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Ferir quem cuida é ferir a saúde de todos

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Por Bruna Santiago

Existe uma violência que, por muito tempo, foi tratada quase como parte da rotina de quem trabalha na saúde. É o xingamento durante o plantão, a ameaça porque o atendimento demorou, a intimidação, a invasão de uma sala e, nos casos mais graves, a agressão física.

Quem trabalha em hospital, UPA, policlínica ou unidade básica sabe exatamente do que estou falando.

Sou enfermeira. Vivi a realidade dos plantões e, ao longo dos últimos anos, conheci unidades de saúde em diferentes regiões de Mato Grosso, conversei com profissionais e ouvi relatos de situações que nunca deveriam ser consideradas normais.

A frustração de quem espera atendimento precisa ser ouvida. A população tem todo o direito de cobrar quando faltam profissionais, medicamentos, exames e leitos ou quando o serviço demora além do razoável. O que não podemos admitir é que problemas do sistema sejam descarregados sobre o trabalhador que está na linha de frente tentando manter o atendimento funcionando.

Os números ajudam a dimensionar o problema. A Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil, realizada pela Fiocruz em parceria com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), mostrou que, em Mato Grosso, 23,1% dos profissionais pesquisados afirmaram sofrer violência no ambiente de trabalho e outros 11,1% disseram que isso ocorria “às vezes”. Entre as modalidades relatadas, a violência psicológica predominava.

Embora o levantamento retrate uma realidade pesquisada anos atrás, episódios recentes mostram que o problema permanece. Somente em 2026, o Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT) voltou a cobrar providências depois de agressões envolvendo profissionais em unidades de Várzea Grande e Cuiabá.

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Até quando vamos esperar o próximo caso?

Uma agressão não termina quando acaba o plantão. Algumas marcas são visíveis, outras acompanham o profissional por muito mais tempo: medo de voltar ao trabalho, ansiedade, insegurança, perda da satisfação profissional e sensação de abandono.

Estudos também vêm demonstrando que a violência ocupacional está associada a consequências para a saúde mental e para a própria atividade profissional. Pesquisa publicada em 2026, envolvendo profissionais de Enfermagem, identificou relatos de violência no trabalho em quase metade dos participantes, com predominância das agressões verbais e repercussões como estresse e perda da satisfação profissional.

Não podemos exigir cuidado humanizado de profissionais que trabalham permanentemente com medo.

E existe outro aspecto que precisa ser compreendido: quando um trabalhador da saúde sofre violência, a consequência não fica restrita a ele. Ela chega ao paciente.

Pesquisas brasileiras já identificaram relação entre a violência sofrida por profissionais e aspectos do cuidado, como apoio, respeito, tempo dedicado ao paciente e comportamentos relacionados à segurança. Quando um enfermeiro entra no plantão com medo, todos perdem. Quando uma técnica de Enfermagem adoece e precisa se afastar, uma equipe que muitas vezes já trabalha no limite fica ainda mais sobrecarregada. Quando profissionais deixam determinados serviços por insegurança, a população também sofre as consequências.

Cria-se um ciclo perverso: o paciente enfrenta as deficiências da rede, transforma sua indignação em agressão contra quem está na ponta, o profissional adoece ou se afasta e o sistema fica ainda mais fragilizado.

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Quebrar esse ciclo exige mais do que notas de repúdio. É necessário melhorar a segurança das unidades, estabelecer protocolos para situações de ameaça e agressão, garantir o registro das ocorrências, oferecer apoio psicológico e jurídico às vítimas e responsabilizar quem ultrapassa os limites da cobrança legítima e pratica violência.

Ao mesmo tempo, precisamos enfrentar fatores que frequentemente alimentam situações de conflito: superlotação, demora excessiva, falta de profissionais e de informações para pacientes e familiares. Nada disso justifica uma agressão, mas melhorar as condições de atendimento também faz parte da prevenção.

O país começa a avançar na discussão sobre uma proteção legal maior aos trabalhadores da saúde, mas nenhuma legislação, isoladamente, resolverá o problema. É necessária uma mudança institucional e também cultural.

Durante minha experiência na Enfermagem e no Coren-MT, aprendi que proteger quem trabalha na saúde não significa colocar profissionais e pacientes em lados opostos.

Estamos do mesmo lado.

O paciente merece entrar em uma unidade e encontrar um atendimento digno. O profissional merece entrar no mesmo lugar sabendo que poderá exercer seu trabalho com respeito e segurança.

Uma saúde verdadeiramente humana precisa cuidar dos dois.

Porque ferir quem cuida é ferir a saúde de todos.

Bruna Santiago é a presidente licenciada do Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (Coren-MT)
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Agosto Dourado: amamentar também é cuidar da saúde bucal desde os primeiros dias

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Por Laura Magalhães

O Agosto Dourado convida a sociedade a enxergar o aleitamento materno como uma das práticas mais completas de promoção da saúde. Quando se fala em leite materno, costumam vir à mente os benefícios nutricionais e imunológicos. Pouco se comenta, porém, sobre o papel decisivo que a amamentação exerce na formação da boca, dos dentes e de toda a estrutura facial da criança. Para a odontologia, o ato de mamar é a primeira grande atividade que molda o desenvolvimento bucal.

Ao sugar o seio materno, o bebê mobiliza os músculos da face, da língua e da mandíbula de forma intensa e coordenada. Esse exercício natural estimula o crescimento adequado dos ossos da face, posiciona corretamente a língua, fortalece a musculatura orofacial e ensina o padrão correto de deglutição e de respiração nasal. Todos esses elementos são fundamentais para que os dentes nasçam alinhados e a arcada dentária se desenvolva sem alterações.

As evidências científicas mostram que crianças amamentadas no peito por períodos mais longos apresentam menor risco de desenvolver má oclusão, como mordida aberta, mordida cruzada e apinhamento dental, em comparação com aquelas que usam mamadeira e chupeta de forma prolongada. A explicação é simples: o padrão de sucção no seio materno é fisiológico e exige um trabalho muscular equilibrado, enquanto a mamadeira e a chupeta impõem à boca da criança um padrão artificial, capaz de deslocar dentes e comprometer o crescimento dos ossos da face.

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Amamentar também protege contra um dos problemas mais comuns da primeira infância: a cárie precoce, conhecida como cárie de mamadeira. O leite materno, sozinho, não causa cárie. O risco aparece quando o bebê adormece com mamadeira contendo leite adoçado, sucos ou outras bebidas açucaradas, que permanecem em contato com os dentes durante horas. Por isso, a recomendação é evitar a mamadeira noturna e nunca adoçar os líquidos oferecidos à criança.

Desde os primeiros dias, a higiene da boca do bebê deve fazer parte da rotina. Antes do nascimento dos dentes, a limpeza pode ser feita com uma gaze ou fralda limpa umedecida, massageando suavemente as gengivas após as mamadas. Com o aparecimento do primeiro dentinho, inicia-se a escovação com escova infantil e a quantidade de creme dental com flúor indicada para a idade, sempre sob orientação do profissional.

A primeira consulta ao cirurgião-dentista deve acontecer até o primeiro ano de vida, ou logo após a erupção do primeiro dente. Nessa visita, o profissional orienta a família sobre higiene, alimentação, hábitos e desenvolvimento bucal, e acompanha de perto a evolução da saúde oral da criança. O dentista é um aliado importante da amamentação: além de prevenir problemas, ele identifica precocemente dificuldades que possam interferir na sucção, como o frênulo lingual alterado, e indica o encaminhamento adequado.

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Neste Agosto Dourado, cabe reforçar que amamentar é muito mais do que nutrir. É proteger o sistema imunológico, estreitar o vínculo entre mãe e filho e, também, construir as bases de um sorriso saudável para a vida inteira. Cada mamada é um investimento silencioso na saúde bucal e geral da criança. Que a rede de apoio, formada pela família, pelos serviços de saúde e pela sociedade, garanta a toda mãe o direito de amamentar com informação, acolhimento e respeito.

Laura Magalhães é cirurgiã-dentista, com especialização em ortodontia

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