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O remédio que cura também pode poluir: o perigo invisível do descarte incorreto

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Por Luís Köhler

Há um problema silencioso dentro de casa que poucos enxergam — e menos ainda compreendem a gravidade. O descarte incorreto de medicamentos, prática comum entre brasileiros, transforma aquilo que deveria promover saúde em um agente de contaminação ambiental e risco coletivo.

Sobras de tratamentos, comprimidos vencidos ou xaropes esquecidos no armário frequentemente têm como destino o lixo comum, a pia ou o vaso sanitário. À primeira vista, parece um gesto banal. No entanto, esse hábito carrega consequências profundas e duradouras, que extrapolam os limites da residência e atingem diretamente o meio ambiente e a saúde pública.

No Dia Mundial do Meio Ambiente, é necessário ampliar o olhar sobre a preservação da natureza e reconhecer que nossas rotinas domésticas também produzem impactos químicos relevantes. Medicamentos não são resíduos comuns. Seus princípios ativos, ao entrarem em contato com o solo ou com os sistemas de esgoto, resistem aos processos convencionais de tratamento e acusam a contaminação de rios, lagos e lençóis freáticos.

Os efeitos dessa contaminação já são percebidos em diversas partes do mundo. Alterações na fauna aquática, desequilíbrios hormonais em espécies e o avanço preocupante de bactérias resistentes a antibióticos — as chamadas superbactérias — estão entre as consequências mais alarmantes. Trata-se de um problema ambiental que, inevitavelmente, retorna à sociedade em forma de risco sanitário.

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Dentro de casa, o perigo também é real. O acúmulo de medicamentos vencidos ou sem uso aumenta significativamente o risco de intoxicações acidentais, especialmente entre crianças, idosos e animais de estimação. O que é guardado sem necessidade pode, em um descuido, transformar-se em emergência.

Apesar disso, ainda há um desconhecimento generalizado sobre a forma correta de descarte. E é justamente nesse ponto que entra um agente essencial de transformação: a farmácia.

Muito além do comércio de medicamentos, as farmácias desempenham um papel estratégico na chamada logística reversa — um sistema que permite à população devolver medicamentos em desuso para que tenham destinação ambientalmente adequada. Esses resíduos passam por processos seguros, como incineração controlada ou coprocessamento, evitando a contaminação do meio ambiente.

Nos bastidores, existe um rigor técnico que garante essa segurança. O gerenciamento segue normas específicas, como o Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde (PGRSS), que estabelece critérios para separação, armazenamento e transporte por empresas devidamente licenciadas. Ou seja, há um sistema preparado — o que ainda falta é a adesão da população.

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Nesse cenário, o farmacêutico assume uma função que vai além da assistência à saúde: torna-se um educador ambiental. É ele quem orienta sobre o uso racional dos medicamentos, evitando desperdícios, e quem conscientiza sobre os riscos do descarte inadequado.

A verdade é simples, mas precisa ser dita com mais frequência: cuidar da saúde humana e preservar o meio ambiente são responsabilidades inseparáveis. Não existe bem-estar em um planeta contaminado.

Mudar esse cenário não exige grandes esforços, mas sim pequenas decisões conscientes. Antes de descartar um medicamento, é preciso refletir. Procurar uma farmácia, utilizar os pontos de coleta e adotar hábitos mais responsáveis são atitudes simples que geram impactos coletivos significativos.

O remédio que cura não pode ser o mesmo que contamina. A escolha está, literalmente, em nossas mãos.

Luís Köhler é farmacêutico, especialista em Gestão Regulatória de Farmácias e Conselheiro Federal de Farmácia eleito para o mandato 2027-2030.

 

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Vai pro Japão, mas passe antes no Pantanal

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Por Daniel Teixeira

Uma torre de ferro em Paris recebe sete milhões de visitantes por ano. O Brasil inteiro, com Amazônia, Pantanal, Nordeste e cinco mil quilômetros de costa, não passa disso. Uma estrutura metálica de 330 metros empata com um continente. É o tipo de dado que deveria causar muito incômodo. Não causa.

Porque o brasileiro tem uma relação histórica com o que vem de fora: se custa em euro ou dólar, é melhor. Se é longe, é sofisticado.

Tenho duas filhas. Andaram de camelo antes de andar a cavalo. Conheceram a Disney antes do Pantanal. Não me orgulho disso. Conto porque sei que não sou o único pai nessa situação.

Ninguém contou que o espetáculo é aqui.

A Chapada fica a sessenta e oito quilômetros de Cuiabá. Tem o Véu de Noiva, o Alto do Céu, a Casa de Pedra, formações rochosas que só Deus explica e nenhum arquiteto reproduz. O turista europeu abre a boca e não fecha mais. Muito mato-grossense não conhece nenhum dos três.

Campo Novo tem cachoeiras que derrubam qualquer ranking internacional. O Salto Belo fica dentro de uma aldeia indígena da etnia Pareci. A cortina d’água cai sobre a cabeça com uma força que reorganiza o sistema nervoso. Rafting, rapel, trilhas e um silêncio que o mundo moderno não sabe mais produzir. Os gringos já descobriram. Nós ainda não.

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Vila Bela foi a primeira capital de Mato Grosso. Fundada em 1734. Arquitetura colonial preservada, história quilombola densa. Pesquisadores europeus vêm estudar o que o mato-grossense nunca foi ver.

O Pantanal é o maior santuário de vida selvagem do planeta. A onça que o turista americano paga fortunas para ver em safáris africanos está a algumas horas de Cuiabá. A onça está lá. A gente passa reto, sem apreciar.

O Japão virou febre. Destino obrigatório de uma classe que descobriu o anime, as máquinas de venda automática de itens inexplicáveis e a arte de fazer fila. Bom para o Japão. Doído no bolso de quem foi. O iene não tem a menor piedade do real. A mesma pessoa que atravessa o Pacífico para fotografar cerejeiras nunca subiu ao Alto do Céu para ver o mais belo pôr do sol do mundo. Mas uma delas não exige iene.

O problema não é turístico. É de percepção. Turismo começa na escola, na ideia que se forma ainda criança sobre o que vale conhecer. Se essa ideia sugerir que o que é daqui é menor, o resultado é o de sempre: o brasileiro vai ao Epcot ver uma maquete da Europa e nunca foi ao Pantanal mesmo morando a uma hora de carro.

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É nesse contexto que a FIT Pantanal 2026 importa de verdade. A feira acontece de 3 a 7 de junho no Centro de Eventos do Pantanal em Cuiabá, entrada gratuita, maior evento do setor no Centro-Oeste e no Norte do país. Gastronomia, artesanato, roteiros que o próprio cuiabano desconhece, rodadas de negócios e experiências imersivas. É a oportunidade de olhar para o que temos com a mesma seriedade com que olhamos para o outro lado do oceano Pacífico.

Não faz sentido um país desse tamanho perder pra uma torre de ferro e uma cerejeira que dura duas semanas.

Daniel Teixeira é presidente da Abrasel-MT – Associação Brasileira de Bares e Restaurantes

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