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Leão XIV: O Papa da paz, da justiça e dos direitos humanos

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Por Juacy da Silva

Bem antes do início da “Era cristã”, em torno de 700 anos antes do nascimento de Cristo, o Profeta Isaías (32:17) exortava que a verdadeira paz é fruto da justiça, fraternidade, tranquilidade e segurança duradouras, destacando a relação direta entre o agir com justiça e colher a paz, tanto em nível pessoal quanto comunitário, nacional e internacional, e também fruto de ações de governos justos (e democráticos).

Em sua mensagem por ocasião do Dia Mundial da Paz, em 1º de janeiro deste ano de 2026, o Papa Leão XIV foi bem claro, como se diz, “direto ao ponto”, ao dizer (“urbi et orbi”, ou seja, à cidade de Roma e ao mundo inteiro): “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”. Desde então, as críticas às guerras e todas as formas de violência, principalmente nas relações internacionais, têm sido constantes e bem assertivas por parte do Líder da Igreja Católica, o que não tem agradado diversos chefes de governos e Estados, como nos EUA e outros países, bem como a todos os setores conservadores das Igrejas e da política.

A escolha/eleição de um novo Papa, líder máximo de mais de 1,4 bilhão de cristãos católicos espalhados por todos os continentes e países, sempre gera muitas reflexões e até mesmo algumas “apostas”, em relação à sua “linha”, dimensão teológica, pastoral ou, enfim, seu magistério.

A Igreja Católica, como sabemos, acomoda ou inclui diferentes tendências, desde conservadores extremados, identificados política e ideologicamente com a extrema direita mundial – aqueles que “defendem a vida, lutam contra o aborto”, mas defendem a pena de morte e amam fazer as guerras que tanta destruição, sofrimento e mortes têm causado ao longo da história humana –, e também alguns setores mais “liberais” ou até mesmo adeptos da Teologia da Libertação, considerada uma heresia pelos conservadores.

O importante é termos presente que, desde o Concílio Vaticano II (1962–1965), a Igreja abriu-se para uma maior participação de leigos e leigas e reforçou sua “opção preferencial pelos pobres”, e isso não tem agradado os setores conservadores da Igreja em diversos países, incluindo o Brasil, os EUA e outros mais.

Ao longo dos pouco mais de 12 anos do Magistério do Papa Francisco (2013–2025), “Aquele” que “veio do fim do mundo”, o primeiro Papa da América Latina, adepto da “Teologia dos pobres”, dos “padres das favelas”, a Igreja aprofundou alguns aspectos das conclusões do Concílio Vaticano II, incluindo a dimensão da ecologia integral com a publicação da Encíclica Laudato Si’ e das Exortações Apostólicas “Querida Amazônia”, após o encerramento do Sínodo dos Bispos da Pan-Amazônia, e também da Exortação Apostólica Laudate Deum, endereçada aos participantes da COP 28, em 2023, sobre a gravidade da crise climática, indicou à Igreja Católica, aos cristãos em geral e aos fiéis de outras religiões a importância de bem cuidarmos de nosso Planeta, denominado por Francisco como a Nossa Casa Comum.

Além disso, o Papa Francisco reforçou a importância da Igreja Católica ser uma Igreja em saída, voltada para os pobres e ao lado dos pobres, ao criar, por exemplo, o Dia Mundial dos Pobres, criado em 2016 e a ser celebrado anualmente no 33º Domingo do Tempo Comum (2026 será em 9 de novembro), ou quando enfatizou os seus três “Ts”: Terra, Teto e Trabalho, considerando, inclusive, que “o gemido da terra é também o gemido, o grito dos pobres, excluídos e injustiçados”.

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Além de ser uma Igreja em saída, em direção às periferias físicas e existenciais, a mesma deve ser sinodal, abrindo-se mais à participação de leigos e leigas e, claro, profética, denunciando as injustiças, a opressão, a violência, a exclusão social, política e econômica, psicológica, principalmente em decorrência das guerras e conflitos armados que tanta destruição material, migrações, sofrimento e mortes têm acarretado e continuam acarretando a dezenas e dezenas de milhões de vítimas inocentes.

Neste contexto, a ênfase na defesa dos direitos humanos fundamentais, como, por exemplo, um tratamento digno aos migrantes, trabalhadores, enfim, um combate intransigente a todas as formas de violência, ficou mais clara na caminhada da Igreja sob o magistério de Leão XIV.

A escolha/eleição do Papa Leão XIV ocorreu neste contexto de uma grande transformação provocada na Igreja pelo Magistério do Papa Francisco, um intransigente crítico de todas as formas perniciosas e nada éticas de ação no seio da Igreja, incluindo o clericalismo, denominado por ele como uma chaga, enfim, uma forma de mundanismo que danifica a Igreja, incluindo também a corrupção no Banco Vaticano e os diversos escândalos de pedofilia e abusos sexuais, que tantos males e vergonha estavam causando à imagem da Igreja.

Foi neste contexto que os conservadores imaginaram ou sonharam com a eleição de um novo Papa mais alinhado às suas posturas teológicas e pastorais, e em um primeiro momento, recaindo a escolha sobre o Cardeal Robert Francis Prevost, norte-americano naturalizado peruano, com passagem como missionário e depois bispo da Diocese de Chiclayo, no Peru, poderia representar uma mudança de rumo em relação ao magistério do considerado “esquerdista” Papa Francisco.

Todavia, desde seus primeiros pronunciamentos e exortações apostólicas, tanto no Vaticano quanto em suas viagens apostólicas, Leão XIV tem enfatizado alguns temas considerados de extrema importância para a vida da Igreja Católica, para os cristãos e para o mundo, reafirmando a necessidade de a Igreja Católica ser “o sal da terra e a luz do mundo”, testemunha viva do Cristo Ressuscitado.

O primeiro deles tem sido uma condenação dura, explícita, frequente e bem corajosa às guerras e conflitos armados, principalmente aqueles promovidos por potências e superpotências dominadoras, cujas consequências têm sido devastadoras principalmente para milhões de vítimas inocentes, como nas guerras da Ucrânia, contra os palestinos e, ultimamente, contra o Irã, Líbano, e também algumas guerras civis na África e em outras partes do mundo.

Em lugar das guerras, que representam uma grande estupidez humana, Leão XIV propõe mais diálogos, mais diplomacia e a importância de criarmos uma verdadeira “cultura da paz”, embasada na justiça, justiça social, na solidariedade e no respeito pleno aos direitos fundamentais das pessoas (direitos humanos).

Em relação à justiça social e aos direitos humanos, Leão XIV disse claramente que a própria escolha de seu nome papal é a demonstração de que pretende, ao longo de seu magistério, que esperamos seja longo, dar continuidade aos princípios estabelecidos na Encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, de 1891, representando a estruturação inicial das preocupações da Igreja com as questões sociais relacionadas à vida dos trabalhadores, em meio ao confronto entre duas concepções distintas: de um lado, o capitalismo selvagem, escravizador; de outro lado, o movimento comunista.

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Foi neste contexto que surgiu a Doutrina Social da Igreja e a ênfase na economia solidária, que Leão XIV compromete-se a seguir e aprofundar, como já fez ao publicar a Exortação Apostólica Dilexi Te (Eu te amei), uma exortação iniciada pelo Papa Francisco, complementada e atualizada diante da gravidade da pobreza, da miséria e outras formas de exclusão que tanto afetam os pobres, uma grande maioria da população, principalmente trabalhadores e trabalhadoras ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

E, por último, mas não sem a devida importância, Leão XIV também tem dado continuidade às preocupações e luta por uma ecologia integral, com o destino do planeta Terra, Nossa Casa Comum, tendo em vista os desafios da crise climática, da degradação dos biomas, ecossistemas, da perda/destruição da biodiversidade, do desmatamento, com todas as formas de poluição (do ar, das águas e dos solos) que afetam profundamente o planeta e, principalmente, a saúde humana, a qualidade de vida, tanto das atuais quanto, e principalmente, das futuras gerações.

Essas preocupações estão presentes, por exemplo, quando Leão XIV define a justiça ambiental como “uma necessidade urgente que ultrapassa a mera proteção imediata do ambiente”, defendendo que ela deve ser parte de uma “conversão ecológica” que transforma estilos de vida pessoais e comunitários. Ele enfatiza que o cuidado da casa comum é indissociável da justiça social, de uma justa distribuição dos frutos do crescimento econômico e do desenvolvimento integral e do cuidado com os pobres, e tudo isso interliga-se umbilicalmente com a luta por uma paz desarmada e desarmante.

Diante do momento atual em que o mundo assiste, passivamente, aos horrores de tantas guerras, cabe aos cristãos em geral e aos católicos em particular, da mesma forma que fiéis de outras religiões, verdadeiros amantes da paz, não apenas defenderem o Papa Leão XIV em sua luta e caminhada em defesa da paz desarmada e desarmante, construída sobre os princípios e fundamentos de uma cultura da paz, bem como em sua defesa da Justiça Social, Justiça socioambiental e dos Direitos Humanos, mas também transformar nossas vozes e nossas ações em instrumentos dessas bandeiras empunhadas por ele.

Este é o lado que deve ser escolhido pelos verdadeiros cristãos neste momento tão crítico e delicado das relações interpessoais, nacionais e também internacionais.

Juacy da Silva, professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: [email protected] Instagram: @profjuacy WhatsApp: (65) 9 9272-0052.

 

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Dia de Luta dos Povos Indígenas e da Terra

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Por Priscilla Alyne Sumaio | Juacy da Silva

No dia 19 de abril, “celebramos” o Dia dos Povos Indígenas e, no dia 22 do mesmo mês, o Dia da Terra — datas que também coincidem com o chamado “Descobrimento do Brasil”. Na verdade, são dias de luta em defesa desses povos e também em defesa da ecologia integral em nosso país, sujeitos a inúmeras formas de agressão, violência e muitos crimes que continuam impunes.

O destino dos povos originários, indígenas, e o futuro do planeta estão umbilicalmente interligados, razão pela qual não podemos separá-los sob pena de perdermos o rumo do futuro. Isso é sustentado por evidências científicas cada vez mais claras e por práticas de sustentabilidade comprovadas, como as de verdadeiros guardiões das florestas, das águas e da biodiversidade, tornando a proteção de seus direitos e territórios uma questão central para a sobrevivência global.

Povos indígenas e comunidades tradicionais, enfim, os povos originários, são reconhecidos como os guardiões mais eficazes da natureza, responsáveis por proteger cerca de 80% da biodiversidade remanescente na Terra, apesar de representarem apenas 5% da população mundial.

Além dessas dimensões antropológicas, não podemos esquecer que os povos indígenas e originários são seres humanos, apenas vivendo em um tempo cultural e antropológico distinto, mas que, nem por isso, suas culturas, seus estilos de vida e seus territórios devem ser destruídos em nome de um falso progresso que não respeita esses povos, nem o meio ambiente, nem as diferenças sociais, políticas e econômicas.

Nesse sentido, o Papa Leão XIV, em pronunciamento recente, enfatizou que a evangelização não pode significar apagamento cultural. Em sua mensagem para o Jubileu dos Povos Originários, reconheceu-os como uma “voz insubstituível” e afirmou ainda que precisamos agir contra o abuso e a exploração na Amazônia, enviando mensagens aos bispos amazônicos sobre a proteção dos povos e do território.

Essas declarações refletem uma postura de valorização da identidade indígena e de busca por justiça social e ambiental, marcada também por gestos de reparação histórica.

Esses marcos são profundamente significativos, pois evidenciam não apenas a história de luta dos povos indígenas, mas também a crescente ameaça ao planeta Terra, submetido a um processo contínuo de destruição, degradação ambiental e extinção de espécies.

Estima-se que mais de 95% das espécies que já habitaram o planeta ao longo da história tenham desaparecido, e essa tragédia continua em curso, colocando em risco todas as formas de vida — inclusive a humana, que, paradoxalmente, é ao mesmo tempo a mais vulnerável e a principal agente desse processo destrutivo.

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Nesse contexto, há uma relação indissociável — quase umbilical — entre o planeta Terra e os povos indígenas. Como afirma Ailton Krenak: “A ideia de que somos os donos da Terra é uma ideia muito equivocada. Nós somos parte dela”. Essa compreensão rompe com a visão dominante de separação entre humanidade e natureza e nos convida a repensar profundamente nossos modos de vida.

Assim, a luta em defesa do planeta é também a luta pela sobrevivência, pela identidade e pelo respeito ao direito de existência dos povos indígenas em todos os continentes, inclusive no Brasil.

Nesse debate, é fundamental incluir também a dimensão linguística, frequentemente invisibilizada: as línguas indígenas de sinais. Em diferentes comunidades indígenas no Brasil, pessoas surdas desenvolvem sistemas próprios de comunicação visual-gestual, profundamente enraizados em suas culturas e territórios. Essas línguas não são meras adaptações da Libras, mas sistemas linguísticos autônomos, que expressam formas específicas de organização do espaço, da experiência e das relações sociais.

Como aponta Sumaio, ao analisar a língua terena de sinais, essas línguas evidenciam que “a diversidade linguística indígena também se manifesta no campo visual-gestual, revelando sistemas complexos e culturalmente situados de significação”. Assim como as línguas orais indígenas, essas línguas de sinais também estão ameaçadas — seja pela perda de territórios, seja pela imposição de modelos educacionais e linguísticos externos. Sua preservação e reconhecimento são essenciais não apenas para as comunidades surdas indígenas, mas para a compreensão mais ampla da diversidade linguística e das múltiplas formas de existência humana.

A destruição ambiental afeta diretamente esses povos. O desmatamento, as queimadas, a degradação dos solos, o garimpo ilegal e a mineração, a contaminação das águas e a perda da biodiversidade comprometem suas formas de vida. Como destaca Davi Kopenawa: “Os brancos pensam que a floresta é muda. Mas ela fala”.

Essa afirmação expressa uma outra concepção de mundo, na qual a natureza não é um recurso, mas um sujeito de relações e significados.

Há, portanto, uma negação sistemática da existência desses povos, manifestada em diferentes formas de violência, especialmente na restrição de seus territórios — muitas vezes transformados em espaços reduzidos e insuficientes para a reprodução de seus modos de vida.

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Por isso, os povos indígenas são frequentemente reconhecidos como os verdadeiros guardiões da Terra, das florestas, dos biomas e das águas. Em contraste, o modelo dominante de desenvolvimento tem promovido a exploração predatória da natureza, agravando a crise climática e seus impactos globais.

Diante desse cenário, é fundamental reconhecer que a crise ambiental não é apenas ecológica, mas também social, política, cultural e ética — enfim, uma crise existencial, diante da qual a humanidade não pode se esquivar. Como já alertava Darcy Ribeiro: “Os índios não são o passado do Brasil. São parte do seu futuro”.

Assim, o Dia dos Povos Indígenas e o Dia da Terra não devem ser apenas datas comemorativas, celebrativas, mas, fundamentalmente, momentos de reflexão crítica, de mobilização e de luta por um futuro sustentável, de respeito à vida e às diferenças. Mais do que isso, devem representar um chamado à ação: a transformação dos discursos em práticas concretas, capazes de redefinir nossos modelos de desenvolvimento e nossas relações sociais, econômicas, políticas e também nossas relações com o planeta.

É nesse sentido que o Papa Francisco, na encíclica Laudato Si’, em defesa da Ecologia Integral, enfatiza que “o grito, o gemido da terra é também o gemido e grito dos pobres, excluídos e injustiçados” e, na atualidade, os povos indígenas representam parte dos excluídos e injustiçados em nosso país.

Como nos lembra novamente Ailton Krenak, talvez seja preciso “adiar o fim do mundo” — e isso só será possível se formos capazes de aprender com aqueles que, há séculos, milênios, já sabem que viver é coexistir e lutar!

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social, articulador da Pastoral da Ecologia Integral – Região Centro-Oeste. E-mail: [email protected]. Instagram: @profjuacy. WhatsApp: 65 9 9272 0052

Priscilla Alyne Sumaio é linguista, doutora em Linguística pela Universidade Estadual Paulista e professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás. É especialista em Libras e uma das primeiras pesquisadoras brasileiras a descrever linguisticamente uma língua indígena de sinais, com pesquisas voltadas à documentação, análise e ensino da Língua Brasileira de Sinais e das línguas indígenas de sinais no Brasil.

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