exportou o volume recorde de 5,324 milhões de toneladas. Para 2026, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) projeta embarques de até 5,5 milhões de toneladas, além de uma produção próxima de 15,6 milhões de toneladas. A disponibilidade no mercado interno pode alcançar 10,1 milhões de toneladas.
O avanço da oferta já aparece nos abates. No primeiro trimestre deste ano, o peso das carcaças chegou a 3,73 milhões de toneladas, crescimento de 6,9% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Paraná respondeu por 35% da produção, seguido por Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.
A ampliação dos abates ajuda a explicar por que os preços não acompanham o desempenho das exportações. A demanda internacional segue aquecida, mas o mercado doméstico precisa absorver cerca de dois terços de toda a carne produzida no país. O consumo estimado para 2026 é de 47,3 quilos por habitante, um dos maiores do mundo, mas ainda insuficiente para provocar uma reação mais forte diante da oferta atual.
Levantamento mostra que o frango vivo foi negociado a R$ 5,20 por quilo em São Paulo. No oeste do Paraná, a referência ficou em R$ 4,60. Goiás e Mato Grosso do Sul registraram queda de R$ 4,65 para R$ 4,55, enquanto Minas Gerais e Distrito Federal passaram de R$ 4,70 para R$ 4,60 por quilo.
No Sul, as referências ficaram em R$ 4,75 no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Os preços mais elevados continuam concentrados no Nordeste e no Norte, variando de R$ 6,80 no Ceará a R$ 7,20 no Pará. As diferenças refletem custos logísticos, disponibilidade regional de aves e características próprias de cada mercado.
No atacado paulista, o peito congelado permaneceu em R$ 8,50 por quilo, a coxa em R$ 6,90 e a asa em R$ 11. Os cortes resfriados foram negociados por R$ 8,60, R$ 7 e R$ 11,10, respectivamente. A estabilidade, porém, não representa recuperação, porque as indústrias encontram dificuldade para elevar os preços diante da quantidade de carne disponível.
O principal instrumento para ajustar o mercado é o controle dos alojamentos. O termo corresponde ao número de pintinhos de um dia colocados nas granjas para engorda. Como as aves chegam ao peso de abate em aproximadamente 40 a 45 dias, um alojamento elevado hoje se transforma em maior oferta de carne poucas semanas depois.
A redução dos lotes permite diminuir gradualmente a quantidade de animais disponíveis e recuperar o equilíbrio entre produção, consumo e exportações. O ajuste precisa ser planejado porque uma redução excessiva também pode provocar falta de produto e aumento repentino dos preços no futuro.
A pressão não alcança todos os avicultores da mesma maneira. No sistema de integração, predominante nas principais regiões produtoras, a indústria normalmente fornece pintinhos, ração, medicamentos e assistência técnica. O produtor entra com as instalações, mão de obra, energia e manejo, recebendo conforme o desempenho do lote e as condições estabelecidas em contrato.
Por isso, a cotação do frango vivo não corresponde diretamente ao valor recebido por todos os integrados. Ainda assim, o excesso de oferta reduz a rentabilidade geral da cadeia e pode afetar o ritmo dos alojamentos, a remuneração dos contratos e a capacidade das empresas de repassar custos. O impacto é mais direto sobre produtores independentes, que compram os insumos e comercializam os animais por conta própria.
A disponibilidade de milho e farelo de soja ajuda a conter parte da pressão. Os dois produtos formam a base da ração e representam a maior parcela do custo de produção. Com oferta elevada de grãos, a alimentação das aves está menos onerosa do que em períodos de escassez, evitando uma deterioração maior das margens.
No comércio exterior, os embarques continuam funcionando como principal sustentação do setor. Nos primeiros 13 dias úteis de julho, o Brasil exportou 299,2 mil toneladas de carne de aves e miudezas, com receita equivalente a R$ 2,73 bilhões. A média diária cresceu 41% em relação a julho de 2025, embora o preço médio tenha recuado 1,3%.
O cenário indica que a avicultura brasileira permanece competitiva e deve ampliar sua presença internacional. No curto prazo, porém, o recorde das exportações terá de ser acompanhado por um controle mais preciso dos alojamentos. Sem esse ajuste, a expansão da produção continuará chegando ao mercado antes que a demanda consiga absorvê-la, mantendo os preços do frango vivo sob pressão.
Fonte: Pensar Agro
AGRO & NEGÓCIO
Retomada da guerra encarece fertilizantes e aumenta riscos para o agronegócio brasileiro
A retomada dos ataques entre Estados Unidos e Irã em julho, depois de um acordo temporário que havia permitido a reabertura parcial do Estreito de Ormuz, voltou a pressionar o mercado de fertilizantes. Embora os bombardeios norte-americanos tenham sido suspensos na sexta-feira (24.07), a pausa não representa um cessar-fogo e o transporte marítimo pela região permanece instável.
A situação atinge diretamente o planejamento da safra brasileira de verão, que começa a ser plantada a partir de setembro. Com o encarecimento dos insumos, a dificuldade de contratar fretes e o atraso nas compras, parte dos agricultores pode reduzir a adubação, principalmente em culturas com margens menores ou menor acesso ao crédito, como arroz, trigo, café e laranja.
O Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes e compra do exterior entre 85% e 88% do que utiliza. Em 2025, as importações atingiram o recorde de 45,5 milhões de toneladas, enquanto as entregas ao mercado interno somaram 49,1 milhões de toneladas.
A dependência torna o país especialmente vulnerável ao que ocorre no Estreito de Ormuz. A passagem marítima concentra cerca de um terço do comércio internacional de fertilizantes e mais de 40% das exportações globais de ureia, principal fonte de nitrogênio utilizada nas lavouras. A região também responde por aproximadamente metade da oferta mundial de enxofre e por parcela relevante da produção de amônia.
A ureia é fabricada principalmente a partir do gás natural. Já o enxofre é indispensável à fabricação de fertilizantes fosfatados. Assim, a interrupção da navegação não afeta apenas o produto pronto: ela restringe o acesso às matérias-primas necessárias para que indústrias instaladas em outros países, inclusive no Brasil, mantenham suas fábricas em operação.
Depois de recuar durante a trégua, a ureia voltou a subir no mercado brasileiro e chegou a aproximadamente R$ 2,23 mil por tonelada, considerando o preço internacional com frete até o Brasil e o câmbio de R$ 5,10. O valor ainda não inclui despesas portuárias, transporte interno, tributos e margens comerciais.
A pressão é mais forte sobre os fosfatados. O fosfato monoamônico, conhecido como MAP, está próximo de R$ 4,54 mil por tonelada nos portos brasileiros. O enxofre alcançou o equivalente a R$ 6,38 mil por tonelada no mercado internacional, reflexo da escassez provocada pelas limitações de produção e transporte no Oriente Médio.
O Brasil importou cerca de 1,4 milhão de toneladas de MAP no primeiro semestre, redução de 24% em relação ao mesmo período de 2025. As compras de superfosfato simples também recuaram 14%, para aproximadamente 1,4 milhão de toneladas. No caso do enxofre, a queda chegou a 41%, com cerca de 671 mil toneladas desembarcadas.
A menor disponibilidade da matéria-prima já provoca efeitos na indústria nacional. Unidades produtoras de fertilizantes fosfatados reduziram ou interromperam atividades em Goiás, Minas Gerais, Bahia, Tocantins e Mato Grosso. Novos cortes estão previstos caso o fornecimento de enxofre e ácido sulfúrico não seja normalizado.
Isan Rezende
A redução da produção doméstica amplia a dependência das importações justamente quando os fornecedores internacionais enfrentam restrições. A China passou a exigir inspeções obrigatórias para exportar sulfato de amônio, medida que pode atrasar os embarques. Rússia e outros países produtores também priorizam o abastecimento interno ou enfrentam dificuldades logísticas relacionadas a conflitos e sanções.
O efeito não será igual para todos os agricultores. Grandes propriedades que anteciparam as compras, possuem melhor acesso ao crédito ou mantêm níveis adequados de nutrientes no solo conseguem atravessar um período curto de escassez com menor impacto. O risco é maior entre pequenos e médios produtores que compram mais perto do plantio e dependem do estoque disponível nas revendas locais.
A possibilidade de reduzir a aplicação também depende da análise do solo. Em áreas que receberam adubação adequada nos últimos anos, pode existir algum efeito residual de fósforo. Isso não significa, porém, que o nutriente possa ser retirado indiscriminadamente. Nitrogênio e potássio também desempenham funções fundamentais e a redução sem orientação técnica pode comprometer o desenvolvimento das plantas, a produtividade e a qualidade da colheita.
O Rabobank estima que as entregas de fertilizantes no Brasil podem cair para 47,2 milhões de toneladas em 2026, quase 2 milhões de toneladas abaixo do recorde do ano passado. Além da guerra, pesam nessa projeção o endividamento rural, a restrição de crédito e a relação menos favorável entre o preço dos insumos e o valor recebido pelas commodities.
O resultado da menor adubação dependerá também do clima. Chuvas regulares podem ajudar as plantas a aproveitar melhor os nutrientes disponíveis no solo. Em contrapartida, a previsão de um El Niño forte aumenta o risco de estiagens, excesso de chuva e irregularidade das precipitações nas regiões produtoras.
Uma eventual perda de produtividade não deve aparecer imediatamente nos preços ao consumidor. O impacto será sentido primeiro nas lavouras plantadas no segundo semestre e poderá chegar ao varejo em 2027, principalmente se a redução dos fertilizantes coincidir com problemas climáticos. O risco maior não é a falta completa de adubo, mas a soma de custos elevados, crédito restrito, compras atrasadas e clima desfavorável.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende, essa nova escalada no Oriente Médio amplia uma preocupação que o produtor já carregava antes mesmo do plantio. “Os fertilizantes representam uma parcela importante do custo da lavoura e qualquer aumento compromete o orçamento, sobretudo entre pequenos e médios produtores, que enfrentam mais dificuldade para obter crédito e antecipar as compras”, afirma Isan.
“Quando o adubo encarece ou não chega no momento adequado, o agricultor é obrigado a rever o pacote tecnológico. Reduzir a aplicação pode aliviar o caixa no curto prazo, mas aumenta o risco de perda de produtividade e de renda. O produtor acaba exposto dos dois lados: paga mais para plantar e pode colher menos”, acrescenta.
“O Brasil precisa tratar a dependência externa de fertilizantes como uma questão estratégica. Não existe solução imediata para substituir as importações, mas é necessário ampliar a produção nacional, diversificar fornecedores e melhorar a infraestrutura de entrada e distribuição desses insumos. O custo de uma crise internacional não pode continuar chegando integralmente à porteira”, conclui Rezende.
Fonte: Pensar Agro
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