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O caso Voepass e os riscos que a cultura aprende a tolerar
Por Fernando Wosgrau
O relatório final do CENIPA sobre o acidente com o voo 2283 da Voepass chama atenção pelo espaço dedicado à cultura organizacional. Entre os fatores contribuintes, a investigação inclui cultura do grupo de trabalho, cultura organizacional, processos organizacionais e supervisão gerencial. Esse conjunto revela como práticas repetidas podem se afastar silenciosamente dos procedimentos formais.
No discurso empresarial, cultura costuma aparecer associada a valores declarados. No relatório, porém, ela surge como o resultado concreto das rotinas que a organização aceita, reproduz e deixa de corrigir. A investigação tem caráter preventivo e não atribui culpa, mas evidencia como o cotidiano pode se descolar das normas estabelecidas.
No setor de manutenção, o CENIPA registrou jornadas extenuantes, fadiga, escassez de mão de obra qualificada, falta de recursos básicos e pressão para agilizar a liberação das aeronaves. Também identificou atividades críticas delegadas a auxiliares sem acompanhamento adequado, falhas de documentação e práticas informais de reporte ou de não registro de panes. Os procedimentos formais existiam. A rotina havia criado atalhos.
A repetição dessas práticas ajuda a explicar a normalização do desvio. Quando uma conduta inadequada não produz consequência negativa imediata, tende a se repetir. Com o tempo, aquilo que contrariava o procedimento passa a ser aceito como regra informal. A ausência de consequências negativas imediatas pode transformar a repetição da irregularidade em um sinal enganoso de segurança.
Essa leitura interessa ao debate sobre a NR-1. O relatório do CENIPA não é uma investigação trabalhista, e seria incorreto transportar suas conclusões automaticamente para a gestão dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. A aproximação está em outro ponto. Ambos os campos mostram como a organização do trabalho pode sustentar riscos que se acumulam e se tornam parte da rotina.
Na integração entre a NR-1 e a NR-17, a análise alcança fatores como carga, ritmo, jornada, autonomia, recursos, comunicação e relações de trabalho. Esses elementos podem parecer adequados nos documentos e funcionar de outra maneira na prática. Uma equipe formalmente suficiente pode operar sobrecarregada. Um canal de comunicação pode existir, mas relatar um problema capaz de atrasar uma entrega pode ser interpretado como falta de comprometimento.
Muitas empresas iniciam a adequação com questionários, relatórios, Avaliação Ergonômica Preliminar e atualização do Programa de Gerenciamento de Riscos. Esses instrumentos serão insuficientes se registrarem apenas a organização formal e ignorarem como o trabalho realmente acontece quando faltam recursos, o prazo aperta ou a meta entra em conflito com o procedimento.
O relatório sobre o voo 2283 oferece um exemplo eloquente. A empresa possuía manual e infraestrutura para o Programa de Acompanhamento e Análise de Dados de Voo, conhecido pela sigla PAADV, e armazenava dados extraídos das aeronaves. Entretanto, não foram apresentadas análises que demonstrassem a aplicação contínua e abrangente do programa. Os dados existiam, mas não foram apresentadas evidências de que fossem analisados sistematicamente e convertidos em ações preventivas.
Na implementação da NR-1, identificar riscos também será insuficiente se os resultados não chegarem a quem pode rever metas, redistribuir carga, ampliar equipes, ajustar prazos ou interromper atividades. O RH e a área de segurança e saúde podem coordenar o processo, mas não substituem a responsabilidade institucional da organização nem a autoridade decisória da direção e dos gestores da operação.
A participação dos trabalhadores segue a mesma lógica. Questionários e entrevistas terão pouco valor se a experiência cotidiana ensinou que determinados problemas não devem ser registrados. A cultura se forma no que a liderança cobra, no que a supervisão tolera e na reação da empresa quando alguém aponta um limite.
O relatório final do CENIPA deixa uma advertência que ultrapassa o setor aéreo. Documentos descrevem como o trabalho deveria ocorrer. A gestão prevista pela NR-1, articulada à NR-17, perde consistência quando retrata apenas o trabalho prescrito e não alcança o trabalho real. Um PGR pode estar formalmente organizado e ainda assim falhar em capturar o risco existente.
O problema, portanto, não é apenas a ausência de regras. É a distância entre a regra e a decisão. A prevenção começa quando a organização transforma os achados em mudanças na forma de planejar, exigir, supervisionar e corrigir o trabalho.
Fernando Wosgrau é administrador, mestre em Agronegócios, professor de Administração e autor do Guia de Acompanhamento da NR-1. E-mail: [email protected]
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Fiscal de Tributos: uma carreira de Estado a serviço da sociedade
Por Flávio Emílio Rodrigues Auerswald
No dia 21 de setembro, celebramos o Dia do Fiscal de Tributos Estaduais. Além de uma data dedicada à categoria, é uma oportunidade para reconhecer uma carreira de Estado estratégica para o funcionamento da máquina pública e para a garantia de serviços essenciais à sociedade.
O trabalho fiscal nem sempre é percebido em toda sua dimensão, mas seus resultados estão presentes no cotidiano da população. Quando o Estado arrecada com eficiência, combate a sonegação e as fraudes e promove justiça fiscal, cria condições para que recursos cheguem à saúde, à educação, à segurança, à infraestrutura e às demais políticas públicas. É nesse processo que está o Fiscal de Tributos.
Além de cobrar tributos, fiscalizar significa proteger a receita pública, combater a concorrência desleal, assegurar equilíbrio nas relações econômicas e contribuir para a sustentabilidade das contas do Estado. Uma Administração Tributária eficiente interessa ao poder público, a quem produz e empreende e, sobretudo, à sociedade.
Celebramos nossa data em um momento de profundas transformações. A Reforma Tributária, a implementação do Imposto de Bens e Serviços (IBS), a integração entre administrações tributárias e o avanço da tecnologia estão redesenhando a fiscalização e a arrecadação no país.
Muda o sistema. Mudam as ferramentas. Mas a necessidade de uma Administração Tributária forte permanece e se torna ainda maior.
Mato Grosso chega a esse novo cenário com conhecimento acumulado ao longo de décadas e importantes avanços na modernização da atividade fiscal. Inteligência de dados, automação, cruzamento de informações e inteligência artificial ampliam a capacidade de atuação do Fisco e abrem novas possibilidades para uma fiscalização cada vez mais eficiente.
Modernizar, porém, não significa substituir conhecimento técnico. Significa potencializá-lo. Por isso, temos defendido investimento permanente em capacitação e atualização profissional para que os Fiscais estejam preparados para as novas responsabilidades que esse cenário impõe.
Esse processo também exige valorização da carreira. O fortalecimento das prerrogativas, a construção da Lei Orgânica da Administração Tributária (LOAT), a adequada estruturação do quadro funcional e a valorização profissional não são apenas pautas corporativas. São condições para que o Estado exerça com eficiência uma de suas funções essenciais.
Durante anos, os Fiscais de Tributos acompanharam as transformações econômicas de Mato Grosso e ajudaram a construir uma Administração Tributária cada vez mais técnica, moderna e eficiente. Temos profissionais que dedicaram décadas ao serviço público e novas gerações que chegam incorporando competências e ferramentas. É dessa união entre experiência, conhecimento e inovação que construiremos o futuro.
Neste 21 de setembro, nosso reconhecimento alcança quem atua diariamente na fiscalização, auditoria, inteligência, planejamento, tecnologia, gestão e nas diversas frentes da Administração Tributária. Alcança também os aposentados, que ajudaram a construir as bases sobre as quais avançamos hoje.
O Sindicato dos Fiscais de Tributos Estaduais de Mato Grosso (Sindifisco-MT) seguirá trabalhando por uma Administração Tributária moderna, eficiente e preparada para os desafios do novo sistema tributário. E isso passa, necessariamente, pela valorização dos Fiscais de Tributos Estaduais.
Porque onde há um Estado capaz de arrecadar com eficiência, combater a sonegação, promover justiça fiscal e transformar receita em políticas públicas, há trabalho fiscal por trás.
Neste Dia do Fiscal de Tributos, nosso respeito e reconhecimento a todos os Fiscais de Tributos Estaduais de Mato Grosso.
*Flávio Emílio Rodrigues Auerswald é presidente do Sindifisco-MT
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