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HISTÓRIA

Pedro Pedrossian – Governar é Construir

Num país de ruínas fáceis, foi um dos poucos que soube levantar estruturas que resistem ao tempo.

Publicados

em

Por João Carlos Vicente Ferreira

A Argamassa dos Primeiros Sonhos

Pedro Pedrossian nasceu como quem nasce duas vezes. O primeiro nascimento foi acalentado pelos sonhos de seus pais, no solo remoto de um país ausente, a Armênia, onde o tempo era moldado por guerras e vinhedos. O outro, margeado pelas zonas úmidas do Pantanal, no Brasil profundo, onde sua família encontrou a terra que um dia o jovem Pedro faria pontes, avenidas e assinaria decretos. Seu nascimento, em 13 de agosto de 1928, é um desses acontecimentos que o tempo esconde, mas o destino insiste em lembrar, como uma pedra fundamental enterrada no alicerce de um Estado inteiro.

A vida simples de seus pais imigrantes na fronteiriça cidade de Miranda se entrelaçou com o barro vermelho de Campo Grande. Ali, entre canteiros de mandioca e murmúrios em ‘hayeren’, o idioma oficial dos armênios, germinou, de certa forma, a vocação pelo cálculo, pela régua, pelo prumo. Pedro não seria político, não naquele momento; seria construtor de pontes e trilhos. Um engenheiro das certezas.

Formou-se em Engenharia Civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, em 1951, com ares de herói silencioso, feito um personagem que não proclama que vai mudar o mundo, mas carrega a mudança no modo como mede os milímetros. Regressou ao Centro-Oeste como quem traz um mapa secreto: onde os outros viam mata e estradas de terra, ele via cidades, canais, colégios, orlas. A educação, para Pedro, não era ornamento de discurso, era fundação. Sempre soube que, entre quadros-negros e concreto armado, fincaria as primeiras colunas do seu projeto político.

Não tardou a ser visto, notado, cogitado. Filinto Müller, o senador por Mato Grosso e homem de confiança do governo militar, enxergou nele não apenas o engenheiro, mas o técnico que não falava em revoluções, apenas em resultados. E foi assim, envolto em silêncios, que Pedro disputou eleição para governador de Mato Grosso, em 1966. Sobre o governador eleito, Filinto Müller teria declarado em fevereiro de 1966: “Pedro tem a sobriedade que convém a Mato Grosso. Não fala demais, nem de menos. Mas constrói.” Nasceu ali o governador que caminhava entre operários com os sapatos cobertos de barro e que falava das barragens com mais paixão do que da própria política.

A Construção do Poder

Pedro Pedrossian assumiu o governo do então Mato Grosso indiviso. Logo no início da gestão, estabeleceu como prioridade aquilo que o governo federal esperava dele: obras. Mas não qualquer tipo de obra. Pedrossian não pavimentava para mostrar serviço; ele criava corredores de integração, rotas para o desenvolvimento, canais para o escoamento da produção, antes mesmo que a produção existisse. Foi Pedrossian que cunhou o slogan: “Novo Mato Grosso”. Muitos o criticavam por projetar o futuro como se ele já estivesse ali. Ele sorria, discretamente, como quem sabia que o futuro era mesmo questão de projeto.

Sob sua liderança, foi construída a Universidade Federal de Mato Grosso, ainda em sua sede original em Cuiabá, e o campus de Campo Grande foi expandido com novos cursos e laboratórios. Foi dele, também, a concepção do Teatro Glauce Rocha. Em sua primeira gestão, o Estado viveu um surto de racionalidade administrativa: criou-se um banco de dados dos principais gargalos de infraestrutura, as rodovias foram mapeadas, os acessos ao Pantanal repensados.

Pedrossian introduziu um método técnico-administrativo raro na administração estadual. Para seus aliados, ele era um exemplo de modernidade. Para os adversários, um gestor sem alma política, incapaz de mobilizar massas ou formar base popular. Não era homem apenas de palanque; era definitivamente homem de planilha. Mas isso, naquele Brasil sob botas e censura, era exatamente o que se queria. Não governava com paixão, diziam, governava com precisão.

Na cidade de Cáceres, construiu escolas. Em Rondonópolis, ligou o município a Cuiabá com estradas de terra estabilizada. Em Corumbá, onde a memória do Império ainda respirava nos casarões abandonados, incentivou a recuperação de estruturas ferroviárias e sonhou, já naquela época, com a integração da hidrovia Paraguai-Paraná. Era, como a imprensa o retratava na época: “Um homem que construía com a teimosia de quem sabia que cada obra é uma forma de pedir desculpas ao futuro pelas omissões do passado.”

Mas nem tudo era concreto. Pedro também construía relações com o setor rural emergente. Reuniu-se com produtores de gado, incentivou a modernização de maquinário agrícola e estabeleceu convênios com universidades paulistas para pesquisas na região. Seus relatórios semanais, hoje arquivados no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, mostram um governador meticuloso, que anotava à mão o número de hectares cultivados, o avanço da vacinação de rebanhos e as quantidades de asfalto entregues por usina.

A Divisão do Território e do Tempo

Em 1977, o presidente Ernesto Geisel assinou a Lei Complementar nº 31, criando oficialmente o Estado de Mato Grosso do Sul, com capital em Campo Grande. Pedro não era governador naquela ocasião; o cargo estava com José Garcia Neto, nome de confiança do regime.

Separar Mato Grosso foi como dividir o corpo de um pai em dois filhos, e, ainda assim, buscou-se fazê-lo com carinho, precisão e sem traumas visíveis. Pedro Pedrossian não brandiu discursos separatistas nem atiçou ressentimentos regionais. Enquanto muitos celebravam a divisão como vitória regionalista, Pedro permaneceu discreto. Para ele, o importante não era o aplauso, mas o alicerce do novo Estado. Quando perguntado, anos depois, sobre o que sentira ao ver o nascimento de Mato Grosso do Sul, respondeu com desdém às grandes frases: “Foi um passo lógico. Não era uma questão de paixão. Era de logística.” (Entrevista à TV Morena, 1983).

Ao aceitar a divisão, ele também preparava sua volta. Pois o novo Estado, livre das amarras de Cuiabá, exigiria um gestor à altura de sua complexidade. E todos sabiam quem seria chamado. Enquanto isso, ele aguardava. Como o engenheiro que projeta a ponte e depois espera o rio baixar.

O Retorno ao Governo

Em 1978, foi eleito para o Senado Federal. Em 1980, após a deposição de Marcelo Miranda e Harry Amorim no governo de Mato Grosso do Sul, Pedrossian foi nomeado governador do Estado pelo então presidente João Figueiredo, renunciando ao posto de senador até 1982. Em 15 de março de 1991, assumiu o cargo de governador de Mato Grosso do Sul através das urnas, ali permanecendo até 1994. Nos primeiros seis meses de mandato, implantou um dos planos de investimento mais ambiciosos na história de Mato Grosso do Sul: a reestruturação completa da malha viária estadual, com ênfase nos trechos agrícolas, e a criação de novos polos industriais em Três Lagoas e Aparecida do Taboado. O relatório técnico da Secretaria de Infraestrutura do Estado, publicado em dezembro de 1994, trazia dados que causaram espanto até mesmo entre os técnicos por causa dos investimentos em construção e conservação de estradas.

Foi também no segundo mandato que intensificou o diálogo com o setor produtivo. Lançou incentivos fiscais a frigoríficos e usinas de álcool, promoveu feiras agroindustriais e posicionou Mato Grosso do Sul como eixo estratégico do Mercosul nascente. Em 1992, foi o anfitrião do Encontro Internacional de Governadores da Região Centro-Oeste com as províncias do norte argentino e do Paraguai, uma diplomacia silenciosa que o jornal Clarín, de Buenos Aires, chamou de “geopolítica técnica”.

No fim do mandato, em 1994, entregou ao sucessor um Estado mais conectado, mais produtivo, mais educado. Mas o Brasil, agora entregue à democracia, já se deixava seduzir por outros tipos de líderes, mais midiáticos, mais verborrágicos, mais promissores. E Pedro, outra vez, retirou-se com a mesma elegância com que chegou. Recolheu-se aos papéis técnicos, às palestras, às conversas com ex-alunos, como quem compreende que sua parte já estava feita. Mas o tempo, esse construtor invisível, ainda lhe reservaria mais uma cena.

As Pedras que Não Foram Colocadas

Há obras que não se medem em metros cúbicos, nem em concreto despejado, nem em colunas levantadas contra o céu. Há obras que nascem do desejo de transformar e morrem, silenciosamente, no sufoco da política, no peso do orçamento, na sombra dos acordos que nunca chegam. Pedro Pedrossian conheceu esse lado da engenharia: o lado das obras que não foram.

Depois de 1994, quando entregou o governo de Mato Grosso do Sul sem buscar reeleição, voltou à posição de observador inquieto, como quem caminha por um canteiro abandonado, olhando os tijolos empilhados e imaginando o edifício que não veio. Tentou voltar em 1998, candidatando-se novamente ao cargo de governador, mas o povo, já seduzido por novas linguagens políticas, preferiu outro nome.

Ficou em terceiro lugar. Não culpou ninguém. Não reclamou da imprensa, nem das urnas. Em entrevista à Folha de S.Paulo, na edição de 6 de outubro de 1998, foi breve: “A política mudou. Talvez eu tenha ficado no tempo. Ou talvez o tempo tenha corrido demais.” Suas frustrações eram silenciosas. Não gritava. Não fazia oposição estridente. Era, como sempre fora, um homem de contenção. Mas sofria com o Brasil, como quem sofre por um filho que tomou outro rumo. A política lhe parecia um pátio de escola desorganizado, onde os mais barulhentos venciam os mais preparados.

Ainda tentou uma última candidatura ao Senado, em 2002. Teve pouco mais de 13% dos votos. E compreendeu, então, que o seu tempo de poder havia realmente passado, não por falta de ideias, mas por excesso de ruído. As pedras que não foram colocadas – o sistema de ensino técnico integrado, os canais de irrigação no Pantanal, os polos logísticos para exportação via Bolívia, a modernização fiscal do Estado – todas essas ideias jazem hoje em arquivos, em pen drives, em gavetas do gabinete que ele um dia ocupou. Ideias vivas, mas órfãs.

Mas mesmo ali, no fim da estrada, Pedro mantinha a mesma firmeza do engenheiro que olha o horizonte. Sabia que construções duram mais do que governos. E que, mesmo que ninguém as aponte, estão ali: o prédio, a rodovia, a ponte, o exemplo.

O Legado Silencioso

Pedro Pedrossian morreu no dia 22 de agosto de 2017, em Campo Grande, a cidade que ele ajudou a erguer. Não houve luto nacional, nem hino em cadeia, nem comoção coordenada por hashtags. Mas em cada rua asfaltada, em cada escola pública que leva o seu nome, em cada ponte onde o concreto ainda resiste à erosão, havia silêncio, o tipo mais digno de homenagem que um engenheiro pode receber.

Faleceu dormindo, aos 89 anos, como quem encerra uma jornada sem pressa, após revisar os cálculos uma última vez. Foi velado no Palácio Popular da Cultura, sob a bandeira de Mato Grosso do Sul, o Estado que ele não apenas ajudou a criar, mas sonhou antes que existisse. Jornais de todo o país publicaram notas. O G1 estampou: “Morre Pedro Pedrossian, símbolo da engenharia política do Centro-Oeste.”

A Folha de S.Paulo, que acompanhara suas campanhas com ceticismo nos anos 90, reconheceu: “Foi um dos raros gestores públicos que pensaram o país como estrutura.”

O governador Reinaldo Azambuja declarou luto oficial de três dias. E, na Assembleia Legislativa, ouviram-se discursos que bem poderiam ter sido escritos por cronistas.

Mas o maior testamento do engenheiro que virou governador não está nos discursos. Está nas obras que não caíram. Nos nomes de escolas que resistem aos modismos ideológicos. Na memória de alunos que se formaram em campi erguidos por suas mãos. E no olhar dos motoristas que, ao cruzarem pontes anônimas, sequer sabem que passam sobre o trabalho de um homem que preferia o anonimato da eficiência ao protagonismo da demagogia.

*João Carlos Vicente Ferreira é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Brasileira de Belas Artes, dentre outras instituições.

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HISTÓRIA

O voo que partiu um Estado ao meio

Publicados

em

Governador Garcia Neto (a esquerda), presidente Ernesto Geisel, cumprimentando o secretário Edmundo Taques

Por João Carlos Vicente Ferreira

Uma história suspensa entre Campo Grande e Aquidauana, narrada pelo último olhar que a testemunhou.

Há acontecimentos que não cabem nos livros de história porque não foram feitos de decretos, e sim de silêncios. Não nasceram de discursos públicos, mas de frases murmuradas num corredor, num gabinete ou, como neste caso, dentro de um avião bimotor, subindo lentamente sobre os telhados de Campo Grande, no início luminoso de 1977. Há fatos que mudam o mapa do país como se mudam móveis de lugar, empurra-se aqui, desloca-se ali, e de repente o espaço nunca mais é o mesmo. A divisão de Mato Grosso é um desses fatos.

Parece história encerrada, tema antigo, assunto esgotado. Mas quem vive no coração do Brasil sabe que esse é um daqueles episódios que não se deitam no passado, pois eles continuam vivos, respirando debaixo da terra, surgindo em conversas de bar, reuniões políticas, salas de aula e lembranças familiares.

Quantas vezes, ainda hoje, alguém pergunta, às vezes em tom de provocação, às vezes de pura saudade:

“E se não tivesse dividido? Você imagina o tamanho que seríamos?”

Foi pensando nesse “e se” que, há algumas semanas, sentei-me diante de Edmundo da Silva Taques, engenheiro agrônomo, 89 anos, olhos vivos de quem sabe que carrega na memória um fragmento da história que só ele pode contar. E Edmundo abriu a porta do tempo, deixando que o vento de 1977 entrasse pela sala, carregando com ele o ronco das hélices de um avião, as tensões de uma conversa, o peso de uma decisão.

Porque ele não ouviu dizer. Ele estava lá.

E é a partir desse olhar, desse corpo presente, que esta narrativa se alonga.

Para entender a força daquele voo de 1977, é preciso regressar um pouco mais, e olhar o Mato Grosso anterior: era Mato Grosso indiviso, monumental, quase mítico em sua extensão. Um território que desafiava governantes, logísticas e imaginações. Cuiabá, a capital, era um centro político cercado de rios, serras, chapadões e distâncias intransponíveis. Era governar o vazio, o remoto, o possível e o impossível ao mesmo tempo.

O sul do estado, onde hoje se ergue Mato Grosso do Sul, crescia com vida própria. Campo Grande tornava-se uma cidade dinâmica, cheia de militares, engenheiros, produtores, comerciantes, e cada qual com um sonho distinto para a região. A economia corria mais rápido ali. As estradas e os trilhos chegavam primeiro ali. Os investimentos federais preferiam ali.

Mas, apesar disso, havia um sentimento de pertencimento. Campo Grande, como Corumbá, Ponta Porã, Dourados, era Mato Grosso por inteiro, e Mato Grosso era tudo isso junto.

No entanto, essa dobradiça histórica tinha seus rangidos:

  • A distância entre Campo Grande e Cuiabá era longa demais para que as decisões corressem com naturalidade.
  • A expansão agropecuária transformava radicalmente o sul.
  • O norte ainda crescia a passos irregulares.
  • O Governo Federal enxergava, no grande Mato Grosso, tanto potencial quanto riscos geopolíticos.

Era um estado unido no sentimento — mas tensionado pela geografia.

Foi nesse cenário que o jovem secretário de Agricultura, Edmundo Taques, pessoa certa no lugar certo, ajudava a conduzir a transformação agrícola de Mato Grosso, que redundou no exitoso agronegócio da contemporaneidade.

Edmundo tinha uma vantagem que poucos possuíam: era amigo pessoal do ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, desde os tempos de Lavras. E Paulinelli, por sua vez, era um dos grandes visionários da agricultura tropical no Brasil, talvez o maior de todos.

A década de 1970 marcava o início da epopeia que transformaria Cerrados, até então considerados improdutivos, em uma das regiões agrícolas mais importantes do mundo. Embrapa, Cerrado, pesquisa científica, adaptação de sementes, tudo fervilhava num país que aprendia a crescer para dentro.

E Mato Grosso, com sua vastidão, era o palco ideal.

As safras de arroz de sequeiro, colhidas nas regiões de Diamantino e Araguaia, surpreendiam até os mais otimistas. A produtividade superava expectativas e, pela primeira vez, Mato Grosso ultrapassava o Rio Grande do Sul, então referência absoluta em arroz.

Esse feito não era apenas estatístico. Era um sinal. Era o aviso de que algo enorme estava prestes a acontecer. Garcia via isso com clareza. Para ele, dividir o estado naquele momento seria como cortar uma árvore no instante em que ela começa a crescer.

A visita presidencial

E então aconteceu: o presidente Ernesto Geisel decidiu visitar Campo Grande. O Planalto avisou o governador Garcia Neto, que organizou tudo com precisão e respeito. Não era apenas uma visita, era uma oportunidade de conversar, de influenciar, de tentar, ainda que tardiamente, impedir o que muitos já cochichavam em Brasília.

Garcia chamou seu secretário Edmundo e juntos partiram de Cuiabá num bimotor simples, de oito lugares, desses que se equilibram mais nos cálculos do piloto do que na tecnologia embarcada.

A recepção em Campo Grande foi calorosa. Autoridades, militares, estudantes, políticos, todo o aparato protocolar. Assinaturas de convênios, apertos de mão, discursos que começam e terminam do mesmo jeito.

E então veio o inesperado, esse tipo de movimento do destino que não se explica.

Geisel queria visitar Aquidauana, rever o ex-governador José Fragelli, amigo de décadas. Seu próprio avião não pousaria lá. Mas o do governador, por consulta do presidente, sim.

E Garcia, sem hesitar, ofereceu a aeronave.

A cena parece simples, mas naquele instante começou a se tecer uma das conversas mais importantes da história sul-mato-grossense.

Assim subiram:

  1. o piloto
  2. o copiloto
  3. o ajudante-de-ordens
  4. o presidente
  5. o governador
  6. e o secretário Edmundo

Seis homens dentro de um avião estreito, rumando para uma cidade pacata do interior, mas carregando na cabine o peso de uma decisão que mudaria o país.

O avião decolou, rasgou os últimos telhados de Campo Grande, passou sobre bairros que ainda hoje guardam aquele mesmo desenho irregular de ruas, e começou a ganhar altitude.

Foi então, naquele instante suspenso entre o chão e o céu, que o governador Garcia se moveu no assento, respirou fundo, e chamou o presidente para perto.

O diálogo que se seguiu é um documento histórico que só Edmundo pode nos entregar.

A voz de Garcia não era agressiva. Era firme, carregada de esperança e de receio ao mesmo tempo.

— Presidente, o senhor precisa atender ao clamor do povo de Mato Grosso e não dividir o nosso Estado.

Geisel olhou. Esperou.

— O senhor sabia que ultrapassamos o Rio Grande do Sul na produção de arroz? Veja o Araguaia, veja Diamantino…

“Se continuarmos assim, seremos um dos estados mais importantes do país.”

E então veio a pergunta que não era só pergunta, era súplica, era alerta, era sonho:

— Então por que o senhor quer dividir o estado?

Edmundo, sentado atrás, segurou o ar. Ele sabia que estava diante de um instante que não se repetiria jamais.

A resposta veio como um golpe rápido:

— Por isso mesmo.

Três palavras que partiram o estado ao meio.

Geisel, percebendo a gravidade do silêncio que se instalou, completou:

— O governo federal possui estudos científicos. Mato Grosso está entre as regiões de maior potencial de crescimento do Brasil. Não posso ter um estado tão grande e tão forte ao ponto de, futuramente, querer se emancipar.

Não era uma acusação. Era a lógica política dos militares: prevenir possíveis separatismos, evitar concentrações de poder, manter o país coeso.

Geisel citou São Paulo, citou Rio Grande do Sul, lembrou movimentos históricos de tensão entre estados e União. E concluiu:

— A divisão é uma medida estratégica.

Não houve mais debate. Não houve negociação.

O destino já estava decidido.

O avião pousou suavemente em Aquidauana. A cidade nem imaginava que, horas antes, um diálogo secreto selara a divisão de um dos maiores estados do Brasil.

Geisel reencontrou José Fragelli, reviveram memórias de quando o futuro ainda parecia uma estrada aberta, conversaram como velhos amigos que a política separa e o respeito junta.

A tarde correu tranquila, quase banal. E, no entanto, era histórica.

Ao retornarem, nada mais foi dito sobre o tema.

Mas o silêncio confirmava o inevitável.

Poucos meses depois, a Lei Complementar nº 31 criou oficialmente o Estado de Mato Grosso do Sul.

A implantação se daria em 1º de janeiro de 1979.

Um novo estado surgia.

Outro permanecia.

E nada voltaria a ser como antes.

O que se perdeu, o que se ganhou

A divisão trouxe:

  • orgulho para uns
  • mágoa para outros
  • e surpresa para quase todos

Os sulistas finalmente teriam uma capital próxima, dinâmica, voltada para seus interesses.

Os nortistas perderiam parte importante de sua extensão, mas manteriam sua identidade histórica e cultural.

E ambos seguiriam crescendo, talvez até mais do que se unidos estivessem.

Hoje, quando observamos os dois estados, vemos:

  • dois colossos agrícolas
  • duas economias pujantes
  • duas identidades fortes
  • dois orgulhos legítimos
  • duas histórias que são uma só

E ainda assim, permanece no ar, como um eco daquele voo, a eterna pergunta:

E se não tivesse dividido?

Dos seis homens daquele voo, pelo menos a metade já partiu.

Geisel morreu. Garcia morreu. O ajudante-de-ordem tornou-se general e depois também se foi. Os pilotos, não se sabe deles; possivelmente, já não estão mais entre nós.

Resta Edmundo, guardião da memória, último farol daquele instante de 1977.

Quando ele narra, não o faz com vaidade. Narra como quem devolve ao povo uma história que o povo nunca soube. Narra com a humildade de quem carregou por décadas um segredo que não era seu, mas que foi depositado em seus ouvidos porque a vida o colocou no assento certo, no voo certo, na hora exata.

Hoje, quase cinquenta anos depois daquele diálogo, os dois Mato Grosso se olham com respeito, e até com carinho. Há rivalidades esportivas, disputas econômicas, comparações inevitáveis. Mas há também uma fraternidade silenciosa, herdada de séculos de história comum.

Geisel estava certo?

Garcia estava certo?

Essa é a pergunta que ninguém responderá por completo.

Porque a história não é tribunal, é rio.

E rios seguem cursos que nem sempre escolhem.

Assim também foi o Estado de Mato Grosso.

Assim também nasceu Mato Grosso do Sul.

Apenas uma certeza permanece: aquele voo de pouco menos de 90 quilômetros modificou para sempre o mapa do Brasil.

E quem contou essa história pela primeira vez, quem a guardou por tanto tempo, foi Edmundo da Silva Taques, o homem que, sem querer, se tornou guardião de um dos diálogos mais decisivos que o Cerrado já ouviu.

Um estado pode não caber inteiro na terra.

Mas um destino inteiro pode caber dentro de um avião.

*João Carlos Vicente Ferreira é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Brasileira de Belas Artes, dentre outras instituições.

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