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HISTÓRIA

José Benedito Canellas: A ponte de duas margens

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Senador José Benedito Canellas

Por João Carlos Vicente Ferreira

Há nomes que chegam ao mapa político como rios, nascem discretos, tomam fôlego nos barrancos, e de repente são caminho, abastecimento, fronteira e travessia. José Benedito Canellas foi desses. Paulista de São Manuel, nascido em 3 de outubro de 1938, filho de Alberto Luís e Hercília, ele desembarcou no Oeste de Mato Grosso quando a palavra “fronteira” tinha cheiro de estrada vermelha e promessas recém-assinadas. Levou consigo o sotaque do interior de São Paulo e devolveu à terra adotiva a certeza de que a política, quando sabe ouvir o rumor das pontes e dos portos, também é ofício de engenheiro: mede vãos, calcula forças, estabiliza o terreno.

Dizem os afluentes da memória, e as atas, igualmente, que ele começou como técnico em colonização e em integração rodoviária, num Brasil que abria clareiras com enxada e decretos. Em Cáceres, em 1965, pediu licença para entrar pela porta mais estreita da política, a vereança, onde cada voto tem a face e a queixa do vizinho. Dali, ergueu degrau por degrau. Foi deputado estadual (1971–1975), deputado federal (1975–1979) e senador da República (1979–1987), sempre por Mato Grosso, no período em que o Estado ainda assentava as suas linhas de força depois da divisão que pariu Mato Grosso do Sul, divisão cujo eco atravessou seu mandato.

No plenário, Canellas falava como quem desenha mapas no ar. Era homem de comissões: Agricultura e Política Rural, Minas e Energia, Saúde e Legislação Social; e de lideranças também: no princípio, ARENA; depois, PDS; mais tarde, PFL, porque a política também é uma estrada de curvas, e ninguém chega ao fim sem ter mudado de marcha. Foi líder na Assembleia de Mato Grosso e, na Câmara, tratou de assuntos de quem sabe que a economia da terra começa na enxurrada e termina no porto.

Mas para entendê-lo por inteiro é preciso escutá-lo como ponteiro de relógio que aponta duas margens. Uma, Mato Grosso, onde estava a origem eleitoral, a mesa de trabalho, o lastro. Outra, Mato Grosso do Sul, recém-nascido institucionalmente, mas já com voz e ambição. O jornalista Onofre Ribeiro escreveu que, por amizade e por agenda de desenvolvimento, Canellas dividiu seu esforço parlamentar entre os dois Estados, notadamente no diálogo e na articulação com Pedro Pedrossian, figura-síntese de Mato Grosso do Sul, por escolas, obras e estradas. Isso quer dizer recursos, emendas, telefonemas de madrugada, o fio que liga ministérios a prefeitos, gabinetes a obras de drenagem, o asfalto ao escoamento da safra.

Se a política é o lugar onde promessas viram concreto, Canellas deixou traços nítidos no repertório da infraestrutura. Ainda deputado, publicou e empurrou adiante um “Plano de Desenvolvimento Integrado do Alto Guaporé–Jauru”, um texto técnico de 1976, que tinha, nas entrelinhas, o credo de toda vocação interiorana: articular estradas, colonizar com método, amarrar economia e geografia para que o progresso não estourasse como enchente, mas avançasse como irrigação.

O empresário de chão batido

Empresário, proprietário rural, viajante: assim o singulariza o cadastro do Senado. Empresário, aqui, não é o que tem sala com tapete grosso e elevador privativo. É o que conhece o preço do frete e o nome do gerente da agência do Banco do Brasil; é o que sabe que uma ponte salva o lucro de uma safra inteira; é o que entende que a política, sem cronograma e planilha, vira retórica de salão. Canellas fazia as contas e fazia as pontes no parlamento e nos quilômetros de BR e MT que, aos poucos, foram desenhando o mapa da produção no Oeste.

No trato com prefeitos, havia um método: primeiro ouvir, depois medir, por fim ligar. O telefone, nesse tempo, era aparelho de puxar verbas. Os prefeitos chamavam-no “senador da estrada”, não por epíteto oficial, mas por hábito de linguagem; e se algum cronista não o disse, a memória popular o registrou em histórias de gabinete. Uma ponte liberada em Jauru, um convênio para um trecho da BR-163, um custeio de hospital em cidades limítrofes, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul tinham, ali, um despachante de alto nível. Em certas ocasiões, o senador mais parecia topógrafo: não se limitava a pedir; mostrava no mapa onde o orçamento federal podia render mais, travando batalhas milimétricas no labirinto ministerial.

Esse entusiasmo pela infraestrutura retornou como homenagem póstuma. Em 2019, o Senado aprovou projeto, depois remetido à Câmara, para denominar “Rodovia Senador Benedito Canellas” o trecho da BR-070, entre o rodoanel de Cuiabá e a fronteira Brasil-Bolívia, sinal de que a obra de ligar pontos distantes acaba, cedo ou tarde, ligando o nome do homem à estrada que ele ajudou a forçar.

Mato Grosso do Sul: o outro lado da ponte

Há políticos que são do lugar onde nasceram; outros são do lugar onde venceram; Canellas foi do lugar onde precisaram dele. Ao longo dos anos 1970 e 1980, quando Mato Grosso do Sul precisava de quem conhecesse Brasília por dentro, ele se fez útil. A imprensa de Cuiabá registrou mais de uma vez essa vocação bifronte: “dividiu seu esforço parlamentar entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul”, anotou Onofre Ribeiro, e a frase não é metáfora ociosa, tinha o peso de repasses, de programas federais que alcançavam o Sul, de emendas construídas no corpo a corpo das comissões. A amizade com Pedrossian era mais do que fotografia ao lado; era engenharia política de longo curso.

Em MS, o quantificável se perde no tempo, e a hemeroteca ainda esconde detalhes em páginas amareladas, mas o qualificado persiste: a imagem do senador que atendia prefeitos sul-mato-grossenses; a defesa de ligações viárias que encurtavam distâncias entre municípios de fronteira; a atenção aos temas de educação e saúde em um Estado que crescia em população, escolas e hospitais, precisando de um padrinho em Brasília. A economia real mede assim seus benfeitores: no tempo de viagem que diminui, na ambulância que chega, e na saca de milho que encontra estrada.

Um estilo de fazer política

No microfone, Canellas preferia a clareza do argumento às luzes do palco. Discursava com o mapa do país em segundo plano. Não era tribuno de feira, nem orador de garganta; era homem de relatório, de voto em comissão e, quando necessário, de liderança da base. Talvez por isso tenha colecionado, ao longo de décadas, homenagens nem sempre midiáticas, mas de alto quilate: do “Mérito Rondon” às ordens do Ipiranga, da Aeronáutica, do Congresso Nacional e do Estado de Mato Grosso. Diplomas que, somados, dizem o que as paredes do gabinete sabiam: o senador tinha trânsito, e o trânsito, na política, é o outro nome da eficácia.

No repertório escrito, deixou peças de atuação parlamentar e aquele plano regional do Guaporé–Jauru que, hoje, ajuda a enxergar a coerência de sua carreira: o desenvolvimento como vereda de muitas mãos – prefeitura, Estado, União, produtores, comércio – e como combate aos latifúndios da distância.

A morte e a permanência

Na madrugada de 1º de janeiro de 2016, quando o calendário troca de pele, Canellas partiu em silêncio, vítima de infarto, em sua casa, em Cuiabá. Tinha 76/77 anos, conforme variaram as primeiras notas; a informação consolidada foi de morte por infarto, velório na Dom Bosco, sepultamento no dia seguinte. Mais do que o detalhe fúnebre, as notas lembravam o itinerário público: vereador, deputado, senador, consultor na maturidade. A vida inteira com o ouvido encostado no motor do desenvolvimento regional.

A memória social escolhe suas âncoras. No caso dele, ficou a figura do “líder político do passado” que, em vez de se recolher, continuou a circular, a aconselhar, a traduzir para a nova geração o latim das repartições. Ficou também o lastro de família e de município, Cáceres, onde o primeiro mandato o batizou como homem público, e de regiões inteiras, como o Sul do novo Estado, que o reconheceu como interlocutor.

O homem por dentro da biografia

Convém dizer que o político não se entende apenas por siglas e votações. Há sempre um “nó de carreira” que sustenta a personalidade pública: em Canellas, o nó era a cruzeta da infraestrutura com a economia do cotidiano. Na prática, isso significou perceber o Brasil de dentro, o Brasil que depende da ponte para chegar ao parto, que precisa da estrada para pôr o feijão no mercado, que mede o presente pelo preço do diesel. Sendo empresário e proprietário rural, ele conhecia as rugas do sistema: sabia o que era perder uma safra por falta de bueiro, sabia o quanto custa um dia de estrada parada. Por isso falava com gravidade quando o assunto era orçamento de transportes, ou quando alguém lhe pedia atenção para um trecho da BR-070: não era apenas um ramal; era a coluna vertebral do escoamento.

Na cultura política do Centro-Oeste, onde a colonização econômica dos anos 1960 e 1970 redesenhou cidades e vocações, figuras como Canellas foram tradutores. Traduziram às pressas da fronteira para a lerdeza de Brasília; traduziram o latifúndio da esperança em capítulos de lei, em ofícios, em audiências. O que se colheu disso? Estradas com menos barro, escolas com mais carteiras, hospitais com mais leitos. E, sobretudo, a certeza de que a política não é ofício de santos, é ofício de insistentes.

Um louvor necessário

É motivo justo enaltecer Canellas, e não apenas por ter escalado todos os degraus da representação. É justo por ter compreendido que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ainda quando separados por decreto e por história, continuariam ligados por interesses geográficos e econômicos. Um senador pode ser, às vezes, um embaixador de duas margens. Ele o foi. Trabalhou como quem aceita que o mapa não acaba no traço da Assembleia Constituinte: continua pelos rios, pelas rotas de boi e soja, pelas urgências municipais que falam todos os sotaques. A homenagem rodoviária de 2019 diz isso no concreto: dar o nome de “Senador Benedito Canellas” a um trecho da BR-070 é reconhecer que o homem foi atalho, travessia e pavimento.

Epílogo com cheiro de terra molhada

A cena final não tem clarins: é 1º de janeiro, feriado de promessas, e o noticiário local anuncia: “Infarto mata ex-senador de MT”. Fica a notícia, passa o jornal. O que não passa é o que se repete sem alarde: o caminhão que cruza a ponte, a ambulância que chega cinco minutos mais cedo, o ônibus escolar que não atola na curva. A política, a boa política, tem esse pudor: esconde-se no cotidiano.

Se alguém perguntar quem foi José Benedito Canellas, a resposta pode vir simples, como convém aos homens que serviram: foi o senador-ponte. Começou em Cáceres, atravessou a Assembleia, a Câmara e o Senado; transitou por governos e siglas sem nunca perder a bússola do desenvolvimento; repartiu seus esforços entre o velho e o novo Mato Grosso, como quem sabe que a geografia manda mais que o calendário; deixou escritos e planos, condecorações e histórias, e por fim ganhou a estrada com seu nome, onde todo dia alguém apressa o futuro.

*João Carlos Vicente Ferreira é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Brasileira de Belas Artes, dentre outras instituições.

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HISTÓRIA

O voo que partiu um Estado ao meio

Publicados

em

Governador Garcia Neto (a esquerda), presidente Ernesto Geisel, cumprimentando o secretário Edmundo Taques

Por João Carlos Vicente Ferreira

Uma história suspensa entre Campo Grande e Aquidauana, narrada pelo último olhar que a testemunhou.

Há acontecimentos que não cabem nos livros de história porque não foram feitos de decretos, e sim de silêncios. Não nasceram de discursos públicos, mas de frases murmuradas num corredor, num gabinete ou, como neste caso, dentro de um avião bimotor, subindo lentamente sobre os telhados de Campo Grande, no início luminoso de 1977. Há fatos que mudam o mapa do país como se mudam móveis de lugar, empurra-se aqui, desloca-se ali, e de repente o espaço nunca mais é o mesmo. A divisão de Mato Grosso é um desses fatos.

Parece história encerrada, tema antigo, assunto esgotado. Mas quem vive no coração do Brasil sabe que esse é um daqueles episódios que não se deitam no passado, pois eles continuam vivos, respirando debaixo da terra, surgindo em conversas de bar, reuniões políticas, salas de aula e lembranças familiares.

Quantas vezes, ainda hoje, alguém pergunta, às vezes em tom de provocação, às vezes de pura saudade:

“E se não tivesse dividido? Você imagina o tamanho que seríamos?”

Foi pensando nesse “e se” que, há algumas semanas, sentei-me diante de Edmundo da Silva Taques, engenheiro agrônomo, 89 anos, olhos vivos de quem sabe que carrega na memória um fragmento da história que só ele pode contar. E Edmundo abriu a porta do tempo, deixando que o vento de 1977 entrasse pela sala, carregando com ele o ronco das hélices de um avião, as tensões de uma conversa, o peso de uma decisão.

Porque ele não ouviu dizer. Ele estava lá.

E é a partir desse olhar, desse corpo presente, que esta narrativa se alonga.

Para entender a força daquele voo de 1977, é preciso regressar um pouco mais, e olhar o Mato Grosso anterior: era Mato Grosso indiviso, monumental, quase mítico em sua extensão. Um território que desafiava governantes, logísticas e imaginações. Cuiabá, a capital, era um centro político cercado de rios, serras, chapadões e distâncias intransponíveis. Era governar o vazio, o remoto, o possível e o impossível ao mesmo tempo.

O sul do estado, onde hoje se ergue Mato Grosso do Sul, crescia com vida própria. Campo Grande tornava-se uma cidade dinâmica, cheia de militares, engenheiros, produtores, comerciantes, e cada qual com um sonho distinto para a região. A economia corria mais rápido ali. As estradas e os trilhos chegavam primeiro ali. Os investimentos federais preferiam ali.

Mas, apesar disso, havia um sentimento de pertencimento. Campo Grande, como Corumbá, Ponta Porã, Dourados, era Mato Grosso por inteiro, e Mato Grosso era tudo isso junto.

No entanto, essa dobradiça histórica tinha seus rangidos:

  • A distância entre Campo Grande e Cuiabá era longa demais para que as decisões corressem com naturalidade.
  • A expansão agropecuária transformava radicalmente o sul.
  • O norte ainda crescia a passos irregulares.
  • O Governo Federal enxergava, no grande Mato Grosso, tanto potencial quanto riscos geopolíticos.

Era um estado unido no sentimento — mas tensionado pela geografia.

Foi nesse cenário que o jovem secretário de Agricultura, Edmundo Taques, pessoa certa no lugar certo, ajudava a conduzir a transformação agrícola de Mato Grosso, que redundou no exitoso agronegócio da contemporaneidade.

Edmundo tinha uma vantagem que poucos possuíam: era amigo pessoal do ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, desde os tempos de Lavras. E Paulinelli, por sua vez, era um dos grandes visionários da agricultura tropical no Brasil, talvez o maior de todos.

A década de 1970 marcava o início da epopeia que transformaria Cerrados, até então considerados improdutivos, em uma das regiões agrícolas mais importantes do mundo. Embrapa, Cerrado, pesquisa científica, adaptação de sementes, tudo fervilhava num país que aprendia a crescer para dentro.

E Mato Grosso, com sua vastidão, era o palco ideal.

As safras de arroz de sequeiro, colhidas nas regiões de Diamantino e Araguaia, surpreendiam até os mais otimistas. A produtividade superava expectativas e, pela primeira vez, Mato Grosso ultrapassava o Rio Grande do Sul, então referência absoluta em arroz.

Esse feito não era apenas estatístico. Era um sinal. Era o aviso de que algo enorme estava prestes a acontecer. Garcia via isso com clareza. Para ele, dividir o estado naquele momento seria como cortar uma árvore no instante em que ela começa a crescer.

A visita presidencial

E então aconteceu: o presidente Ernesto Geisel decidiu visitar Campo Grande. O Planalto avisou o governador Garcia Neto, que organizou tudo com precisão e respeito. Não era apenas uma visita, era uma oportunidade de conversar, de influenciar, de tentar, ainda que tardiamente, impedir o que muitos já cochichavam em Brasília.

Garcia chamou seu secretário Edmundo e juntos partiram de Cuiabá num bimotor simples, de oito lugares, desses que se equilibram mais nos cálculos do piloto do que na tecnologia embarcada.

A recepção em Campo Grande foi calorosa. Autoridades, militares, estudantes, políticos, todo o aparato protocolar. Assinaturas de convênios, apertos de mão, discursos que começam e terminam do mesmo jeito.

E então veio o inesperado, esse tipo de movimento do destino que não se explica.

Geisel queria visitar Aquidauana, rever o ex-governador José Fragelli, amigo de décadas. Seu próprio avião não pousaria lá. Mas o do governador, por consulta do presidente, sim.

E Garcia, sem hesitar, ofereceu a aeronave.

A cena parece simples, mas naquele instante começou a se tecer uma das conversas mais importantes da história sul-mato-grossense.

Assim subiram:

  1. o piloto
  2. o copiloto
  3. o ajudante-de-ordens
  4. o presidente
  5. o governador
  6. e o secretário Edmundo

Seis homens dentro de um avião estreito, rumando para uma cidade pacata do interior, mas carregando na cabine o peso de uma decisão que mudaria o país.

O avião decolou, rasgou os últimos telhados de Campo Grande, passou sobre bairros que ainda hoje guardam aquele mesmo desenho irregular de ruas, e começou a ganhar altitude.

Foi então, naquele instante suspenso entre o chão e o céu, que o governador Garcia se moveu no assento, respirou fundo, e chamou o presidente para perto.

O diálogo que se seguiu é um documento histórico que só Edmundo pode nos entregar.

A voz de Garcia não era agressiva. Era firme, carregada de esperança e de receio ao mesmo tempo.

— Presidente, o senhor precisa atender ao clamor do povo de Mato Grosso e não dividir o nosso Estado.

Geisel olhou. Esperou.

— O senhor sabia que ultrapassamos o Rio Grande do Sul na produção de arroz? Veja o Araguaia, veja Diamantino…

“Se continuarmos assim, seremos um dos estados mais importantes do país.”

E então veio a pergunta que não era só pergunta, era súplica, era alerta, era sonho:

— Então por que o senhor quer dividir o estado?

Edmundo, sentado atrás, segurou o ar. Ele sabia que estava diante de um instante que não se repetiria jamais.

A resposta veio como um golpe rápido:

— Por isso mesmo.

Três palavras que partiram o estado ao meio.

Geisel, percebendo a gravidade do silêncio que se instalou, completou:

— O governo federal possui estudos científicos. Mato Grosso está entre as regiões de maior potencial de crescimento do Brasil. Não posso ter um estado tão grande e tão forte ao ponto de, futuramente, querer se emancipar.

Não era uma acusação. Era a lógica política dos militares: prevenir possíveis separatismos, evitar concentrações de poder, manter o país coeso.

Geisel citou São Paulo, citou Rio Grande do Sul, lembrou movimentos históricos de tensão entre estados e União. E concluiu:

— A divisão é uma medida estratégica.

Não houve mais debate. Não houve negociação.

O destino já estava decidido.

O avião pousou suavemente em Aquidauana. A cidade nem imaginava que, horas antes, um diálogo secreto selara a divisão de um dos maiores estados do Brasil.

Geisel reencontrou José Fragelli, reviveram memórias de quando o futuro ainda parecia uma estrada aberta, conversaram como velhos amigos que a política separa e o respeito junta.

A tarde correu tranquila, quase banal. E, no entanto, era histórica.

Ao retornarem, nada mais foi dito sobre o tema.

Mas o silêncio confirmava o inevitável.

Poucos meses depois, a Lei Complementar nº 31 criou oficialmente o Estado de Mato Grosso do Sul.

A implantação se daria em 1º de janeiro de 1979.

Um novo estado surgia.

Outro permanecia.

E nada voltaria a ser como antes.

O que se perdeu, o que se ganhou

A divisão trouxe:

  • orgulho para uns
  • mágoa para outros
  • e surpresa para quase todos

Os sulistas finalmente teriam uma capital próxima, dinâmica, voltada para seus interesses.

Os nortistas perderiam parte importante de sua extensão, mas manteriam sua identidade histórica e cultural.

E ambos seguiriam crescendo, talvez até mais do que se unidos estivessem.

Hoje, quando observamos os dois estados, vemos:

  • dois colossos agrícolas
  • duas economias pujantes
  • duas identidades fortes
  • dois orgulhos legítimos
  • duas histórias que são uma só

E ainda assim, permanece no ar, como um eco daquele voo, a eterna pergunta:

E se não tivesse dividido?

Dos seis homens daquele voo, pelo menos a metade já partiu.

Geisel morreu. Garcia morreu. O ajudante-de-ordem tornou-se general e depois também se foi. Os pilotos, não se sabe deles; possivelmente, já não estão mais entre nós.

Resta Edmundo, guardião da memória, último farol daquele instante de 1977.

Quando ele narra, não o faz com vaidade. Narra como quem devolve ao povo uma história que o povo nunca soube. Narra com a humildade de quem carregou por décadas um segredo que não era seu, mas que foi depositado em seus ouvidos porque a vida o colocou no assento certo, no voo certo, na hora exata.

Hoje, quase cinquenta anos depois daquele diálogo, os dois Mato Grosso se olham com respeito, e até com carinho. Há rivalidades esportivas, disputas econômicas, comparações inevitáveis. Mas há também uma fraternidade silenciosa, herdada de séculos de história comum.

Geisel estava certo?

Garcia estava certo?

Essa é a pergunta que ninguém responderá por completo.

Porque a história não é tribunal, é rio.

E rios seguem cursos que nem sempre escolhem.

Assim também foi o Estado de Mato Grosso.

Assim também nasceu Mato Grosso do Sul.

Apenas uma certeza permanece: aquele voo de pouco menos de 90 quilômetros modificou para sempre o mapa do Brasil.

E quem contou essa história pela primeira vez, quem a guardou por tanto tempo, foi Edmundo da Silva Taques, o homem que, sem querer, se tornou guardião de um dos diálogos mais decisivos que o Cerrado já ouviu.

Um estado pode não caber inteiro na terra.

Mas um destino inteiro pode caber dentro de um avião.

*João Carlos Vicente Ferreira é escritor, membro da Academia Mato-Grossense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, da Academia Brasileira de Belas Artes, dentre outras instituições.

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