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O silêncio do eleitor vai gritar o quê nas urnas?
Por Andhressa Sawaris Barboza
Nas redes, a eleição em Mato Grosso ferve. Nas ruas, parece fria. Esse contraste não significa que o eleitor esteja indiferente. Talvez ele apenas tenha descoberto que, num ambiente polarizado, dizer o que pensa pode custar mais do que ouvir em silêncio.
A disputa pelo governo, pelas duas vagas no Senado e pelas cadeiras de deputado federal e estadual deveria abrir uma conversa sobre escolhas. Mas o debate público tem perdido espaço para a disputa de impressões. Chapas mudam de composição, nomes citados em investigações passam a ocupar suplências, quando surgem perguntas sobre os critérios da escolha, a resposta é frequentemente que tudo não passa de ataque eleitoral. Questionar não é condenar. Também não deveria ser proibido perguntar.
Quando o debate se esvazia, o vídeo editado costuma ocupar seu lugar com admirável pontualidade. Nele, a pergunta inconveniente pode ficar de fora, a resposta ganha música, legenda e um corte no momento exato. O adversário não replica, o contexto não cabe na tela e a dúvida vira prova de deslealdade. O vídeo não é o problema, ele pode informar muito bem. O problema é quando o recorte passa a valer mais que a conversa inteira e quando uma campanha chama de “verdade” apenas o trecho que sobreviveu à edição.
A comunicação política sabe produzir sentimento. O ressentimento é particularmente útil, ele transforma uma frustração real em desconfiança permanente de quem pensa diferente. Uma verdade incômoda sobre o candidato preferido vira “armação”; uma suspeita sobre o adversário vira condenação instantânea. Assim, a política pede convicção, mas oferece pouco espaço para examinar os fatos. Para um estado que escolherá governador, senadores e deputados, é uma economia de debate cara demais.
A polarização também recomenda cautela com as pesquisas. Em Cuiabá, na véspera do primeiro turno de 2024, a Quaest registrou Eduardo Botelho numericamente à frente, com 36% dos votos válidos. Ele terminou em terceiro e não chegou ao segundo turno. Isso não prova que alguém escondeu seu voto nem que a polarização causou o resultado. Lembra, simplesmente, que pesquisa é retrato de um momento, não ata antecipada da eleição.
O silêncio do eleitor pode ser cansaço, prudência ou reflexão. Não pertence a nenhum candidato que se apresse a interpretá-lo como apoio. A urna dirá se Mato Grosso preferiu os recortes que alimentam o ressentimento ou a difícil tarefa de cobrar respostas inteiras. O silêncio do eleitor vai gritar o quê nas urnas? Desconfio de quem já sabe antes de ouvi-lo.
Andhressa Sawaris Barboza é jornalista, socióloga e advogada. Trabalha com comunicação política.
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Outubro Rosa também é mês para falar de câncer de boca: exame simples pode salvar vidas
Por Laura Magalhães
Outubro chegou e, com ele, a cor rosa toma as ruas, as redes sociais e as campanhas de saúde em todo o país. O movimento, que nasceu para conscientizar sobre o câncer de mama, abriu espaço para algo maior: a conversa sobre prevenção e diagnóstico precoce de todos os tipos de câncer. E é nesse contexto que eu, como cirurgiã-dentista, quero trazer um alerta que raramente ganha os holofotes da campanha: o câncer de boca.
Os números justificam a preocupação. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 17 mil casos novos de câncer de boca por ano entre 2026 e 2028. A doença ocupa a quinta posição entre os tumores mais incidentes na população masculina brasileira. São dados que revelam uma realidade incômoda: enquanto o câncer de mama avança em visibilidade, o tumor que se instala na boca — em língua, lábios, assoalho da boca e garganta — segue sendo diagnosticado, na maior parte das vezes, em estágios avançados.
Essa é a maior tragédia silenciosa da odontologia. O câncer de boca é um dos poucos tumores que podem ser identificados por um simples exame visual, feito em poucos minutos, dentro do consultório. Lesões suspeitas — feridas que não cicatrizam por mais de duas semanas, manchas brancas ou avermelhadas, nódulos, dificuldade para mastigar ou engolir — são sinais visíveis, acessíveis ao olhar treinado. Quando detectados cedo, as chances de cura são altas. Quando descobertos tarde, o prognóstico muda drasticamente e o tratamento deixa marcas profundas, muitas vezes comprometendo a fala, a mastigação e a autoestima do paciente.
Os fatores de risco são conhecidos e, em grande parte, modificáveis. O tabagismo lidera a lista, potencializado pelo consumo de álcool — a associação dos dois multiplica o risco. A infecção pelo HPV, sobretudo o tipo 16, tem ganhado relevância crescente, especialmente nos tumores de orofaringe, e explica o aumento de casos em pessoas mais jovens, que não fumam nem bebem. Somam-se a isso a exposição solar sem proteção (responsável pelos cânceres de lábio), a alimentação pobre em frutas e verduras e a saúde bucal deficiente.
É aqui que o Outubro Rosa nos ensina algo valioso. A campanha do câncer de mama mostrou ao Brasil o poder do autoexame e da mamografia de rastreamento. Por que não aplicar a mesma lógica à boca? O autoexame bucal existe, é simples e pode ser feito em frente ao espelho: basta observar e palpar lábios, língua, bochechas, céu da boca e garganta, procurando alterações. E a visita periódica ao cirurgiã-dentista cumpre papel equivalente ao da mamografia — a avaliação rotineira da mucosa bucal deve fazer parte de qualquer consulta odontológica, mesmo quando o paciente vai “só para uma limpeza”.
Precisamos romper uma barreira cultural: a consulta ao dentista não é apenas sobre dentes. A boca é o espelho da saúde do corpo inteiro, e o profissional que a examina com frequência é, muitas vezes, o primeiro a identificar sinais de doenças sistêmicas — incluindo o câncer. Cada consulta é uma oportunidade de rastreamento que não pode ser desperdiçada.
Neste Outubro Rosa, meu convite é duplo. À população: cuide-se, faça o autoexame, não deixe uma ferida na boca passar de duas semanas sem avaliação profissional. Aos colegas e à gestão pública: fortaleçamos o exame de mucosa como rotina absoluta e amplifiquemos o acesso ao diagnóstico precoce, especialmente nas unidades básicas de saúde, onde a maioria dos brasileiros é atendida.
O rosa é lindo, mas a prevenção é mais bonita ainda. Que este mês de conscientização sirva para lembrar que a boca também fala — e que ela pode estar avisando, muito antes dos sintomas, que algo precisa de atenção.
Laura Magalhães é cirurgiã-dentista | CRO-MT 2938, fundadora e CEO da Clínica Orale Vida – desde 2003, Graduada em Odontologia pela UNIC Cuiabá; Especialista em Ortodontia pela FUNORTE – Faculdades Unidas do Norte de Minas; Especialista em Dentística pela ABO-MT; Aperfeiçoamento em Ortodontia para Casos Complexos – Sistemas Ertty; Invisalign Doctor; Habilitada em Analgesia Relativa e Sedação Consciente com Óxido Nitroso e Certificada em Sedação Medicamentosa pela Associação Brasileira de Odontologia – Regional Araçatuba-SP; Professora do curso de Auxiliar em Saúde Bucal e Membro da Comissão de Ação Social do Conselho Regional de Odontologia de Mato Grosso.
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