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Autismo é frescura

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Por Isabela Prado 

Essa é uma afirmação que ainda aparece com frequência, principalmente em conversas informais, dentro de famílias ou entre pessoas que nunca tiveram contato direto com o tema. Quando um comportamento foge do esperado, a explicação mais rápida para muitos ainda é desqualificar, dizendo que é “frescura”, “falta de limite” ou “exagero”.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), assim como o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e o Déficit Intelectual, não é uma escolha, nem resultado de criação inadequada. Trata-se de um funcionamento neurológico diferente, que impacta diretamente a forma como a pessoa percebe o mundo, se comunica, aprende e regula suas emoções.

O problema começa quando comportamentos são interpretados como desobediência ou má vontade. Uma criança que não responde quando chamada pode estar com dificuldade de processamento, não ignorando. Um adolescente que evita contato social pode estar sobrecarregado, não sendo “antissocial”. Uma crise diante de mudanças não é “drama”, mas uma resposta a um nível elevado de estresse.

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Para muitos pais, esse processo de compreensão não é imediato. Existe uma expectativa social muito forte sobre como uma criança deve agir. Quando isso não acontece, é comum surgir a tentativa de corrigir à força, impor regras rígidas ou até negar a existência de qualquer diferença. Porém, insistir em enxergar como “frescura” não resolve, apenas aumenta a frustração de todos os envolvidos.

É importante deixar claro que limites são necessários. Mas eles precisam ser coerentes com a forma como aquela criança ou adolescente funciona. Estratégias baseadas apenas em punição ou comparação com outras crianças tendem a falhar, porque ignoram aspectos fundamentais do desenvolvimento neurodivergente.

Além disso, o julgamento externo pesa. Comentários de familiares, conhecidos ou até desconhecidos frequentemente reforçam ideias equivocadas e colocam ainda mais pressão sobre os pais. Frases prontas, opiniões sem embasamento e comparações simplistas não ajudam, pelo contrário, dificultam o acesso à compreensão e ao cuidado adequado.

Quando passamos a entender que todo comportamento tem uma função, mudamos o olhar. Em vez de rotular, começamos a investigar. O que está por trás dessa reação? O ambiente está adequado? Essa pessoa tem recursos suficientes para lidar com a situação?

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A análise do comportamento contribui justamente nesse sentido, compreender padrões, identificar necessidades e construir estratégias individualizadas. O objetivo não é “corrigir” quem a pessoa é, mas desenvolver habilidades que promovam autonomia e qualidade de vida.

Para os pais, o caminho envolve informação, acolhimento e, muitas vezes, a revisão de expectativas. Não é sobre ter todas as respostas, mas sobre estar disposto a aprender e adaptar.

Para quem está ao redor, a reflexão é simples. Nem tudo que parece é. Antes de afirmar que é “frescura”, vale considerar que pode ser apenas uma forma diferente de existir, que merece respeito, cuidado e atenção, não julgamento.

Isabela Prado é psicóloga e Analista do Comportamento Humano, com atuação na área da neurodivergência, atendendo pessoas com TEA, TDAH, Déficit Intelectual e condições relacionadas

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A falsa solução da violência: reflexões sobre proteção da mulher

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Por Luciana Zamproni Branco

A reflexão sobre a violência doméstica exige sensibilidade e responsabilidade, especialmente quando se trata das alternativas apresentadas à mulher em situação de vulnerabilidade.

Na série “Bom Dia, Verônica”, observa-se uma situação emblemática em que uma escrivã sugere a uma mulher vítima de violência doméstica que envenene o próprio marido como forma de solução. Essa abordagem evidencia um grave problema: a indução de uma vítima, já fragilizada psicologicamente, a adotar uma resposta violenta.

A mulher que sofre violência doméstica, em regra, está sob intenso impacto emocional e psicológico. Medo, insegurança, dependência afetiva e até distorções de percepção são elementos comuns nesse contexto. Nesse cenário, sua capacidade de tomar decisões seguras e racionais encontra-se comprometida. Incentivá-la a reagir com violência não representa proteção, mas sim a exposição a um risco ainda maior.

Ao invés de romper o ciclo da violência, esse tipo de orientação pode agravá-lo, colocando a vítima em situação de maior perigo, além de expô-la a consequências jurídicas severas. Trata-se de substituir uma situação de vulnerabilidade por outra ainda mais grave e potencialmente irreversível.

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Da mesma forma, a ideia de que o acesso a armas poderia representar uma solução para a mulher vítima de violência doméstica também não se sustenta na prática. O manuseio de uma arma exige preparo técnico, equilíbrio emocional e condições de segurança que, em regra, não estão presentes em relações abusivas. Em muitos casos, o agressor possui maior domínio físico e psicológico, o que pode resultar no uso da arma contra a própria vítima.

A proteção efetiva da mulher passa por caminhos institucionais e estruturais: o acesso à denúncia, a concessão de medidas protetivas, o fortalecimento das redes de apoio, o acompanhamento psicológico e a atuação eficiente do Estado. A Lei Maria da Penha foi concebida justamente para oferecer mecanismos de proteção que não dependam da reação violenta da vítima.

Portanto, a arma não é instrumento de libertação nesse contexto. A mulher não deve ser colocada na posição de reagir com violência para sobreviver. O caminho mais seguro é aquele que prioriza a preservação da vida, da integridade física e da dignidade, por meio de suporte adequado e políticas públicas eficazes.

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Luciana Zamproni Branco é advogada, professora de Direito de Família na Faculdade Alffa Prime, especialista em Gestão Pública e sócia-proprietária do escritório Zamproni & Silva Advogados

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