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O lado invisível da Inteligência Artificial (IA)

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Por Widson Ovando

Quando uma inteligência artificial responde a uma pergunta em poucos segundos, tudo parece acontecer dentro da tela, como mágica. Mas, por trás daquela resposta, existe uma estrutura física gigantesca.

A chamada “nuvem” não está no céu. Ela ocupa data centers repletos de servidores, chips especializados e sistemas capazes de processar uma quantidade imensa de informações.

Essas máquinas precisam de energia para funcionar e de sistemas de refrigeração para controlar o calor produzido durante o processamento. Dependendo da tecnologia utilizada e da localização, a operação também pode envolver o consumo de fluido refrigerante especial, geralmente composto por água destilada ou desmineralizada com aditivos (propilenoglicol).

Em cidades muito quentes, como Cuiabá, a temperatura ambiente pode afetar diretamente computadores, servidores e equipamentos de infraestrutura de IA.

Se a climatização for insuficiente, podem ocorrer redução de desempenho, travamentos, desligamentos automáticos e diminuição da vida útil dos equipamentos.

Existe ainda outra camada pouco percebida: os próprios componentes que tornam a inteligência artificial possível. Chips, semicondutores, equipamentos de rede e sistemas de armazenamento dependem de uma cadeia industrial global, com uso de matérias-primas, energia e processos complexos de fabricação.

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E a inteligência artificial não aprende sozinha. Por trás dos modelos existem pesquisadores, engenheiros, programadores e trabalhadores envolvidos na preparação de dados, avaliação de respostas e aperfeiçoamento dos sistemas.

Os dados também são parte dessa história: textos, imagens, áudios e outras informações podem alimentar sistemas de inteligência artificial, levantando discussões sobre privacidade, direitos autorais e uso responsável do conhecimento.

Há ainda uma pergunta ambiental que começa a ganhar espaço: o que acontece quando equipamentos utilizados para sustentar essa infraestrutura se tornam obsoletos?

Esses equipamentos contêm metais e outros materiais que podem ser recuperados por meio da reciclagem, mas também podem gerar impactos ambientais quando descartados de forma inadequada.

O debate sobre inteligência artificial, portanto, não deveria ficar restrito ao que ela consegue fazer. É preciso olhar para o que existe atrás da tela: energia, água, minerais, máquinas, dados e pessoas.

A IA pode transformar a ciência, a economia e a sociedade. Mas compreender sua dimensão invisível é fundamental para discutir não apenas a velocidade da inovação, mas também seus custos, limites e impactos que pode causar em razão de sua grande dimensão.

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A inteligência pode parecer artificial, mas a infraestrutura gigante que a sustenta é absolutamente real.

Widson Ovando é jornalista, graduado em gestão pública, bacharel em Ciência e Tecnologia (UFMT) e pós-graduado em Ciências Políticas.

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Quem cuida de quem cuida? A saúde mental da enfermagem precisa ser prioridade

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Por Iracema Alencar

Todos os dias, milhares de profissionais da enfermagem iniciam seus plantões preparados para cuidar. Cuidamos da dor, da doença, do medo, da recuperação e, muitas vezes, acompanhamos pessoas e famílias nos momentos mais difíceis de suas vidas. Mas existe uma pergunta que precisamos fazer com urgência: quem está cuidando de quem cuida?

Falar sobre suicídio entre profissionais da enfermagem é difícil. Mas o silêncio é ainda mais perigoso.

Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, realizada com 581 profissionais de enfermagem de dois hospitais universitários federais do Sul do Brasil, identificou prevalência de risco de suicídio de 8,8% entre os participantes. Entre os técnicos de enfermagem, o índice chegou a 10%; entre enfermeiros, a 7,8%. O estudo não representa toda a enfermagem brasileira, mas revela uma realidade que não pode ser ignorada.

Outro dado dimensiona o problema. Informações do INSS reunidas pela plataforma SmartLab e divulgadas pelo Conselho Federal de Enfermagem mostram que técnicos, auxiliares e enfermeiros somaram 70.701 afastamentos por questões relacionadas à saúde mental entre 2012 e 2024. E o próprio Cofen alerta que o número real pode ser maior, porque essa estatística não alcança integralmente trabalhadores vinculados a regimes próprios de previdência, como muitos servidores estaduais e municipais, além de não contabilizar afastamentos inferiores a 15 dias.

Esses números precisam ser vistos para além das estatísticas. Por trás deles estão pessoas.

A enfermagem convive diariamente com sofrimento, morte, jornadas extenuantes, plantões noturnos, sobrecarga, pressão, violência no ambiente de trabalho e enorme responsabilidade sobre a vida de outras pessoas. Não podemos naturalizar essas condições como se fossem simplesmente parte da profissão.

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O próprio estudo sobre risco de suicídio encontrou associação com depressão autorreferida e com o desejo de abandonar a profissão. Na análise dos pesquisadores, apareceram ainda questões relacionadas ao processo de trabalho, como sobrecarga, estresse elevado e violência no ambiente profissional.

Em Mato Grosso, já tivemos outro importante sinal de alerta. A pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada pela Fiocruz por iniciativa do Cofen, identificou que 71,5% da equipe de enfermagem pesquisada no estado declarou desgaste profissional. Embora seja um levantamento anterior e não possa ser tratado como fotografia da realidade atual, é um dado que ajuda a demonstrar que o sofrimento relacionado ao trabalho não surgiu agora.

É por isso que precisamos avançar do alerta para a ação.

Não basta realizar campanhas em setembro. Não basta dizer ao trabalhador que procure ajuda quando já chegou ao limite. Precisamos construir uma política permanente de saúde mental para quem trabalha na saúde.

O poder público, como grande empregador de profissionais da área, tem responsabilidade direta nessa construção. Governo do Estado, municípios e instituições de saúde precisam oferecer programas estruturados de prevenção e acompanhamento psicológico e psiquiátrico, com acesso facilitado, sigilo, acolhimento e acompanhamento continuado. É necessário identificar precocemente situações de sofrimento psíquico, enfrentar o assédio e a violência nos ambientes de trabalho e rever condições que produzam sobrecarga e adoecimento.

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Esse cuidado precisa alcançar enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem e integrar uma política mais ampla destinada aos trabalhadores da saúde. E políticas de saúde mental do servidor público devem alcançar as demais categorias do funcionalismo, respeitando as especificidades e os riscos de cada atividade.

Na enfermagem, porém, existe uma contradição que precisa ser enfrentada: somos preparados para perceber sinais de sofrimento nos outros, mas nem sempre encontramos espaço para reconhecer e cuidar do nosso próprio sofrimento.

Buscar ajuda não pode significar fragilidade profissional. Adoecer não pode gerar estigma, medo de perder espaço no trabalho ou receio de ser julgado pelos colegas e gestores.

Cuidar da saúde mental da enfermagem significa cuidar da própria assistência prestada à população. Um sistema de saúde depende de trabalhadores que tenham condições físicas e emocionais para exercer suas funções com segurança e dignidade.

O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção ao suicídio. Que essa conversa não termine quando setembro acabar.

A enfermagem passa a vida cuidando de pessoas. Está mais do que na hora de transformar o cuidado de quem cuida em política pública permanente.

Iracema Paulino de Alencar é enfermeira e obstetra, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT, com trajetória na gestão pública, assistência, docência e formação em saúde.
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