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Embrapa na Baixada Cuiabana: a força da ciência em favor da agricultura familiar

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Por Irajá Lacerda

A chegada da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) à Baixada Cuiabana, em Nossa Senhora do Livramento, representa uma conquista histórica para Mato Grosso. Mais do que a instalação de uma estrutura de pesquisa, trata-se da presença da ciência, da inovação e da tecnologia em uma região que tem vocação produtiva, força social e milhares de famílias que vivem da terra.

Durante minha passagem pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, trabalhei para ampliar a presença da Embrapa em Mato Grosso e para que essa expansão chegasse justamente onde ela mais poderia fazer diferença: perto dos agricultores familiares, dos pequenos produtores, dos assentamentos e das comunidades que precisam de apoio técnico para transformar potencial em renda e dignidade.

A Baixada Cuiabana tem características próprias. É uma região de calor intenso, solos desafiadores, pequenas propriedades, produção diversificada e forte presença da agricultura familiar. Por isso, a vinda da Embrapa para Nossa Senhora do Livramento não é por acaso. Ela dialoga diretamente com a vocação da região e com a necessidade de levar conhecimento para quem produz frutas, mandioca, hortaliças, peixes e tantos outros alimentos que abastecem nossas cidades.

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A Embrapa é um dos maiores patrimônios científicos do Brasil. Foi decisiva para transformar a agropecuária brasileira, modernizar o campo, ampliar a produtividade e mostrar que, com pesquisa e tecnologia, regiões antes desacreditadas poderiam se tornar grandes produtoras. Mato Grosso é prova viva dessa transformação. Quem não se lembra da expressão “Cerrado: nem dado, nem herdado”? A história mostrou o contrário, e a Embrapa teve papel decisivo nesse processo.

Nosso estado já conta com a atuação da Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop, referência em sistemas integrados de produção, como a integração lavoura-pecuária-floresta. Agora, com a Unidade Mista de Pesquisa e Inovação da Embrapa na Baixada Cuiabana, damos mais um passo histórico: aproximar a força da pesquisa da realidade dos agricultores familiares e das cadeias produtivas que sustentam a economia local.

O Censo Agropecuário do IBGE mostra que a agricultura familiar representa cerca de 77% dos estabelecimentos agropecuários do país e emprega mais de 10 milhões de pessoas. Em Mato Grosso, dados da Secretaria de Estado de Agricultura Familiar destacam o protagonismo desse setor em cadeias como leite, mandioca, piscicultura, frutas, hortaliças, mel e banana, atividades diretamente ligadas à vocação produtiva da Baixada Cuiabana.

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Esse suporte pode mudar a vida de muitas famílias. Uma orientação técnica correta melhora a produção, reduz perdas, fortalece a renda, abre novos mercados e ajuda o produtor a permanecer no campo com mais segurança. Para o agricultor familiar, assistência, pesquisa e inovação não são luxo. São instrumentos de sobrevivência, crescimento e dignidade.

Mato Grosso é um gigante do agronegócio, mas também precisa olhar com mais atenção para quem produz em pequena escala e garante alimento na mesa da população. Apoiar a agricultura familiar é cuidar de quem produz, gera renda e mantém viva a força do campo nos municípios. A Embrapa na Baixada Cuiabana representa exatamente isso: inclusão produtiva, inovação e futuro para uma região que tem vocação, trabalho e merece estar no centro das políticas públicas de desenvolvimento.

Irajá Lacerda é ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária e ex-presidente da Comissão de Direito Agrário da OAB-MT

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O que muda após o perdão

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Por Soraya Medeiros

Há cerca de seis anos, uma inquietação silenciosa começou a me atravessar. Eu me perguntava, repetidamente, por que estava me anulando, por que carregava culpas que pareciam não ter fim e por que certas dores insistiam em permanecer, mesmo quando tudo ao redor já havia mudado. Era como viver presa a um passado que já não existia, mas que ainda determinava meus sentimentos, minhas escolhas e, principalmente, a forma como eu me via.

Foi nesse momento de exaustão emocional que senti um chamado — não externo, mas profundamente interno. Um convite quase urgente para olhar para dentro da minha própria alma. E olhar para dentro nem sempre é confortável. Exige coragem para revisitar feridas, reconhecer fragilidades e encarar verdades que, por muito tempo, preferimos evitar.

Nesse processo, compreendi que havia um passo essencial que eu ainda não tinha dado: o perdão.

Perdoar aqueles que passaram pela minha vida parecia difícil, mas possível. O grande desafio, contudo, era outro — perdoar a mim mesma. Perdoar minhas escolhas, minhas falhas e a versão de mim que fez o melhor que podia com o que sabia naquele momento.

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O psicólogo Fred Luskin afirma que “o perdão é uma ferramenta para a saúde, não um presente para quem nos feriu”. Essa ideia reforça que perdoar não é sobre o outro, mas sobre libertar a si mesmo do peso da dor.

A travessia é individual. Ninguém pode percorrer por nós os caminhos mais profundos da nossa existência. Por isso, o acolhimento precisa começar de dentro. No meu caso, esse mergulho se expandiu após uma consagração com Ayahuasca, que me permitiu acessar camadas internas que eu ainda não alcançava.

Muitas pessoas têm preconceito em relação à Ayahuasca — e eu também já tive. Julgava sem conhecer, tinha receios e dúvidas. Mas, ao estudar e me permitir viver a experiência com responsabilidade, encontrei um processo profundo e transformador, que me ajudou a acessar dores antigas e iniciar uma verdadeira cura.

Foi a partir desse realinhamento que consegui me enxergar com mais verdade. E então, em um ato simples, mas profundamente libertador, eu disse em voz alta: “Eu perdoo”. E depois: “Eu me perdoo”.

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Foi ali que algo mudou.

O perdão não apaga o passado, mas muda a forma como o carregamos. Ele rompe correntes invisíveis, dissolve culpas e abre espaço para o novo. Após o perdão, a vida ganha leveza. A autocobrança dá lugar à autocompaixão.

Perdoar a si mesmo é um dos maiores atos de amor-próprio. É reconhecer que somos humanos, imperfeitos e em constante aprendizado. Hoje, percebo que aquela versão de mim só precisava de acolhimento. E fui eu mesma quem finalmente ofereceu isso.

O perdão não muda o que aconteceu, mas muda completamente quem nos tornamos depois disso. E, às vezes, é exatamente essa mudança que representa a verdadeira cura.

Soraya Medeiros é jornalista

 

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