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Desafios socioambientais do Brasil

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Por Juacy da Silva

“O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para administrá-la em benefício de todos… Sobre toda propriedade particular pesa sempre uma hipoteca social, para que os bens sirvam ao destino geral que Deus lhes deu… Não há duas crises separadas, uma ambiental e outra econômica, política ou social, mas uma única e complexa crise SOCIOAMBIENTAL. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza”. Papa Francisco, Encíclica Laudato Si, 2015, itens 95, 93, 139.

Dia desses, ao participar de uma reunião virtual com várias pessoas de diferentes estados do Brasil, em que o objeto das reflexões era a pobreza e o imediatismo dos discursos e debates políticos/eleitorais, não apenas no estado de Mato Grosso, mas em todos os demais estados, pelo menos naqueles de onde os participantes da reunião virtual vinham, vale dizer, de todas as regiões e biomas brasileiros.

Esta pobreza da visão de candidatos, candidatas e também de governantes que buscam a reeleição pode ser observada pela superficialidade e improvisação das chamadas “narrativas”, propostas do que e como atuarão, caso sejam eleitos ou reeleitos, para definirem políticas públicas, programas e implementarem suas propostas em termos de recursos orçamentários, incluindo o PPA – Plano Plurianual, a LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias e a LOA – Lei Orçamentária Anual. Isto, em relação à gestão federal e também às gestões estaduais.

Ao invés de aprofundarem as propostas, com mais detalhes, diante dos problemas e desafios, digamos, no caso, socioambientais, as discussões têm sido voltadas para muita mediocridade e temas ligados à chamada “pauta de valores”, como questões éticas (corrupção) ou religiosas.

No caso da corrupção, este é um tema a ser tratado pela polícia, em princípio, pois governante e gestor público corruptos e seus asseclas do setor empresarial já de há muito deveriam ser impedidos de concorrer a cargos públicos ou receber financiamento ou acesso a recursos públicos; deveriam estar mesmo já na cadeia, como já aconteceu com inúmeros políticos por este Brasil afora, e ainda há muita gente corrupta solta.

O tempo destinado à propaganda eleitoral ou aos debates, principalmente no rádio, na TV e em outros meios e veículos de comunicação, deveria ser utilizado tanto por candidatos/candidatas e respectivos partidos políticos para aprofundarem as reflexões e propostas para a nova gestão que se avizinha, para o novo período governamental federal e estaduais (2027–2030), ou seja, um planejamento de médio prazo, na duração de um mandato, mas inserido em uma visão de longo prazo, pelo menos mais um ou dois mandatos.

Países, por exemplo, como a China, que pautam seu desenvolvimento por planos quinquenais, avaliados e reajustados a cada cinco anos, com objetivos e metas definidos e indicando as origens dos recursos a serem investidos, dentro de uma visão de prioridades, têm demonstrado resultados fantásticos.

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Por exemplo, basta conferir nos dados sociais e econômicos disponíveis: a China, a Índia, a Coreia do Sul e o Brasil ostentavam, praticamente, os mesmos índices de população analfabeta, índices de escolaridade média semelhantes, índices de desenvolvimento científico e tecnológico praticamente iguais, déficit de moradias, população vivendo em situação de pobreza, dependência externa e tantos outros indicadores.

Hoje, ao compararmos o Brasil com esses países, não apenas em relação ao PIB – Produto Interno Bruto, mas principalmente ao PIB per capita, aos índices de desigualdade de renda e de concentração de renda, à dependência externa, principalmente no que concerne à dependência científica e tecnológica, e a inúmeros outros indicadores, percebemos que estamos bem longe do patamar de desenvolvimento alcançado por aqueles países.

Continuamos exportando matérias-primas, minérios, madeira, enfim, commodities, ou seja, mercadorias primárias produzidas em larga escala que fornecem matéria-prima para diferentes países mundo afora. Seus principais tipos são: agrícola, pecuário, mineral e ambiental. E, em retorno, importamos produtos acabados, principalmente fruto do desenvolvimento educacional, científico e tecnológico dos países que estão muito à frente, mais “avançados” do que o Brasil, incluindo os três mencionados anteriormente.

Como não desenvolvemos nossa capacidade e níveis significativos de industrialização, ficamos com os passivos ambientais e uma grande dependência científica e tecnológica.

A “nossa” falta de visão estratégica de longo prazo e o descaso em relação ao planejamento, tanto nacional quanto regional, estadual e municipal, demonstram o nível de mediocridade de nossas elites governantes e também empresariais, associadas a tais governantes medíocres. Isso decorre da “qualidade” dessas elites, cujo compromisso não é com o país, os estados federados ou os municípios, mas sim com seus interesses particulares e de grupo imediato, seja familiar ou econômico e financeiro.

Por isso, é impossível identificar preocupação ou propostas voltadas ao equacionamento dos grandes desafios e problemas socioambientais, como a questão da crise climática, as desigualdades regionais, setoriais e sociais, os déficits de habitação popular digna e de educação de qualidade, substituída por propostas irrelevantes como as escolas cívico-militares, como se a qualidade do ensino público fosse apenas problema de falta de disciplina e de “bullying”, quando, na verdade, o problema é a falta de uma política educacional que destine mais recursos orçamentários para escolas de tempo integral em todos os níveis, com professores valorizados salarial e profissionalmente, com recursos técnicos e tecnológicos para permitir o desenvolvimento da capacidade crítica e criadora de alunos e professores, e aprofundar as pesquisas e a extensão.

De forma semelhante, mesmo que o SUS represente um certo avanço em relação à qualidade da saúde pública, ainda estamos longe de atingirmos um patamar de serviços de saúde que represente o respeito à dignidade dos usuários. Não tem sentido a morosidade de diversos setores, cujo exemplo são as filas para tratamentos mais complexos, consultas e exames com especialistas, cuja “fila”, física e virtual — neste último caso, que às vezes dura anos —, e tantas outras mazelas.

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A precariedade da situação do abastecimento de água, do esgotamento sanitário e do cuidado correto com os resíduos sólidos (lixo), principalmente nos centros urbanos maiores e regiões metropolitanas, diante da degradação de rios, córregos, enfim, bacias hidrográficas inteiras, que já se transformaram em esgotos a céu aberto.

O desmatamento em todos os biomas, as queimadas, o uso abusivo e criminoso de agrotóxicos e de mercúrio, que envenenam nossos alimentos e a saúde das pessoas e dos animais, decorrentes da poluição do ar, das águas e dos solos, que estão degradando todos os biomas brasileiros, mas principalmente a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal, acontece diante do olhar maquiavélico e “complacente” de nossas elites política e econômico-financeira e também diante da omissão, com raras exceções, dos organismos de controle e fiscalização, a maioria sucateada por esses mesmos governantes.

É contra tudo isso que a população precisa desenvolver sua capacidade crítica, sua indignação, e não se deixar envolver pelo canto da sereia, falsas promessas, demagogia, “fake news”, enfim, diante da mediocridade, oportunismo e fisiologismo que são as marcas registradas de uma elite corrupta e corruptora que de há muito tem “sequestrado” a verdadeira política, conspurcando a soberania nacional e a verdadeira cidadania.

Votar, escolher candidatos/candidatas, futuros governantes, é importante, mas, mais importante é acompanhar o desempenho dos governantes, tanto os eleitos para os Poderes Executivo e Legislativo quanto os designados, no caso do Poder Judiciário, que passa por uma ou talvez a maior crise institucional e ético-moral da história do Brasil.

Por que a população precisa fiscalizar e indignar-se contra todos esses desvios de conduta e de propósitos? Por uma simples razão: é o povo que, com seus impostos e taxas, paga a conta tanto de uma gestão pública eficiente, transparente, ética, eficaz e efetiva quanto, lamentavelmente, dos privilégios e da corrupção que já tomaram conta de boa parte da “máquina” pública nos três poderes e nos três níveis de governo.

O Brasil e nossos estados e municípios existem para muito além das eleições. Por isso, a alienação e a omissão da opinião pública e das organizações populares acabam contribuindo para o agravamento desta triste realidade.

Elites políticas e econômicas medíocres, corruptas e oportunistas destroem qualquer país, e a história está repleta de exemplos de como muitos países passaram ou ainda passam por esta situação.

Pense nisso antes e depois de votar!

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, mestre em sociologia, ambientalista, ativista social. E-mail: [email protected]. Instagram: @profjuacy. WhatsApp: 65 9 9272-0052

 

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Cerrado: um bioma que se transforma na seca

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Por Luiza Paranhos da Silva

O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro e tem uma importância enorme quando o assunto é água. Não é por acaso que é conhecido como “berço das águas”. Muitas nascentes e importantes bacias hidrográficas estão relacionadas a esse bioma.

Durante o período chuvoso, uma parte da água penetra no solo e contribui para abastecer os aquíferos e as reservas subterrâneas. Parece algo distante, mas não é. O que acontece debaixo dos nossos pés pode influenciar a disponibilidade de água em regiões que estão muito além dos limites do próprio bioma.

Quem conhece o Cerrado durante a época das chuvas pode até estranhar quando chega a seca. O verde intenso dá lugar aos tons dourados das gramíneas, o ar fica mais seco e a paisagem transmite a impressão de que a natureza está em pausa. Mas é justamente nesse período que o bioma revela algumas de suas estratégias mais fascinantes de sobrevivência. Por trás dessa aparência árida, existe um ecossistema adaptado, que sustenta uma enorme diversidade de vida.

As plantas e os animais são adaptados a essas mudanças. Muitas plantas possuem raízes profundas, capazes de buscar água em camadas mais baixas do solo. Algumas possuem cascas grossas, troncos retorcidos, folhas menores e outras características que ajudam a diminuir a perda de água durante o período de seca. Algumas entram em uma espécie de “economia de energia”, reduzindo seu crescimento ou perdendo as folhas como estratégia para diminuir a transpiração e, consequentemente, a perda de água.

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Os animais também se adaptam. Alguns mudam seus horários de atividade, ficando mais ativos no começo da manhã ou à noite, quando as temperaturas são mais amenas, e procuram abrigo em tocas, debaixo da vegetação ou em locais mais úmidos.

O Cerrado durante os períodos de seca também surpreende pelo contraste entre árvores sem folhas e a floração. Espécies como os ipês transformam a paisagem com cores vibrantes, que variam entre amarelo, branco, rosa e roxo. Em meio a uma paisagem de tons marrons, surgem árvores completamente tomadas por flores, criando um espetáculo que chama a atenção de quem percorre esse ambiente.

A capacidade de resistir e se adaptar do Cerrado aparece em muitos outros detalhes, como a presença de espécies com características que favorecem sua sobrevivência e regeneração diante dos desafios naturais, especialmente em ambientes marcados por períodos de estiagem e transformações sazonais.

Entretanto, apesar de ser um ambiente resiliente, a intensidade e a frequência das transformações no território podem influenciar a vegetação, o solo e a fauna, afetando a biodiversidade e a capacidade de recuperação do bioma.

Nesse contexto, a conservação de áreas naturais tem papel fundamental para manter esses processos ecológicos e proteger espécies da fauna e da flora. Com o Parque Sesc Serra Azul, o Polo Socioambiental Sesc Pantanal, iniciativa do Sistema CNC-Sesc-Senac, contribui para a conservação de ambientes de Cerrado e para a manutenção da biodiversidade, além de possibilitar pesquisas, ações de conservação, educação ambiental e experiências de contato com a natureza. O cuidado desses espaços ajuda a manter não apenas a paisagem, mas também os ambientes que servem de abrigo e alimento para diferentes espécies e que participam dos ciclos naturais essenciais à vida.

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Conhecer essas características ajuda a perceber que o Cerrado não é apenas uma paisagem de árvores baixas e troncos retorcidos. É um bioma complexo, formado por campos, veredas, matas de galeria, chapadões e formações rochosas, onde cada elemento desempenha uma função para a vida.

Falar sobre o Cerrado é falar sobre água, biodiversidade, recursos naturais, pesquisa, contemplação, lazer e aventura. Ou seja, é falar sobre beleza, resiliência e coexistência. Sendo assim, talvez esse seja um dos maiores ensinamentos do Cerrado: aquilo que parece seco não significa ausência de vida, mas adaptação. A natureza silenciosa, na verdade, está trabalhando intensamente e nos lembrando que conservar o Cerrado é conservar as condições que tornam a nossa própria vida possível.

Em áreas protegidas, como o Parque Sesc Serra Azul, essa relação pode ser vivenciada de perto, em meio a uma área de Cerrado conservado que também proporciona experiências de turismo de aventura, lazer e contato com a natureza. Trilhas, cachoeiras e diferentes atividades permitem conhecer e vivenciar a riqueza desse bioma, aproximando as pessoas da natureza e despertando um olhar mais atento para a importância de sua conservação.

Luiza Paranhos da Silva é analista ambiental do Polo Socioambiental Sesc Pantanal

 

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