HISTÓRIA
José Manuel Fontanillas Fragelli: Um Brasileiro de Galhardia Ímpar
Por João Carlos Vicente Ferreira
O Menino de Aquidauana
Nas curvas mansas do rio Aquidauana, onde os peixes saltam como quem desafia o tempo e os ipês floridos anunciam a nobreza do cerrado, nasceu, em 31 de dezembro de 1915, uma das mais altivas personalidades da política nacional: José Manuel Fontanillas Fragelli. Filho do coração do atual estado de Mato Grosso do Sul, neto de espanhóis e italianos, forjado no silêncio das matas e na sonoridade das águas pantaneiras, Fragelli não foi apenas um homem público; foi, acima de tudo, um homem íntegro.
Seu berço não foi um centro urbano qualquer, mas Aquidauana, cidade símbolo da resistência cultural do sul-mato-grossense. Ali, nos primeiros anos do século XX, a figura de um menino curioso caminhando entre as palmeiras e a linha do trem, com um livro embaixo do braço e a cabeça cheia de perguntas, já sinalizava o futuro jurista, promotor, professor, parlamentar, governador, senador e, mesmo que por dias, presidente da República.
A infância no interior profundo marcou sua personalidade para sempre. Aprendeu, desde cedo, a linguagem da escuta, o silêncio dos velhos, o canto das corujas, o farfalhar dos jornais de domingo. Aquidauana era ainda uma cidade pequena, com o mundo rural e a tradição do trabalho duro moldando a rotina das famílias. Ali, nas palavras simples de sua mãe e no exemplo honrado de seu pai, nasceu o senso de justiça que acompanharia Fragelli por mais de nove décadas de vida pública e privada.
O Tempo da USP
Em 1934, José Fragelli cruzou o país para ingressar na recém-criada Universidade de São Paulo. Estudar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, um dos pilares fundadores da USP, era naquela época um feito quase épico para um jovem do interior. A nova universidade reunia o que havia de mais sofisticado no pensamento liberal e progressista da época. Lá, o jovem de Aquidauana se tornaria bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1938.
Os corredores da São Francisco fervilhavam de debates sobre o Brasil moderno, a Constituição de 1934, a luta entre autoritarismo e democracia. Fragelli, ainda discreto, ouvia com atenção. Aprendeu o valor do Direito como instrumento de liberdade e inspirou-se nas aulas sobre Filosofia nas inquietações sociais que pulsavam na alma do país naqueles tempos bicudos.
Não tardou a perceber que o seu futuro não se restringiria à advocacia. A política não era, para ele, um fim, mas um meio de servir ao bem comum. E esse servir teria uma geografia nítida: o coração do Brasil, a sua amada região de origem, onde mais tarde se tornaria símbolo de liderança e orgulho regional.
A Toga e a Tribuna
Formado, Fragelli retornou ao antigo Estado de Mato Grosso e assumiu, entre 1939 e 1943, a função de promotor de justiça em Campo Grande. Jovem ainda, com apenas 24 anos, demonstrava maturidade incomum e extremo zelo pela Constituição. Sua atuação era respeitosa, mas implacável diante da injustiça. Era visto como um guardião da ordem legal, mas também da justiça social, compreendendo as limitações de uma sociedade profundamente desigual.
Ali já se fazia presente uma marca que jamais o abandonaria: o compromisso com a escuta atenta da população, mesmo nos lugares mais remotos. Fragelli entendia que a lei só tem valor se for instrumento de equilíbrio, e não de privilégio.
Ensinando Gerações
Deixando a promotoria, assumiu o cargo de diretor e professor no Colégio Oswaldo Cruz, em Campo Grande. Seu trabalho como educador contribuiu para moldar gerações inteiras. Mais do que ensinar letras, Fragelli inspirava postura, honestidade, ética, civilidade. Considerava que a educação era a base sobre a qual se construiria qualquer reforma verdadeira, fosse no campo, na cidade ou no Parlamento.
Nas salas de aula do Oswaldo Cruz, semeou ideias e valores. Muitos de seus alunos viriam a ocupar cargos relevantes, sempre citando o “Professor Fragelli” como exemplo. Ele, modesto, considerava-se apenas um “instrumento de despertar”.
A Entrada na Política: Oposição Honrada
Em 1947, com a redemocratização pós-Estado Novo, o povo de Mato Grosso elegeu seus representantes para a nova Assembleia Constituinte. Fragelli, já respeitado como jurista e educador, foi eleito deputado pela União Democrática Nacional (UDN). Tornou-se líder da oposição, exercendo um papel raro na política brasileira: o de criticar sem destruir, de discordar sem odiar, de propor sem barganhar.
Foi autor de dispositivos fundamentais da nova Constituição estadual. Seus discursos, sempre elegantes e técnicos, chamavam a atenção pela clareza e firmeza. Era um homem de centro, equilibrado, mas convicto. Reeleito em 1950, continuou seu trabalho de vigilância ativa sobre os atos do governo, mas também de proposição de medidas de desenvolvimento, com foco especial na infraestrutura, educação e interiorização dos serviços públicos.
Deputado Federal: Mato Grosso Fala ao Brasil
Entre 1953 e 1954, Fragelli assumiu a Secretaria do Interior, Justiça e Finanças do Estado, sendo governador o udenista Fernando Corrêa da Costa. Numa época em que os orçamentos eram escassos e as demandas imensas, Fragelli demonstrou seriedade administrativa e inovação técnica. Organizou as finanças, modernizou procedimentos e buscou melhorar o relacionamento entre Estado e sociedade.
Nas eleições gerais de 3 de outubro de 1954, Fragelli se elegeu deputado federal por Mato Grosso. O mandato lhe permitiu defender os interesses da região Centro-Oeste em Brasília, num tempo em que o sul do antigo Mato Grosso já dava sinais, há tempos, de querer caminhar com pernas próprias. Sua atuação foi centrada na valorização da produção rural, na expansão das rodovias e na maior participação dos estados no pacto federativo.
Mas era visível: Fragelli jamais se afastava de suas raízes aquidauanenses. Voltava com frequência, visitava escolas, falava com pequenos produtores, andava a cavalo, ouvia os jovens, escutava os anciãos. Era um homem da capital federal com os pés no Pantanal.
Governador de Mato Grosso Uno
Em 1970, convidado pelo governo federal, e com apoio de Filinto Müller, que pavimentava a presidência do Senado Federal, assumiu o cargo de governador de Mato Grosso, função que ocupou entre 1971 e 1975. O Estado era ainda uno, abrangia o que hoje conhecemos como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O desafio era gigantesco.
Fragelli, com sua visão de longo prazo, iniciou os projetos de colonização do norte mato-grossense, estabelecendo as bases do que hoje é o maior polo agropecuário do país. Cidades como Sorriso, Sinop, Lucas do Rio Verde e tantas outras têm em sua origem a marca da visão fragelliana.
Mas sua atenção não se limitou ao norte. A região sul, atual Mato Grosso do Sul, foi largamente beneficiada por seu governo. Investimentos em estradas, energia elétrica, escolas técnicas, hospitais e incentivo à produção agropecuária foram fundamentais para a estruturação do Estado que nasceria poucos anos depois.
Fragelli sabia que aquele sul rico, produtivo e culturalmente distinto do norte precisava de autonomia. Embora não apreciasse defender publicamente a divisão, seu governo pavimentou com responsabilidade o caminho que culminaria na criação de Mato Grosso do Sul, em 1977.
A Maturidade da Política no Congresso
Em 1980, Fragelli retornou à política como senador por Mato Grosso do Sul, assumindo a cadeira de Pedro Pedrossian. No Senado, não tardou a se tornar uma das figuras mais respeitadas da Casa. Foi vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça, integrou comissões estratégicas e se destacou como porta-voz do equilíbrio institucional em tempos difíceis.
Foi, sobretudo, o senador do Centro-Oeste, da agropecuária, da educação pública, da integração nacional e do pacto federativo justo. Trabalhava de forma discreta, mas influente. Em 1983, liderou um grupo de senadores que propôs a candidatura de Tancredo Neves à presidência da República. Foi figura-chave na transição democrática.
Presidente do Congresso e da República: O Estadista que Garantiu a Transição
Entre 1985 e 1987, Fragelli presidiu o Senado e, por consequência, o Congresso Nacional. Em momentos cruciais da transição do governo militar à democracia, sua liderança foi discreta, porém decisiva.
Durante o ano de 1986, José Fragelli ocupou interinamente a Presidência da República por duas ocasiões, nos dias 28 a 30 de setembro e 9 a 14 de setembro. Com isso, tornou-se um dos raros brasileiros a exercer, ao longo da vida, funções nos três poderes da República: promotor no Judiciário, legislador por décadas e chefe do Executivo, tanto no Estado quanto na União.
O Filho Ilustre: Símbolo da Dignidade Política
Após deixar o Senado, Fragelli recolheu-se à vida rural. Passava os dias entre livros, visitas discretas e os cuidados com suas fazendas. Era visto com respeito e reverência em Aquidauana, em Campo Grande, em Corumbá, em todas as cidades do jovem Estado de Mato Grosso do Sul.
Muitos o consideravam o verdadeiro patrono moral da nova unidade da Federação. Não por discursos inflamados, mas pelo exemplo: um político íntegro, um estadista sóbrio, um intelectual com raízes.
Fragelli, Sempre Presente
José Fragelli faleceu em 30 de abril de 2010, aos 94 anos, em Aquidauana, a mesma terra que o viu nascer e que agora o recebia como herói. Seu nome batizou, por décadas, o antigo Estádio Verdão, em Cuiabá, mas seu maior legado está nas obras que deixou, nos projetos que ajudou a gestar, nas escolas que inspirou, nas instituições que fortaleceu.
Mais do que um político, foi modelo de civilidade e grandeza humana. Em tempos de escassez de referências éticas, olhar para Fragelli é lembrar que é possível ser íntegro na vida pública. Que é possível ser professor e presidente. Que é possível sair da política melhor do que entrou.
HISTÓRIA
O voo que partiu um Estado ao meio
Por João Carlos Vicente Ferreira
Uma história suspensa entre Campo Grande e Aquidauana, narrada pelo último olhar que a testemunhou.
Há acontecimentos que não cabem nos livros de história porque não foram feitos de decretos, e sim de silêncios. Não nasceram de discursos públicos, mas de frases murmuradas num corredor, num gabinete ou, como neste caso, dentro de um avião bimotor, subindo lentamente sobre os telhados de Campo Grande, no início luminoso de 1977. Há fatos que mudam o mapa do país como se mudam móveis de lugar, empurra-se aqui, desloca-se ali, e de repente o espaço nunca mais é o mesmo. A divisão de Mato Grosso é um desses fatos.
Parece história encerrada, tema antigo, assunto esgotado. Mas quem vive no coração do Brasil sabe que esse é um daqueles episódios que não se deitam no passado, pois eles continuam vivos, respirando debaixo da terra, surgindo em conversas de bar, reuniões políticas, salas de aula e lembranças familiares.
Quantas vezes, ainda hoje, alguém pergunta, às vezes em tom de provocação, às vezes de pura saudade:
“E se não tivesse dividido? Você imagina o tamanho que seríamos?”
Foi pensando nesse “e se” que, há algumas semanas, sentei-me diante de Edmundo da Silva Taques, engenheiro agrônomo, 89 anos, olhos vivos de quem sabe que carrega na memória um fragmento da história que só ele pode contar. E Edmundo abriu a porta do tempo, deixando que o vento de 1977 entrasse pela sala, carregando com ele o ronco das hélices de um avião, as tensões de uma conversa, o peso de uma decisão.
Porque ele não ouviu dizer. Ele estava lá.
E é a partir desse olhar, desse corpo presente, que esta narrativa se alonga.
Para entender a força daquele voo de 1977, é preciso regressar um pouco mais, e olhar o Mato Grosso anterior: era Mato Grosso indiviso, monumental, quase mítico em sua extensão. Um território que desafiava governantes, logísticas e imaginações. Cuiabá, a capital, era um centro político cercado de rios, serras, chapadões e distâncias intransponíveis. Era governar o vazio, o remoto, o possível e o impossível ao mesmo tempo.
O sul do estado, onde hoje se ergue Mato Grosso do Sul, crescia com vida própria. Campo Grande tornava-se uma cidade dinâmica, cheia de militares, engenheiros, produtores, comerciantes, e cada qual com um sonho distinto para a região. A economia corria mais rápido ali. As estradas e os trilhos chegavam primeiro ali. Os investimentos federais preferiam ali.
Mas, apesar disso, havia um sentimento de pertencimento. Campo Grande, como Corumbá, Ponta Porã, Dourados, era Mato Grosso por inteiro, e Mato Grosso era tudo isso junto.
No entanto, essa dobradiça histórica tinha seus rangidos:
- A distância entre Campo Grande e Cuiabá era longa demais para que as decisões corressem com naturalidade.
- A expansão agropecuária transformava radicalmente o sul.
- O norte ainda crescia a passos irregulares.
- O Governo Federal enxergava, no grande Mato Grosso, tanto potencial quanto riscos geopolíticos.
Era um estado unido no sentimento — mas tensionado pela geografia.
Foi nesse cenário que o jovem secretário de Agricultura, Edmundo Taques, pessoa certa no lugar certo, ajudava a conduzir a transformação agrícola de Mato Grosso, que redundou no exitoso agronegócio da contemporaneidade.
Edmundo tinha uma vantagem que poucos possuíam: era amigo pessoal do ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, desde os tempos de Lavras. E Paulinelli, por sua vez, era um dos grandes visionários da agricultura tropical no Brasil, talvez o maior de todos.
A década de 1970 marcava o início da epopeia que transformaria Cerrados, até então considerados improdutivos, em uma das regiões agrícolas mais importantes do mundo. Embrapa, Cerrado, pesquisa científica, adaptação de sementes, tudo fervilhava num país que aprendia a crescer para dentro.
E Mato Grosso, com sua vastidão, era o palco ideal.
As safras de arroz de sequeiro, colhidas nas regiões de Diamantino e Araguaia, surpreendiam até os mais otimistas. A produtividade superava expectativas e, pela primeira vez, Mato Grosso ultrapassava o Rio Grande do Sul, então referência absoluta em arroz.
Esse feito não era apenas estatístico. Era um sinal. Era o aviso de que algo enorme estava prestes a acontecer. Garcia via isso com clareza. Para ele, dividir o estado naquele momento seria como cortar uma árvore no instante em que ela começa a crescer.
A visita presidencial
E então aconteceu: o presidente Ernesto Geisel decidiu visitar Campo Grande. O Planalto avisou o governador Garcia Neto, que organizou tudo com precisão e respeito. Não era apenas uma visita, era uma oportunidade de conversar, de influenciar, de tentar, ainda que tardiamente, impedir o que muitos já cochichavam em Brasília.
Garcia chamou seu secretário Edmundo e juntos partiram de Cuiabá num bimotor simples, de oito lugares, desses que se equilibram mais nos cálculos do piloto do que na tecnologia embarcada.
A recepção em Campo Grande foi calorosa. Autoridades, militares, estudantes, políticos, todo o aparato protocolar. Assinaturas de convênios, apertos de mão, discursos que começam e terminam do mesmo jeito.
E então veio o inesperado, esse tipo de movimento do destino que não se explica.
Geisel queria visitar Aquidauana, rever o ex-governador José Fragelli, amigo de décadas. Seu próprio avião não pousaria lá. Mas o do governador, por consulta do presidente, sim.
E Garcia, sem hesitar, ofereceu a aeronave.
A cena parece simples, mas naquele instante começou a se tecer uma das conversas mais importantes da história sul-mato-grossense.
Assim subiram:
- o piloto
- o copiloto
- o ajudante-de-ordens
- o presidente
- o governador
- e o secretário Edmundo
Seis homens dentro de um avião estreito, rumando para uma cidade pacata do interior, mas carregando na cabine o peso de uma decisão que mudaria o país.
O avião decolou, rasgou os últimos telhados de Campo Grande, passou sobre bairros que ainda hoje guardam aquele mesmo desenho irregular de ruas, e começou a ganhar altitude.
Foi então, naquele instante suspenso entre o chão e o céu, que o governador Garcia se moveu no assento, respirou fundo, e chamou o presidente para perto.
O diálogo que se seguiu é um documento histórico que só Edmundo pode nos entregar.
A voz de Garcia não era agressiva. Era firme, carregada de esperança e de receio ao mesmo tempo.
— Presidente, o senhor precisa atender ao clamor do povo de Mato Grosso e não dividir o nosso Estado.
Geisel olhou. Esperou.
— O senhor sabia que ultrapassamos o Rio Grande do Sul na produção de arroz? Veja o Araguaia, veja Diamantino…
“Se continuarmos assim, seremos um dos estados mais importantes do país.”
E então veio a pergunta que não era só pergunta, era súplica, era alerta, era sonho:
— Então por que o senhor quer dividir o estado?
Edmundo, sentado atrás, segurou o ar. Ele sabia que estava diante de um instante que não se repetiria jamais.
A resposta veio como um golpe rápido:
— Por isso mesmo.
Três palavras que partiram o estado ao meio.
Geisel, percebendo a gravidade do silêncio que se instalou, completou:
— O governo federal possui estudos científicos. Mato Grosso está entre as regiões de maior potencial de crescimento do Brasil. Não posso ter um estado tão grande e tão forte ao ponto de, futuramente, querer se emancipar.
Não era uma acusação. Era a lógica política dos militares: prevenir possíveis separatismos, evitar concentrações de poder, manter o país coeso.
Geisel citou São Paulo, citou Rio Grande do Sul, lembrou movimentos históricos de tensão entre estados e União. E concluiu:
— A divisão é uma medida estratégica.
Não houve mais debate. Não houve negociação.
O destino já estava decidido.
O avião pousou suavemente em Aquidauana. A cidade nem imaginava que, horas antes, um diálogo secreto selara a divisão de um dos maiores estados do Brasil.
Geisel reencontrou José Fragelli, reviveram memórias de quando o futuro ainda parecia uma estrada aberta, conversaram como velhos amigos que a política separa e o respeito junta.
A tarde correu tranquila, quase banal. E, no entanto, era histórica.
Ao retornarem, nada mais foi dito sobre o tema.
Mas o silêncio confirmava o inevitável.
Poucos meses depois, a Lei Complementar nº 31 criou oficialmente o Estado de Mato Grosso do Sul.
A implantação se daria em 1º de janeiro de 1979.
Um novo estado surgia.
Outro permanecia.
E nada voltaria a ser como antes.
O que se perdeu, o que se ganhou
A divisão trouxe:
- orgulho para uns
- mágoa para outros
- e surpresa para quase todos
Os sulistas finalmente teriam uma capital próxima, dinâmica, voltada para seus interesses.
Os nortistas perderiam parte importante de sua extensão, mas manteriam sua identidade histórica e cultural.
E ambos seguiriam crescendo, talvez até mais do que se unidos estivessem.
Hoje, quando observamos os dois estados, vemos:
- dois colossos agrícolas
- duas economias pujantes
- duas identidades fortes
- dois orgulhos legítimos
- duas histórias que são uma só
E ainda assim, permanece no ar, como um eco daquele voo, a eterna pergunta:
E se não tivesse dividido?
Dos seis homens daquele voo, pelo menos a metade já partiu.
Geisel morreu. Garcia morreu. O ajudante-de-ordem tornou-se general e depois também se foi. Os pilotos, não se sabe deles; possivelmente, já não estão mais entre nós.
Resta Edmundo, guardião da memória, último farol daquele instante de 1977.
Quando ele narra, não o faz com vaidade. Narra como quem devolve ao povo uma história que o povo nunca soube. Narra com a humildade de quem carregou por décadas um segredo que não era seu, mas que foi depositado em seus ouvidos porque a vida o colocou no assento certo, no voo certo, na hora exata.
Hoje, quase cinquenta anos depois daquele diálogo, os dois Mato Grosso se olham com respeito, e até com carinho. Há rivalidades esportivas, disputas econômicas, comparações inevitáveis. Mas há também uma fraternidade silenciosa, herdada de séculos de história comum.
Geisel estava certo?
Garcia estava certo?
Essa é a pergunta que ninguém responderá por completo.
Porque a história não é tribunal, é rio.
E rios seguem cursos que nem sempre escolhem.
Assim também foi o Estado de Mato Grosso.
Assim também nasceu Mato Grosso do Sul.
Apenas uma certeza permanece: aquele voo de pouco menos de 90 quilômetros modificou para sempre o mapa do Brasil.
E quem contou essa história pela primeira vez, quem a guardou por tanto tempo, foi Edmundo da Silva Taques, o homem que, sem querer, se tornou guardião de um dos diálogos mais decisivos que o Cerrado já ouviu.
Um estado pode não caber inteiro na terra.
Mas um destino inteiro pode caber dentro de um avião.
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