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Quem suporta o seu brilho?
Por Soraya Medeiros
Dizem que é na dor que conhecemos os verdadeiros amigos. A tempestade seleciona presenças, derruba aparências e revela quem permanece quando já não temos sorrisos ou conquistas para oferecer.
Mas existe um teste ainda mais silencioso: a nossa felicidade.
Há pessoas capazes de nos abraçar quando estamos no chão, mas incapazes de aplaudir quando nos levantamos. Oferecem consolo diante do fracasso, mas se inquietam diante da nossa vitória. E é justamente quando começamos a florescer que certas relações mostram raízes que nunca havíamos enxergado.
O psicólogo Leon Festinger, ao formular a Teoria da Comparação Social, demonstrou como tendemos a avaliar a nós mesmos em relação aos outros. A comparação faz parte da experiência humana. O problema começa quando a conquista alheia passa a ser interpretada como medida da própria insuficiência.
É nesse terreno que a inveja encontra espaço.
E ela raramente chega anunciando o próprio nome. Aparece na ironia disfarçada de brincadeira, no elogio seguido de um “mas”, no silêncio inesperado ou na tentativa de diminuir aquilo que você levou anos para construir.
Nem toda ausência é inveja. Nem todo silêncio significa ressentimento. A maturidade exige cuidado para não transformar todo comportamento em ameaça. Mas os padrões dizem muito. Sobretudo quando alguém sempre encontrou palavras para nossas derrotas e, curiosamente, fica sem palavras diante das nossas vitórias.
Talvez porque acolher a dor do outro seja, para algumas pessoas, mais fácil do que suportar o seu crescimento.
Celebrar alguém exige segurança emocional e a compreensão de que a felicidade não é um recurso escasso. O sucesso alheio não rouba nossas possibilidades. A luz do outro não diminui a nossa.
Existe uma palavra de origem budista que traduz uma bela capacidade humana: mudita, a alegria genuína diante da felicidade do outro. É uma resposta à inveja. É conseguir pensar: “Que bom que aconteceu com você”, mesmo quando aquilo ainda não aconteceu conosco.
Isso é grandeza emocional.
Com o tempo, aprendemos que algumas pessoas suportam nossas tempestades, mas não suportam a nossa primavera. Gostavam de nos aconselhar, mas estranham quando já não precisamos ser salvos. Sentiam-se confortáveis diante das nossas fragilidades, mas se incomodam diante da nossa força.
Perceber isso não deve nos tornar desconfiados ou amargos. Deve nos ensinar a escolher melhor onde depositamos nossa intimidade.
Amizade verdadeira não é somente oferecer o ombro quando alguém chora. É também estar na primeira fila quando essa pessoa vence.
No fim, talvez não devêssemos observar apenas quem permaneceu quando tudo deu errado. É preciso olhar também para quem sorriu quando finalmente deu certo. Segurar nossa mão durante a queda é uma demonstração de afeto. Mas aplaudir, sem comparação, competição ou ressentimento, quando chega a nossa vez de brilhar, talvez seja uma das provas mais bonitas — e mais raras — de amor.
Soraya Medeiros é jornalista.
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Agosto Dourado: Amamentar é Construir Saúde, Sustentabilidade e Futuro
Por Gisele do Couto Oliveira
O mês de agosto, simbolizado pela cor dourada, celebra aquilo que a ciência reconhece como o padrão ouro da alimentação infantil: o leite materno. A Semana Mundial do Aleitamento Materno e o Agosto Dourado representam mais do que uma campanha de conscientização. São um chamado à sociedade para reconhecer a amamentação como uma das mais poderosas intervenções de promoção da saúde, prevenção de doenças e redução das desigualdades ao longo da vida.
As evidências científicas mais robustas, provenientes da Organização Mundial da Saúde (OMS), UNICEF, Academia Americana de Pediatria (AAP), Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da consagrada série sobre aleitamento materno publicada pela revista The Lancet, demonstram que poucas medidas em saúde pública possuem impacto comparável ao aleitamento materno. Trata-se de uma intervenção natural, segura, sustentável e altamente eficaz, capaz de beneficiar simultaneamente a criança, a mãe, a família, os sistemas de saúde e o meio ambiente.
O leite materno é muito mais do que alimento. É um tecido vivo, biologicamente ativo e dinâmico, cuja composição se adapta às necessidades do lactente. Contém anticorpos, fatores anti-infecciosos, células imunológicas, hormônios, enzimas, prebióticos e inúmeros componentes bioativos que nenhuma fórmula industrial consegue reproduzir integralmente.
Para o bebê, os benefícios são amplamente conhecidos. A amamentação reduz significativamente a incidência de infecções respiratórias, gastrointestinais e otites, além de diminuir o risco de hospitalizações e mortalidade infantil. Entretanto, os ganhos não se limitam aos primeiros meses de vida. Estudos de alta qualidade demonstram associação consistente entre aleitamento materno e menor risco de obesidade, diabetes mellitus, hipertensão arterial, dislipidemias e outras doenças crônicas não transmissíveis da vida adulta.
Hoje sabemos que a saúde do adulto começa a ser construída muito antes do nascimento. O conceito das Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença (DOHaD) mostrou que os estímulos recebidos nos primeiros anos de vida influenciam profundamente o metabolismo, o sistema imunológico, o desenvolvimento cerebral e a susceptibilidade a doenças futuras. Embora os primeiros 1.000 dias — da concepção aos dois anos de idade — continuem sendo considerados uma janela crítica de oportunidades, cresce o reconhecimento da importância de um período ampliado de cuidado, abrangendo aproximadamente os primeiros 2.000 dias de vida.
Nesse contexto, a amamentação ocupa posição central. Ela representa a primeira grande intervenção nutricional capaz de modular favoravelmente a programação metabólica da criança, contribuindo para a prevenção das doenças que hoje mais adoecem e matam adultos em todo o mundo. Investir em aleitamento materno é investir na prevenção de enfermidades cardiovasculares, metabólicas e inflamatórias décadas antes de seu aparecimento.
Os benefícios também alcançam a mulher. A literatura científica demonstra redução do risco de câncer de mama, câncer de ovário, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e síndrome metabólica entre mulheres que amamentam. Além disso, a amamentação favorece a recuperação pós-parto, fortalece o vínculo mãe-bebê e contribui para a saúde mental materna.
Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada: a sustentabilidade.
Em uma época marcada pelas mudanças climáticas e pela necessidade urgente de práticas ambientalmente responsáveis, o leite materno destaca-se como o alimento mais sustentável disponível para a espécie humana. Não requer processos industriais complexos, transporte, armazenamento, embalagens plásticas ou consumo significativo de energia. Não produz resíduos, não gera emissões de carbono relevantes e está disponível de forma imediata, segura e renovável.
Amamentar é, portanto, um ato que protege simultaneamente a saúde humana e a saúde do planeta.
Entretanto, ao mesmo tempo em que celebramos os avanços da ciência, precisamos refletir sobre um fenômeno crescente: a transformação das dificuldades naturais da amamentação em oportunidades comerciais.
A gestação e o puerpério são períodos permeados por dúvidas, inseguranças e expectativas. É natural que a mulher busque conhecimento e apoio para enfrentar os desafios inerentes à maternidade. Contudo, observa-se cada vez mais a oferta de cursos, mentorias, consultorias e programas comercializados como essenciais para o sucesso da amamentação, frequentemente baseados na exploração dos medos maternos e, em algumas situações, conduzidos por pessoas sem formação adequada, sem experiência clínica suficiente ou sem respaldo científico compatível com a complexidade do tema.
Dificuldades comuns e frequentemente transitórias, como a pega inadequada, o ingurgitamento mamário, as fissuras, os períodos de crescimento acelerado do bebê ou as dúvidas sobre a produção de leite, muitas vezes são apresentadas como problemas complexos que exigiriam soluções especializadas pagas. O resultado pode ser o aumento da ansiedade materna, da sensação de incapacidade e da dependência de intervenções nem sempre necessárias.
É importante destacar que essa reflexão não constitui uma crítica à atuação ética e qualificada dos profissionais que trabalham em apoio ao aleitamento materno. Ao contrário, trata-se da defesa de um princípio fundamental: as orientações essenciais para uma amamentação bem-sucedida devem fazer parte da assistência de rotina oferecida à gestante e à puérpera.
A educação sobre aleitamento materno não deveria ser tratada como um produto. Ela é um direito.
As informações básicas sobre preparo para amamentação, manejo das dificuldades iniciais, ordenha, armazenamento do leite, prevenção de intercorrências e manutenção da lactação devem ser fornecidas gratuitamente durante o pré-natal, na maternidade, no acompanhamento puerperal e nas consultas de puericultura. Quando o conhecimento científico deixa de ser um instrumento de cuidado para se transformar em mercadoria acessível apenas a quem pode pagar, corre-se o risco de ampliar desigualdades e enfraquecer uma das mais importantes estratégias de promoção da saúde infantil.
Nesse cenário, emerge de forma inequívoca o protagonismo do pediatra.
Nenhum profissional acompanha tão de perto o crescimento e o desenvolvimento da criança quanto o pediatra. Nenhum profissional possui oportunidade tão privilegiada para identificar dificuldades precocemente, acolher as angústias familiares, corrigir informações equivocadas e fortalecer a confiança da mulher em sua capacidade de amamentar.
O pediatra não é apenas um observador do processo de amamentação. Ele é um agente ativo de proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno. Seu papel vai muito além do diagnóstico e tratamento das doenças da infância. Ao defender a amamentação, o pediatra atua diretamente na prevenção de infecções, na redução das doenças crônicas da vida adulta, na promoção do neurodesenvolvimento, na sustentabilidade ambiental e na construção de uma sociedade mais saudável e equitativa.
Neste Agosto Dourado, a Sociedade Mato-grossense de Pediatria (SOMAPE) vem reafirmar uma verdade sustentada pelas melhores evidências científicas disponíveis: o aleitamento materno continua sendo uma das intervenções mais eficazes para transformar o presente e o futuro de uma população.
Amamentar é um ato biológico. Apoiar a amamentação é um dever ético, científico e social.
E liderar esse compromisso é uma das mais nobres missões da Pediatria.
Dra. Gisele do Couto Oliveira é pediatra, neonatologista e membro da Diretoria da SOMAPE
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