BRASIL E MUNDO
EUA detalham acordo com Venezuela que prevê concessão de campos de petróleo por 100 anos
Acordo envolve 17 campos com reservas estimadas em 65 bilhões de barris, o equivalente a 21% das reservas comprovadas da Venezuela
O governo dos Estados Unidos divulgou, nesta segunda-feira (31), novos detalhes do acordo firmado com a Venezuela para a exploração de parte das reservas de petróleo do país. Conforme a Casa Branca, a parceria prevê a concessão, por 100 anos, de 17 campos petrolíferos à North American Blue Energy Partners (Nabep), empresa privada com participação ligada ao Escritório de Capital Estratégico do Departamento de Guerra dos EUA.
Os campos incluídos no acordo possuem reservas estimadas em 65 bilhões de barris, o que corresponde a aproximadamente 21% das reservas comprovadas da Venezuela, calculadas em 303 bilhões de barris.
Segundo o governo norte-americano, a Nabep deverá oferecer ao Departamento de Estado dos EUA o direito de comprar, pelo custo de produção, 20% do petróleo extraído dos campos atuais e futuros que forem operados pela companhia. A medida teria como objetivo assegurar o abastecimento a preços reduzidos e contribuir para a recomposição da Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos.
O acordo também estabelece que o governo norte-americano terá preferência na compra dos 80% restantes da produção. A Casa Branca informou ainda que poderá vetar a nomeação de qualquer integrante do conselho de administração da empresa. A maioria dos membros deverá ser formada por cidadãos dos Estados Unidos, enquanto o contrato será submetido à legislação e à jurisdição dos tribunais norte-americanos.
Divergência sobre o prazo
As informações divulgadas por Washington divergem da versão apresentada pela presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Em pronunciamento anterior, ela afirmou que o acordo teria duração de 25 anos.
A governante venezuelana defendeu a parceria como uma oportunidade para recuperar a infraestrutura do setor energético e ampliar a produção de petróleo. Segundo Delcy, o entendimento poderá atrair US$ 100 bilhões em investimentos e gerar US$ 209 bilhões em impostos para o país ao longo de 25 anos.
“Ter recursos subterrâneos não basta. Precisamos de investimento, tecnologia, infraestrutura e capacidade produtiva para transformar essa riqueza em bem-estar para o nosso povo”, declarou.
O governo venezuelano estima elevar a produção nacional para 1,5 milhão de barris por dia, mais que o dobro do volume atual. Em julho, o país produziu cerca de 1,1 milhão de barris diários, de acordo com dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Entre 2005 e 2014, durante o período de maior produção da era chavista, a extração venezuelana variava entre 2,5 milhões e 3 milhões de barris por dia.
Atuação da Nabep
Com sede em Barbados, no Caribe, a Nabep possui unidades em Caracas, Maracaibo e Lechería. A empresa é comandada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt.
Em comunicado, a companhia afirmou que os investimentos realizados por ela, no valor de US$ 1 bilhão, fizeram a produção sob sua responsabilidade aumentar de 18 mil para 200 mil barris por dia. A empresa declarou que o crescimento a tornou a segunda maior produtora de petróleo da Venezuela em apenas dois anos.
Acordo ocorre em meio a pressão política
A parceria entre Caracas e Washington foi anunciada em um momento de forte tensão política na Venezuela. O país teve mudanças na legislação do petróleo aprovadas semanas após a retirada de Nicolás Maduro do poder por forças norte-americanas, segundo as informações que acompanham o acordo. As alterações permitiram que empresas privadas passassem a explorar reservas com maior autonomia. Antes, a participação privada era limitada à condição de sócia minoritária do Estado venezuelano.
A especialista em relações internacionais Thaís Batista, do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), avaliou que o contexto pode conferir ao acordo características neocoloniais. Para ela, a pressão militar e política dos Estados Unidos teria sido utilizada para promover mudanças no governo venezuelano, alterar leis e garantir vantagens econômicas.
O acordo também ocorre em meio à redução da oferta global de petróleo, atribuída aos impactos da guerra no Irã e ao fechamento do Estreito de Ormuz. A alta dos combustíveis nos Estados Unidos se tornou uma das principais críticas à administração do presidente Donald Trump, especialmente antes das eleições legislativas de novembro.
Especialista questiona condições
O especialista venezuelano Francisco Rodríguez, professor da Universidade de Denver, questionou a legalidade e os termos econômicos da concessão. Segundo ele, a legislação venezuelana determina que os campos de petróleo sejam oferecidos por meio de processos de licitação.
Rodríguez também destacou que o prazo de 100 anos seria duas vezes maior que o das concessões mais longas já realizadas na Venezuela desde o início da exploração petrolífera.
Embora tenha ressaltado que ainda são necessárias mais informações para uma avaliação definitiva, o especialista considerou reduzida a arrecadação prevista pelo governo venezuelano. Conforme seus cálculos, os valores anunciados equivaleriam a uma receita de aproximadamente US$ 3,22 por barril, percentual inferior ao de antigas concessões feitas no país.
Influência dos EUA na América Latina
A Casa Branca afirmou que o entendimento integra uma nova reafirmação da Doutrina Monroe, política histórica dos Estados Unidos para a América Latina. O governo norte-americano declarou que pretende retirar da Venezuela a influência de empresas russas, chinesas e cubanas.
Na avaliação de Thaís Batista, o acordo amplia a pressão dos Estados Unidos sobre os países latino-americanos e pode prejudicar projetos de integração regional. A especialista afirmou que a utilização da força para garantir interesses econômicos em um país vizinho do Brasil compromete iniciativas construídas ao longo dos últimos anos.
A divisão também alcançou os grupos ligados ao chavismo. A Frente Popular Anti-imperialista realizou protestos em Caracas com críticas à presença norte-americana e afirmou que a Venezuela não deveria se tornar uma colônia dos Estados Unidos.
O Movimento Revolucionário Tupamaro também condenou o acordo, argumentando que os investimentos estrangeiros não poderiam resultar na transferência do controle dos recursos naturais do país.
Em sentido contrário, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) apoiou a parceria como alternativa para reativar a economia. Maduro Guerra, filho de Nicolás Maduro, também defendeu a retomada dos investimentos norte-americanos no setor petrolífero, desde que baseada em condições de respeito mútuo entre os dois países.
BRASIL E MUNDO
UE descarta adiamento e confirma bloqueio às carnes brasileiras
A União Europeia não deve adiar o bloqueio às importações brasileiras de carnes e outros produtos de origem animal previsto para começar nesta quinta-feira (03.09). A confirmação foi dada nesta segunda-feira (31.08) pelo deputado irlandês Ciaran Mullooly, após reunião com representantes do gabinete do comissário europeu de Saúde e Bem-Estar Animal, Oliver Várhelyi.
Segundo Mullooly, a possibilidade de conceder autorizações individuais para determinadas regiões ou propriedades brasileiras também foi descartada. Com isso, as tentativas realizadas pelo Brasil nas últimas semanas para evitar a interrupção das vendas não conseguiram, até agora, alterar o cronograma europeu.
A restrição alcança carne bovina e de aves, ovos, mel, pescados e tripas, entre outros produtos de origem animal. A União Europeia retirou o Brasil da lista de países considerados aptos a atender às novas exigências sobre o uso de antimicrobianos, decisão anunciada em maio com aplicação prevista para 3 de setembro.
As regras europeias proíbem o uso de antimicrobianos para promover crescimento ou aumentar o rendimento dos animais e também impedem a utilização de medicamentos reservados ao tratamento de determinadas infecções humanas. Para exportar, o país fornecedor precisa oferecer garantias de que essas exigências são cumpridas ao longo da cadeia produtiva.
O presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), Isan Rezende (foto), avalia que a confirmação do bloqueio representa um problema comercial relevante, mas considera necessário separar as exigências técnicas europeias das críticas feitas por grupos políticos e representantes de produtores daquele continente.
“Uma coisa é a União Europeia estabelecer regras para o acesso ao seu mercado e exigir que o Brasil demonstre documentalmente que consegue cumpri-las. Outra completamente diferente é transformar essa discussão em julgamento sobre a qualidade da carne brasileira. O Brasil é um dos maiores fornecedores de proteína animal do mundo, atende mercados extremamente exigentes e possui sistemas oficiais de controle sanitário. Se existe uma deficiência na comprovação exigida pela Europa, ela precisa ser corrigida tecnicamente, e não transformada em argumento para desqualificar toda a nossa produção”, afirma.
A reação de Rezende ocorre depois de parlamentares irlandeses ampliarem as críticas ao produto brasileiro. O deputado Martin Kenny, porta-voz do Sinn Féin para agricultura e alimentos, chegou a defender a retirada de carnes brasileiras que já se encontram em circulação na Irlanda e classificou os produtos do País como inferiores aos produzidos localmente.
Para Rezende, declarações desse tipo mostram que a disputa ultrapassa a questão sanitária e ocorre em um ambiente de forte concorrência entre os produtores europeus e o agronegócio brasileiro.
“É impossível ignorar o componente comercial dessa discussão. O produtor europeu está submetido a custos elevados e vê o Brasil ampliar sua presença internacional com uma produção altamente competitiva. Isso não elimina a obrigação brasileira de cumprir as regras do mercado para o qual pretende vender, mas também não podemos aceitar que uma pendência regulatória seja utilizada para construir a imagem de que o alimento brasileiro é inseguro ou inferior. São coisas diferentes e precisam ser tratadas dessa forma”, diz o presidente do IA.
A Comissão Europeia já havia informado que o Brasil poderá retornar à lista de fornecedores autorizados quando conseguir demonstrar o cumprimento das exigências. O problema é que, para algumas cadeias, especialmente a bovina, a adequação pode demandar mais tempo porque envolve informações referentes ao histórico dos animais.
Mullooly afirmou que a Comissão Europeia também descartou uma alternativa que vinha sendo considerada nos bastidores: permitir que regiões, propriedades ou cadeias brasileiras que conseguissem demonstrar individualmente o cumprimento das regras continuassem exportando. Segundo o parlamentar, a autorização dependerá da situação do País perante as exigências europeias.
Rezende considera que esse é justamente o ponto que exige uma resposta rápida do governo e do setor produtivo.
“Agora não adianta discutir apenas se a decisão europeia é justa ou injusta. O Brasil precisa identificar exatamente quais garantias ainda não foram consideradas suficientes, estabelecer um cronograma para atender cada uma delas e negociar uma solução que permita recuperar o mercado no menor prazo possível. Cada mês de restrição representa espaço que pode ser ocupado por concorrentes e, depois que outro fornecedor conquista esse comprador, recuperar a posição custa muito mais”, afirma Isan.
O mercado europeu não é o maior destino em volume da carne brasileira, mas possui importância estratégica por comprar produtos de maior valor agregado e funcionar como referência sanitária para outros compradores internacionais. Em 2025, as exportações brasileiras de carnes bovina e de aves para o bloco movimentaram cerca de R$ 9,3 bilhões, considerando a conversão dos US$ 1,8 bilhão registrados no período pelo câmbio atual próximo de R$ 5,15.
A pressão política contra o produto brasileiro também ganhou força na Irlanda. Nesta segunda-feira, Kenny pediu ao governo irlandês esclarecimentos sobre o destino das carnes brasileiras importadas antes da entrada em vigor das novas regras e defendeu até mesmo o recolhimento desses produtos. A reivindicação do parlamentar, porém, não significa que a União Europeia tenha determinado um recall.
Pelas informações divulgadas por Mullooly após o contato com a Comissão Europeia, produtos que tenham deixado o Brasil antes da entrada em vigor da nova regra poderão ser tratados de maneira diferente dos novos embarques.
Para o Brasil, portanto, a discussão muda de fase nesta semana. Depois das tentativas de evitar a entrada em vigor da medida, a prioridade passa a ser demonstrar o atendimento às exigências europeias e reduzir o período de afastamento de um dos mercados mais rigorosos e valorizados para as proteínas animais brasileiras.
Fonte: Pensar Agro
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