PESQUISA
Datafolha mostra que brasileiro tem visão distorcida do que seja a pobreza
Pesquisa Datafolha realizada nos dias 17 e 18 de junho mostra que 40% dos entrevistados têm uma visão distorcida sobre as reais causas da pobreza no país, atribuindo à “preguiça de pessoas que não querem trabalhar”; 58% apontam a falta de oportunidades como principal explicação.
O resultado representa uma inversão de valores e revela o avanço de uma leitura pregada pelas elites que jogada o problema nas costas das classes menos privilegiadas, em vez de apontar para os problemas reais do país, como a precariedade dos salários e a desigualdade na distribuição da renda, já que o Brasil registra hoje níveis recordes de ocupação, mas ainda mantém milhões de trabalhadores na base da pirâmide social.
A pesquisa também mostra que a distorção dessa visão vem se acentuando: o percentual dos que responsabilizam a suposta falta de disposição para o trabalho praticamente dobrou desde 2022, quando era de 22%. No mesmo período, caiu de 76% para 58% o grupo que relaciona a pobreza à ausência de oportunidades iguais para todos.
É o maior índice já registrado pelo instituto para a associação entre pobreza e preguiça desde o início da série histórica. Em 2013, esse percentual era de 32%; em 2014, de 37%; caiu para 21% em 2017 e permaneceu em 22% em 2022 antes da alta observada neste ano.
Os dados também revelam diferenças significativas entre segmentos da população. Entre empresários, 56% afirmam que a pobreza decorre da preguiça, enquanto entre funcionários públicos esse índice é de 28%.
A distância entre gerações também chama atenção. Apenas 22% dos jovens de 16 a 24 anos atribuem a pobreza à falta de disposição para trabalhar. Entre pessoas com 60 anos ou mais, o percentual sobe para 49%, empatando com os que apontam a falta de oportunidades.
Embora a pesquisa não investigue as razões para essa mudança de percepção, especialistas em desigualdade social observam que a maneira como a população explica a pobreza influencia diretamente o apoio a políticas públicas.
Quanto maior a crença de que a condição econômica decorre principalmente de escolhas individuais, menor tende a ser o respaldo a programas de transferência de renda e outras políticas de combate às desigualdades.
Em sentido oposto, quando a pobreza é compreendida como resultado de fatores estruturais — como renda, escolaridade, mercado de trabalho, origem social e acesso desigual a oportunidades —, cresce o apoio a iniciativas de inclusão.
Pesquisadores também apontam que a percepção sobre a pobreza é moldada não apenas pela experiência econômica, mas pelo ambiente político e pelo debate público.
Nos últimos anos, discursos difundidos por lideranças políticas de extrema direita, principalmente por meio das redes sociais, passaram a enfatizar a responsabilidade individual pelo sucesso ou fracasso econômico, enquanto fatores históricos e estruturais da desigualdade perderam espaço no debate.
A pesquisa Datafolha ouviu 2.004 pessoas em 139 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-09956/2026.
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