cotidiano
A vida, como seo Dito Verde sabe vivê-la!
Pantaneiro de quase 80 anos mostra disposição, canta e encanta turistas. Depois de seis casamentos e 13 filhos, Benedito Alves da Silva revela o segredo da vitalidade
Rui Matos
Benedito Alves, seo Dito Verde
Viver de papo pro ar, namorando, admirando a lua no céu e percebendo sons, cores e aromas silvestres quando o sol já se esconde nas nuvens de barriga avermelhada é privilégio de poucos. Benedito Alves da Silva, possivelmente nascido em 1938 – já que a memória não está tão boa – é um dos poucos mato-grossenses a contar com essa rotina diária. E não é pra menos. Seo Dito Verde, como é conhecido no Pantanal de Poconé, é o único morador da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sesc Pantanal, de propriedade do Serviço Social do Comércio (Sesc). Na verdade, divide a morada no santuário aguado com onças, porcos do mato, capivaras, pacas, antas, jacarés, sucuris, araras, periquitos e tuiuiús. Enfim, uma gama inimaginável de espécies da fauna e da flora do universo aguado.
Seo Dito, que nasceu na Comunidade Porto São Luiz, no vizinho município de Barão de Melgaço, não se recorda muito do ano em que nasceu, no entanto, nem se preocupa em relembrar o ingrediente da sua vitalidade. Depois de seis casamentos e 13 filhos, o experiente pantaneiro diz que ainda tem energia para se casar de novo e, ainda, ter outros filhos. O segredo? Daqui a pouco ele mesmo conta.
Rui Matos
Casa de taipa, quintal com laranjeiras e poesia
Benedito acorda cedo pra pescar. Zinga rio acima num velho cocho que ainda resiste à correnteza do majestoso Cuiabá. Fisga apenas o que vai comer no dia. Ora dorme na rede. Ora descansa numa cama colocada no centro da pequena casa de taipa que fez com as próprias mãos quando ainda tinha 15 anos. “Barreei toda essa parede com terra de formigueiro”, conta, olhando para as mãos espalmadas. Ajeitando na cabeça o chapéu de palha de carandá, mostra, fazendo bico com a boca, uma rodilha de cipó vermelho pendurada nos fundos da choupana que exala cheiro de barro envelhecido. “É com isso que eu amarro tudo por aqui. É a nossa corda”, completa, dedilhando a viola de cocho. Nos arredores, uma cobertura de palha de bacuri com sapê protege o fogão à lenha, lascas de angico maturado e algumas panelas enfumaçadas. O cenário é pura poesia.
As aves repousavam à sombra, escapulindo do calor que fazia a camisa do pantaneiro colar nas costas pelo suor que brotava. Era o momento de ouvir apenas o som do instrumento típico e a voz do homem que escolheu àquele paraíso como morada. A concessão para que ficasse ali foi feita pelo Sesc, que se orgulha de tê-lo como parceiro na guarda de um canto onde a presença humana só é permitida aos pesquisadores credenciados e fiscais ambientais. Também, por reconhecer que sem o homem pantaneiro não há o Pantanal. Nas canções de cururu, seo Dito canta sobre essa cumplicidade e sobre um Mato Grosso que não existe mais. Fala, em suas composições, de cidades como Miranda, Corumbá e Porto Murtinho. Hoje, pertencem a Mato Grosso do Sul por conta da divisão territorial nos idos de 1970. Para ele, não importa. É tudo Mato Grosso. Ou, quem sabe, é tudo Pantanal. O seu Mundo é ali. Vive e sonha.
Rui Matos
Pelo corricho, a velha canoa chega ao Rio Cuiabá
Só deixa de ser Benedito, para ser seo Dito Verde. Isso acontece quando o barco do Hotel Sesc Porto Cercado chega para buscá-lo numa curva de rio, próxima ao corricho que desemboca na porta da casa. É só de vez em quando, mas, sai feliz com a sua inseparável viola de cocho debaixo do braço. Diante dos turistas, vira personalidade e ainda ganha um reforço na aposentadoria. Canta, toca, declama histórias sobre a vida pantaneira, boiadas, encontros com onças e até sobre assombração. Com tanto carisma, já foi até destaque na revista Caras e no JB (Jornal do Brasil). Se alguém duvidar, seo Dito logo mostra os recortes com as reportagens penduradas na parede. Gosta, mais ainda, é de debulhar as fotografias que recebe com dedicatórias de turistas estrangeiros. “Esse povo todo gosta de mim”, diz com um riso largo, de orelha a orelha.
Rui Matos
Cururu e canção nostálgica de um Mato Grosso antigo
No Hotel Sesc Porto Cercado, seo Dito conheceu o luxo dos quartos, os mistérios de um Spá em pleno Pantanal, o conforto da piscina a céu berto ou coberta, dois restaurantes com seus pratos inusitados que misturam o sofisticado gosto internacional aos temperos regionais, borboletário, entre outros tantos prazeres. Mesmo assim, dorme confortavelmente em seu rancho e aprecia uma iguaria vinda diretamente do Rio Cuiabá. Nunca abandonou as origens, apesar da tentação.
Quanto ao segredo da vitalidade, nem é tão segredo assim. A alimentação do velho pantaneiro é baseada em carne e caldo de piranha, espécie abundante no Pantanal. Para reforçar, o guaraná ralado completa o menu com duas doses diárias. “Como só piranha”, brinca, dando uma gargalhada de virar a cabeça para trás. Seo Dito Verde encanta e não há quem não sinta saudade após conhecê-lo. Apesar de solitário, vive cercado de carinho e ensina como mestre. Contagiadas, até as moitas de primavera lilás abraçam os pés de laranja que sombreiam o quintal. As ex-esposas estão vivas para confirmar a história.
Veja vídeo com o pantaneiro revelando segredos
A RPPN
A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sesc Pantanal, de 107.996 hectares, correspondendo a quase 1% da extensão total do pantanal mato-grossense, está localizada entre os paralelos 16° 28’ e 16° 50’ de latitude Sul e 56° e 56° 30’ de longitude Oeste no município de Barão de Melgaço. Na estação, seca via terrestre a partir de Cuiabá, o deslocamento é pela rodovia MT-040 até o município de Santo Antônio de Leverger, em seguida pela MT-070 até o Distrito de Mimoso (município de Barão de Melgaço) (Estrada Parque Santo Antônio de Leverger – Porto de Fora) e pela MT-455 até o Distrito de São Pedro de Joselândia (percurso terrestre total de aproximadamente 170 quilômetros). A RPPN Sesc Pantanal nasceu como a maior do Brasil, que, de antigas fazendas de gado desativadas, fez ressurgir árvores exuberantes, solo fértil e uma fauna bela e diversa. Ali também nasceu uma lenda: seo Dito Verde.
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cotidiano
Professor José Bento comemora 65 anos de vida e quatro décadas no ensino
Por João Arruda
O professor José Bento de Arruda (65), que leciona na rede pública estadual de ensino em Três Lagoas – a 340 quilômetros a leste de Campo Grande –, reuniu neste sábado (21.03) para festejar seus 65 anos, sendo mais de quatro décadas atuando na cadeira de Educação Física.
Nascido em Corumbá, onde fez seus estudos iniciais. Sua formação superior foi na cidade de Andradina, no Noroeste Paulista, de onde riscava o horizonte nos trilhos da ferrovia Noroeste do Brasil, entre Andradina e Corumbá, nos solavancos do trem por intermináveis horas, com a paisagem exuberante do Pantanal Sul-Mato-Grossense.
Com o tempo, José Bento de Arruda firmou-se como um dos expoentes na rede pública de ensino do Mato Grosso do Sul.
A demonstração de seu carisma ficou evidenciada na comemoração do seu aniversário, que arrastou uma multidão à sede social recreativa da Sanesul.
Parentes, amigos de infância e companheiros de profissão, tanto de Três Lagoas quanto de outras cidades, deslocaram-se para prestigiá-lo.
O padre João Marcos de Almeida Molina esteve presente à celebração e citou trechos da carta do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses, enfocando o conhecimento e o temor cristão.
Enquanto isso, o pastor Batista José Roberto, também presente, destacou os ensinamentos contidos no livro dos Hebreus, no Novo Testamento.
José Bento ofertou aos convidados um churrasco típico pantaneiro, num clima de muita alegria e diversão.
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